(pt) 8 de março: MORRER LUTANDO ANTES QUE MORRER DE FOME

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sábado, 8 de Março de 2008 - 11:11:11 CET


by evandro couto - FAG

8 de março. As mulheres trabalhadoras peleiam o futuro

    A semana foi sacudida pelos metódos de ação direta e a dignidade
peleadora das mulheres trabalhadoras do estado. Na terça-feira 04 de
março a fazenda tarumã em Rosário do Sul amanheceu aos golpes de foice
e facão fazendo justiça popular contra a propriedade da sueco
finlandesa Stora Enso e a suas áreas daninhas de eucalipto invasoras
da faixa de fronteira. Uma repressão brutal se desatou sobre 900
mulheres e 250 crianças sob as ordens do subcomandante Mendes e os
socos e pontapés do coronel Lauro Binsfield e seus comandados. Cerca
de 50 camponesas feridas por balas de borracha, estilhaços, incuído
crianças, e duas presas.

Na quarta-feira as mulheres da via campesina ainda eram “guardadas” em
Santana do Livramento pelas forças policiais quando 8 bloqueios são
levantados no estado pelo MST em solidariedade com as lutadoras. Em Porto
Alegre, as companheiras do Movimento dos Catadores (MNCR), MTD,
Resistência Popular, Levante da Juventude, Grupo de teatro Ói nóis aqui
traveiz e Via Campesina dirigiam a ação para as portas do Teatro São Pedro
onde se encontrava a governadora Yeda Crusius. Uma companheira libertária
roubou a cena amamentando um pequeno esqueleto durante a cerimônia que
participava a governadora com as suas.


Na quinta-feira foi a vez das mulheres do MTD se lançar na ocupação de
repartições públicas em seis cidades pr frentes de trablho. A Via
Campesina, no mesmo dia fez um protesto em frente a polícia federal
denunciando a invasão das transnacionais na faixa de fronteira do estado.
Em Santana do Livramento as mulheres que haviam ocupado a fazenda da Stora
Enso novamente tomaram as ruas com o protesto na praça entre Brasil e
Uruguai cantando valentes a Internacional. Durante a manifestação uma
companheira sem terra foi atropelada por um fazendeiro da região.


Nos unimos aos protestos com a certeza de que a dignidade das mulheres tem
que ser peleada contra quem nos tira o futuro e de que a solidariedade se
pratica em atos. Os governos do país e do estado não venderão a pampa sem
resistência. Nada podemos esperar senão de nós mesmos, as mulheres
trabalhadoras, os pobres do campo e da cidade, os oprimidos deste Brasil.


Reproduzimos abaixo o manifesto da Via Campesina sobre a ação direta de 04
de março.


Manifesto das Mulheres da Via Campesina

Nós mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul estamos mais uma vez
mobilizadas, nesta semana do 8 de março, para intensificar nossa luta
contra o agronegócio e em defesa da soberania alimentar da população
brasileira.

A soberania alimentar é o direito dos povos de produzir sua comida
respeitando a biodiversidade e os hábitos culturais de cada região. Hoje
em nosso país as riquezas naturais estão sob domínio das empresas
multinacionais do agronegócio e a população tem cada vez menos acesso à
terra, à água e aos alimentos.

Nós mulheres somos as primeiras a serem expulsas das atividades agrícolas
nas áreas onde avança o agronegócio. Nosso trabalho é importante em uma
agricultura camponesa porque sabemos produzir alimentos. Mas as empresas
do agronegócio não estão preocupadas em produzir comida, só em produzir
lucro transformando o campo em desertos verdes (de eucalipto, de soja, de
cana). Um dos desertos que mais cresce em nosso Estado é o de eucalipto
para celulose.

As empresas de celulose estão fechando fábricas nos Estados Unidos e na
Europa e vindo para a América Latina. Aqui encontram muita terra, água,
clima favorável e governos dispostos a atender seus interesses. Mais de
90% da produção de celulose do Brasil é para exportação. Assim, reduzimos
a produção de comida, destruímos a biodiversidade, aumentamos a pobreza e
a desigualdade para atender a demanda de lucro das empresas e um estilo de
vida consumista nos países ricos. Esse é o papel horroroso que o Brasil
cumpre hoje no mundo.

Uma das empresas responsáveis pelo avanço do deserto verde no Rio Grande
do Sul é a Stora Enso, multinacional sueco-finlandesa. Pela lei brasileira
estrangeiros não podem ter terra em uma faixa de 150 km da fronteira do
Brasil com outros países. Acontece que a Stora Enso já tem milhares de
hectares plantados no Uruguai e é exatamente próximo da fronteira gaúcha
com este país que essa gigante do ramo de papel e celulose quer formar uma
base florestal de mais de 100 mil hectares.

