(pt) Imperialismo russo e a guerra na Tchetchênia

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Sexta-Feira, 23 de Fevereiro de 2007 - 22:19:29 CET


[goncalvescorreia[arroba]hotmail.com]
Convidada pela Federação Internacional de Direitos Humanos para o IV Fórum
Social Mundial, Lida Iussupova procura incansavelmente denunciar um dos
mais graves genocídios contemporâneos: o extermínio generalizado e o
terror militar causado pela guerra na Tchetchênia. Representante da ONG
Memorial na cidade de Grozny, capital da Tchetchênia, Lida recebeu em
abril de 1994 o prêmio Martin Ennals Award for Human Rights Defenders por
sua luta em defesa dos direitos humanos.
Antes de retornar para Grozny, Lida (..) nos relatou as atuais condições
de vida dos tchetchenos, a história das guerras, a resistência de seu povo
contra a violenta ditadura do Estado soviético e, atualmente, contra os
crimes de guerra das tropas militares russas.
Os povos das montanhas do Cáucaso Setentrional – tchetchenos, inguches,
ossetas, kabardinos, balkaros, karatchai, tcherkesse e outros – sempre
representaram entraves para as tentativas imperialistas euro-asiáticas:
resistiram aos impérios tártaro-mongol, turco-otomano, russo e soviético.
A geografia auxilia nas estratégias de resistência. A região montanhosa
dificulta o acesso para as tropas dos invasores, enquanto as formas
seculares de auto-subsistência das comunidades tradicionais colaboram para
a sobrevivência.
Pastores nômades e agricultores, estes povos organizavam-se através de
conselhos das comunidades e foram vistos como bárbaros e “atrasados” não
só pelo Império Russo que tentou dominá-los durante longa e sangrenta
Guerra do Cáucaso (1817-1864), mas também pelos dirigentes da União
Soviética que se opuseram à criação de uma República Autônoma dos
Montanheses, logo após a revolução de 1917.
Com a desintegração da URSS, a Tchetchênia novamente proclama a
independência. Mas o poder imperial somente trocou de nome porque, em
1994, as tropas russas invadem a Tchetchênia. Começa a guerra, que dura
até hoje – vitimando mais de 300 000 pessoas e fazendo cerca de 500 000
refugiados.


* * *

Comunidades tradicionais na Tchetchênia

A estrutura social das comunidades tradicionais na região da Tchetchênia e
do Cáucaso Setentrional é formada por teipes. As teipes podem ser
compostas por diversas famílias e, além disso, aceitam outros agregados em
sua composição social, provindos de outras regiões.
As teipes são constituídas por uma vila ou por um conjunto de vilas. Todas
as questões cotidianas referentes aos seus habitantes são decididas nos
conselhos, compostos pelos anciãos das teipes e, em alguns casos
específicos, por outros representantes da comunidade. O Conselho dos
conselhos legisla sobre questões que envolvem o coletivo das teipes.
Forma-se, ainda, o Conselho Maior, congregando todos os povos das
montanhas.
A estrutura horizontal, participativa e representativa dos povos das
montanhas se contrapunha às tentativas de estabelecimento de um Estado ou
outras formas de hierarquização institucional. No caso de guerra,
escolhe-se um líder, a quem todos os habitantes juram lealdade militar. A
terra, as águas e os bosques pertencem aos habitantes das vilas. As
tarefas de subsistência são realizadas pela própria comunidade, baseadas
essencialmente na plantação de batata, milho e trigo, além das atividades
pastoris. Pelas torres de pedra, a segurança da comunidade se faz através
de atenta observação do território.

O Estado na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS):
militarização, repressão e russificação

Após a criação da URSS, o processo de russificação e militarização no
continente foi abrupto e violento. Abrupto por interromper e subjugar
povos e comunidades que, por séculos, desenvolviam suas diversas formas de
auto-governos. Em poucos anos, esse exercício de autonomia social foi
substituído pela heteronomia estatal soviética (tal processo não fora
exclusividade das ações do PC Soviético: em outros continentes, a formação
e o desenvolvimento do Estado-nação caracterizou-se, essencialmente, pela
usurpação das habilidades de auto-governo de comunidades tradicionais).
Violento porque tais comunidades, descentralizadas e espalhadas pelo
planeta, experimentaram a força dos modernos mecanismos de repressão
militar combinados com a força de persuasão dos modernos mecanismos de
propaganda e marketing. A sobrevivência do modo de vida comunitário
autônomo fora encurralado. Assim, para compreendermos os conflitos atuais
na Rússia provenientes da desintegração da URSS – como a guerra na
Tchetchênia – percebemos que o processo de russificação, militarização e
repressão constituiu a base das violações dos direitos humanos cometidos
na época do governo imperialista da URSS.
A dominação pelo Estado das atividades comunitárias essenciais ao
auto-governo social, tradicionalmente exercidas pela própria comunidade e
núcleos familiares, se materializou através do surgimento de
especialistas: estes passaram a apontar a melhor maneira para administrar
a sociedade, gerir a economia, educar, remediar pequenas enfermidades,
fazer sexo, lavar roupas, praticar esportes, parir crianças e enterrar os
mortos. Indicam também a música da moda, explicam os motivos das grandes
guerras e das catástrofes humanas, enfim, retiram de nós próprios as
habilidades humanas de agir e emitir opiniões sobre nossas vidas. Aos
especialistas do Estado é repassada a incumbência de gestão social. E a
especialização da gestão social, por sua vez, nada mais é do que a
radicalização da divisão do trabalho, processo capitalista iniciado com a
Revolução Industrial, na Inglaterra, e globalizado através das grandes
empresas transnacionais, na atualidade.
No caso do Estado soviético, a divisão do trabalho configurou-se na
formação de uma classe social de gestores (dirigentes), empenhados em
submeter a classe trabalhadora de camponeses e operários à nova ordem dita
comunista. A operacionalização e implementação social dos mecanismos de
lealdade aos dirigentes foram criados logo a partir das primeiras medidas
de Lenin, principalmente na concepção da vetchka (ВЧК –
Comissão Excepcional Superior, futura KGB) – os administradores, policiais
e funcionários do Partido cuidavam para que toda e qualquer deslealdade
significasse ato contra-revolucionário. No que se refere ao papel dos
professores, estes já contavam inicialmente com amplo apoio do aparato
estatal para universalizar o ensino obrigatório do idioma russo em todas
as regiões da União Soviética. A nova ordem bolchevique procurava
uniformizar, disciplinar e controlar a totalidade de centenas de povos que
habitavam o extenso continente euro-asiático.
Os conflitos decorrentes desse processo, acentuados pela morte de milhões
de pessoas com as repressões stalinistas (como a deportação de tchetchenos
ordenada em 1944), são a origem das recentes guerras travadas entre o
governo russo e os povos de ex-repúblicas soviéticas em torno da questão
da autonomia política.

