(pt) [Israel] Uri Gordon: “Não serviria em nenhum exército de nenhum país”

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Segunda-Feira, 1 de Dezembro de 2008 - 19:16:37 CET


Uri Gordon: “Não serviria em nenhum exército de nenhum país”
[O autor de “Anarquia Viva!” diz que o desastre econômico é um sinal de
que o capitalismo alcançou seus limites e explica por que ele não votará
ou servirá qualquer exército. A entrevista a seguir foi feita por David B.
Green, da Revista israelense Haaretz, em princípios de novembro de 2008.]

No telefone Uri Gordon não parece como se estivesse pensando com
satisfação, mas para um anarquista tal como ele, os desenvolvimentos
econômicos que estão sacudindo a terra nas últimas seis semanas há de ter
fornecido alguma satisfação. Afinal de contas, o/as anarquistas atuais
estão seguros com relação aos falsos-encabeçamentos do sistema moderno
capitalista, com sua inevitável marcha para a grande concentração da
riqueza mundial nas mãos de poucos. A maioria também vê a necessidade de
uma mudança radical nas relações humanas com o meio-ambiente, um
entendimento que parece ter sido adotado por, ao menos, muitos do Ocidente
nos meses recentes, já que os efeitos do colapso do petróleo e a mudança
climática se tornaram sensíveis.
Gordon, de 32 anos, é o autor do livro “Anarquia Viva!: Políticas
Anti-Autoritárias da Prática à Teoria” (Pluto Press, 183 páginas, 26.95$),
uma análise um tanto intelectual do anarquismo contemporâneo. Crescido em
Haifa, Gordon recebeu seu doutorado em teoria política da Universidade de
Oxford em 2005; sua tese serviu como base para o livro. Mas assim como
descreve na introdução do livro, ele chegou ao Reino Unido no outono de
2000, após os movimentos anti-globalização terem começado a trazer dezenas
de milhares de pessoas para suas demonstrações, e pouco antes dos grandes
protestos na Europa contra a iminente invasão dos aliados no Iraque. Ele
logo se encontrou passando o tempo tanto nas barricadas como nas
livrarias. Gordon resolveu o conflito aparente, ele escreve, quando
percebeu que “podia facilmente construir meu ativismo como um campo de
trabalho, e de fato encaixar meu trabalho acadêmico juntamente às
necessidades do/as ativistas”.
“Anarquia Viva!” lida com a maioria das grandes questões que leitore/as
curioso/as talvez tenham sobre o movimento: sua conexão ao anarquismo
revolucionário violento do começo do Século XX, e a visão dos anarquistas
atuais sobre violência; a atitude do/as anarquistas para com a tecnologia
e às questões ecológicas; e porque tantos dos manifestantes contra as
barreiras de separação israelense da Cisjordânia parecem ser anarquistas –
parte de uma discussão geral do anarquismo e da questão Israel/Palestina.
Gordon descreve o conceito integral aos anarquistas de “ação
prefigurativa”, no qual, em termos simplistas, significa que ele/as não
estão esperando por uma revolução para daí começarem a viver de acordo com
suas idéias. Desde que um outro princípio fundamental do movimento é a
necessidade da descentralização de todos os aspectos da vida, faz-se então
perfeito sentido que muito/as anarquistas vivam em pequenas comunidades, e
tentem alcançar um nível de sustentabilidade. Gordon, por exemplo, é um
residente do Kibbutz Lotan, localizado acima da estrada que vem de Ketura,
onde ele leciona política e ética no Instituto para Estudos Ambientais de
Arava. (Ele tem também contribuído com muitos artigos sobre o tema
ambiental para a Edição Inglesa da Haaretz). Ele falou conosco de lá.
Q: O que aconteceu para você se tornar um anarquista?
