(pt) [Mexico] Entrevista com o “Centro Social Libertario - Ricardo Flores Magón” [f r]

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Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2008 - 22:53:19 CET


de Revue Divergences
Esta entrevista foi feita por e-mails trocados com companheiros do Centro
Social Libertario - Ricardo Flores Magón (CSL-RFM) e do Coletivo Autónomo
Magonista do México D.F. entre o fim de 2006 e o início de 2007.
Relatam-nos sua história e descrevem o seu funcionamento e suas
atividades. Também apresentam reflexões sobre a vigência do anarquismo e
do magonismo no México e as perspectivas do movimento libertário. No
número seguinte de Divergences (http://divergences.be/), apresentaremos
uma tradução em francês. Posteriormente publicaremos uma entrevista com
companheiros da Aliança Magonista Zapatista (AMZ) sobre o atual movimento
social de Oaxaca.


Thierry Libertad: O que é o CSL-RFM?

Centro Social Libertario - Ricardo Flores Magón: É um velho sonho de um
grupo de libertários da Cidade do México. O CSL-RFM é um espaço onde se
concentram diversas iniciativas e projetos encaminhados para difundir o
ideal anarquista, para promover a organização do movimento libertário e
estreitar os vínculos com os setores sociais explorados e marginalizados
de nossa região. O CSL-RFM é um lugar onde tentamos construir a partir
deste momento uma prefiguração da sociedade anarquista que desejamos.


T.L: Quando foi criado e de quem foi a iniciativa?

CSL-RFM: Formalmente teve início em setembro do ano passado com um evento
de apresentação, do qual celebramos recentemente o primeiro aniversário. O
projeto é a continuação de várias iniciativas impulsionadas há vários
anos, que não puderam integrar-se e manter-se. O já fundado Coletivo
Autônomo Magonista (CAMA), retoma as iniciativas, dando-lhes continuidade
e um novo impulso, além de incorporar outras; agora todas se concentram no
CSL-RFM.


T.L.: Quem o integra e como funciona?

CSL-RFM: Os projetos que atualmente o integram são: Editora e
Distribuidora Cultura Libre, periódico Autonomía, Biblioteca de Crítica y
Alternativas Radicales, Cineclube Jean Vigo e recentemente inauguramos a
Livraria Praxedis Guerrero. O CSL-RFM é também a sede na Cidade do México
da Alianza Magonista Zapatista (AMZ), da qual fazemos parte. Como CAMA
somos responsáveis pelo CSL-RFM, mas há coletivos que, possuindo seus
próprios projetos ou fazendo trabalho em seus bairros, participam
constantemente. As atividades são planejadas conjuntamente, os diversos
coletivos e companheiros propõem uma ou várias atividades, e dividimos o
tempo e os preparativos entre todos. Como coletivo nos reconhecemos como
anarco-comunistas e defendemos a necessidade de organização, mas o espaço
está aberto a todas as tendências do anarquismo e aos companheiros que não
se declaram anarquistas, mas com os quais temos afinidades múltiplas.


T.L.: Qual é a meta que persegue e quais são suas perspectivas?

CSL-RFM: Para nós a mete segue sendo a Revolução Social, afinal de contas,
todas as nossas ações são encaminhadas para ela. A perspectiva está cheia
de obstáculos para se superar, quase tudo está por fazer. Apesar do
sistema político autoritário e decadente que nos persegue, existe um
grande desejo de transformação profunda, uma grande disposição para
superar nossas limitações e conseguir plenamente os projetos e as metas
que projetamos. Sabemos que para conseguir isso serão necessários muitos
anos, até décadas, bastantes sacrifícios, mas nós e muitos companheiros no
México já começamos a trabalhar com o pensamento fixo em nossos desejos.


T.L.: Quais são as atividades desenvolvidas pelo CSL-RFM?

