(pt) [Brasil ; Rio] "Nunca fizemos questão de ganhar a simpatia de ninguém da alta academ ia"

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Sexta-Feira, 15 de Junho de 2007 - 23:59:21 CEST


>   Rafael Deminicis é membro do Grupo de Estudos do Anarquismo (GEA). Ele,
>juntamente com outros anarquistas do Rio de Janeiro, vêm realizando
>projetos e experiências libertárias dentro da Universidade Federal
>Fluminense (UFF), quebrando preconceitos, conceitos e modelos
>estabelecidos. Em 2006, Rafael, juntamente com o historiador Daniel Aarão
>Reis, organizaram o livro História do Anarquismo no Brasil – Volume I, uma
>publicação que trata especificamente da história dos movimentos anarquistas
>e de seus militantes no Brasil. O livro apresenta em 12 artigos uma série
>de experiências anarquistas em campos como cultura, educação, política e
>movimentos sociais.
>   Na entrevista a seguir, ele explica o que é o GEA, suas atividades e um
>pouco o que vem acontecendo no anarquismo na cidade do Rio de Janeiro,
>dentre outros assuntos. Tudo em linguagem bastante simples. Ou como ele
>diz, “o recado está dado.”
>
>   Agência de Notícias Anarquistas > Além do GEA, você também é integrante
>da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)? Como você chegou no
>anarquismo?
>
>   Rafael Deminicis < Sim, já tem quase três anos. Resumidamente, eu já
>havia feito parte de movimentos sociais, estudantil, movimento de bairro,
>universitário etc. Minha leitura do anarquismo era bastante pequena, mas
>acho que já inspiradora. Acho que o ponto decisivo foi quando comecei a
>freqüentar as reuniões do GEA e que passei a me identificar com as idéias
>anarquistas.
>
>   ANA > E como começa o Grupo de Estudos do Anarquismo, o GEA?
>
>   Rafael < O GEA foi uma iniciativa de alguns integrantes do Núcleo de
>Estudos Contemporâneos (NEC), ligado ao Departamento de História da
>Universidade Federal Fluminense (UFF-Niterói), professores e alunos de
>história. Como existia uma demanda de discussões sobre anarquismo, não
>incorporada pelo curso, mas que estava presente nas dissertações que os
>alunos estavam produzindo, sentiu-se a necessidade de se formalizar a
>criação de um grupo de estudos. O GEA foi criado em 2002. No mês de julho
>daquele ano já se fazia convite a uma professora de fora da UFF, professora
>Margareth Rago, da Unicamp para um debate/palestra. Daí em diante o GEA
>reunia-se mensalmente. Aos poucos o grupo era freqüentado por alunos de
>graduação, o que estimulou por parte do professor Carlos Addor (professor
>Titular de História da UFF e integrante do grupo) a criação da cadeira
>optativa do curso de História: “História do Anarquismo no Brasil” – que
>teve grande procura por parte dos alunos e foi
>  oferecida mais 3 vezes até o ano passado. Ainda em 2002 o GEA chegou a
>organizar uma mesa no III Fórum Social Mundial, “Anarquismo e
>Globalização”, e uma palestra com o militante sindical da CNT da Espanha,
>Pascoal Gonzáles, “A Revolução Espanhola”.
>
>   ANA > Não há mais esse curso optativo de “História do Anarquismo no
>Brasil”?
>
>   Rafael < O curso não é fixo. Infelizmente, o professor Carlos Addor
>oferece esporadicamente. Tomara que no tempo que ele ainda fique na
>universidade possa oferecer muitas outras oportunidades. No GEA já
>conversamos sobre isso algumas vezes, propondo que na vez que ele
>oferecesse o curso, cada um dos membros sugeriria uma aula a ser
>desenvolvida junto com o professor Addor. Mas a idéia ainda não amadureceu
>muito.
>
>   ANA > O GEA é aberto?
