(pt) Relato do Acampamento Sem Fronteiras da Ucrânia

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Terça-Feira, 18 de Setembro de 2007 - 17:38:58 CEST


Aconteceu de 11 a 20 de agosto de 2007 na maior região de trânsito de
migrantes da Ucrânia, em Transcarpathia, o Acampamento Sem Fronteiras da
Ucrânia, com aproximadamente 300 pessoas da Ucrânia, Rússia, Moldavia,
Hungria, Eslováquia, Israel, Nova Zelândia, Polônia, Finlândia, República
Tcheca, Alemanha, Áustria, Suíça, França, Espanha, Grécia, Reino Unido,
Estados Unidos, entre outros lugares. O encontro focou a luta contra o
racismo e a xenofobia, a criminalização da migração e deportação,
dinamizados com seminários, oficinas, conferências, concertos e ações
diretas.
"Exigimos a liberdade de movimento para todos/as, asilo para todas as
pessoas perseguidas, e o direito das pessoas migrarem desde as áreas
deprimidas à procura de trabalho noutros países, se isso pode melhorar as
suas vidas. Exigimos a abolição dos regimes de visto. Queremos botar
abaixo a Europa Fortaleza, autêntico regime de fronteiras contemporâneo,
que tem causado a morte de milhares de pessoas nos lugares de trânsito nos
anos recentes. A política de “Apartheid Global” deve acabar!", dizia a
chamada para o acampamento.
A região ucraniana de Transcarpatia, se tornou um novo ponto fronteiriço,
com militarização crescente e importantes centros de detenções para
refugiados dos países do Sul Global e da ex-URSS, que tentam escapar da
guerra, totalitarismo ou miséria nos países da União Européia. A seguir,
com um pouco de atraso, divulgamos um relato do dia de ações.]

Ontem foi o dia de ações no Acampamento Sem Fronteiras da Ucrânia. Próximo
ao acampamento estão duas prisões para imigrantes, onde as pessoas que
tentam entrar na União Européia são encarceradas. Depois de escutar em
primeira-mão o depoimento de um ex-preso sobre as condições no interior do
campo de detenção de Pavshinov, alguns/mas participantes do Acampamento
Sem Fronteiras decidiram saldar esta prisão com uma visitinha. Estas foram
as primeiras manifestações contra esta prisão naquela área.

Primeiro de tudo, um pequeno grupo de manifestantes se dirigiu ao campo de
detenção de Pavshinov. Os/as detidos/as estavam do lado de fora e
pareceram realmente satisfeitos/as de ver outras pessoas que não os
esqueceram. Mensagens de solidariedade foram trocadas enquanto músicas
eram tocadas. Porém, no local havia um pequeno grupo de visitantes, já que
se temia que os detidos pudessem enfrentar punições extras, caso os
guardas de fronteira suspeitassem de alguma confrontação. Então o grupo
foi para o campo de detenção de Mocachevo, onde mulheres e crianças estão
detidas. Infelizmente, aqui os/as detidos/as não tiveram permissão para
saírem ao pátio e daí ficamos sem saber se as mensagens de solidariedade
alcançaram eles/as.

Entretanto, um grupo maior de aproximadamente 150 participantes do
acampamento partiu para Uzghorod, local onde funciona o departamento de
imigração responsável pelos campos de detenção. Faixas onde podia se ler
“Feche Completamente a Pavshinov”, “Liberdade aos Prisioneiros da União
Européia” e “Liberdade de Movimento” estavam expostas em ucraniano e em
inglês. Panfletos falando sobre os campos, os departamentos de imigração e
o caso para os Sem Fronteiras foram distribuídos para os apoiadores/as e
para os/as transeuntes. A bandeira negra e vermelha tremulava em cima do
prédio e as faixas estavam estendidas no telhado. Por detrás,
manifestantes grafitaram o prédio com dizeres anarquistas em ucraniano,
russo e inglês.

Então os/as manifestantes se moveram para o centro da cidade, grafitando
como queriam. No caminho uma atenção particular foi dada aos prédios do
governo. Aí uma bandeira da União Européia foi retirada de seu mastro.
Os/as manifestantes andaram através da cidade e continuaram panfletando,
gritando e atraindo muita a atenção dos/as transeuntes. Aparentemente,
manifestações em Uzghorod são raras.

A manifestação terminou na praça principal da cidade, onde havia um
pequeno palco. As faixas foram novamente desenroladas e a bandeira da
União Européia foi queimada cerimonialmente.

Durante o acampamento, os/as participantes ouviram de acadêmicos e
ex-detidos/as, sobre as terríveis condições existentes dentro dos campos.
Isto forneceu uma experiência direta do processo de externalização das
fronteiras da União Européia, por meio das pressões da União Européia, dos
fundos monetários, países que em suas fronteiras (assim como a Ucrânia)
introduzem reais controles estritos, na tentativa de tentar e assegurar
que as pessoas não alcancem a União Européia onde, sob leis
internacionais, estados são obrigados a permitir para eles/as a aplicação
de refúgio. Isto é, claramente, um rompimento destas obrigações, e os
campos de detenção consolidados da União Européia estão atualmente
integrados a este sistema. Os campos são uma maneira barata e brutal de
fazer o processo de alcançar a União Européia, tornando-a ou impossível ou
mesmo tão insuportável que muitos preferem voltar para suas casas.

As condições dentro dos campos foram descritas como sendo tão piores como
os outros campos na União Européia. Os detidos/as aparentemente lutam por
comida e água, enquanto os guardas da prisão tiram fotos deles/as fazendo
isso. A eles/as são vendidos cigarros, somente para logo em seguida serem
tomados e depois ser vendido a eles/as novamente. A superpopulação é tão
ruim que os/as presos/as são colocados em tendas para dormirem do lado de
fora, até mesmo no inverno. Foi contada uma história de três garotos que
esperaram três dias para serem levados ao hospital, aonde dias depois
morreram.

Os serviços de imigração são tão mínimos que advogados/as e tradutores/as
não são providenciados, e devem ser pagos pelos/as pretendentes. As ONGs
que trabalham dentro dos campos fazem o possível para o sistema trabalhar
e a União Européia para renunciar sobre suas obrigações internacionais de
oferecer a oportunidade de solicitar por asilo dentro de suas fronteiras.
Esta tem sido a recente tendência em um escabroso e crescente sistema de
controle de imigração, um sistema construído sobre economias providas com
trabalhos precários, criminalizando aqueles/as que chegam através das
fronteiras, assim selecionando as pessoas mais vulneráveis.

Esperamos que as experiências do Acampamento Sem Fronteiras na Ucrânia
inspire os/as ativistas a focarem seus futuros trabalhos nestas prisões da
União Européia.

Mais infos: noborder2007  riseup.net

Fotos: http://www.indymedia.org.uk/en/2007/08/379772.html

Tradução: Marcelo Yokoi



agência de notícias anarquistas-ana




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