(pt) «A Batalha» n.221 - MAGONISMO

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Quinta-Feira, 8 de Março de 2007 - 17:36:48 CET


Paradigma Latino de Resistência
Felipe Corrêa

A América Latina tem uma grande tradição de movimentos sociais e, para
essa discussão, acredito ser relevante recorrer a dois deles, ambos do
México no contexto da Revolução Mexicana do início do século XX, e que
continuam a ter protagonismo na América Latina até os nossos dias: o
magonismo e o zapatismo*.

Ao contrário das tentativas de mudança que se dão por dentro do Estado, há
as alternativas que se dão fora do âmbito do Estado. É inevitável falarmos
em disputa de poder, mas entendendo poder como espaço político, e não como
poder do Estado e como dominação. Poder não necessariamente implica
dominação. Por isso, é claro que os movimentos sociais, apesar de se
constituírem, geralmente, fora do Estado, disputam espaço político com o
Estado e os representantes da democracia representativa. Os movimentos que
têm ou tiveram na História o objetivo de proporcionar uma mudança do
status-quo, e dar a ele um sentido mais libertário, certamente disputavam
espaço político com a reação e com o Estado. Na grande maioria das vezes,
reivindicavam algo, de maneira organizada, o que lhes fazia constituir um
movimento.

Ditadura de Porfírio Dias
Em 1876 tem início a ditadura de Porfírio Dias, um governo caracterizado
pela exploração das classes de trabalhadores e camponeses, concentração de
riqueza, do poder político e do acesso à educação, basicamente em famílias
de latifundiários e empresas estrangeiras, vindas principalmente da
França, Inglaterra e Estados Unidos. A concentração de terras no México
era absurda, e os fazendeiros proprietários eram “donos absolutos de
homens e coisas”, com um poder e recursos quase incomensuráveis. Apesar de
o povo viver na miséria extrema, a ditadura de Diaz assegurava grandes
lucros aos investimentos capitalistas do exterior. Nove milhões de
mexicanos eram analfabetos. Conforme colocou Pier Francesco Zarcone:
“Os dois pilares principais do sistema das propriedades rurais eram:
a) as tiendas de raya – lojas de gêneros alimentícios, licores e roupas de
baixa qualidade (os proprietários delas eram os próprios fazendeiros),
onde os camponeses de uma fazenda eram forçados a fazer as compras, também
e principalmente a crédito; por este sistema, os fazendeiros – que
revendiam bens de pouco valor a preços superiores – quase recuperavam o
dinheiro atribuído aos salários e os camponeses endividados não podiam
mover-se das fazendas onde trabalhavam antes de pagarem as dívidas assim
contraídas (o sistema ainda está em uso em muitas partes de América do
Sul);
b) a ley de fuga – que permitia aos donos matar o camponês fugitivo; para
os trabalhadores rebeldes um castigo muito usado consistia em pôr o
rebelde num buraco na terra, com a cabeça fora, e fazê-la pisar pelos
cavalos a galope.”[1]

Com o objetivo de combater essas injustiças, constituiu-se, já na segunda
metade do século XIX, uma resistência libertária, riquíssima em sua
diversidade. Muitos foram os exemplos de associações de socorro mútuo
(Sociedad Particular de Socorros Mútuos), grupos militantes (A Social,
Sociedad Agrícola Oriental), greves organizadas pelos trabalhadores,
escolas libertárias (Escuela del Rayo y del Socialismo), grupos de estudo
(Grupo de Estudiantes Socialistas), e a formação do Congresso General
Obrero da República Mexicana. Podemos citar a própria constituição do
Partido Comunista Mexicano, que tinha tendência bakuninista. O governo
inicia uma onda de repressão fechando os círculos anarquistas e acabando
violentamente com duas revoltas organizadas pelos trabalhadores.

