(pt) PARA UMA ESTRATÉGIA ANARCO-SINDICALISTA EM ÁFRICA[en, it]

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Sábado, 5 de Janeiro de 2008 - 20:35:01 CET


[de Anarkismo.net]
Jonathan - ZACF
O presente artigo debruça-se sobre as possibilidades e oportunidades para
espalhar as ideias anarquistas em África através da intervenção de
anarquistas e anarco-sindicalistas de fora, pela construção de
solidariedade no terreno e de apoio apara os sindicatos africanos e para
outros movimentos dos trabalhadores e dos pobres.

Ele foca alguns factores que devem ser tidos em consideração quando se
empreende, e algumas sugestões acerca do desenvolvimento de uma estratégia
anarco-sindicalista para África.
Entre 28 de Abril e o 1º de Maio de 2007 cerca de 250 militantes dos cinco
continentes reuniram-se em Paris, França, para a Conferência Sindicalista
Internacional i07, na sequência das Conferências Sindicalistas de San
Francisco UEA, de 1999 designada por i99 e da que foi realizada em Essen,
Alemanha em 2002, designada i02.

Os objectivos dos encontros eram os de partilhar experiências, debater e
iniciar a reconstrução de laços entre várias organizações e unir
trabalhadores de diferentes países, para adequar os meios de informação,
luta e acção, na organização da solidariedade internacional contra a
exploração e domínio capitalistas. O fim de semana incluiu discussões,
oficinas e debates relativos a questões sindicais (cooperativas,
repressão, representatividade, União Europeia, trabalho precário ou
informal, e  as deslocalizações
) assim como questões sociais
(anti-sexismo, campanha contra a Coca-Cola, trabalhadores migrantes,
antifascismo, lutas por casa, anti-imperialismo e neo-colonialismo ...).
Encontros sectoriais (metalurgia, educação, construção, correios, saúde,
cultura, arqueologia
) e encontros destinados a regiões geográficas
(Palestina, Europa, as Américas, Africa, zona Mediterrânea) também tiveram
lugar. A conferência acabou com um bloco
anarquista/anarco-sindicalista/sindicalista de cerca de 5 000
participantes de cada canto do Mundo, na manifestação do 1º de Maio em
Paris.
O que foi particularmente interessante para nós, como referido em detalhe
neste artigo, é que, pela primeira vez, a Conferência Sindicalista
internacional teve uma presença africana significativa, com delegados
representando sindicatos da Algéria (Snapap), Marrocos (UMT, CDT, ANDCN,
camponeses pobres, FDR-UDT), Tunísia (CGTT), Guiné-Conakri (CNTG, CEK,
SLEG), Costa do Marfim (CGT-CI), Djibouti (UDT), Congo DRC (LO), Mali
(Cocidirail, Sytrail), Benim (FNEB, UNSTB, AIPR), Burkina Faso (UGEB,
CGT-B, AEBF) e Madágascar (Fisemare).

As posições políticas das confederações de trabalhadores CGT-B e
estudantes UGEB de Burkina Faso são descritas pela CNT-F como
“sindicalismo de classe, revolucionário, de um ponto de vista marxista”.
De modo análogo, o Fisemare de Madagáscar é descrito como sindicato
independente marxista, enquanto o Snapap argelino é independente mas não
revolucionário, embora seja interessante, pois se opõe ao que era até
agora a única confederação sindical do país, a UGTA. A CNTG guineense é o
maior sindicato do país, filiado na convencional Confederação Sindical
Mundial e obteve uma grande vitória numa greve, este ano. Um representante
do sindicato guineense de estudantes no exílio também esteve presente no
i07 e a CNT-F disse que os membros do Cocidirail e o Sytrail, sindicatos
ferroviários do Mali, filiados na confederação principal do Mali, a UNTM,
são companheiros muito sólidos. O UNSTB no Benin estava ligado ao Estado,
durante o período «socialista» deste país e como resultado é bastante
reformista. Existe também um sindicato «bastante insólito» da RD do Congo,
Lutte Ouvrière, que a CNT-F precisa ver no terreno para avaliar
correctamente a sua linha. Os congoleses têm, porém, conexões no seu sítio
Internet à CNT-F e às confederações CGT de Espanha e SAC Sueca. A
CGT-Liberté e o sindicato do sector público CSP dos Camarões, não puderam
participar, por causa de problemas com o visto, mas são muito
interessantes, segundo a CNT-F.

