(pt) «Circo Eleitoral e Realidade dos Trabalhadores Alagoanos» Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares - CAZP/FAO-Bras il
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Quinta-Feira, 14 de Setembro de 2006 - 08:56:15 CEST
Nossa vocação, nosso destino O principal produto da economia alagoana, a
cana-de-açúcar, foi implantada pelos portugueses no século XVI como
estratégia para garantir a ocupação do território e conseqüente
colonização do Brasil. A economia era sustentada pela mão-de-obra escrava
dos negros trazidos da África e na grande concentração de terras
(latifúndios). Passados cinco séculos, a economia de Alagoas, embora mais
diversificada e complexa, não está diferente de seu eixo de sustentação:
continua sendo baseada na super-exploração do trabalho nas usinas de
cana-de-açúcar pelas oligarquias herdeiras do sistema colonial. O setor
sucro-alcooleiro é o responsável mais imediato pela miséria do povo
alagoano. Dos anos 90 pra cá a indústria canavieira, sob exigências
impostas pela economia mundial, algo conhecido como neoliberalismo, sofre
um processo intenso de desregulamentação e flexibilização do trabalho, bem
como o emprego de novas tecnologias, modernizando sua produção, mas
diminuindo os postos de trabalho.
Assistimos também a expropriação das pequenas agriculturas de
subsistência, e a formação de um exército de reserva de mão-de-obra
fundamental para a manutenção de uma super-exploração pelos
senhores-de-engenho. Tal processo provoca um intenso êxodo rural, com os
trabalhadores alagoanos sendo jogados nas favelas das principais cidades
de Alagoas, em especial de sua capital Maceió, sem perspectivas de vida e
emprego. Enquanto do lado dos poderosos, vemos maior concentração de renda
e terra. Aliada a tudo isso está a mídia, imparcial como sempre foi,
noticiando ou veiculando propagandas em defesa dos usineiros
democráticos (amigos do povo, parceiros do meio ambiente), nas quais os
trabalhadores cortam cana sorrindo e a natureza é cada vez mais bela. Não
falam que são esses usineiros os principais responsáveis pela intensa
degradação ambiental (destruição dos resquícios de mata atlântica, rios
mortos pelos dejetos), bem como a própria degradação humana. Afinal,
cortar toneladas de canas, com péssimas condições de trabalho e sob
intenso calor, poeira, fumaça e fuligem, para ganhar poucos reais não pode
ser considerado uma atividade que se faça senão sob uma questão de
sobrevivência.
Essa é a nossa vocação, nosso destino, assim disseram e assim dizem os
nossos inimigos de sempre. Assim, movimentamos nossa economia, adubando
o solo com o suor dos trabalhadores, quando não com seu próprio sangue. O
doce da cana vai para as oligarquias alagoanas, para os trabalhadores só
lhes restam amargura e sofrimento.
Os aparelhos de Estado e as oligarquias alagoanas Se estivermos atentos à
história da formação político-social alagoana, podemos identificar a
consolidação de uma estrutura estatal autoritária e patrimonialista,
levada a níveis extremos. E esse fechamento e apropriação da esfera
pública para uso particular é notório ao presenciarmos um domínio
oligárquico, através do qual poucas famílias dominam o estado alagoano,
seja economicamente, seja politicamente, isso sem contar o forte monopólio
de mídia que garante a sustentação ideológica indispensável. Em Alagoas, o
Estado Democrático e de Direito se torna de forma acentuada, mais formal
(ilusório) do que real. É destacável o papel que os poderes de Estado
exerceram perante a economia alagoana, intervindo a favor de seus
representantes (a burguesia e suas variadas frações), sobretudo para
assegurar o predomínio econômico do plantio de cana e produção de açúcar,
assim como de suas oligarquias. Para isso, incentivos fiscais nunca
faltaram através de vários programas de governo, tanto federal como
estadual, definindo regras para exportação e administração dos preços de
modo a garantir a produção dentro da margem de lucro dos usineiros, bem
como possibilitar a variação na produção para atender as exigências do
mercado externo, do qual o setor em Alagoas sempre foi dependente. A
centralidade da economia alagoana em torno das usinas é bem
exemplar quando vemos que a principal atividade de extensão na produção
científica da Universidade Federal de Alagoas é o programa de melhoramento
genético da cana. Mas isso nunca bastou. A pistolagem foi uma das formas
adquiridas pelos poderosos para se firmar, se configurando até mesmo como
uma necessidade da própria formação político-social, co-existindo, dentro
de um mesmo ordenamento ideológico, as lutas entre as próprias classes
dominantes pelo poder e influência sob determinada região. No entanto, a
violência recai de forma brutal sob os trabalhadores quando estes ameaçam
minimamente a se levantar contra os desmandos de usineiros ou fazendeiros,
protegidos com seus capitães do mato ou pela própria polícia do Estado.