Ditadura de Diaz - Ricardo Flores Magón

Alguns anos depois, já no início do século XX, Ricardo Flores Magón seria
um dos grandes representantes dos ideais libertários na luta contra a
ditadura de Diaz. “O apóstolo da revolução social mexicana” como foi
chamado por Diego A. de Santillán, inicia sua campanha contra uma nova
candidatura de Diaz, alguns anos antes da virada do século, e pouco a
pouco vai se orientando cada vez mais ao socialismo libertário. Em 1900
funda o periódico Regeneración que logo se tornaria um dos maiores
veículos da imprensa operária e cujo objetivo era a derrocada da ditadura
e o estabelecimento do comunismo libertário, que Magón tão bem aprendera
com as leituras de Kropotkin. Na descrição de Diego Abad de Santillán: “Em
7 de agosto de 1900 apareceu no México o primeiro número do Regeneración,
redigido por Ricardo Flores Magón e seu irmão mais velho, Jesus. A
linguagem desse periódico, que havia de exercer grande influência nos
destinos do povo mexicano, levou o espanto ao ânimo de Diaz e dos
‘cientistas’; viu-se logo que atrás dessa atrevida publicação havia uma
vontade indomável; sem esforço algum os antiporfiristas da Cidade do
México foram agrupando-se em torno de Ricardo Flores Magón, no qual viram
o cérebro mais consciente e a vontade mais decidida contra a tirania do
general Diaz”[2]

Ricardo Flores Magón e o Partido Liberal Mexicano

Magón também integra em 1901 o Partido Liberal Mexicano (PLM), fundado um
ano antes. O programa do partido tinha um sentido liberal radical e os
objetivos giravam em torno da crítica ao clero político católico que
emergia em defesa dos interesses dos grandes proprietários e empresários
capitalistas. Além disso, ressaltava a importância da reivindicação dos
direitos dos cidadãos mexicanos e do abandono da crença de que no governo
estaria a solução para todos os males. Ressaltava ainda a ação coletiva
como principal elemento das democracias.
Durante todo o período da ditadura, tanto o PLM quanto o periódico
Regeneración – ambos muito influenciados por Magón – foram grandes
opositores do regime, defendendo o fim da ditadura e do regime porfirista.
Aliás, por razão da influência libertária presente no partido, a partir da
segunda metade da década de 1900, o PLM se radicaliza, tornando seu
discurso mais combativo e criando uma tensão interna no partido, o que
afasta os elementos menos radicais. Vale ressaltar que o partido não
concorria às eleições e servia somente como um espaço de articulação
horizontal dos revolucionários libertários da época, sem objetivos de
tomar o Estado e estabelecer uma ditadura, mas para colocar um fim ao
governo de Diaz, estabelecendo o comunismo libertário em seguida. Em 1906
o PLM lança seu programa e também o Manifesto à Nação Mexicana, um
documento de grande importância para o movimento revolucionário da época
que propunha uma estratégia para acabar com a ditadura de Diaz e com as
estruturas fundiárias. O PLM tornou-se clandestino e organizou em todo o
México mais de 40 grupos de resistência armada e também contou com membros
indígenas, conhecidos por sua luta pelos direitos das comunidades e contra
a propriedade capitalista. Após a radicalização, Francisco Madero – um
empresário que simpatizava com as reformas sociais e que chegou, ainda em
1905, a tecer elogios ao PLM – estabeleceu uma discordância de que os
meios pacíficos para tirar Diaz do poder estariam esgotados.