CSL-RFM: Neste um ano de vida houve um grande número de atividades:
apresentação de publicações, projeções, oficinas, grupos de estudos,
reuniões, convívios, colóquios sobre diversos temas de companheiros
mexicanos e de outros países, como Nelson Garrido, da Venezuela, Daniel
Barret, do Uruguai, Bernard, da Nefac do Canadá e dos EUA, dentre outras.
Tivemos uma conversa com os companheiros do Centro Social Libertário de
Toulouse sobre as revoltas nos subúrbios da França. No mês de junho o
CSL-RFM sediou o pré-encontro libertário, antesala do encontro de nível
nacional, que será realizado em novembro de 2006 e por meio do qual
esperamos dar um passo adiante na organização dos anarquistas no México.
Recentemente houve uma jornada muito significativa com quase um mês de
atividades comemorativas da Revolução Espanhola e em solidariedade aos
presos políticos da brutal repressão do Estado mexicano sobre o povoado de
Atenco, muito próximo daqui, em maio passado. Em momentos de repressão
como este, o Centro Social serviu para reunir a comunidade libertária.
Atualmente o setor de mulheres da Otra Campaña o ocupa para suas reuniões,
devido à ausência de um espaço próprio.


T.L.: O CSL-RFM possui algum tipo de publicação?

CSL-RFM: Uma parte determinante do projeto é a questão editorial e de
meios de comunicação em geral. Nossa principal publicação é o jornal
Autonomía, um jornal centrado na temática anarquista e nas notícias das
lutas sociais e de resistência ao capitalismo. Nesse mês de outubro
editamos o número 27, depois de 8 anos de existência. Participamos também
em outro jornal, o Viva Tierra y Libertad, que é o porta-voz da Aliança
Magonista Zapatista. Começamos recentemente a Editora Cultura Libre com a
publicação do nosso primeiro livro Magonismo: Utopía y revolucíon,
1910-1911, escrito por Rubén Trejo. Temos outras edições de baixo custo
sobre diversas temáticas e autores, buscando incentivar a produção da
teoria anarquista em nosso contexto, publicando alternadamente textos de
autores internacionais e locais. Como muitas coletividades anarquistas,
nosso outro grande sonho é o de algum dia contar com uma imprensa própria.
O estímulo às rádios livres tem sido outra tarefa que desenvolvemos
conjuntamente com as organizações integrantes da AMZ em Oaxaca, região
situada ao sul do país que atualmente vive uma revolta popular. Por seu
potencial como ferramenta de comunicação, temos o plano de estabelecer
conjuntamente com os companheiros um centro de capacitação radiofônica
dentro do CSL-RFM.


T.R.: Quem é Ricardo Flores Magón e porque foi escolhido o seu nome?

CSL-RFM: Foi um indígena de Oaxaca, um anarquista que participou na luta,
junto com milhares de mexicanos e estrangeiros, por uma autêntica
transformação no México por meio da revolução social no começo do século
XX, durante a fracassada Revolução Mexicana. Para nós, Ricardo Flores
Magón representa um espírito ético, lúcido, rebelde e indomável, enraizado
na cultura comunal indígena, que influenciou de maneira determinante uma
das maiores epopéias insurgentes do povo mexicano para alcançar sua
liberdade. Sua atitude é a que inspira atualmente nossa militância
anarquista, em tempos onde a exploração evoluiu, mudando de cara e de
fachada, mas continua subjugando sem misericórdia nossos povos. Ricardo
Flores Magón lutou até sua morte nas mãos do governo dos EUA; teve uma
militância múltipla e inesgotável, foi um escritor prolífero e conspirador
contra o Estado mexicano, possuiu, para seu tempo, uma grande clareza de
ações e de idéias. Ter escolhido seu nome para o Centro Social foi também
para prestar uma homenagem simbólica aos combatentes libertários que o
acompanharam, os quais são conhecidos como magonistas.


T.L.: Quais são os problemas enfrentados pelo CSL-RFM: dinheiro, repressão
policial, ...?