>
>   Rafael < A procura dos debates sobre o anarquismo, inclusive de pessoas
>de fora das universidades sempre foi muito boa, e o grupo nunca esteve
>fechado a participação de ninguém que aparecesse em suas reuniões.
>Entendendo esta necessidade o grupo saía apenas do âmbito das reuniões
>mensais de discussão de textos e passava a investir na organização de mais
>debates. Criou-se uma lista de e-mails, mala-direta, para a divulgação das
>atividades para o maior número possível de pessoas. Em 2003 nos esforçamos
>enormemente para organizar o I Simpósio de História do Anarquismo no
>Brasil, chamando professores de outros estados e requisitando financiamento
>de órgão de apoio à pesquisa do Rio de Janeiro. O evento foi a nossa
>menina-dos-olhos, pois conseguiu reunir cerca de 300 pessoas dos mais
>diversos lugares. A partir deste evento surgiu a idéia de se organizar um
>livro com diversos textos/artigos de historiadores ou militantes
>anarquistas sobre a história do movimento anarquista no
>  Brasil, ainda mais com o estímulo de um edital que se abriu pela Editora
>da UFF. Divulgamos a idéia e, por fim, apareceram vários artigos e
>conseguimos montar o livro. O livro só veio a ser lançado pela editora no
>ano passado, o História do Anarquismo no Brasil – Vol.1. Em 2004 o GEA
>organizou o I Colóquio Internacional Libertário/ História do Movimento
>Operário Revolucionários, reunindo, além do público universitário,
>sindicalistas. O evento foi organizado no Rio e em São Paulo, em
>coordenação com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e o
>Coletivo Anarquista Terra Livre (SP). Vale dizer que o Colóquio só
>conseguiu ser organizado pelo apoio que recebeu de entidades sindicais.
>Cada sindicato cobria uma quantidade x de inscrições, que era conseguida
>mediante interesse dos próprios membros da entidade. Alguns destes
>interessados, anarquistas ou simpatizantes, com muito pesar não puderam
>comparecer ao evento, por conta da ocupação no trabalho. Cada inscrição
>dava
>  direito a um livro de altíssima qualidade produzido pela editora
>Imaginário, História do Movimento Operário Revolucionário, o que para os
>sindicalistas interessados foi bem recebido, servindo para a formação
>política dos demais membros do sindicato. Este evento, no Rio de Janeiro,
>chegou a cerca de 100 participantes. Em 2005 todos os membros do GEA
>ficaram envolvidos nas suas atividades pessoais, entrega de monografias e
>dissertações, e de movimentos sociais, e o grupo se mobilizou pouco. Neste
>ano começava se intensificar no Rio de Janeiro a luta do movimento de
>ocupações, sem-teto, na qual se inseriam alguns membros do GEA. No ano
>passado retomávamos as atividades sistemáticas do grupo e promovemos o
>lançamento do nosso livro e um Seminário, na Biblioteca Nacional – a pedido
>da Editora.
>   Enfim, possibilidades de participação mais abertas do que essas acho
>difícil, não?
>
>   ANA > E quais as atividades do GEA?
>
>   Rafael < Basicamente, as reuniões mensais, realizadas desde a fundação
>do grupo, além da organização de palestras Simpósios, Colóquios e
>Seminários. Vale comentar que, ao contrário das afirmações insistentes e
>arrogantes de um certo “historiador” do anarquismo (convidado por nós em um
>certo momento, mas que nos desestimulou pela falta de disposição para o
>diálogo e a seriedade do mesmo), o grupo de estudos tenta sempre alinhar
>questões ligadas ao movimento social atual e o debate teórico (não
>necessariamente nesta ordem), e neste sentido tem gerado grande
>contribuição para o movimento anarquista atual. Uma atividade que também
>pode ser considerada é o apoio bibliográfico ou estrutural para pesquisas
>de pessoas que as requisitam do grupo, e que não chegam a participar
>efetivamente do grupo. Neste contexto oferecemos importante apoio à
>formação do Núcleo de Pesquisas Marques a Costa, da Federação Anarquista do
>Rio de Janeiro (FARJ); apoio fraterno ao Coletivo de Estudos
>  Domingos Passos, que passou a se reunir na sala do NEC (mas que a partir
>do mês passado está se reunindo no acampamento do movimento de luta pela
>moradia estudantil no Campus da UFF, Acampamento Maria Julia Braga); e ao
>Núcleo Piratininga de comunicação na edição do livro História das Lutas dos
>Trabalhadores no Brasil (de Vito Giannotti); etc.