Como se pode ver pelos delegados dos sindicatos africanos presentes,
inteiramente pagos pela CNT, pareciam ser oriundos de sindicatos
independentes e radicais influenciados pelo marxismo e é interessante
saber-se o que os terá atraído a participar numa conferência
anarco-sindicalista e o que significa isso para a difusão das ideias
socialistas libertárias na Africa. Alguém me disse que estes africanos
vieram porque a CNT queria mostrar-se capaz de organizar um grande
acontecimento, convidando organizações africanas mas que, caso estas
fossem europeias, teriam muito mais cuidado em convidar. Eu não penso, no
entanto, que isto seja verdade, que a CNT tenha feito isto por exibição;
aliás, é crucialmente importante para militantes de uma tradição
socialista libertaria se relacionarem com organizadores africanos, mesmo
se oriundos de uma tradição socialista autoritária (marxista ou outra).
Isto porque se deve considerar o contexto em que sua identidade política
se desenvolveu, tendo presente que existe pouca tradição socialista
libertaria em Africa, no seu conjunto, sendo que muitas tendências de
esquerda foram atraídas pelos modelos autoritários / estatistas de
socialismo, pelas ideias marxistas ou dum «socialismo africano» como o
praticado, nomeadamente, pela Tanzânia, explicitamente anti-marxista.
Estas eram, afinal, as correntes a que a maior parte teve acesso.

É também importante ter presente que o «socialismo africano» foi
experimentado e decepcionou e que os da esquerda radical em África podem
ter ficado desiludidos com a o socialismo de estado e estarem à procura de
alternativas. Talvez tenha sido isto que atraiu os delegados de África ao
i07? Talvez eles se sintam tão isolados e em situação tão desesperada que
os activistas, embora de orientação estatista, estejam na disposição de
experimentar qualquer coisa para obter algum apoio da comunidade
internacional. Ou talvez, como foi o caso do delegado do Burkina Faso,
estivessem presentes apenas para aprender.
Independentemente das motivações, foi uma estratégia coerente da CNT-F,
estabelecer contacto com estes grupos, visto que isso facilita um diálogo
sobre formas de organização, visões do tipo de sociedade que pretendemos e
permite a criação de lutas solidárias entre grupos, nos chamados terceiro
e primeiro mundos. Esperemos que estes delegados vindos de África tenham
aprendido algo e tenham ficado inspirados pelos movimentos
anarco-sindicalista e sindicalista revolucionário que encontraram. Estou
convencido que a CNT-F tomou uma iniciativa que eu adoraria ver retomada
por outros agrupamentos anarquistas e anarco-sindicalistas mais fortes,
com capacidade para o fazer, dos países ex-coloniais.
Há também, uma iniciativa semelhante ao i07, a «Conferência Internacional
Europa -Magreb de Coordenação do Sindicalismo de base e social» que será
organizada pela CGT de Espanha, em Málaga, a 28, 29 e 30 de Setembro 2007
[*]. De acordo com a CGT, “uma rede de relações, informações e acções
solidárias tem sido desenvolvida entre organizações das costas norte e sul
do Mediterrâneo
” e tais encontros terão como “objectivo de se oporem à
presente política neoliberal [
] O principal objective não é partilhar
longas exposições sobre diversos problemas, mas realizar um consenso para
estabelecer alguns acordos mínimos que nos permitam desenvolver acções de
uma forma que mostre uma clara e organizada resposta ao neoliberalismo”.

A influência do marxismo e da União Soviética está a esbater-se na
história, e como resultado disso, existe um vazio de ideias na esquerda
africana. Neste tempo é crucial para os anarquistas de entrar em cena e de
tentar preencher este vácuo, numa ocasião em que as pessoas possam estar a
procurar alternativas e possam estar abertas a ideias socialistas
libertárias. Os anarquistas não deveriam ser sectários em relação à sua
militância junto com a esquerda Africana em geral, pois – sem dúvida - se
falharmos de tomar a iniciativa e de avançar as ideias socialistas
libertárias e mais especificamente, uma alternativa comunista anarquista,
os maiores e mais bem organizados socialistas autoritários irão certamente
aproveitar a ocasião para fornecer apoio material e ideológico aos
sindicatos africanos, aos movimentos sociais e anti-globalização que,
frequentemente, estão desapoiados e por não serem educados sobre os
defeitos do socialismo estatista, irão aceitar qualquer apoio que consigam
obter.