CSL-RFM: Estamos limitados economicamente, o que restringe ou torna mais
lento o desenvolvimento dos projetos. Também não contamos com um espaço
próprio, o que sempre deixa a incerteza sobre o que ocorrerá nos próximos
anos. Sobre a questão policial, até o momento não houve nenhuma
intervenção direta, apenas o acompanhamento de agentes vestidos de civis
que costumam aparecer rondando os eventos, mas não somos ingênuos, sabemos
que conforme for crescendo o CSL-RFM e o movimento libertário em geral
começar a ter uma presença mais determinante na luta social, a repressão
do Estado irá aumentar. Atualmente, vários companheiros que freqüentavam e
eram próximos do CSL-RFM estão presos na prisão de Santiaguito, por razão
dos sucessos de Atenco.


T.L.: Quais são os projetos do CSL-RFM a curto e longo prazo?

CSL-RFM: Em curto prazo estamos dedicados a melhorar os projetos que
iniciamos até o momento: Editora Cultura Libre, jornal Autonomía,
Biblioteca de Crítica y Alternativas Radicales, Cine Clube Jean Vigo e
livraria Praxedis Guerrero. Em médio prazo estão os outros projetos que
comentávamos: o centro de capacitação radiofônica e a aquisição de uma
imprensa, o que esperamos conseguir juntando recursos com vários
coletivos. Também estamos trabalhando para impulsionar uma rede de espaços
anarquistas em centros libertários no país. Relacionado com essa
iniciativa está o projeto de alguns membros do CSL-RFM de criar uma
oficina de construção para a aquisição, adaptação e melhoria desses
“bebedores” de anarquia. Outra tarefa para o CSL-RFM é ser um
impulsionador no desenvolvimento da Alianza Magonista Zapatista na Cidade
do México.


T.L.: Quais são os êxitos que o CSL-RFM considera ter obtido?

CSL-RFM: Achamos que o principal foi o de estabelecer uma pequena base,
contribuir com um pequeno suporte, dos muitos que se necessitam, para
renovar o desenvolvimento do anarquismo no México, após décadas de
paralisação. Nesse momento o CSL-RFM está se tornando um espaço que
contribui para o reencontro e organização de uma parte significativa da
comunidade libertária na Cidade do México. Também, pouco a pouco, o
projeto está dando sua contribuição para obter uma maior projeção social
do anarquismo, estreitando os vínculos e fomentando as relações entre os
anarquistas com companheiros de diversas lutas de resistência e de
diversos setores sociais.


T.L.: Quais são suas relações, primeiramente com o movimento libertário
mexicano e com a esquerda radical mexicana de maneira geral?

CSL-RFM: Temos relações muito boas com muitos dos companheiros que
participam no movimento libertário, principalmente na parte central do
México. Existe, por todo país, uma grande quantidade de grupos
libertários, alguns têm vários anos de militância. No entanto, a maioria
tem pouco tempo de criação e é composta por gente jovem. Alguns deles se
dissolvem e se reintegram em pouco tempo com novos nomes, integrantes e
iniciativas. Os companheiros de gerações anteriores mantiveram um longo
período de isolamento e incomunicação com os novos companheiros. Nesse
momento estamos reconstruindo os laços pouco a pouco. No CSL-RFM tivemos
participações muito valiosas, por exemplo, com antigos integrantes da
extinta Federación Anarquista de México (FAM). Como em qualquer lugar,
também existem muitas formas diferentes de assumir a anarquia. No CSL-RFM,
fomentamos a estratégia de priorizar a coexistência, o respeito da
autonomia das pessoas e dos coletivos, a discussão franca, aberta e
fraternal; evitando rumores, desqualificações, as sabotagens internas, no
que, muitas vezes, lamentavelmente, caem os anarquistas. Com respeito à
esquerda radical mexicana, esta é muito complexa, está formada desde
tradicionais – e ortodoxos – partidos políticos de todas as vertentes
autoritárias, passando por organizações representativas de cada setor
social, até grupos guerrilheiros que têm presença, sobretudo, no sul do
México. Grande parte dessa esquerda possui vários vícios em suas práticas:
protagonismo, oportunismo, sectarismo, etc. (Dos quais alguns anarquistas
não escapam). Existe, porém, um setor mais burocratizado e autoritário com
o antigo e característico menosprezo a qualquer presença do anarquismo
organizado. O CSL-RFM, por ser um projeto recente, só participou de alguns
espaços e atividades de conjunturas recentes, onde converge grande parte
da esquerda radical como em La Otra Campaña, a solidariedade a Atenco e a
rebelião social que se vive em Oaxaca. Nesses espaços há uma convivência
com todas as tendências, o que nos levou a protagonizar diferenças em
várias ocasiões, e também, a começar a nos vincular de maneira crescente
com setores com os quais mais concordamos, os quais, como nós, buscam
outra forma de estabelecer relações e alianças, desenvolvendo estratégias
de resistência frente ao autoritarismo do Estado, mas também, da própria
esquerda radical.


