(pt) Relato de um brasileiro no Acampamento Sem Fronteiras do Reino Unido

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Quarta-Feira, 3 de Outubro de 2007 - 16:34:03 CEST


agência de notícias anarquistas-ana
[A seguir o libertário Alessandro Campos conta sua experiência no
Acampamento Sem Fronteiras do Reino Unido, que rolou entre os dias 19 e 24
de setembro, em Londres]

No Borders Camp. Foram 5 dias de acampamento. Para uns outros foram 10.
Estar acompanhando e colaborando com o acampamento realizado entre os dias
19 e 24 de setembro, próximo ao aeroporto de Gatwick, Inglaterra, foi, de
fato, antes de mais nada, bastante inspirador. Nesse local, em frente ao
aeroporto, está em fase de acabamento um novo centro de detenção de
imigrantes. Mesmo o governo já tendo anunciado a possível data de início
de funcionamento desse centro, centenas de pessoas não aceitam o fato da
crescente política européia de criminalizacão dos imigrantes continuar.

Pessoas vindas de todas as partes da Inglaterra, mas também da Alemanha,
Franca, Espanha, México, Holanda, Brasil, Portugal, Zimbábue, Austrália,
Palestina, Itália, Escócia, Irlanda, Pais Basco, Dinamarca e Finlândia
estavam presentes.

Estive por lá dois dias antes de começar o acampamento e pude me
familiarizar bastante com o jeito inglês de organizar encontros dessa
natureza.

"Ninguém é ilegal"

Primeiro creio ser interessante esclarecer que apesar do acampamento
chamar No Borders, seus organizadores fazem parte de uma rede já existente
na Europa que vem há mais de 5 anos lutando contra políticas
segregacionistas e xenofóbicas. Reivindicam principalmente a libertação de
todos os imigrantes presos em vários centros de detenção pela Europa, mas
também a livre circulação de pessoas. “Ninguém é ilegal” é o que dizem a
todo momento.

Essas pessoas entendem a responsabilidade histórica dos países ricos da
Europa para com a miséria e desigualdade social e econômica dos países
mais pobres, particularmente a África. Acreditam que todos aqueles que
chegam a Europa, seja por razões econômicas ou políticas, merecem respeito
e solidariedade, e não o encarceramento que tem sido praticado.

Nenhuma forma de hierarquia

A Rede No Borders é uma coalizão de grupos menores que são
autogestionados, horizontais e autônomos. As decisões são tomadas por
consenso e em assembléias. Não há nenhuma forma de hierarquia, seja entre
os grupos ou os indivíduos presentes.

Todo o acampamento foi feito depois de diferentes divisões de tarefas,
decididas principalmente nos últimos 3 meses. Assembléias que precederam o
dia 19 tinham em torno de 70 pessoas, depois esse número passou para 150 e
houveram dias que tinham em torno de 250 pessoas.

Mas será que a coisa funciona mesmo? Participei praticamente de todas as
assembléias e posso afirmar que sim. Assembléias diárias foram feitas para
organizar o espaço, garantindo o melhor modo possível para se ter comida,
higiene, segurança, organização das oficinas, e aquilo mais que fosse
necessário.

Jeitos distintos de se fazer a mesma coisa

Uma coisa que me chamou muito a atenção nas assembléias era a paciência e
a educação para cada um poder se expressar. Eu ficava lembrando de várias
assembléias que participei no Brasil, e ria comigo mesmo: sempre um caos e
um quebra-pau enorme, mas a coisa acabava acontecendo também. Jeitos
distintos de se fazer a mesma coisa. Talvez por sermos tão parecidos e
diferentes ao mesmo tempo isso funcione um pouco mais tranqüilo, mas claro
que haviam desentendimentos e às vezes provocações. Isso também era
trabalhado pacientemente.

Eram tantos sotaques e idiomas que às vezes ficava difícil entender o que
cada um tentava realmente comunicar. Porém, nunca impossível. Cozinhei com
ingleses, irlandeses, escoceses e espanhóis e acho que até que nos saímos
bem. Fiz a segurança do acampamento com alemães e italianos. Carreguei
lenha para o fogo com africanos. Dancei com australianos e bebi com
pessoas que nem tenho idéia de onde eram. Sim, as pessoas também se
divertiram. Já dizia Emma Goldman: “se eu não puder dançar nessa
revolução, essa não será minha revolução!”

Anarquistas Contra o Muro

Havia uma programação extensa de atividades. Dentro do acampamento
houveram oficinas sobre solidariedade ao povo de Oaxaca no México e
Palestina. Solidariedade com os imigrantes presos em vários lugares da
Europa, principalmente na Inglaterra, França e Holanda. Muitas exibições
de filmes ativistas, principalmente de ações direitas contra centros de
detenção (o melhor que pude assistir foi de uma ação que os holandeses
fizeram em um barco-prisão. Ocuparam o barco por um dia inteiro e fizeram
até uma rave dentro!).

