(pt) [Brasil] perspectivas libertárias da luta por moradia em Feira de Santana - BA

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Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009 - 19:22:56 CEST


SE MORAR É UM DIREITO, OCUPAR É UM DEVER:
George Américo e a tradição da luta por moradia em Feira de Santana
Nos anos 80 a cidade de Feira de Santana foi sacudida por uma onda de
ocupações urbanas por parte do Movimento dos Sem Teto de Feira de Santana,
e uma figura se destacava no meio de tantas pessoas que arriscavam suas
vidas para conseguir um terreno e um teto, era George Américo. Assassinado
em maio de 1988, com 27 anos, George Américo participou de cerca de 20
ocupações urbanas na cidade, sendo a principal delas e a maior já
realizada em Feira de Santana, a ocupação do antigo Campo de Aviação que
deu origem ao bairro que hoje leva seu nome. George Américo foi sem dúvida
uma figura contraditória, apelidado pela mídia local de “rei das
invasões”, as condições do assassinato dessa figura, que ainda ronda como
um fantasma a consciência popular e também causa medo aos poderosos, nunca
foram explicadas.

Acusado de bandido ou escondido pela historiografia oficial o espírito de
George Américo segue mais vivo do que nunca. O descaso dos vários governos
com o povo das periferias, a falta de uma política de habitação popular,
são os motivos para que, após mais de 20 anos do assassinato de George
Américo, ocorra uma nova onda de ocupações urbanas em Feira de Santana.
As ocupações hojeExiste hoje em Feira de Santana quase uma dezena de
ocupações urbanas em diversos bairros da periferia da cidade: Feira X,
Aviário, Papagaio, Feira IV e Feira IX são alguns desses bairros. Cada uma
dessas ocupações possui uma dinâmica própria e quase nenhuma articulação
entre si, algumas delas são espontâneas e não possuem um nível de
organização política interna ou são controladas pela politicagem
eleitoreira e por oportunistas de todo tipo, outras possuem um bom nível
de organização interna e vem colocando em pauta na cidade a questão do
direito à moradia.

Em uma cidade onde o déficit habitacional passa perto de 20 mil famílias
sem casa para morar ou vivendo em condições de risco, esta nova
movimentação para a conquista de moradia e de dignidade por parte do povo
pobre era algo até mesmo previsível. E o potencial político e a capacidade
de luta desse “novo sujeito” (os Sem Teto) é algo que deve a cada dia
crescer, conforme o grau de organização e combatividade deste setor for
aumentando. E enquanto o governo municipal continua sua política de
descaso, os governos estadual e federal anunciam cinicamente a liberação
de pouco mais de 80.000 casas para a Bahia (em um estado que possui algo
próximo de 2 milhões de famílias sem-teto ou morando em condições
inadequadas) pelo “Programa Minha Casa, Minha Vida”, programa no qual o
governo federal lava as mãos sobre uma política habitacional jogando toda
a responsabilidade para as construtoras. Ou seja, são os grileiros do tipo
de Oyama Figueredo e cia. que vão gerir na prática o “Programa 1 milhão de
Casas” do governo Lula.
Luta por moradia e poder popularUm terreno ou um prédio ocupado para fins
de moradia é ao mesmo tempo um espaço complexo de convivência, por contas
das tensões, e um espaço privilegiado para avançar na perspectiva de
construção do poder popular e de formas libertárias de vivência. Espaços e
tarefas coletivas como cozinhas comunitárias, cooperativas de trabalho,
atividades de educação e formação, segurança e auto-defesa, servem para
inverter a lógica da competição e do individualismo da sociedade burguesa.
Uma ocupação urbana organizada a partir da lógica de independência de
classe e protagonismo do povo em luta, em nossa perspectiva, deve
avançar até que se torne uma área liberada do poder e da justiça burguesa,
assim como dos valores da sociedade capitalista, deve ser um embrião de
poder popular.

Hoje, são muitas as tarefas para avançar nessa perspectiva dentro das
ocupações urbanas em Feira de Santana. Uma articulação das ocupações e uma
relação de troca de experiência entre elas deve ser um primeiro passo,
assim como, aprofundar as tarefas coletivas e ampliar as atividades para
todo o bairro, criando uma relação firme de solidariedade entre a ocupação
e o bairro. Além disso, uma jornada de luta de rua para arrancar dos
governos a construção das casas e a intensificação das campanhas de
solidariedade e apoio às ocupações são outras tarefas, são pequenos passos
de um longo caminho, que com humildade e paciência os militantes
anarquistas devem ir trilhando.



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