T.L.: E com o movimento libertário internacional?

CSL-RFM: Nossas relações são principalmente com organizações e
companheiros da América Latina, a parte chicana/mexicana dos Estados
Unidos e o Estado espanhol. Algumas são: na Venezuela, a Comisión de
Relaciones Anarquistas e El Libertario, com eles tivemos a oportunidade de
assistir o Fórum Social Alternativo; no Brasil mantemos contato com Terra
Livre, a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), entre outras
organizações, neste país tivemos uma participação simbólica na recente 1ª
Feira do Livro Anarquista de São Paulo; no Peru mantemos intercâmbios com
o jornal Desobediencia e no Uruguai com a Fundación de Estudios
Libertarios Flores Magón e o jornal Barricada. Na Europa principalmente
com companheiros do Estado espanhol, da Itália recebemos em uma ocasião o
apoio da Editora Eleuthera e o Centro de Estudios Libertarios Giuseppe
Pinelli, na Alemanha temos intercâmbios com a Cooperativa Café Libertad de
Hamburgo e na França mantemos contato com o Grupo de Apoio aos Libertários
e Sindicalistas Independentes de Cuba (GALSIC).


T.L.: Quais são as organizações e movimentos com quem trabalha e com quem
atua o CSL-RFM?

CSL-RFM: Desenvolvemos nosso principal trabalho com duas organizações
indígenas no sul do México: Organizaciones Indias por los Derechos Humanos
em Oaxaca (OIDHO) e o Comité Defensa de los Derechos Indígenas de Xanica
(CODEDI); com eles integramos a Alianza Magonista Zapatista. Esta aliança,
que construímos ao longo dos últimos cinco anos, é fruto de uma profunda
relação, a qual tem se baseado na solidariedade diante da repressão do
Estado, mas também no conhecimento mútuo de nossos valores, princípios e
formas de trabalho, sonhos e aspirações. Esperamos crescer, no que diz
respeito à profundidade teórica, capacidade prática e número de
organizações, comunidades e companheiros participantes; para se converter
em uma entidade propulsora de uma proposta política e social que agrupe e
complemente o que é para nós alguns dos pensamentos mais coerentes e
avançados para uma genuína transformação social no México: o zapatismo, o
magonismo e o anarquismo.


T.L.: No México, algumas organizações, em particular em Oaxaca (CIPO-RFM,
COMPA...), reivindicam também a figura de Ricardo Flores Magón. O que
vocês acham disso e quais são suas relações com eles?