Se, no entanto, os grupos anarquistas e anarco-sindicalistas do
estrangeiro vão tentar desenvolver contactos com sindicatos em África, e
procurarem disseminar as tácticas e ideias anarquistas e
anarco-sindicalistas, eles precisam de uma estratégia para o fazerem. Um
ponto chave a ter em conta, porém, quando se adopta esta estratégia, é que
todo o esforço se deve concentrar em tomar contacto com os trabalhadores
de base, não com os burocratas sindicais, ou tentar que os líderes
sindicais disseminem as informações e ideias que recebam de anarquistas do
estrangeiro, junto das bases. Deveria haver um compromisso da sua parte de
persistência e de paciência ao construírem tais redes. Seria também de
aconselhar que fossem enviados delegados para África para tomar contacto
directo com organizadores africanos de forma a avaliar o impacto de suas
tentativas, ajustar e rever estratégias quando necessário e medir a
adequação da disseminação dos seus materiais, através de líderes sindicais
ou de contactos pessoais, junto das bases.
Outro ponto digno de nota é que – dado o fraco tamanho da classe operária
africana, os níveis elevados de desemprego e uma escassez relativa de
industrialização – a intervenção anarquista do estrangeiro em combates
laborais e o cultivar de tendências anarco-sindicalistas apenas na África,
não serão suficientes para ajudar a espalhar o anarquismo no continente;
deveria ser tomada atenção especial às lutas que têm lugar ao nível das
comunidades. Em ordem a espalhar eficazmente suas ideias por todo o
continente, anarquistas e anarco-sindicalistas não deveriam confinar-se a
lutas laborais mas antes encontrar maneiras de participar e apoiar as
lutas sociais e comunitárias e também encorajar trabalhadores
influenciados pelas ideias anarco-sindicalistas a transportarem essas
ideias junto das suas comunidades e a organizarem-se aí também.
A CNT-F já fez avançar significativamente o debate socialista libertário
sobre África, com a publicação do jornal irmão de Zabalaza [da ZACF, em
inglês], o jornal em francês Afrique XXI, e tenho esperança de esta
publicação tenha uma circulação significativa em África e não se confine à
comunidade africana francófona de imigrantes na Europa (embora a sua
circulação aí também sirva para espalhar as ideias socialistas libertárias
entre os imigrantes africanos na Europa, os quais, por sua vez, poderiam
divulgar essas ideias nos seus países de origem). Deve-se ter em conta que
este jornal não é feito apenas pela CNT-F e que há também alguns grupos e
organizações que não vêm de tradição libertária, o que poderá diluir, até
certo ponto, a sua mensagem mas, por outro lado, assegura um público
leitor mais vasto que aquele que um jornal puramente anarquista poderia
alcançar.
Dada a escassez de tradições socio-políticas socialistas libertárias em
África, as quais se confinam sobretudo à parte do Norte e do Sul de
África, e seu pequeno e pouco espalhado movimento anarquista, o apoio e
intervenção de anarquistas vindos de regiões com tradições anarquistas
mais desenvolvidas é vital para o alastrar da ideia anarquista no
continente. Em particular, os anarquistas das antigas potências coloniais
(que têm a vantagem de laços linguísticos e culturais com África). Também
a partilha de experiências de luta e métodos de organização anarquista
perante condições socio-económicas semelhantes, tais como na América
Latina e noutras partes do mundo em desenvolvimento, seriam benéficas.
Para este objectivo, devemos ter em consideração os seguintes pontos:
1. Como podem os anarquistas do estrangeiro trabalhar com e apoiar os
grupos anarquistas existentes e indivíduos em África?
2. Como podem estabelecer e manter contactos com sindicatos africanos,
movimentos sociais e grupos de esquerda?
3. Qual a ordem de prioridades em relação ao seguinte: espalhar a
consciência anarquista; apoiar as lutas em curso (materialmente,
ideologicamente ou por acções solidárias); ou contrariar tradições
autoritárias?
4. Como podem tomar parte em campanhas internacionais conjuntas envolvendo
grupos africanos?
5. Como podem mostrar solidariedade prática com as lutas de classe em África?
6. Como podem trabalhar para que campanhas de objective único e
reformistas se transformem em movimentos revolucionários e promovam uma
democracia horizontal, igualitária e participativa?

Quando se relacionando com sindicatos e procurando favorecer a afirmação
de uma presença anarco-sindicalista no continente, é sensato evitar ou pôr
de lado as lutas sectárias internas que têm apenas enfraquecido vários
sectores do movimento. No debate antigo sobre se os anarquistas deveriam
organizar-se a partir de dentro dos sindicatos existentes ou trabalharem
lado a lado com os sindicatos existentes e provavelmente reformistas, o
que deveria ser evitado no contexto africano seria a linha “purista” (que
argumenta contra a organização no interior), a qual não funciona, a não
ser em circunstâncias muito particulares, que não estão reunidas
presentemente em África. A dura realidade em África é que a posição
purista que tenta estabelecer sindicatos novos, especificamente
anarquistas, irá provavelmente falhar – até ao momento em que exista um
crescimento significativo no movimento anarquista africano, propriamente
dito. Até essa altura, as novas formações anarco-sindicalistas
provavelmente ficariam isoladas, insignificantes do ponto de vista
numérico e estratégico – senão mesmo totalmente irrelevantes.
Em conclusão, há duas opções possíveis que poderão ajudar na expansão das
ideias e métodos do anarco-sindicalismo em África. A primeira é dos
anarquistas baseados em África fazerem trabalho anarco-sindicalista quer
nos sindicatos actuais ou, numa fase posterior, tentando erguer novos
sindicatos em moldes anarco-sindicalistas a partir do zero. A segunda
opção, a mais viável, devido ao número insignificante de anarquistas
organizados em África e a sua fraca capacidade relativa – é dos
anarquistas e anarco-sindicalistas do estrangeiro colaborarem e
participarem no estabelecimento de contactos e de construir solidariedades
práticas com quaisquer sindicatos africanos existentes – de preferência
independentes e revolucionários onde seja possível.
http://www.zabalaza.net
[*] Nota do tradutor: este encontro realizou-se e o seu resultado foi
noticiado nas páginas electrónicas do Luta Social:
http://www.luta-social.org/2007/10/concluses-do-encontro-de-mlaga.html




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