(pt) ENTREVISTA DO LUTA SOCIAL COM MILITANTES FRANCESES DOS COMITÉS SYNDICALISTES RÉVOLUTIONAIRES [fr]

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Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008 - 02:57:11 CEST


*Luta Social : Como definis a vossa organização ?*   - Nós
reivindicamo-nos da corrente sindicalista revolucionária histórica. Esta
corrente começou por existir sob forma da Federação das Bolsas do Trabalho
em 1892. Estas Bolsas do Trabalho organizavam as lutas operárias locais numa
base interprofissional. Mas estas estruturas também estavam muito activas
nas estruturas geridas pelos socialistas integradas nas Bolsas do Trabalho :
colocação de trabalhadores  desempregados, sociedades de socorro mútuo
(subsídios de desemprego, de doença, de acidentes de trabalho, de reforma

), cooperativas de produção e de distribuição, centros de saúde, teatros e
actividades culturais, desporto operário, escolas profissionais


A Federação das Bolsas do Trabalho integrou-se, em seguida, na CGT, em 1902.
Desde essa data esta confederação funciona sobre duas bases : as Uniões
Locais (Bolsas do Trabalho) e os sindicatos de indústria.

Em 1914, a corrente SR perdeu a maioria na CGT, o que motivou a criação de
uma tendência SR : os Comités Sindicalistas Revolucionários. Nós
reconstituímos essa tendência em 1997 principalmente no seio da CGT mas
também na Confederação «Solidaires»  (SUD), na CNT e na CGT-FO.

Nós defendemos o programa histórico da CGT resumido na Carta de Amiens.



*Luta Social: Qual é a proporção de jovens, de trabalhadores precários, de
desempregados ?*



A nossa organização está sobretudo activa nas Uniões Locais da CGT e na
juventude. Temos portanto uma forte proporção de camaradas e de
simpatizantes precários (trabalhadores temporários, contratados a prazo,
empregos precários do sector público). Estamos bem mais capazes de organizar
os jovens trabalhadores, visto que defendemos a criação de sindicatos de
indústria que permitam sindicalizar os precários e os trabalhadores das
pequenas empresas.



*Luta Social : Qual é o papel das lutas sindicais e de classe, hoje em dia ?
*



Para nós não se trata de multiplicar as lutas sectoriais mas de favorecer as
convergências interprofissionais. Recusamos os desvios localistas ou
corporativistas, assim como o activismo de tipo esquerdista. O verdadeiro
desafio é de organizar os trabalhadores no seu sindicato a fim de
desenvolver a formação e as capacidades de gestão de um máximo de
trabalhadores. Esta gestão operária prepara as condições para a apropriação
da sociedade pelos sindicatos.

Uma das nossas actividades principais é portanto de garantir a formação dos
sindicalizados, nas confederações onde os nossos militantes têm
responsabilidades neste domínio, mas também enquanto CSR.

Encorajamos igualmente a sindicalização, explicando que o Socialismo se
constrói no quotidiano, criando uma contra sociedade dos trabalhadores, na
vida democrática do sindicato mas também nas actividades de ajuda mútua que
nós animamos (apoio escolar para crianças, alfabetização dos trabalhadores
imigrantes, desporto dos trabalhadores, actividades culturais nas UL
)



*Luta Social : Que estratégias propõem para contrariar a ofensiva do
patronato e do governo ?*



Para contrariar a ofensiva da burguesia é indispensável de preparar as
condições para uma greve geral. Os aparelhos sindicais multiplicam as lutas
sectoriais com o fim de evitar um confronto frontal com o inimigo. Nós
desenvolvemos uma estratégia alternativa, apoiando-nos nas Uniões Locais e
nos sindicatos de indústria para alargar a relação de forças e as
perspectivas da classe.



*Luta Social : Que problemas encontrais para vos fazer compreender dos
trabalhadores ?*

* *

O problema principal continua sendo as lógicas individualistas e
corporativistas presentes no quotidiano do trabalhador. É nas organizações
interprofissionais e de indústria que os trabalhadores compreendem que os
seus problemas não são individuais.

O segundo obstáculo é a delegação de poder, frequentemente mantida pelas
burocracias social-democratas e esquerdistas. É necessário explicar
constantemente o que é o federalismo e a democracia operária e ligar esta
prática com a perspectiva comunista* [*Nota do tradutor : usam o termo
'comunista' no sentido dos fins, de 'sociedade comunista'].