CSL-RFM: A presença simbólica de Ricardo Flores Magón é muito grande em
Oaxaca, lugar onde nasceu, logo, é de se esperar a reivindicação de
Ricardo Flores Magón por diversas organizações sociais, comunidades e
inclusive setores governamentais. Cada uma o faz com seus fins específicos
e de acordo com seus interesses. Assim, por exemplo, o governo omite
deliberadamente qualquer relação de Ricardo Flores Magón com o anarquismo,
considerando inclusive essa afirmação um insulto; prestam-lhe homenagem
como herói patriótico da Revolução Mexicana. A esquerda autoritária o
reivindica como exemplo de caráter para a luta, de determinação e
sacrifício para acabar com o capitalismo; eliminam, por meio do
esquecimento, a postura libertária que o caracterizou em seus pensamentos
e ações. Na Coordinadora Magonista Popular Antineoliberal (COMPA)
participam nossos companheiros da OIDHO e CODEDI, que reivindicam
profundamente o pensamento magonista, estabelecendo uma aliança com
organizações sociais importantes e conseqüentes que, no entanto, não são
magonistas. A COMPA é uma aliança de organizações sociais e indígenas que
conseguiu agrupar magonistas e organizações que reivindicam o que eles
chamam de poder popular – daí o nome magonista e popular – que possuem uma
presença importante na resistência política no estado de Oaxaca. No caso
do Consejo Indigena Popular de Oaxaca (CIPO) atual – porque há anos o
CIPO, que desapareceu, era um conselho de organizações similar à COMPA –,
eles mantêm uma reivindicação pragmática da figura de Ricardo Flores Magón
e do termo magonismo. Há anos apoiamos o caminhar do CIPO original com
oficinas e transmissores de rádio. Depois que este se dividiu, decidimos
acompanhar o caminhar das organizações indígenas de OIDHO e CODEDI – que
eram parte da CIPO –, com as quais agora integramos a Alianza Magonista
Zapatista (AMZ). Respeitamos o trabalho do CIPO atual, mas não concordamos
com sua prática política. Nós e os companheiros da AMZ, não pretendemos
defender o “autêntico” magonismo, mas sim levar à prática um ideal que
implica em si mesmo uma imprescindível ética política. Dar vida ao ideal
magonista de anticapitalismo, comunalismo, autonomia, autogestão e
organização revolucionária mediante o princípio da honestidade.


T.L.: Como vocês vêm o movimento libertário mexicano atual e quais são
suas perspectivas (desenvolvimento, ...)?

CSL-RFM: O movimento anarquista está crescendo em quantidade de coletivos,
projetos e gente envolvida em todo território. Há fortes perspectivas de
desenvolvimento e um longo caminho por caminhar. O debate libertário ainda
é limitado, também são muito estreitas as capacidades de comunicação,
coordenação e cooperação entre os libertários mexicanos. Algo que achamos
imprescindível para avançar é a necessidade de aceitação e lidar
positivamente com nossas diferenças. Nas últimas décadas a tendência
anarcopunk foi mais visível na cena local. Hoje acreditamos que seguem
sendo uma parte importante, mas existe maior diversidade de correntes de
pensamento anarquista nos novos grupos que estão aparecendo e que têm,
apesar de serem novos, maior consciência e compromisso. O panorama que se
aproxima no México é de uma decomposição atroz do sistema político
parlamentar, com a ultra-direita agarrando-se ao poder a qualquer custo e
implementando as práticas repressivas que a caracterizam. Diante desse
futuro, existe a concordância entre os anarquistas da necessidade da
organização, tanto para resistir à repressão, como para influenciar com
nossa proposta os setores do povo que estarão em luta pela transformação
do sistema nas próximas décadas. Um objetivo que se está apresentando
insistentemente nos encontros e nos espaços anarquistas é o de voltar a
criar uma federação anarquista no México. Para o que é mais imediato, em
breve teremos um encontro anarquista de nível nacional, o qual, esperamos,
será de importância fundamental para poder avançar na organização do
movimento libertário e para o qual estamos preparando um trabalho prévio
por regiões.


T.L.: Como vocês analisam a Sexta declaração do EZLN e como se situam
dentro desse movimento promovido pelos zapatistas? O CSL-RFM participa?

