(pt) [Brasil] [GEA-NEC] Tropa da Elite (ótimo texto )

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Sábado, 8 de Março de 2008 - 10:31:15 CET


Tropa da Elite:
   do Estado, da Burguesia, da Tortura, da Corrupção,
  do Extermínio, da Hipocrisia...

  “Sustentamos que o Estado é incapaz de fazer o bem. Do campo das
relações internacionais até o das relações individuais, só pode combater
a agressão transformando-se o mesmo (o Estado) em agressor, e só pode
evitar o crime organizado cometendo crimes bem maiores. (...)
  (Errico Malatesta, 1916)

  Tropa de Elite, filme de José Padilha lançado em 2007, mesmo antes de
sua estréia, já vinha gerando grandes polêmicas e acaloradas discussões
e causando tanto opiniões favoráveis quanto críticas duras. Mas seu
conteúdo ideológico é o que mais interessa discutir. Baseado em um livro
de um ex-integrante do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia
Militar do Rio de Janeiro), o filme apresenta, em um formato de ação
hollywdiano, um enredo simplista que reduz complexas questões sociais à
dualismos ridículos, e é claro, sempre de um ponto de vista de soluções
da extrema-direita ou da elite. O BOPE é apresentado como a única
alternativa, honesta e livre de pecados, contra os traficantes, que
“brotam”, sem nenhuma explicação, nas comunidades carentes, e aos
corruptos e atrapalhados Policiais Militares. Além disso, temos os que
seriam os “playboys” da zona sul, que só sabem fumar e revender maconha,
mesmo que alguns, dotados de alma caridosa, procurando fazer trabalhos
 assistencialistas nessas comunidades.

  Com os bons e os maus bem definidos, e o caos, a corrupção e a
impunidade instaurados num mundo decadente, nossos “heróis da caveira”,
“paladinos da justiça” e da “liberdade”, tem plena e total licença para
matar. As torturas e violências são, de certa maneira, aprovadas por
parte do público, já descrente de soluções a longo prazo em meio a
desordem promovida pelos governos nesse país. Descrente e sem
referências políticas que vão além da política institucional, da
esquerdalha mofada e da bandidagem, acreditando muitas vezes que apenas
medidas extremas, por parte da polícia e do Estado, resolverão questões
sociais.

  No filme, a missão do BOPE é o resgate de armas em posse dos traficantes
além de outras incursões arriscadas e emergenciais nas favelas do Rio.
Mas será que o BOPE surgiu para isso mesmo?

  Na vida real, não apenas o BOPE, como outras polícias especiais, Guardas
Nacionais e as mais variadas manifestações de repressão organizada,
surgem como medidas ou políticas de impacto sensacionalista do governo.
Sempre que crimes “terríveis” e a violência parecem estar
incontroláveis, os artistas da Globo e os “cidadão de bem” saem às ruas
vestidos de branco  clamando por paz ou basta, e é muito mais fácil e
barato para os governos, além de gerar publicidade, criarem novas tropas
especializadas em alguma coisa, comprarem mais armas e investirem em
repressão para atender as demandas da elite midiática e burguesa.

  Para o capitalismo pouco importa, pois até em situações extremas de
violência há lucro e concorrência, vide o crescimento da indústria e do
comércio da segurança (carros blindados, alarmes, armas pessoais, etc),
indústria baseada no medo e no pavor instituídos. Como nos diz o
anarquista Errico Malatesta, o Estado não faz o bem, muito pelo
contrário, agride em nome da proteção e do bem estar, mas não o bem
estar dos pobres e trabalhadores. Não quer resolver nada do social
porque ele e as elites, seus patrões, são favorecidos pela miséria e
pelo caos que eles mesmos criaram.

  Alguns trabalhadores, moradores das favelas e periferias em meio ao fogo
cruzado dessas ações, legitimam as ações da Polícia especializada ou de
grupos milicianos (controlados sempre por vereadores e deputados
federais, ou seja braços do Estado), pois se vêem sufocados
cotidianamente pela violência dos integrantes de baixa patente do
tráfico de drogas (a alta patente está em Brasília, dentro dos Quartéis
da Polícia Militar e nas coberturas luxuosas de Copacabana), que
atormentam ainda mais as suas vidas levadas com tanto sacrifício e
dificuldade.

