(pt) [9º Festival do Filme Anarquista de Chicago, nos Estad os Unidos] “Não quero prêmios, nem nada disso, o importanteé exibir o filme"

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Sábado, 5 de Dezembro de 2009 - 13:53:48 CET


“Não quero prêmios, nem nada disso, o importante é exibir o filme”
[Vanessa Vendetta é uma jovem cineasta de São Paulo, autora do
curta-metragem "Prisão", o único filme brasileiro exibido no 9º Festival
do Filme Anarquista de Chicago, nos Estados Unidos. Ela falou à ANA,
confira a seguir.]
Agência de Notícias Anarquistas > Você começou a se aproximar do cinema
quando?
Vanessa Vendetta < Eu não sei delimitar exatamente quando ou como foi, mas
já faz muito tempo. Sempre tive interesse por filmes B e aqueles que
continham críticas a isso ou aquilo, isso me empolgava desde que eu tinha
uns treze anos. Eu me inspiro muito no Cinéma Du Peuple, apesar de seguir
uma linha diferente, Jean Vigo, Allan Parker, enfim, não é nenhuma
novidade utilizar o audiovisual a fim de denunciar certas situações, e é
também por esse motivo que vejo o cinema como uma ferramenta a ser
explorada com finalidade libertária.
ANA > E a produzir filmes, quando foi?
Vanessa < Foi em 2006, mas escrevo roteiros desde 2004.
ANA > E como surgiu a idéia para o filme “Prisão” e porque você escolheu
fazer um curta-metragem sobre este tema?
Vanessa < Acredito que é preciso estar conectado com o cenário atual para
escrever um roteiro, captar quais são as necessidades do momento. A visão
lançada no filme sobre sociedade patronal e pedagogia autoritária é algo
que reduz a vida a sobrevivência, precisa ser observado e combatido, e,
através do filme, é possível o espectador iniciar uma reflexão sobre suas
próprias questões e tomar consciência de sua vida, claro que não será
apenas um único filme que mudará todo o conceito falido que foi incutido
no individuou, mas acredito que a arte pode ser usada como ferramenta de
conscientização, para auxiliar as pessoas a retomarem a vida que lhes foi
usurpada.
ANA > O filme foi locado onde? Quantas pessoas participaram da produção?
Vanessa < O filme foi locado em diversos lugares, até na minha casa.
(risos) Mas todas as locações foram feitas na capital paulista.
Participaram em torno de 15 pessoas, sem contar outros colaboradores.
ANA > E foi totalmente custeado por você?
Vanessa < Foi sim, mas eu dependi de locações que foram concedidas para a
gravação, isso ajudou muito, mas foi aí que deu rolo também.
ANA > Ele participou do último Festival do Filme Anarquista de Chicago,
não? Como se deu este contato...
Vanessa < Sim. O contato se deu através de troca de e-mails, depois enviei
o filme, eles aceitaram e o exibiram na 9ª edição. Após o pessoal do
Festival me enviou uma carta e convidou para participar da próxima edição,
mas ainda não tenho nada em mente para enviar, estou indecisa, não
gostaria de enviar qualquer coisa, é preciso que a obra tenha um conteúdo
que interesse as pessoas de todas as partes do mundo.
ANA > O filme foi exibido em outros festivais?
Vanessa < Ainda não e não sei se enviarei para outros festivais, no
entanto vou exibi-lo em diversos lugares, algumas pessoas se interessaram
em exibir o filme em alguns locais, e pra mim é isso o que importa, não
quero prêmios, nem nada disso, o importante é exibir o filme, passar a
mensagem.
ANA > Ouvi dizer que você teve dificuldades na distribuição do filme pela
internet, que uma grande empresa estava querendo interpelar sua obra. O
que se passou?
Vanessa < Não apenas na internet, na realidade era a distribuição em
qualquer meio de comunicação que não poderia ser feita. O que ocorreu foi
que uma pessoa se sentiu atingida pela obra e achou que a obra era uma
crítica a uma instituição x, de fato não tinha nada a ver, porque a obra é
genérica, mas se a carapuça serviu para essa determinada pessoa... Enfim,
ela queria bloquear totalmente a obra, tive que conversar muito com
pessoas da instituição e no final consegui que o filme não fosse
“engavetado”, mas tive que fazer alguns cortes e alterações. Toda essa
situação foi muito dolorosa.
