(pt) [MÍDIA, EUA] A mais espetacular jogada pela esquerda d esde George Best

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Quinta-Feira, 13 de Novembro de 2008 - 07:45:09 CET


[Por todo os EUA, hordas de comunistas e anarquistas estão começando a
jogar futebol. Alguém aí pensou em "sem juízes e sem mestres"?]

Quatro anos atrás eu troquei a quebrada, paroquial e entediantemente
Blair-iluminada Bretanha pela super-reluzente América. E assim como
milhares de refugiados ingleses antes de mim, fiquei chocado de encontrar
os americanos não nos ranchos, mas em campos de futebol.  Campos que
existem aos milhares, interligados, de oceano a oceano - tantos que alguém
pode começar driblando em New York e terminar em Los Angeles sem ter
tirado as chuteiras uma vez sequer. Ou quase.

E quem joga nesses campos? Milhares de machos sujos e bêbados de 200
quilos como na Inglaterra? Não muitos. Mulheres? Sim. Crianças? Sim.
Comunistas - meu deus, sim. Incontáveis hordas deles.

Em Duluth, Minnesota, você encontra a Commie Soccer League, Liga Comunista
de Futebol ("todas as regras são democraticamente votadas"). Em Chicago um
time anarquista chamado Arsenal organiza anualmente um torneio de futebol
chamado "Matches and Mayhem" (algo como Confrontos e Desordem). Baltimore
é abençoada por um "time de futebol punk-rock" chamado CCCP FC (uma vez
que a sigla significa "Charm City Cunt Punchers", algo como "Charmosos
Socadores de Buceta da Cidade", as credenciais políticas do clube podem
ser consideradas um pouco suspeitas por aqueles que tiverem alguma
inclinação feminista).

Em Portland, há um jogo organizado pelos auto-intitulados "hippies de
esquerda preguiçosos e fedidos", enquanto em Cape Cod a Socialist Saturday
Morning Sandy Pond Soccer League (Liga Socialista de Sábado de Manhã de
Futebol no Tanque de Areia) tem um website que toca o antigo hino nacional
soviético. E eu pessoalmente joguei um futebol de salão "20 pra cada lado"
entre os Philadelphia's RASH (Red Action Skinheads, Os Skinheads
Comunistas) e os SPAR (Skins and Punks Against Racism, Os Punks e Skins
Contra o Racismo).

Há jogos esquerdistas em Winnipeg ("sem juízes, sem mestres!"), Calgary
(casa do Calgary Libre! FC), Wilmington e Austin. E em New Brunswick,
Denver, Seattle, East Lansing, San Diego, Maine e Washington DC (onde há
um jogo de Halloween com jogadores fantasiados todo outubro). E há um jogo
anarco-comunista de domingo que acontece no New York's Tompkins Square
Park há anos.

Mas é São Francisco que o futebol anarco-comunista americano realmente
tomou corpo. Desde 2002, o comunista Left Wing Futbol Club tem
regularmente tido suas bundas rosas servidas em um prato pelos anarquistas
do todo-negro Krondstadt FC, e mais recentemente ambos participaram do
anual BADASS (Bay Area Direct Action Soccer Series, ou Liga de Futebol de
Ação Direta de Bay Area), parte integrante do BASTARD (Berkeley Anarchist
Students of Theory And Research&Development, ou Estudantes Anarquistas de
Teoria, Pesquisa e Desenvolvimento de Berkeley), uma conferência
anarquista.

O primeiro jogo da história entre Left Wing e Krondstadt foi interrompido
por um policial solitário quando um mascote anarquista correu pela linha
de fundo carregando uma enorme bandeira negra e entoando "Agitate!
Agitate! Score a goal and smash the state!" (algo como Agite! Agite!
Marque um gol e esmague o estado!"). O tipo de coisa que faz parte do
conteúdo do futebol esquerdista americano.

A competição anual então se transformou em um tipo de instituição
esportiva bizarro-americana. Em um jogo, a banda de marchas Brass
Liberation Orchestra tocou A Internacional enquanto jogadores que pogavam
socavam o ar e anarco-cheerleaders todas de negro e com botas de ciclista
agitavam pompons feitos de saco de lixo e gritavam "Me dê um A! A! A de
Anarquia!"