Inicialmente a Stora Enso tentou comprar as terras em nome da empresa
Derflin, o braço da multinacional para produção de matéria prima, que por
ser estrangeira não conseguiu legalizar as áreas.

Para viabilizar sua implantação a multinacional criou uma empresa laranja
que está comprando as terras em seu nome: a agropecuária Azenglever Ltda,
cujos donos são dois importantes funcionários da Stora Enso. Eles se
tornaram os maiores latifundiários do estado, sendo "proprietários" de
mais de 45 mil hectares. Essa operação ilegal é de conhecimento dos
Ministérios Públicos Estadual e Federal, do Incra, da Polícia Federal, mas
nada de concreto foi feito para impedir o avanço do deserto verde.
Decidimos então romper o silêncio que paira sobre esse crime.

Nossa ação é legítima. A Stora Enso é que é ilegal. Plantar esse deserto
verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país, contra
o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado que está cada
vez mais sem terras para produzir alimentos. Estamos arrancando o que é
ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente e para o povo gaúcho.

Alguns parlamentares gaúchos ao invés de combaterem a invasão dos
estrangeiros estão propondo reduzir a Faixa de Fronteira para legalizar o
crime. Usam o argumento de que a faixa de 150 km impede o desenvolvimento
econômico dos municípios. Mas isso é uma grande mentira. Todos sabem que a
Metade Sul não se desenvolve por causa do latifúndio e das monoculturas.
Tanto que a faixa de fronteira também vigora na metade norte do estado e
nessa região a economia é dinâmica.

As empresas de celulose prometem gerar emprego e desenvolvimento. Mas onde
elas se instalam só aumenta o êxodo rural e a pobreza. Os trabalhos que
geram são temporários, sem direitos trabalhistas, em condições precárias.
Um exemplo é a Fazenda Tarumã em Rosário do Sul, de 2,1 mil hectares onde
a Stora Enso gera somente dois empregos permanentes e alguns empregos
temporários.

Se essa área for destinada para a reforma agrária podem ser assentadas 100
famílias gerando no mínimo 300 empregos diretos permanentes. Portanto, a
Reforma Agrária e a Agricultura Camponesa é que são a melhor alternativa
para preservar a biodiversidade, gerar trabalho e renda para a população
do campo e alimentos saudáveis e mais baratos para quem mora nas cidades.

O projeto que tramita no Senado propondo reduzir a Faixa de Fronteira
brasileira não inclui a Amazônia porque entende que isso seria uma ameaça
para a floresta. Ou seja, admite que a redução da Faixa de Fronteira irá
aumentar a destruição ambiental. Para nós todos os biomas brasileiros são
importantes e entendemos que o Cerrado e o Pampa também precisam ser
preservados.

Nós mulheres da Via Campesina reivindicamos das autoridades brasileiras:

- Anulação das compras de terra feitas ilegalmente pela Stora Enso na
faixa de fronteira e expropriação dessas áreas para a reforma agrária.
Somente nos 45 mil hectares que estão em nome da empresa laranja, a
Agropecuária Azenglever daria para assentar cerca de 2 mil famílias,
gerando 6 mil empregos diretos. Atualmente 2.500 famílias estão acampadas
no Rio Grande do Sul e o Incra alega não ter terras para fazer
assentamento.

- Retirada dos projetos no Senado e na Câmara Federal que propõem a
redução da Faixa de Fronteira. Essa medida só vai beneficiar empresas como
a Stora Enso que querem se apropriar das terras para transformá-las em
deserto verde, destruir nossas riquezas naturais como o aqüífero guarani e
o bioma Pampa. Para o povo gaúcho essa redução da faixa de fronteira só
vai provocar aumento do êxodo rural, do desemprego, da destruição
ambiental e o fim soberania alimentar pois vai faltar terra para produzir
alimentos.

Sabemos que por lutar contra o deserto verde podemos sofrer a repressão do
governo gaúcho. É prática desse governo tratar os movimentos sociais como
criminosos e proteger empresas que cometem crimes contra a sociedade.
Vamos resistir. Nossa luta é em defesa da vida das pessoas e do meio
ambiente. Estamos aqui em 900 mulheres, mas carregamos conosco a energia e
a coragem das milhares de camponesas que em todo o mundo lutam contra a
mercantilização das riquezas naturais e da vida. Como dizia a companheira
sem terra Roseli Nunes, assassinada covardemente em março de 1987 aqui no
Rio Grande do Sul, "preferimos morrer lutando do que morrer de fome!".

Mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul

Brasil, 04 de março de 2008.



More information about the A-infos-pt mailing list