>
>   ANA > E qual o salto qualitativo nessas atividades? Estão anarquicamente
>mais afiados?
>
>   Rafael < Houve um salto qualitativo nas atividades com certeza. Por
>exemplo, este ano já estamos programando uma palestra sobre os 90 anos da
>Revolução Russa; a organização de um curso de extensão sobre anarquismos
>para professores, sindicalistas e membros do movimento sem-teto do Rio;
>temos a possibilidade de organizar um programa no canal universitário da
>UFF (tv a cabo); e estamos estreitando os laços com o Arquivo de Memória
>Operária do Rio de Janeiro (AMORJ). Talvez lançaremos no ano que vem o
>segundo volume do livro História do Anarquismo no Brasil... e muita água
>ainda tem pra rolar.
>   Se estamos anarquicamente mais afiados... creio que sim, temos
>amadurecido muito nos debates que travamos em nossos locais de trabalho e
>militância no movimento social. Considero que a formação que o grupo tem
>reflexo direto no que todos nós nos empenhamos atualmente. Pessoalmente,
>durante todo tempo que fiz parte de movimento social e antes de começar a
>estudar o anarquismo, nada foi tão útil quanto os debates no GEA.
>Atualmente tenho me dedicado, como outros companheiros, à organização da
>FIST (Frente Internacionalista dos Sem Teto) por meio da FARJ, que de forma
>federativa tem se configurado com um forte movimento de luta por moradia
>popular no Rio de Janeiro, através das ocupações urbanas. Porém, é óbvio
>que o GEA não é o grande protagonista da formação de seus participantes,
>muitas vezes o cotidiano nos ensina sobre anarquismo de uma maneira
>extraordinária, e, além disso, recusamos esse paternalismo. O GEA não tem a
>intenção de servir de instrumento direto à
>  militância política e social, já fazem isso diversos grupos e
>organizações anarquistas. Com uma via um pouco mais acadêmica (mas
>afastando a ignorância do academicismo) tentamos estimular os estudos sobre
>a história e a teoria anarquista e estimular o autodidatismo, que combina a
>reflexão em coletivo e individual.
>
>   ANA > O que é exatamente essa Frente Internacionalista dos Sem Teto
>(FIST)? É uma organização internacional?
>
>   Rafael < O nome pode confundir. Mas a motivação inicial de se colocar
>esse nome foi a de se contrapor a idéia de uma frente nacionalista (ou até
>regionalista, somente do Rio de Janeiro), que não se fixasse nas fronteiras
>estabelecidas pelo Estado, e, sim, na realidade espacial do movimento
>social por moradia, e pelo fato de que a organização se propõe, em grande
>medida, libertária. Essa frente dos sem teto, da qual também faz parte a
>FARJ e o grupo Liga dos Comunistas Sem Partido, é formada essencialmente
>pelas Ocupações – que, em primeira instância, se organizam através das
>assembléias e da mobilização cotidiana em cada comunidade e, em segundo
>passo, montam suas comissões de moradores (representantes) para
>participarem das reuniões gerais. Na FIST atualmente estão filiadas 10
>Ocupações, e presta-se solidariedade, na resistência contra a remoção e no
>apoio jurídico, à outra série de ocupações ou comunidades em situação de
>risco de despejo, provocado pelo governo ou pela
>  burguesia. As comunidades têm se constituído, inicialmente, não no
>intuito da expropriação, mas, pela estratégia de ocupação de terrenos e
>imóveis sem função social, ou seja, abandonados (de acordo com as leis
>vigentes), e na resistência de moradores antigos, inquilinos ou não, de
>imóveis que são contestados por possuidores de título de propriedade (ou
>mesmo sem esse documento, como em casos de policiais, advogados e membros
>da administração pública, mafiosos, falseiam o argumento para induzir a
>retirada das pessoas), na luta pelo direito da posse.