A: Eu cresci em uma família esquerdista, embora meus pais não fossem
politicamente ativos. Eu fiz meu serviço militar no Galei Tzahal, e fiz
reportagens da Cisjordânia durante 1996 a 1997, cobrindo a transferências
de tropas das cidades. Fiquei interessado nas questões ambientais após
minha liberdade, quando peguei um livro, “Nossa Terra Zangada”, escrito
por Isaac Asimov e Frederick Pohl. Isto me ajudou a perceber que esta
seria a questão definitiva do século vindouro. Comecei a estudar política
e economia na Universidade de Tel-Aviv, procurando por questões ambientais
dentro de uma perspectiva filosófica e econômica; também me envolvi com
grupos como o Ação Verde, assim como na luta contra a Rodovia
Trans-Israel. Ficou claro para mim que a exploração da natureza pelos
humanos está intimamente conectada com a exploração dos humanos pelos
humanos.
Q: Como você resumiria os princípios básicos das idéias anarquistas?
A: Objetamos à centralização do poder, às estruturas hierárquicas na
sociedade e à instituição do Estado. Opomo-nos ao capitalismo e às classes
sociais, ao sistema escolar designado a produzir cidadão/ãs e
trabalhadore/as obedientes, e a maioria das formas de religiões
organizadas. Acreditamos em formas horizontais de organização, na
associação voluntária e no apoio mútuo, e acreditamos que as decisões
devem ser feitas em níveis menores ou mais locais possíveis.
Q: Isto significa que você não irá votar na iminente eleição em Israel, ou
não serviria nenhum exército hoje?
A: Provavelmente não votarei. Em princípio não quero dar meu consentimento
para ser governado, nem minha aquiescência para um sistema por meio do
qual temos que escolher quem nos intimida. As eleições dão às pessoas a
ilusão de uma participação democrática, mas assim como a famosa anarquista
judia, Emma Goldman, disse: se o voto mudasse alguma coisa, eles tornariam
isso ilegal. E não, não serviria em nenhum exército de nenhum país. Se
todo mundo fosse anarquista, não haveria exércitos e não haveria guerras.
Q: Parece que você está ignorando as características básicas da natureza
humana. Dada a escolha, as sociedades – até os kibbutz – parecem preferir
o capitalismo, desigual assim com talvez ele seja. E os humanos também
parecem ser naturalmente agressivos, não?
A: Não concordo. Se você pergunta para as pessoas se elas querem receber
ordens ou querem fazer suas próprias coisas, se querem competir ou
cooperar – acho que se elas tivessem a escolha de pensar sobre isso, ao
invés de serem doutrinadas por uma sociedade baseada na competição e na
hierarquia, elas escolheriam a cooperação. Anarquistas sempre dizem que
suas formas de organização não são novas. A maioria das relações humanas
são naturalmente horizontais e cooperativas. Há uma diferença entre ordem
e hierarquia. A anarquia também é uma forma de ordem, mas baseada no
acordo, ao invés do comando. São regras de acordo ao invés de leis
impostas que protegem os privilegiados.
Q: Mas dê somente uma olhada na maneira como as pessoas se comportam em
Israel, dirigindo – e estacionando – como se não existisse nenhuma outra
pessoa nas ruas.
A: As pessoas se comportam da maneira que elas fazem por causa de suas
culturas e suas expectativas mútuas. Não é nem um pouco surpreendente que
em uma cultura que nos educa para competir uns com os outros e ainda
comandar ou obedecer, você encontre pessoas tentando abrir seu caminho e
fazer o máximo que puderem em seu próprio benefício. O anarquismo também
faz um chamado para uma revolução na consciência e na cultura, uma que
permitirá rédeas livres aos instintos sociais humanos, ao apoio mútuo.
Q: Tudo isso soa muito bem, mas o que aconteceria se todo mundo realmente
fosse anarquista? Teríamos instituições como hospitais, universidades, ou
até mesmo linhas aéreas?