E não, isto não é o entediante futebol patriarcal do seu avô. "Eu cresci
na Argentina, onde o melhor jogador faz uma dancinha com a bola e só a
passa se for para outro melhor jogador por perto", disse para o West Bay
Express a jogadora do Left Wing, Marie Poblet. "Se nós queremos mudar o
mundo, nós temos que mudar o jeito que jogamos".

Há também por lá alguns cantos de torcida engraçados, sendo o melhor:
"Você diz que se espelha no Mao para a salvação? E o que me diz sobre a
situação dos trabalhadores de Xinjiang?!". E substituições a todo tempo
são permitidas, ao menos parcialmente, para assegurar que "mulheres, gays
e pessoas de cor etc." estejam todos representados (embora essa afirmação
possa ser uma brincadeira, é difícil dizer).

Porque futebol? "A natureza do jogo permite que pessoas com diferentes
técnicas e habilidades joguem ao mesmo tempo", diz Paul Royal, do
anarquista Detroit Riot FC. "Isso é importante porque nós da esquerda
tentamos sempre ser inclusivos e apaixonados por nossos princípios
políticos. E também porque não há jeito melhor de bloquear uma rua durante
uma manifestação do que com um jogo de futebol instantâneo, improvisado na
hora".

O curioso caso de amor entre os esquerdistas dos EUA e o futebol pode ter
começado em 2000, quando a liga anarquista baseada em Washington
intitulada Anarchist  Soccer League desafiou o Banco Mundial para um
"contra". Os cachorros fujões capitalistas não apareceram e perderam por
W.O. Anti-desportivamente, eles também falharam em cancelar a dívida
mundial. Desde então, jogos de futebol instantâneos passaram a pipocar em
manifestações anti-capitalistas e anti-guerra por todo os EUA.

Mas você vai perceber que a maior parte deste artigo foi escrita no
passado. Há uma razão para isso. Quando eu recomecei minha pesquisa sobre
o futebol anarco-comunista americano (que vai fazer parte do livro A
Revolução do Futebol: A Ameaça Futebolística Gay, Feminina e Comunista ao
"American Way of Life" - editores e agentes, peguem o caminho da minha
casa agora!), eu dei de cara com uma escura, desestimuladora, selvagem
explosão de links quebrados, websites desativados e esvaziadas e antigas
salas de bate-papo, comunidades virtuais e proto-blogs sobre futebol
anarco-comunista. A maioria não era atualizada há meses (e em alguns
casos, anos).

Tinha o futebol anarco-comunista americano sido uma mera
moda-de-virada-do-século da ala radical-chique? Ou essa falta de atividade
era algo mais sinistro? Tinha a cena sido destruída pelo vicioso aparato
neocon dirigido pela opressão estatal? Tinha o futebol anarco-comunista
caído nas garras dos esquadrões sujos da CIA, dos agentes infiltrados do
FBI, dos patrulheiros reformistas e dos hackers do Departamento de
Segurança Nacional?

Eu telefonei. Eu mandei e-mails. Eu colei panfletos nos postes de luz. Eu
escondi mensagens criptografadas nos buracos das árvores. E então - tão
vagarosamente quanto o primeiro floco de neve trilhando seu caminho e
determinando o fim da primavera - as respostas começaram a chegar. De
maoístas e trotskistas e anarquistas e feministas, ativistas anti-guerra,
anti-racismo, anti-imperialismo e anarquistas de todas as tendências. E
todos eles diziam a mesma coisa: "Estamos aqui, camarada! E prontos pra
jogar! Mas assim que estiver um pouquinho mais quente. Você saiu de casa
ultimamente? O tempo lá fora ainda está congelante".

O futebol anarco-comunista americano está vivo e bem. Esteve apenas
hibernando. Nesta primavera eles estarão novamente a mudar a América -
jogo democraticamente arbitrado (com substituições livres) a jogo.

Steven Wells

Fonte: The Guardian - 14 de março de 2007.

Tradução > Kadj Oman

agência de notícias anarquistas-ana




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