>   O papel da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) está no reforço
>da luta pela posse contra a propriedade; na proposição e na contribuição
>com o desenvolvimento dos espaços de debate político e cultural das
>ocupações, democráticos e horizontais; no estímulo à resistência contra
>todo oportunismo político de indivíduos ligados ao estado e a partidos
>políticos na organização do movimento; e no estímulo à organização no
>cotidiano local e em momentos importantes de congregação com outros
>movimentos, sindicais, estudantis etc., como manifestações; solidariedade
>nas barricadas, na construção de novas ocupações etc.
>
>   ANA > Recentemente no México, na UNAM, uma atividade anarquista
>intitulada “Anarquismo e Ciências Sociais”, foi proibida por alguns
>professores dessa universidade, a alegação era “o que tem a ver anarquismo
>com sociologia”. O GEA nunca sofreu uma reprimenda da universidade, ou
>coisa do tipo? Eles nunca interferiram no trabalho de vocês?
>
>   Rafael < São todas muito veladas. Exemplo maior é que por parte do
>Departamento de História da UFF não temos nenhum reconhecimento. Por conta
>das circunstâncias, desenvolvemos nossas atividades autonomamente. Nunca
>fizemos questão de ganhar a simpatia de ninguém da alta academia, sempre
>fizemos o que nos foi conveniente, utilizando a estrutura da universidade
>que se diz pública. A hora que considerarmos insustentável a relação, o que
>não ocorre, com a universidade, não temos pudor de nos deslocarmos para
>outra ou outro lugar. Algumas gracinhas já foram ditas por professores do
>curso de História, nos corredores, principalmente quando saiu o livro.
>Talvez o recalque tenha sido grande ao saberem que um dos organizadores do
>livro ainda era aluno de graduação.
>   Objetivamente o que se faz para impedir os estudos sobre anarquismo está
>no âmbito da seleção para os programas de pós-graduação, onde a briga pela
>hegemonia, pelo status e pelo dinheiro de financiamento de projetos é
>violenta. São poucos os que entram, por isso que o grosso do que é escrito
>sobre anarquismo nas universidades é em trabalhos de final de curso,
>monografias, da graduação. Alguns de nós do GEA enfrentamos esta barra
>atualmente. Quase que não entro, se não fosse por minha nota nas provas,
>para o programa de pós-graduação em Sociologia Política na UENF
>(Universidade Estadual do Norte Fluminense). Olha, que nem projeto eu tinha
>que apresentar, pois não era exigido. Na entrevista, quando inquirido,
>falei sobre a possibilidade da pesquisa sobre anarquismo, em contraposição
>à dicotomia/dialética dos estudos de Estado e Sociedade Civil. A banca
>quase me come vivo! (risos) Mas para azar (ou sorte) deles eu estou lá.
>   Enfim, a pretensão do GEA não é futuramente disputar hegemonia de
>departamentos, se der para destituí-los seria a melhor coisa. Acredito que
>as universidades como são servem de acúmulo de experiência para a atuação
>em outros campos, embora também ache que a defesa da mudança radical das
>estruturas, como propõe o movimento dos estudantes do acampamento da
>reitoria da USP neste exato momento, é valiosíssima. Deixo aqui a minha
>solidariedade e, se puder, apoio à resistência. Sem excluir essa luta,
>alguns companheiros têm discutido a possibilidade de se organizar uma
>Universidade Popular (o Alexandre Samis tem se dedicado a isso nos últimos
>tempos), direcionada aos movimentos sociais. Toda atividade que o GEA
>desenvolve é, com certeza, acúmulo para essa iniciativa. Tomara que
>consigamos!