Eu acredito que é preciso ir a fundo, não entendo porque essa pessoa fez
de tudo para censurar, pois denunciar apenas uma pessoa ou instituição não
era o objetivo. A obra é geral, e mais, vai além do fato de que os
professores servem como reprodutores da ideologia capitalista, pois os
mesmos são as ferramentas, o que há por trás é todo um sistema
hierarquizado e é necessário evidenciar isso, e o que é preciso fazer é
encontrar brechas para romper essa fortaleza.
Bom, a verdade é que não é a primeira vez que uma obra minha foi
“censurada” e eu tenho certeza que não será a última infelizmente, mas eu
acredito que é possível utilizar do próprio veneno “deles” como ferramenta
as avessas para “atingi-los”, portanto, irei persistir, e tudo isso só me
torna mais forte.
ANA > Quer dizer que outros trabalhos seus foram censurados? Explica isso
melhor... (risos)
Vanessa < (risos) É engraçado falar isso, mas, no fundo, é triste, porque
de fato dois roteiros que escrevi foram vetados, por assim dizer. Um deles
é um documentário longa-metragem que eu pretendo levar adiante ano que
vem, mesmo com zero de recursos, porque se eu não depender de nada ninguém
vai me impedir. Esse documentário relata os males tecnológicos, mas é bem
direto e, por isso, gera polêmica, porque é cru e vai bem na ferida, não
faz rodeios, aqui eu acho que cabe bem o que falei anteriormente, usar o
veneno “deles” contra “eles”.
Isso me recordou o que uma amiga me disse ontem sobre o livro dela (com o
qual aconteceu coisa similar): “É mais uma vez o grande braço de ferro”, é
complicado que até hoje tenhamos que nos deparar com esse tipo de
situação, isso precisa ser denunciado, porque os reflexos da ditadura
estão aí, camuflados.
ANA > E você tem outras produções?
Vanessa < Tenho, mas ainda há muita coisa que eu gostaria de tirar do
papel. Sou jovem e não conto com muitos recursos, mas isso é o de menos,
porque não me importa a técnica e sim o conteúdo.
ANA > Falando em recursos, como você avalia essa dependência que o cinema
nacional tem das Leis de Incentivo do governo federal?
Vanessa < Desculpa, mas senti vontade de rir, porque o cinema nacional
fica nessa vergonhosa dependência mesmo e fazer cinema com leis de
incentivo no Brasil é muito complicado, primeiro porque essas leis são uma
bagunça, segundo porque são sectárias e terceiro porque se você está a fim
de transformar sua obra inicial numa outra coisa pode ir fundo, mas se
você quer manter tudo conforme o original pode esquecer, ou você segue as
regras ou está fora.
Sinceramente eu considero sem chances de rodar um dos meus roteiros pela
lei de incentivo, estou consciente de que temáticas como essas não possuem
espaço, a não ser que o Walter Salles quisesse apoiar. (risos)
ANA > E as idéias anarquistas estão inseridas nos seus trabalhos?
Vanessa < Sim, elas são visíveis nos temas que eu gosto de abordar, a
maior parte dos filmes, tanto os que já foram rodados quanto os que ainda
são apenas roteiros são voltados para a luta e a conscientização.
ANA > Há alguma história ou personagem anarquista que gostaria de
transformar em filme?
Vanessa < Nunca pensei em algum específico, eu penso na história
anarquista em si, ou em determinado momento dela, esse tipo de coisa, mas
não em uma pessoa em especial, acredito que abordar de maneira coletiva,
sem colocar “um cabeça” (o que para leigos corre o risco de se assemelhar
com a figura de um líder), seja mais interessante. Apesar de sempre ter
existido pessoas de destaque em todas as épocas deve ser bem claro que
isso não deve jamais se sobrepor sobre o movimento, porque o importante na
história anarquista é relatar e sentir a coletividade.