O terceiro problema é o retraimento afinitário. Nos sindicatos
«alternativos» (SUD, FSU, CNT) o discurso ideológico serve como justificação
a pequenas burocracias. A identidade filosófica permite justificar a
cisão  sindical.
Existem, em França, 5 confederações que se reivindicam do sindicalismo de
classe e cada uma mantém a sua identidade com o objectivo de evitar a
unidade de acção. A ausência de Frente Única torna difícil a mobilização mas
também a perspectiva revolucionária que consiste em avançar com o conceito
do sindicato enquanto futuro órgão de gestão socialista.

A desorganização do PCF produziu a desorganização da CGT, cada rede de
militantes se centrando no seu sindicato, sua UL, sua UD (União
Departamental). Também neste caso a rede oriunda do PCF procura demarcar-se
das outras, com o objectivo de proteger o seu pequeno poder.

Infelizmente esta deriva é frequentemente bem acolhida pelos trabalhadores,
sobretudo os jovens. Com efeito, é muito tranquilizador afirmar-se *
«revolucionário»* num sindicato afinitário sem precisar de assumir a
responsabilidade de organizar o confronto com a burguesia. A contestação tem
cada vez mais tendência a deslocar-se para o terreno cultural e filosófico e
a desertar as lutas de classe no terreno social. Este medo de organizar a
batalha de classe justifica-se pelo retraimento no interior dos aparelhos e
sobre a sua afirmação cultural.



*Luta Social: Com que organizações sindicais ou tendências tendes diálogo ?*



Desde a criação do CSR, este propôs constantemente campanhas centradas na
unidade de acção. Mas nos sindicatos alternativos, assim como na CGT, as
pequenas burocracias *«anti-capitalistas* » cultivam o seu isolamento fim de
preservarem seu pequeno aparelho.

Este fechamento provocou uma verdadeira despolitização do meio militante. É
o que nós chamamos a *« deriva anarco-sindicalista* » tal como já existiu
aquando da crise do movimento operário dos anos 1920. O discurso filosófico
abstracto vai de par com uma ausência de debate estratégico. A prática do
CSR, favorecer a Frente Única enquanto se continua debatendo, inquieta todos
os aparelhos militantes. Todas as correntes são obrigadas a trabalhar ao
nível local com os nossos militantes, pois nós somos influentes, apesar de
nossos efectivos limitados. Mas esta unidade é difícil de manter pois todas
as outras correntes, mesmo as com maior implantação, têm medo de iniciar o
debate connosco pois nós possuímos uma verdadeira estratégia revolucionária
ligada a uma actividade real no terreno.



*Luta Social: Que contactos tendes mantido ao nível internacional ?*



Desde a nossa criação, contactámos o IWW. Procurávamos trocar reflexões
estratégicas com os nossos camaradas norte americanos. Nessa altura, no
entanto, dissemos que não queríamos aderir [ao IWW]. Queríamos existir
enquanto organização activa e influente em França antes de nos coordenar com
outras organizações que se reivindicam do SR.

Há dois anos, iniciámos um pedido de adesão ao IWW, pois nós dispomos
actualmente de uma influência que permite coordenar as actividades
internacionais.

No entanto, queremos que esta adesão seja acompanhada de um debate com o
IWW, pois somos críticos em relação a elementos de táctica e de organização
interna dos IWW. Pensamos que não pode haver apenas um único esquema de
organização dos SR ao nível internacional. Nalguns países, é possível que se
justifique criar sindicatos IWW autónomos. Mas em muitos países existem já
confederações onde os SR podem agir para o reforço dos sindicatos de
indústria e das Uniões Locais. Criar sindicatos IWW seria totalmente
artificial em França e iria cortar-nos da grande massa dos sindicalizados.
No nosso país, o sindicalismo revolucionário está ligado à CGT e a batalha
interna não pode ser abandonada.

Criar um sindicato novo pode parecer reconfortante mas no final sacrifica-se
frequentemente a formação dos aderentes e se concentram as atenções na
construção de um novo aparelho que repousa sobre forças militantes reduzidas
e que está sujeito, portanto, a derivar em pequena burocracia. Para se
construir verdadeiras UL e sindicatos de indústria, é necessário aderentes
numerosos e militantes.

Em França, constatamos o fracasso da CNT e de SUD por estas razões. Estas
experiências devem servir para que noutros países os mesmos erros não se
reproduzam.