  Porém, sem que neste processo a própria população se torne ativa
politicamente e ela mesma cumpra o papel de restabelecer a ordem e a
justiça, continuaremos escravizados e explorados. A organização popular
é de suma importância, para o expurgo da violência organizada e para a
construção social de base, tanto no que se refere à formação da
consciência da juventude, que se corrompe nesse cotidiano, quanto na
possível afronta aos que verdadeiramente só querem o mal coletivo e vão
contra a constituição do poder popular, ou seja, os Estados, as tropas
(paramilitares ou não) e as elites.

  Para o Estado, até agora, foi melhor o caos e as inúmeras mortes nas
comunidades pobres, assim como tiroteios e fornecimento liberado de
drogas e armas, etc. Mas quando isso começou a se expandir para além
dessas comunidades, tomando cada vez mais o asfalto e a atrapalhando a
lucratividade de alguns empresários, que no Rio de Janeiro, por exemplo,
estão afoitos pela especulação das terras do “paraíso turístico do
Brasil”, então o Estado se mobiliza para combater aquilo que ajudou a
criar. E o que será feito com todo o armamento e equipamento adquirido
para tratar do conflito, quando a Polícia terminar o sua “missão” contra
o tráfico? Com certeza, serão usadas contra o povo! Se para a elite,
manter a ordem agora é, em primeiro lugar, combater o tráfico nos morros
e favelas, em um segundo momento será combater o povo organizado! Não
tenhamos dúvida disso! Eles nunca jogam para perder!

  É com a mesma voracidade e violência que as forças do Estado atuam
contra o povo organizado, criminalizando os movimentos sociais,
prendendo militantes, “baixando o pau” em  manifestações de rua e
protestos, no dia-a-dia de mobilização, nos despejos contra ocupações do
movimento de sem-teto e sem-terra, etc. Muitas vezes o Estado e a
polícia vinculam os movimentos sociais ao tráfico, de maneira sórdida e
mentirosa para ganharem a opinião pública e justificarem o uso do
instrumento de repressão contra o povo. Ou seja, ao criminalizarem os
movimentos sociais organizados eles garantem que os privilégios das
elites não estejam ameaçados, protegendo o “direito” de uma parcela
pequena de pessoas de permanecer com muito dinheiro, propriedades, de
especular, de lucrar, de explorar, enquanto a maioria do povo não tem
direito a nada, nem ao básico: moradia, saúde, educação, etc.

  O principal instrumento para lutar e garantir nossos direitos essenciais
é a organização. Acontece que para os governantes e elites só o Estado
poderia garantir a organização da sociedade. O que é mentira! O Estado
significa o controle da maioria do povo por uma minoria. Por isso nos
enganam com as eleições, manipuladas por eles, dizendo que o Estado é
democrático e por isso somos agredidos quando tentamos nos organizar e
lutar sem ele!

  Quanto a outros Estados que também fazem uso de tropas muito bem
equipadas e armadas, munidas de discursos “democráticos”, podemos
lembrar as guerras e as invasões do Afeganistão e Iraque pelos EUA
(entre 2001 e 2003). Os Estados Unidos tinham a justificativa de estarem
combatendo o terrorismo, no combate à violência que era promovida por
governos ou facções islâmicas ditatoriais nestes países e para “garantir
a paz e a democracia”. É com esta mesma justificativa que o Estado de
Israel mata diariamente inúmeras pessoas na Palestina. Ou ainda, vale
“ressuscitar” uma questão que está escondida dos nossos olhos desde que
a seleção brasileira de futebol (em 2005) foi ao Haiti maquiar a ação do
Exército brasileiro no país. Lembremos que no Haiti as forças armadas
brasileiras lideram a invasão de comunidades pobres e a chacina dos
moradores destas áreas. Dizia-se que esta ação (que ainda está em vigor
no Haiti) era para controlar a onda de violência que assolava o país e
 “garantir a paz e a democracia”, sendo identificado que o foco estava nas
áreas pobres. Mas fazem a gente esquecer que parte desta violência era
efeito de anos de governo ditatorial haitiano, explorador e corrupto,
apoiado e financiado pelos países “democráticos”. Enfim, um passado sujo
bastante recente que devemos repudiar e denunciar!