ANA > E quais atores da atualidade convidaria para as filmagens?
Vanessa < Nunca me passou pela cabeça convidar alguém assim famoso vamos
dizer. Prefiro que a oportunidade seja aproveitada por pessoas que são
talentosas e não possuem reconhecimento na mídia, por pessoas que entendem
e estão de acordo com o que o filme deseja transmitir, pessoas que como
atores querem fazer da arte de interpretar uma ferramenta que auxilia para
libertar.
ANA > Já pensou em fazer filmes infantis?
Vanessa < Tenho intenção de produzir filmes, livros e todo tipo de
material voltado para as crianças. Percebo que não há muito material
libertário voltado para as crianças, há material relatando a situação
delas, mas não dirigido a elas, eu estou começando a me dedicar um pouco a
esse tipo de material porque acredito que a criança precisa se
conscientizar de suas questões e das que a cercam tanto quanto os adultos.
ANA > E há algum filme infantil que você assistiu que destacaria?
Vanessa < Eu destacaria algumas produções como “Olentzero e o Tronco
Mágico”, apesar do tema meio natalino, o que não me agrada (apesar de o
Olentzero ser uma figura pagã que foi “tomada” pelo cristianismo), eu acho
que é uma produção que merece atenção, o foco principal é mostrar que os
adultos perderam a noção de tudo e só pensam em dinheiro e mostrar também
que, por conta de tanta ambição, destroem a natureza. Além desse há os
básicos “Fuga das Galinhas” e “FormiguinhaZ”, existem críticas
interessantes nesses filmes, mas acho que a informação neles fica muito
pulverizada e que as crianças não conseguem captar exatamente o que há de
melhor nessas produções.
ANA > As pessoas interessadas em exibir seu filme ou adquiri-lo, como
devem proceder?
Vanessa < Bom, podem me enviar um e-mail [abaixo], mas eu não penso em
comercializar o curta não, mas quem quiser exibir é só me enviar um e-mail
para conversarmos, ficarei contente se houver mais interessados. É claro
que se um coletivo ou espaço alternativo quiser exibir pode ficar a
vontade.
ANA > A pergunta que não pode faltar. Porque você usa o codinome
“Vendetta”? Alguma coisa a ver com o filme “V de Vingança”? (risos)
Vanessa < Sim e não. (risos) É porque eu não curto tanto o “V de Vingança”
exatamente, porque eu acho que o filme possui uma imagem meio terrorista,
mafiosa, estereotipada, entende, mas o nome é legal, porque combina com o
meu, meu V de Vanessa é V de Vendetta. Mas Vendetta também tem um pouco a
ver com a banda de thrash metal que eu curto muito e também tem a ver com
o próprio sentido da palavra, porque o meu sobrenome é muito cristão e é
de origem italiana também, então Vendetta foi uma boa troca, agora o
resto, do porque da Vendetta, da vingança, fica por conta da imaginação
das pessoas. (risos)
ANA > Mais alguma coisa?
Vanessa < O importante é ter consciência do que está acontecendo hoje ao
nosso redor, o capitalismo é um “deus” em seus suspiros finais e se
queremos driblar uma ditadura comunista e atingir a liberdade precisamos
ir além e agir mais do que meramente para a finalidade artística, que
apenas enaltece o ego do autor, porque toda a forma de arte também pode
ser usada como um meio de conscientização, pois é possível mobilizar as
pessoas utilizando a arte como uma ferramenta libertadora.
Quando as pessoas se conscientizarem, quando as opiniões mudarem, quando
houver opiniões de fato refletidas pelas próprias pessoas e suas mentes
estiverem livres, as massas estarão convencidas de que a sociedade de
controle é desnecessária e maléfica, então, nesse momento, tudo voltará ao
seu lugar natural. Haverá a harmonia coletiva desejada, fundamentada no
respeito, no senso de comunidade e na liberdade.
Contato: vvendetta.cine  gmail.com
agência de notícias anarquistas-ana


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