CSL-RFM: Assinamos como Colectivo Autónomo Magonista a Sexta Declaração da
Selva Lacandona. Quando os companheiros do EZLN a publicaram, vimos nela
uma proposta conveniente e necessária para unir todas as resistências
anticapitalistas em busca de encontrar “outra forma de fazer política” e
alcançar um programa comum de luta, respeitando a autonomia de cada
organização e pessoa participante. A Otra Campaña foi outra grande
iniciativa ao propor-se a correr o país inteiro para dar voz e ligar todas
as lutas do território. No entanto, os resultados até o momento têm certos
limites por razões internas e externas. Entre as internas a principal é
que a intenção de criar “outra forma de fazer política” não foi praticada
pela maioria dos participantes. Essa é uma parte medular que se não for
valorizada em sua importância irá se converter no principal obstáculo.
“Outra forma de fazer política” para nós, implica muito do que o
anarquismo tem proposto há muitos anos: autonomia, democracia direta,
assembleísmo, horizontalidade, negação das vanguardas, busca do consenso,
rotatividade e revogação dos delegados, socialização dos saberes e
capacidades, respeito às minorias, e, em geral, uma ética na prática
política. Infelizmente seguem prevalecendo no interior da Otra Campaña
todos os velhos vícios da esquerda. Conjuntamente com tudo isso, entre os
fatores externos, encontra-se um panorama político adverso com a
social-democracia representada pelo Partido de la Revolución Democrática
(PRD) que conseguiu aglutinar massivamente amplos setores marginais e de
classe média, e que se assume como representante da esquerda no México.
Têm conduzido suas ações do âmbito eleitoral a uma controlada Convención
Nacional Democrática (CND) após a fraude eleitoral da direita nas eleições
presidenciais de julho passado, com um discurso baseado na resistência
civil pacífica, mediatizando e regulando sua luta pela orientação do
partido. Existe neles um forte ressentimento contra os zapatistas e a Otra
Campaña, já que nos julgam como um fator determinante de sua derrota
frente à direita, o que nos parece absurdo. O pior é que transmitiram esse
sentimento às suas bases. Em breve serão os trabalhos para elaborar o
Plano Nacional de Lutas e debater sobre a nova constituição proposta pela
Sexta Declaração zapatista, que, certamente já é também uma bandeira
política do PRD. Esperamos superar os erros, caso contrário podemos
fracassar, o que seria muito lamentável diante do panorama político do
México nos próximos anos.


T.L.: Há algo a ser acrescentado? Uma mensagem aos companheiros da Europa?

CSL-RFM: Acreditamos que é necessário fomentar o conhecimento das
experiências libertárias nas diversas partes do mundo, e sempre é
enriquecedor saber o que pensam e realizam os anarquistas em contextos e
situações diferentes, mas, para além disso, sentimos a urgência de
vincular internacionalmente as comunidades libertárias para que o
movimento volte a ter a influência social que almejamos frente o enorme
desafio que representa viver nesses tempos. Também por isso estamos muito
interessados em aproximar relações com companheiros por meio de
intercâmbios de publicações, participação em encontros e atividades
coordenadas, e o que nossa imaginação puder criar, em geral. Para
finalizar, apenas nos resta mandar-lhes um fraternal abraço libertário e
agradecer pela entrevista.


Para entrar em contato com o Centro Social Libertário - Ricardo Flores Magón

Horários de atendimento: de quarta a sexta-feira das 17 às 20h
Localização: Cerrada de Londres n. 14, interior 1, Colonia Juaréz,
Delegación Cuauhtémoc, México D.F., a alguns passos do metrô Sevilla.
Endereço postal: Cultura Libre de Servicios Educativos y Culturales, A.P.
6-664 C.P., 06200
México, D.F.

Informações e contatos:
csl_rfm  yahoo.com.mx e camadf  yahoo.com.mx
www.espora.org/cama


* Traduzido por Geraldo Alves





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