A: Economias centralizadas não são as únicas formas de organizar a
produção e o serviço. Em um sistema anarquista, qualquer forma de
atividade produtiva seria possuída e conduzida diretamente pelo/as
trabalhadore/as, ao invés dos patrões privados e do Estado. A produção
seria para a necessidade, não para o lucro. Os esforços do/as vário/as
trabalhadore/as se coordenariam entre si para a execução de qualquer
tarefa de larga escala. A idéia básica é essa, se você deixar as pessoas
agirem por conta própria, elas se organizarão muito bem, e aquelas formas
de organização de cima para baixo, centralizadas, são oportunas para
manter existentes os sistemas de privilégio e dominação. Olhe para a
Catalunha, durante os estágios mais altos da Revolução Espanhola, em 1936.
Havia um sistema anarquista bem formado. O/as camponese/as tinham a posse
das terras, trabalhadore/as dos bondes administravam os bondes, e tudo
funcionava – e isto foi no meio de uma guerra civil. Os kibbutz originais
também eram anárquicos, mesmo embora eles não chamem a si mesmos como
tais. Em Degania, o/as fundadore/as dizem, estamos tentando criar uma
sociedade sem explorado/as e exploradore/as. Queremos democracia direta, a
cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com suas
necessidades.
Q: Você disse que hoje não serviria nenhum exército. Mas e se todo
israelense dissesse isso? – seguramente você não nega que Israel tem
genuínas preocupações de defesa.
A: Penso que a ocupação cria o terrorismo, e não vice-versa. Se todos os
israelenses tivessem a consciência política de recusar o serviço militar,
nós já teríamos chegado a uma situação revolucionária. Isto significaria
que eles todos já teriam derramado seus medos contínuos e artificiais, e
se levantado contra seus exploradores. Em geral, embora, quando as pessoas
discutem política, elas se colocam no lugar do político e imaginam o que
fariam. Mas pessoas, como eu e você, não estão sendo interrogadas para ver
o que pensamos que o Estado deveria fazer. Qualquer acordo que as elites
políticas acabam assinando não será o fim do conflito. Isto é somente o
começo do processo de paz. O que importa neste estágio é construir laços
de solidariedade binacional e cooperação, para ter movimentos populares
que procurem mostrar e manifestar com suas próprias vidas e atos que outro
Oriente Médio é possível. Você não tem que ser um/a anarquista para
concordar que é através das relações diárias que a paz é alcançada. Então
quando meus/minhas amigo/as e eu vamos para os vilarejos do/as
palestino/as nos quais as terras estão sendo confiscadas para a construção
da barreira de segregação, estamos mostrando com nossos próprios corpos
que alguma coisa é mais forte do que a perpétua ameaça sendo projetada por
partidos em todos os lados do espectro político. Mostramos que temos
valores que transcendem todas as formas de separação.
Q: Você vê o desastre econômico como uma vindicação de suas idéias?
A: Penso que a atual crise financeira global é definitivamente uma forte
indicação que o capitalismo está alcançando seus limites, e então estou
convencido de que os vários esforços de “comprar tempo”, neste sentido,
não irão cortá-la. De um lado, estamos alcançando os limites do planeta
finito que vivemos – dos recursos que podemos extrair, e da poluição que
podemos emitir – e de outro lado, um sistema capitalista baseado em
especulações sobre débitos futuros não está mais conseguindo funcionar. O
caminho para a saída não está nos governos socorrendo os bancos, mas sim
nas pessoas começando a criar estruturas populares que são
auto-suficientes, e que permitirão a eles se desprenderem de ambos,
capitalismo e Estado.
Q: Estamos conversando um pouco antes das eleições nos Estados Unidos, mas
me parece que você provavelmente não se importa com quem vai ganhar.
A: Na verdade, quero que Obama ganhe, porque espero que, no momento em que
ele quebrar o coração de todo mundo, as pessoas acordem para o fato de que
não importa se é um fantoche azul ou vermelho que está nas mãos
capitalistas. Ao mesmo tempo, em curto prazo, tivemos oito anos de uma
administração ultra-direitista em Washington, que tem arrastado o mundo
inteiro para uma posição muito má, e um pequeno alívio neste sentido fará
uma diferença nas vidas de muitos americanos, e muitos iraquianos,
esperançosamente, e palestinos e israelenses.
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana




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