(pt) [Portugal] Caderno «Luta Social»* Nº3: EDITORIAL

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Sexta-Feira, 14 de Novembro de 2008 - 21:39:19 CET


No meio de uma situação de grande instabilidade económica, política e
social causada pelo avolumar de mais uma crise do sistema financeiro
mundial, que já alastrou à «economia real» e cujo fim não se vislumbra, o
nosso país está mergulhado numa «crise endógena».
Esta «crise endógena», ainda está por analisar e compreender ao nível
teórico e prático (sobretudo para a acção) pela esquerda não autoritária,
a esquerda não comprometida com o neo-liberalismo.
Com efeito, o nosso país é historicamente um país com um passado de
império colonial, mas cedo neo-colonizado por várias potências.
Na etapa pós 25 de Abril de 1974, a viragem para a Comunidade Europeia,
significou o amarrar deste país à democracia formal. Mas também
representou um amarrar ao capitalismo (em contradição com o sentimento
popular, pelo menos dessa altura, meados de anos 80).
Isso traduziu-se numa subordinação política e económica – num grau nunca
antes visto - às potências dominantes, sem que houvesse uma consciência
clara do que estava em jogo. É certo que para isso contribuiu o facto de
se estar no final da «guerra fria», com uma série de tensões entre a
super-potência dominante (já então os EUA) e a super-potência que em breve
perderia o seu estatuto, com a queda do muro de Berlim, o desmembramento
da URSS e a conversão acelerada das «democracias populares» do Leste à
forma mais selvática de capitalismo, após meio século de experiência
forçada de capitalismo de estado.
No meio dessa reconfiguração dos poderes e da política, a classe
trabalhadora dos diversos países europeus sempre afirmou o repúdio pelas
soluções impostas, pela retirada de seus direitos, contra o reforço do
capitalismo, contra o aumento da precariedade e do desemprego, erigidos em
arma terrorista pela entidade patronal e pelos estados, incluindo os de
«democracia liberal».
Porém, devido às décadas de subordinação dos seus instrumentos de classe -
os sindicatos - a interesses alheios à sua própria realidade, identidade e
natureza, a classe trabalhadora esteve mal armada para a batalha. Com
efeito, os dirigentes sindicais, geralmente colocados e mantidos por serem
membros ou simpatizantes de determinados partidos políticos, estiveram
«controlando» o movimento de massas, como capatazes úteis à casta
dominante.
A traição dos dirigentes deve ser compreendida como corolário de se terem
transformado paulatinamente numa casta ou «classe coordenadora»,
usufruindo de privilégios diversos, com estatuto - aparentemente
inamovível - de «interlocutores sociais» indispensáveis, para o grande
circo da «concertação social», da busca de (falso) consenso entre
exploradores e explorados, para chamar a coisa pelo nome.
Porém, quer no Brasil (ver o artigo de Alexandre Samis sobre Sindicalismo
e Movimentos Sociais), quer em França (ver entrevista a membros dos CSR)
quer mesmo no nosso país, as organizações sindicais estão sujeitas a
mudança, a rupturas por vezes, por vezes a reunificações, sobretudo a uma
dinâmica das bases.
Debaixo dos nossos olhos (ver também neste número, Carta aos Trabalhadores
da Educação) a luta dos docentes da escola pública, pela dignidade, pela
preservação da autonomia e qualidade do próprio acto de ensinar, mostra
como as pessoas se organizam espontânea, autonomamente, forçando as
máquinas pesadas dos sindicatos a mexerem-se, a tomar posições que na
véspera eram rejeitadas como «demasiado radicais».
Qualquer que seja o desfecho destas lutas, o certo é que a classe
trabalhadora e todo o povo aprende - com a prática das lutas sociais - a
auto-determinação da sua vontade, impondo aos dirigentes que respeitem o
mandato que lhes foi conferido. Embora estes tenham tendência permanente
para se substituir à vontade dos que os elegeram, já perderam a hegemonia
sobre o movimento social.
Neste momento, em Portugal, as pessoas estão a compreender cada vez mais e
melhor, que a sua auto-organização, horizontal, democrática, com uma
solidariedade actuante, inter-grupos profissionais, unindo na acção todos,
independentemente da sua preferência partidária ou ideológica, é a chave
para conseguirem impor a sua vontade a todos os níveis, defendendo a sua
dignidade, a sua subsistência e o seu futuro.
É necessário que este movimento se aprofunde e se alargue ainda mais, pois
o objectivo último do mesmo será a eliminação do capitalismo, a construção
do socialismo desde a base, a mudança profunda que nós designamos por
«revolução social».

O Colectivo «Luta Social»*
(*colectivo anti-autoritário e anti-capitalista)




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