Atuais condições sociais na Tchetchênia

A infra-estrutura urbana da Tchetchênia foi destruída com a guerra. O
sistema de canalização, os elevadores e a calefação nos prédios
praticamente não funcionam. A população procura comprar água trazida de
outros lugares. A eletrificação é reconstruída lentamente, improvisada em
perigosas ligações clandestinas. As condições sanitárias estão em colapso.
Apenas as avenidas centrais recebem limpeza adequada, enquanto nos demais
locais acumula-se toneladas de lixo. No mercado central, ao lado das
montanhas de entulho e outros detritos, comercializa-se carnes, verduras e
frutas. O desemprego leva a população ao trabalho informal. Sem qualquer
documentação, os trabalhadores são coagidos a pagar propina para a
administração dos mercados. Além disso, são frequentemente assaltados por
grupos armados e uniformizados.
O negócio mais lucrativo é a extração e refinação de condensador,
atividade perigosa e extremamente prejudicial à saúde, assim como a coleta
de metais e outros materiais nas fábricas abandonadas. Os coletores
frequentemente se explodem com minas.
O sistema de saúde é caótico. Além do tratamento dos feridos e enfermos,
as crianças precisam de sério acompanhamento para reabilitação
psicológica, pois muitas vezes permanecem longo período escondidas nos
porões, sem alimentação adequada. A falta de vagas para as crianças nas
escolas é permanente. Não há condições adequadas para o ensino, nem
instalações para os estudos, nem sequer materiais escolares.
Dessa maneira, o resultado das recentes ações das tropas militares russas
durante a guerra na Tchetchênia é a destruição da possibilidade de
auto-governo comunitário naquela região, e o controle territorial da
população na formação de guetos nas cidades, nas vilas rurais e nos campos
de refugiados.

Refugiados

A situação de vida insustentável nas grandes cidades leva milhares de
pessoas a fugir para as áreas rurais ou para os campos de refugiados, nas
repúblicas vizinhas. Estas alternativas não amenizam os problemas, pois as
vilas rurais são constantemente alvo das operações de limpamentos
(bombardeios generalizados) pelas tropas russas, enquanto a precariedade e
a instabilidade da vida nos campos de refugiados não possibilita qualquer
esperança para os tchetchenos. Alguns arriscam um novo destino nos grandes
centros urbanos da Rússia – como Moscou ou São Petersburgo – encontrando
xenofobia, preconceito e repressão da polícia: são eternos suspeitos de
terrorismo.

Política do medo cotidiano e a dinamização da indústria da violência

Mas a política de medo cotidiano não é novidade para a população russa,
que já enfrentara outrora a paranóia do poder repressivo stalinista, as
deportações e assassinatos em massa, a cultura de delatação de inocentes
instaurada pelo PC soviético. A diferença é a mudança do alvo desta
política de medo cotidiano. Se antes os agentes e espiões do livre mercado
capitalista eram os inimigos, hoje as minorias étnicas parecem ser as
responsáveis por toda a pobreza e falta de perspectiva na sociedade
contemporânea russa: é necessário vigiá-las, julgá-las, caracterizá-las
como potenciais suspeitos. Nesse sentido, a desigualdade social é
camuflada pela diferença étnica.
Implementada globalmente em nosso planeta após os atentados políticos em
11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, a política de medo cotidiano
tem dinamizado diversos segmentos econômicos ligados à indústria da
violência. O fluxo de movimentação financeira proveniente da ampla cadeia
produtiva desenvolvida através dessa indústria – produção de armamentos,
serviços de “defesa” e segurança, soldados mercenários, financiamento de
redes e atentados terroristas, diversificada produção cinematográfica e
midiática, etc – representa o mais fundamental segmento da economia
capitalista na atualidade.
As vantagens e promoções de produtos militares oferecidos pela Federação
Russa atraem um amplo e diversificado leque de consumidores – desde o
Brasil (negociações para a aquisição de caça-aviões Sukhoi), ou mesmo o
governo venezuelano de Hugo Chavez, até o Estado de Israel. Dessa maneira,
a guerra na Tchetchênia e suas implicações nas recentes formas de
vigilância e controle da sociedade russa têm dinamizado os segmentos
econômicos da indústria da violência naquele continente e, até mesmo, na
América do Sul. E assim movimenta-se toda a cadeia produtiva da guerra.




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