Entre a cruz e a espada, ou entre o voto e a ilusão Para melhorar toda
essa situação desesperadora, eis que nos vem o circo eleitoral! Na festa
da democracia, não existem mais ricos e pobres, patrões e trabalhadores,
usineiros e cortadores de cana, todos viram cidadãos, alagoanos e
brasileiros. Parece interessante, mas não é essa a realidade. Não seremos
nós anarquistas que iremos alimentar qualquer expectativa que seja perante
as eleições burguesas. Sim, são eleições burguesas, e dizer isso parece
que incomoda. Estamos perante a escolha entre aqueles que irão administrar
as contas da burguesia, proteger suas propriedades, expulsar sem-terras,
bater em sem-tetos, reprimir estudantes. Nas eleições deste ano os
principais candidatos ao governo de Alagoas são os usineiros João Lyra (o
ex-deputado federal mais votado nas ultimas eleições) e Teotônio Vilela
(ex-senador). Os mesmos que se mantém no poder econômico são os que se
mantêm no poder político, ora com representantes seus, ora
representando-se diretamente. Há também os candidatos que se põem como
alternativa aos usineiros, como Lenilda do PT e Ricardo Barbosa, candidato
da Frente de Esquerda (PSOL, PSTU, PCB e PCR). A primeira é dirigente da
CUT, o braço sindical do Governo Lula, e utilizou-se desta posição para
fazer auto-propaganda no dia da mulher, nos outdoors de Maceió. Cria de
uma política de conciliação de classes que levou o PT a uma guinada sem
volta à direita, se utiliza de um discurso curioso. O PT que sempre foi o
defensor da coisa pública, contra os abusos feitos ao poder público, se
coloca como melhor opção, pois Lenilda tem ligação direta com o
presidente Lula. Isso não é nada menos do que assumir o clientelismo
político, o toma lá da cá (mensalões), onde por trás de governo para
todos, existem é interesses eleitoreiros e particulares. O PT aprendeu
rapidinho...
Já a Frente de Esquerda, encabeçada na candidatura de Ricardo Barbosa do
PSOL ao governo, se coloca como única alternativa de esquerda pra mudar a
política alagoana. Mas que alternativa de esquerda é essa que privilegia a
disputa das eleições burguesas ao invés de fortalecer as lutas populares?
Seria diferente se o principal candidato fosse de esquerda? E mais, será
que é através do aparelho de Estado, via eleições, que podemos reverter
todo o sentido histórico de nossa formação sócio-econômica? Talvez seja
mais fácil acreditar que sim, mas nós anarquistas afirmamos que não é esta
a saída. O Estado, fruto da divisão social de classes da sociedade, é um
instrumento necessariamente conservador, para a manutenção do status quo.
Independente de quem esteja no poder legislativo ou executivo, por mais
radical que seja o político, não se consegue mudança significativa através
do parlamento. E em nosso caso, o mesmo sempre teve estreita relação com a
economia canavieira, dando todas as condições para que os empresários do
ramo pudessem se enriquecer à custa da exploração dos trabalhadores. Para
nós não existe formula, não existe mágica, nem mesmo o menos pior.
Estamos seguros que a política de Estado é a política da burguesia.
Entendemos que todas as mudanças históricas nas estruturas do sistema
foram impostas pelos trabalhadores através de muita luta, sangue, suor e
barricadas. Mesmo as conquistas mínimas, são asseguradas e conquistadas na
organização e luta de trabalhadores e são para elas que gastamos nossas
energias.
Poder Popular: política e protagonismo de classe A política própria dos
trabalhadores é construída e sedimentada a partir de suas próprias
mobilizações, de seu próprio espaço de moradia, trabalho ou estudo. É
certo que não vivemos em uma situação favorável para a luta dos
trabalhadores. A própria organização dos trabalhadores no meio rural
alagoano, na luta pela terra, sempre encontrou fortes obstáculos e uma
intensa repressão, deixando-os sem muita opção a não ser aceitar as
humilhantes condições de trabalho e os baixíssimos salários. No entanto,
não nos resta outra saída. A despeito do que nos jogam com bastante
intensidade pela grande mídia, o que já seria motivo para desconfiança,
não entendemos que o Brasil está em nossas mãos, ou mesmo Alagoas,
através do voto nessas eleições. Não acreditamos que estamos dando um rumo
de justiça e liberdade cedendo o poder de decidir sobre nossas vidas a
terceiros, a políticos profissionais que vivem outra realidade, que mesmo
que venha a ser o mais operário de todos, irá passar a olhar de cima para
baixo as necessidades da população e a negociar seus direitos para se
sustentar no topo. O Poder Popular se constrói na luta direta pela terra,
nas ocupações de sem tetos, na luta por transporte de qualidade, pela
saúde e educação, feitas a partir do povo, pelo povo pobre e trabalhador.
Foi assim no Quilombo dos Palmares e é assim a cada luta contra a
exploração e opressão que estamos submetidos diariamente, que podemos
avançar em nossas conquistas e deter o controle sobre nossas vidas.
Chamamos todos os trabalhadores a não caírem na armadilha eleitoral!
Gritemos fora aos usineiros e às oligarquias alagoanas, bem como aos seus
representantes e à esquerda reformista. FORA TODA CLASSE POLÍTICA! Só
temos dois caminhos: ou votar com os de cima, ou lutar com os de baixo.
Chamamos o voto nulo e, principalmente, para nos levantarmos com
organização e luta, contra os desmandos da classe dominante e seus
projetos.
Política quem faz é o povo organizado! Protagonismo e luta popular!
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