Revolução Mexicana

A fraude eleitoral de 1910 comandada por Diaz, daria início à explosão da
Revolução Mexicana. Com a prisão de Madero, seu adversário nas eleições,
conseguiu reeleger-se novamente. Exilado em San Antonio, no Texas, Madero
redige o Plano de San Luís, convocando um levante armado para 20 de
novembro, além de declarar nulas as eleições de 1910, rechaçando a eleição
de Diaz e instituindo-se presidente provisório. Muitos rebeldes atenderam
ao chamado revolucionário, entre eles Emiliano Zapata, que tinha um
importante papel na organização dos indígenas da região de Morelos, e
Pancho Villa, um ex-ladrão de gado e assaltante de bancos, muito conhecido
pelos humildes das regiões de Durango e Chihuahua. Estavam unidos, em uma
frente anti-reeleicionista, que dava a cada grupo relativo grau de
autonomia e independência.
Já em 1911 e em meio à Revolução e com apoio do sindicato norte americano
IWW, os anarquistas, que tinham à frente Magón, ocupam a região da Baixa
Califórnia, tomando cidades de importância como Mexicali. Ao fim do mês de
janeiro, constituem a “República Socialista da Baixa Califórnia”, a
primeira república socialista do mundo. Os magonistas tiveram ainda
vitórias em cidades como Novo León, Chihuahua, Sonora, Guadalupe e Casas
Grandes; espaços esses que seriam perdidos após a repressão ocasionada
pelo governo de Madero. Aliás, lembremos que antes da subida de Madero ao
poder, Magón foi convidado para ser vice-presidente do México, o que
negou, em honra à sua bandeira do comunismo libertário.

Ricardo Flores Magón e Emiliano Zapata

Grande parte dos revolucionários rompe com Madero por razão da
constituição amplamente burguesa de seu governo que não possuía qualquer
aspiração de ir além do liberalismo. Uma dessas revoltas, organizada por
Zapata no estado de Morelos e o Plan de Ayala lançado em novembro de 1911
(que pedia a derrubada do governo de Madero e propunha um processo de
reforma agrária com controle das comunidades camponesas) constituíram-se
como instrumentos na luta dos camponeses pela revolução social no país,
sempre inspirados pelo lema Tierra y Libertad. Como ressalta o historiador
Alexandre Samis: “o grito revolucionário de Tierra y Libertad [...] teria
sido entoado primeiro pelo poeta e militante anarquista Praxedis Guerrero
e depois disseminado pelos magonistas”. Foi então que “Soto y Gama, um
magonista muito próximo a Emiliano Zapata, viria a popularizá-lo junto ao
exército revolucionário zapatista.”[3] Um outro interessante fato que
comprova a proximidade entre Zapata e Magón acontece quando Zapata convida
Magón, em 1915, para levar o periódico Regeneración para Morelos,
colocando à sua disposição meios que dariam ao jornal uma expansão
nacional. Isso acabou não dando certo pelos problemas de saúde e prisões
de Magón, e por ele acreditar que se o jornal permanecesse nos EUA (o que
acontecia naquele momento), a perspectiva internacionalista seria
favorecida.
Depois, o México afundou-se em um período de guerra civil e tentou
estabelecer uma Convenção, já nos fins de 1914. Os fatos que se deram em
seqüência, como a tentativa de tomada da Cidade do México por Villa e
Zapata, a convocação da Assembléia Constituinte por Carranza, que depois
seria eleito presidente e assassinado e os conflitos que se seguiram no
país acabaram constituindo o pano de fundo da decadência do período
revolucionário no país.

Notas
[1] Pier Francisco Zarcone. Os Anarquistas na Revolução Mexicana. Utilizei
esse ótimo artigo para nortear este trecho sobre a Revolução Mexicana. O
artigo, com um novo apêndice do autor discutindo zapatismo e magonismo
hoje, será publicado pela Faísca Publicações ainda em 2006.
[2] Diego Abad de Santillán. Ricardo Flores Magón: o apóstolo da revolução
mexicana. Rio de Janeiro/São Paulo: Achiamé/FARJ/Faísca, 2006.
[3] Alexandre Samis. “Apresentação” In: Ricardo Flores Magón: A Revolução
Mexicana. São Paulo: Imaginário, 2003 p.19.

No próximo número de A Batalha será publicado “Zapatismo – Paradigma
Latino de Resistência”





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