  E o que tem a ver esse panorama mais geral? Lembremos que a maioria das
armas e drogas traficadas no Brasil são de procedência dos EUA ou com
financiamento desse país, e as armas e táticas de repressão policial
também vêm de lá e do Exército de Israel, assim como a ideologia
repressora de seu Estado, patrocinado pelo governo dos EUA. Lembremos
também que durante as primeiras ações do Exército brasileiro no Haiti, o
Estado dizia que aquilo servia como um ensaio para o combate ao crime
nas favelas do Brasil. E realmente tudo isso está servindo. Isso
aconteceu mais concretamente desde que a Tropa de Elite começou a atuar
e depois o conhecido Caveirão começou a ser utilizado.

  Em 2007 esta violência aumentou assustadoramente e todo o acirramento
desta discussão em torno do filme anuncia o aprofundamento do caos.
Acontece que, o que a população antes denunciava como fatos ocorridos
através dos escrúpulos da corrupção policial, agora é legalizado e se
firmou como uma estratégia do Estado. Desde que se iniciou a preparação
do Rio de Janeiro para a realização dos Jogos Panamericanos, houve a
promoção da “limpeza da cidade” com o terror causado pela chacina no
Complexo do Alemão, onde mais de 40 pessoas morreram executadas pela
Polícia em um só dia, e nos últimos meses houve as chacinas na Favela da
Coréia e no Morro dos Macacos. Coincidentemente, no mesmo período a
Polícia tentou promover o despejo dos moradores da comunidade do Canal
do Anil (cerca de 400 famílias), que habita o entorno do local de
construção da Vila Pan-americana, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Aliás, só no último ano mais de 30 despejos aconteceram aproximadamente
em toda a
 cidade do Rio, com o aval do aparato jurídico do Estado.

  Aliás, o governo Lula anuncia que com as obras do PAC (Plano de
Aceleração do Crescimento) em 2008, serão realizados muito mais despejos
e repressão contra a população mais pobre e organizada. Se não, por que
afinal a Secretaria de Segurança é a ponta de lança desta “política
social”, o PAC? Só no Rio de Janeiro serão quase 500 mil famílias
retiradas de suas moradias e comunidades e sem qualquer restituição.
Outro caso desesperador também é o das comunidades que serão expulsas
pelo projeto de Transposição do Rio São Francisco, no Nordeste, por
morarem na faixa das obras ou pela falta de água em algumas regiões pelo
impacto e degradação do Velho Chico. Todos estes projetos com muito
dinheiro e idéias mirabolantes não são para resolver os problemas do
povo mais pobre, mas para aumentar a paz e a lucratividade das classes
abastadas, tenhamos certeza!

  Todos sabemos que os políticos, governantes e elites estão sujos até o
pescoço de crimes, corrupção, assassinatos, propinas, etc. Então, por
que nossos heróis de uniforme negro, nossa SS dos trópicos, não se lança
com bravura em missões de limpeza  e ordem nos planaltos e senados da
vida? Porque não fazem justiça com aqueles que são a causa do que eles
dizem combater? Porque quem esta na mira da Polícia são os moradores de
áreas pobres, independente do caráter ou da índole. O BOPE é um
instrumento da elite.

  Enfim, com as ações do BOPE (explicitadas hipocritamente no filme), o
tráfico de drogas e armas concretamente tem seus dias contados? Com
certeza não, pois onde há muito dinheiro há vontade do Estado de se
manter e proteger os privilégios. Em todas estas ações, o Estado não tem
o objetivo de garantir a paz para a maioria da população. A organização
popular, sim, pode garantir. Lutemos por ela!

  “Muito bem! Só há um remédio: melhorar o futuro. Temos que evitar, mais
do que nunca, o compromisso, acabar com o abismo entre capitalistas e os
escravos assalariados, entre dominadores e dominados, lutar pela
expropriação da propriedade privada e a destruição dos Estados como o
único meio para garantir a fraternidade entre os povos e a justiça e a
liberdade para todos, e devemos nos preparar para levar a cabo estas
coisas.” (Malatesta, 1916)

"Liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça; socialismo sem
liberdade é escravatura e brutalidade."
Miguel Bakunin

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