*Luta Social : Qual é a vossa análise sobre Portugal e o movimento sindical
português ?*

* *

A situação sindical portuguesa parece-nos muito mais simples que a que
encontramos em França. Existem  duas confederações, uma que se diz luta de
classes e a outra que se gaba da colaboração com a burguesia.

Da facto, a história do sindicalismo português é relativamente próxima do
que encontramos em França, apesar de que a ditadura salazarista teve um
verdadeiro impacto. Com efeito, a [antiga] CGT portuguesa é uma das
confederações que foi mais longe na imitação do modelo da CGT francesa. Isto
foi assim no início do século XX, quando os sindicalistas revolucionários
portugueses se inspiraram largamente nos seus camaradas franceses no que diz
respeito à estruturação sindical (sindicatos de indústria, Bolsas do
Trabalho, Juventudes Sindicalistas
). Isto também aconteceu no que respeita
à viragem de muitos SR para o PC, tendo a França servido de exílio durante a
ditadura. O CSR português foi criado em 1923 sobre o modelo do CSR francês
de 1919. Depois, o PC português inspirou-se da experiência da CGT
estalinista francesa para implantar um modelo sindical bastante parecido em
Portugal.

Com todos estes elementos, pensamos que as nossas experiências respectivas
na CGTF e na CGTP devem ser debatidas e dadas a conhecer para melhorarmos a
nossa intervenção sindical.

* *

*Luta Social : Como podemos contribuir mais activamente para a unidade de
classe dos trabalhadores, aos níveis local, regional e internacional.*

* *

Os nossos militantes participam desde há 15 anos em toda uma série de
encontros internacionais das redes sindicais alternativas e de influência
libertária. Infelizmente, estas reuniões serviram, sobretudo, a produzir
textos de princípios com uma dimensão muito afinitária. Com excepção de uma
verdadeira coordenação de 4  ou 5 sindicatos ferroviários (CGT de Espanha,
SUD, sindicatos de base italianos, RTM britânico
) estes encontros não deram
em grande coisa, excepto em fazer crer que existe uma verdadeira actividade
internacional.

Pensamos, pelo contrário, que o movimento sindical internacional deve se
reconstruir a partir de actividades de ramo de indústria à escala
internacional, coordenando sindicatos nas mesmas multinacionais e nos mesmos
sectores profissionais. É também a este nível que podemos tecer laços entre
sindicatos dos países de emigração e dos países de imigração.**

* *

No que diz respeito á dimensão anti-capitalista, é preciso ter em conta a
situação de recuo que nós sofremos desde uma trintena de anos, na maioria
dos países. Os sindicatos não estão em situação de se apropriar de uma
estratégia anti-capitalista, pois os militantes sindicais têm de se
concentrar constantemente em lutas defensivas. É neste quadro concreto que
os SR devem intervir com o objectivo de elaborar colectivamente, entre
militantes revolucionários motivados, uma estratégia revolucionária inserida
nas lutas. Depois é muito mais fácil usar a nossa formação e o nosso
material para propor análises nas AG de sindicatos. Seria irrealista crer
que a situação actual permite construir sindicatos de massa,
revolucionários. É preciso primeiro redefinir um projecto de sociedade e uma
estratégia que lhe esteja associada e isto ainda não pode ser realizado no
seio de uma organização de massas, devido á ausência de formação política da
grande maioria dos sindicalizados. É esta a função que atribuímos a
organizações SR activas enquanto tendências em confederações sindicais. Esta
estratégia será tanto mais fácil de elaborar quanto nós conseguirmos, no
seio da IWW, a colectivizar o  trabalho de reflexão.

A unidade internacional deve portanto ser levada a cabo a dois níveis :
coordenar as actividades nos sindicatos de indústria, com os nossos
sindicatos, mas também elaborar uma estratégia anti-capitalista graças à
existência de organizações que agrupam militantes sindicalistas
revolucionários.



Por isso, convidamos todos os militantes favoráveis ao sindicalismo
revolucionário, independentemente das suas filiações filosóficas, a se
reunirem no seio de uma única organização internacional para estruturar essa
actividade comum.



 [traduzido por MB para o Luta Social]


-- 
Colectivo Anti-Autoritário e Anti-Capitalista
de Luta de Classes, baseado em Portugal
www.luta-social.org




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