>
>   ANA > Você não acha que o anarquismo brasileiro (não estou falando a
>totalidade) vive muito de memórias, do passado? Pouco conectado com o
>presente, com o seu tempo? Às vezes tenho a sensação que alguns anarquistas
>pararam no tempo, não sei...
>
>   Rafael < Em parte sim, concordo com o que diz. Mas temos que diferenciar
>duas coisas: uma é a luta que tem de se travar justamente contra as
>práticas e teorias que tentam esconder a história do anarquismo no Brasil
>(como também em diversos lugares do mundo), daí vale o saudosismo. Outra é
>que, com muito apego à memória do passado, tem gente que acaba por si
>própria enterrando o anarquismo num lugar glorioso do passado,
>transformando o trabalho historiográfico em um fetiche. Ainda nesta segunda
>categoria, o saudosista que quer reproduzir exatamente como se fazia no
>passado também é esquisito, pois não consegue avaliar as condições
>presentes para a atuação.
>   Mas tem muita coisa rolando que a própria condição da atualidade tem
>mostrado ser mais forte, como o anarquismo inserido nas lutas ecológicas,
>culturais e sociais. O caso que considero o mais importante é o do
>sindicalismo revolucionário, que na realidade nunca teve um molde exato de
>organização, apenas princípios básicos, e, portanto não está preso a um
>modelo do passado, e tenta se rearticular. A ação que alguns anarquistas
>tem feito pelo movimento de base de algumas categorias profissionais,
>fazendo frente à burocracia destas entidades sindicais, tem sido bem
>interessante, mas é ainda insipiente. Tem tudo a ver com essa atualização.
>Mas um setor que considero importante, e que muitos de nós ainda não dá
>devida atenção, para a avaliação é o do trabalho terceirizado e as
>“cooperativas”, sistemas precários e sem quaisquer direitos. Eu mesmo
>estive envolvido por vezes neste tipo trabalho e ficava de mãos atadas na
>hora de traçar estratégias de luta, ficando tudo muito no
>  plano individual.
>
>   ANA > Quando você fala de um “anarquismo inserido nas lutas ecológicas”,
>concretamente quer dizer o quê? Minha sensação é que o grosso do anarquismo
>brasileiro está à margem das lutas ecológicas, de lutas reais.
>Infelizmente, ecologia, é um tema, uma luta que não ganhou espaço nem a
>atenção que merece no Brasil.  O que há, a meu ver, é muito modismo
>vegetariano ou vegano, um certo estilo de vida, comportamental... mas luta
>mesmo não vejo, nem produção teórica. (risos)
>
>   Rafael < Sim. Concordo contigo. Na realidade, não conheço tantos grupos
>anarquistas que se dediquem a questão com afinco. Conheço sim, diversos
>indivíduos que lutam em seus locais, conectados à comunidade da qual fazem
>parte e com grandes trabalhos. Mas mesmo estes, não têm se dedicado à
>produção teórica, algo razoável por conta da própria dinâmica dos trabalhos
>comunitários. Exemplo disso era o companheiro Berimbau que desenvolvia um
>projeto de educação ambiental com jovens e adultos no CCS-RJ, na comunidade
>do Morro dos Macacos, e só agora, depois de quase três anos de labuta, é
>que pode dar uma parada e escrever sobre as suas experiências e pensar em
>um trabalho mais teórico.
>   Existem também alguns estudantes e professores que bem recentemente
>começaram a discutir ações dentro do que chamam de agro-ecologia,
>estimulados com desde as idéias do geógrafo anarquista Elissé Reclus à
>proposta da Ecologia Social de Murray Bookchin.
>   Enfim, considero que as questões ecológicas se passam pelas questões
>políticas e econômicas mais gerais manifestadas pelo capitalismo e a
>incidência destas sobre as cidades (urbanas ou não). Por tanto, as ações
>devem estar direcionadas à gestão libertária da cidade – nos protestos
>contra empresas e governos criminosos; na criação de meios de produção,
>consumo e POLÍTICA alternativos; e, o primordial, na mobilização da
>população local para a participação de ambas ações. O que no Brasil é raro.
