(pt) [Peru] Pronunciamento libertário sobre os acontecimentos na Amazônia

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Sábado, 22 de Agosto de 2009 - 14:15:05 CEST


Pretendem que a gente viva uma farsa. O poder opressor (Capital, Estado
etc.) não somente utiliza da violência física para nos controlar, mas
também cria uma jaula invisível chamada “normalidade” para se apoderar do
pensamento e das aspirações dos dominados, impedindo-os de ver a
possibilidade de sua própria libertação. Quem desobedecer será sancionado
socialmente como sonhador ou subversivo. Os meios de comunicação também
são armas: disparam cortinas de fumaça para desviar a nossa atenção, e
assim esquecemos as injustiças cotidianas. A imprensa maquia os fatos, os
transforma em mercadoria, banaliza a morte. Por isso, enquanto as pessoas
eram assassinadas em Bagua, rapidamente o sistema tratou, em primeiro
plano, de fazer um teatro, exaltando novas glórias esportivas, com
manchetes repletas de fervor patriótico: o vermelho da bandeira peruana se
sobrepondo ao vermelho do sangue dos mortos no conflito ainda não
resolvido na Amazônia.

O regime pretende ocultar que ainda existem centenas de desaparecidos,
dezenas de presos, famílias desconsoladas, comunidades incompletas, pois,
no ataque policial, muitos daqueles que fugiram ainda não voltaram. As
arbitrariedades nas prisões são as coisas mais comuns. Pretendem provocar
a desmoralização das pessoas para acabar com anos de luta e organização,
mas, apesar da repressão, os povos amazônicos seguem dispostos a lutar.

Não, não defendemos a soberania nacional, se isto significa propriedade do
Estado e domínio de sua burguesia local. Somos partidários da
administração direta das comunidades, de sua capacidade de autogestão.
Somos contra o desenvolvimento cego e a indústria depredadora, é o momento
de formular formas radicalmente distintas de convivência, sem exploração
do homem e da natureza. Não atacamos a empresa transnacional por ser
estrangeira, mas sim por ser exploradora, capitalista. A luta amazônica
não foi provocada pelo chavismo ou outros supostos agitadores. Estas são
mentiras do governo que quer encontrar falsos culpados e negar a
capacidade das comunidades de atuarem por si mesmas. Defendemos a
autonomia dos povos e desejamos espaços livres de contaminação não somente
no Peru, mas em todo o mundo. Este conflito não é uma guerra de “Estados
imperialistas” contra suas Neo-colônias, o Capital usa qualquer bandeira
(o inimigo também se veste de vermelho e branco) por isso compreendemos
que, para nos liberar, é inútil falar de “pátria”.

Não se trata de manter espaços para o turismo ou de uma saudade cafona do
bom selvagem. As comunidades indígenas possuem seus próprios conflitos.
Não idealizamos, simplesmente somos solidários contra o inimigo comum. O
poder opressor tem atacado sem dó, tem matado, continua matando e pretende
que a gente olhe para outro lado para que possa prosseguir impunemente.
Esta luta é a luta de todos, e se hoje são os indígenas amazônicos, amanhã
pode ser qualquer um o “desaparecido”, pois o Estado e o Capital são o
mundo da não-troca, da homogeneidade repressiva que cospe em nós se
tivermos a ousadia de questioná-los. Para este mundo, somente existimos
como objetos, como mercadoria, somos descartáveis.

Lutemos. Vamos opor a essa normalidade homogeneizante a nossa diversidade
crítica. Sejamos a negação dessa farsa. Como dizem os zapatistas no
México: Se neste mundo não cabemos, então outro mundo terá que ser feito.

Anarquistas em Lima

Sábado,15 de agosto de 2009.

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana


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