Também participei de uma oficina muito interessante sobre apoio
psicológico decorrente de traumas causados por alguma ação política. Eram
duas inglesas falando de diversas experiências com pessoas torturadas em
delegacias e prisões, assim como manifestantes que foram duramente
reprimidos em marchas de protesto. Também pude participar de uma reunião
dos Anarquistas Contra o Muro. Saber como anda a atuação de anarquistas
contra o muro de Israel na Palestina. Também houveram muitas reuniões para
se fortalecer ações anti-deportações.

Sem "papéis"

Na Bélgica e na Alemanha existem boas experiências de grupos que
construíram nos campos e nas florestas espaços para abrigar refugiados.
Isso é muito curioso. A política adotada por quase todos os países
europeus com relação aos refugiados que pedem asilo por aqui, tem sido de
mesmo impacto que com os imigrantes que chegam sem “papéis”. Geralmente
são encaminhados para algum centro que o governo chama hipocritamente de
abrigo e essas pessoas perdem completamente sua liberdade. São prisões que
não permitem que esses refugiados saiam em hipótese alguma. Cada processo
é avaliado individualmente para julgar se essa pessoa realmente tem
necessidade de asilo político. Dependendo do país, como por exemplo no
caso da Finlândia, a pessoa depois de “liberada” recebe um visto de um ano
para permanecer lá, mas não pode trabalhar, estudar ou mesmo contar com
serviços de saúde. Ela fica obrigada a permanecer em um tipo de albergue e
somente ali pode receber alguma ajuda com comida e saúde básica.

Conheci experiências que falavam de ocupações para refugiados e até mesmo
pessoas que abriam as portas de suas casas para abrigar algumas dessas
pessoas.

Solidariedade e resistência

O acampamento também visava ser um ponto de referência para as ações que
estavam sendo planejadas para os dias 21 e 22. No dia 21, aproximadamente
200 pessoas foram até a cidade de Crawley (30 quilômetros do acampamento)
onde ficam dois centros de detenção de imigrantes e refugiados. O ato era
pacífico e buscava mostrar para as pessoas detidas nesses prédios que
havia solidariedade e resistência. Uma comissão foi formada para
visitá-los e entregar um documento para as autoridades inglesas
reivindicando a liberdade de todos imediatamente. Havia um forte aparato
policial e como não podia deixar de ser, muita provocação por parte do
braço armado do Estado. Cinco pessoas acabaram presas, mas foram liberadas
em 24 horas. O ato durou aproximadamente 4 horas.

Depois voltamos para o acampamento para continuar com a organização do ato
do dia 22, que era o ato com maior ênfase. No dia seguinte eram pouco mais
de 500 pessoas. Muitos foram de trem, ônibus e mesmo de bicicleta. A
concentração teve início por volta de meio-dia nos jardins do shopping
center que dá acesso a área do aeroporto. O caminho tinha aproximadamente
6 quilômetros até a frente do centro de detenção. Uma batucada animava os
manifestantes e as pessoas ficavam se perguntando o que estava acontecendo
ali. Incrível como as opiniões se dividiam. Muitos aplaudiam e diziam
realmente ser um absurdo o que o governo estava fazendo. Mas existiam
outros que xingavam e gritavam palavras bem racistas. A polícia caminhava
praticamente dentro da manifestação e de tempos em tempos usavam de algum
argumento absurdo para tentar prender alguém. Isso não acontecia com
facilidade por que os grupos de afinidade e outras pessoas também partiam
para cima dos policiais tentando forçá-los a soltar o manifestante.

Gritos de protesto

Quando chegamos em frente onde será o centro de detenção alguns discursos
foram feitos. Muitas pessoas da África e Iraque tomam a palavra
inicialmente. O microfone está livre para quem quiser se pronunciar.
Ficamos cerca de uma hora parados e a manifestação então começou a se
dispersar. Faixas continuaram erguidas e gritos de protesto ainda eram
ouvidos quando voltamos para o acampamento depois de 6 horas de
mobilização. No fim do dia existe bastante afinidade e apesar de tantos
idiomas, diferenças, há um só coração.

Na manhã do domingo depois do café, aconteceu a última assembléia do
acampamento. Fico com a impressão de que tenha sido positivo e
enriquecedor para todos os envolvidos. Muito trabalho ainda precisa ser
feito e todos sabem que não será fácil.

Entretanto há uma certeza: que apesar de difícil, não é impossível. Não
existe nada que não possa ser revertido, mudado e transformado. Em tempos
passados houveram épocas difíceis também, mas por não desistirem é que a
história continuou a ser feita. Agora, chegou nossa vez e nestes tempos de
sútil opressão e apatia, são encontros como esses que nos alimentam e nos
inspiram. Três dias mais foram necessários para desmontar todas as
barracas, tapar todos os buracos e recolher toda sujeira. O mesmo processo
iniciado para a organizar o acampamento prosseguiu até o último instante.

Bom, digo até logo para os novos amigos e parto com a alegria de seguir em
frente, sabendo que não estou sozinho.

Para mais informações e fotos do acampamento e dos atos:
www.indymedia.org.uk/en/actions/2007/nobordercamp e www.noborders.org.uk


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