>Sobra comportamento individual, como você bem disse.
>
>   ANA > Nos tempos que correm, qual a grandeza do anarquismo no Rio de
>Janeiro?
>
>   Rafael < Por enquanto, não há grandeza. Há muita disposição dos
>anarquistas atuantes, isso sim, pois na maioria do tempo estamos lidando
>com situações de conflito e repressão. Para quem está no dia a dia da luta
>às vezes bate certa insatisfação, quando as coisas não andam ou quando o
>movimento fica mais vulnerável aos ataques externos. Ao meu ver o que o
>anarquismo no Rio de Janeiro tem desenvolvido na luta comunitária e no
>movimento sem teto é o que tem gerado mais frutos, e a certeza de que
>estamos percorrendo o caminho correto.
>
>   ANA > Existe algum pensador anarquista hoje que te instigue, provoque?
>
>   Rafael < Como tenho dado sangue no movimento sem-teto aqui do Rio, cada
>vez que leio Proudhon fico mais motivado à luta. Mas o que Proudhon tem a
>ver com o movimento sem-teto? A propriedade é um roubo desde sempre, a
>especulação imobiliária e o crescimento das favelas são apenas atualizações
>do que já se dizia sobre a gestação da propriedade privada do século XIX;
>outro cara que tenho lido e que também tem me dado enorme satisfação é o
>Bookchin. Pena que ele faleceu no ano passado, pois eu faria o maior
>esforço para que ele viesse ao Brasil dar uma palestra. O municipalismo
>libertário e a ecologia social, uma atualização do federalismo de Proudhon,
>talvez, são importantíssimos para a ação anarquista presente e de anos aí à
>frente.
>
>   ANA > Mais intelectuais no anarquismo, ou mais gente inteligente?
>(risos)
>
>   Rafael < O intelecto todos nós temos de trabalhar, é parte de nossa
>saúde mental, mas fechar-se nisso ou se profissionalizar nesta atividade é
>que acho errôneo. Quero crer que exista muita inteligência, como a que
>tenho visto por parte dos companheiros e companheiras com quem convivo.
>
>   ANA > Como você vê essa questão de que se editam diversos livros
>libertários no Brasil, acredito que na América Latina é um dos principais
>lugares, mas ao mesmo tempo não é o lugar aonde o anarquismo tem mais
>presença social, nas lutas da sociedade?
>
>   Rafael < Justamente porque o maior volume do que sai sobre anarquismo
>aqui não está associado a uma demanda do movimento social. O próprio
>movimento social através de sua dinâmica não tem conseguido gerar uma
>iniciativa editorial própria, é uma coisa a se construir. Mesmo assim
>acredito que seja importante a ação de algumas pessoas que se dedicam a
>este trabalho, deve-se ter a edição de livros anarquistas na maior escala
>que pudermos, pois o mercado editorial é cruel.
>
>   ANA > Para encerrar, o marxismo ainda continua “dando a linha” na
>maioria dos cursos universitários?
>
>   Rafael < Absolutamente. Tanto em termos de disputa por postos de
>destaque e pela hegemonia das direções dos departamentos e institutos, das
>ciências humanas, como também está viciado em muito do que é oferecido como
>fundamento para interpretação e conhecimento. As pesquisas universitárias
>majoritariamente seguem viés marxista, mesmo que não tratem diretamente
>desta questão política/ideológica.
>
>   ANA > Fique à vontade para deixar algum recado... Valeu!
>
>   Rafael < Acho que o recado já está dado! (risos) Abraços! Solidariedade
>revolucionária!
>
>   Grupo de Estudos do Anarquismo (GEA): gea_nec2  yahoo.com.br
>
>   agência de notícias anarquistas-ana




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