(pt) «Luta Social» N.15 : ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O ZAPATISM O

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Quinta-Feira, 25 de Maio de 2006 - 09:36:17 CEST


O zapatismo actual é um fenómeno político particular
no conjunto dos movimentos políticos contemporâneos.
Sabe-se que nasce da acção de militantes radicais
esquerdistas chegados às terras índias do Chiapas
entre os anos 70 e 80 do século passado: estes jovens
integraram-se bem nas comunidades indígenas locais e,
com o passar do tempo, identificaram-se com estas
comunidades ao ponto de desenvolver o papel de
porta-vozes dos seus interesses.
	Trata-se do ponto de partida para compreender
o fenómeno zapatista:
podemos dizer que agora apresenta uma matriz índia muito
clara, sem ser somente o veículo de valores indígenas.
	Em primeiro lugar, é hoje expressão e instrumento
dos desejos das comunidades indígenas pela autonomia, ou
seja, pela autodeterminação cultural e económica. A
organização tradicional destas comunidades não se baseia
no domínio de um cacique despótico, mas numa autoridade
que actua em baixo e permanece na assembleia comunitária,
fonte do poder popular. O zapatismo de nova forma avaliou
esta organização tradicional, e fez disto o ponto de
partida para a sua aproximação aos problemas políticos.
	Como disse o próprio subcomandante Marcos, o
zapatismo não quer a conquista do poder ou – melhor dito –
do domínio político. Deseja porém «abrir um espaço de luta
política onde o povo cidadão (...) possa desenvolver uma
participação política real, opinar e decidir qual o sistema
social e o sistema político (...) que queira».
	O objectivo é construir espaços livres e autogeridos
para realizar directamente o contrapoder social. Embora
tinha aparecido como movimento armado, o zapatismo está bem
longe dos típicos movimentos guerrilheiros, in primis
latino-americanos, e a sua atipicidade faz com que os
“puristas” do anarquismo possam considerá-lo somente
reformista.
	Na realidade, o zapatismo é hoje a fonte duma acção
maciça de resistência contra a penetração do Estado, do
capital e do imperialismo nas zonas onde obra politicamente.
Estas três formas de domínio querem desapossar os
povos indígenas do sul de México (do Estado de Chiapas, em
particular) das
suas terras e começar uma exploração total dos recursos
daquelas regiões.
Enquanto os zapatistas controlarem aqueles territórios, os
projectos do Estado mexicano, do capitalismo nacional e
internacional, e do imperialismo ficarão paralisados.
	O zapatismo com os indígenas do sul mexicano luta
contra a penetração do Estado e a “ocidentalização”, enquanto
o anarquismo clássico luta dentro de territórios ocidentalizados,
já moldados pelo Estado e pelo capital; e -por isto – utiliza
métodos diferentes, que não podem ser os mesmos do zapatismo.
	Mas o zapatismo tem uma possibilidade de acção maior na
sociedade mexicana de hoje, sociedade que se quer disposta a
reconhecer a identidade cultural e social de brancos, mestiços
e índios: trata-se da defesa dos direitos e da auto-organização
de classe dos explorados mexicanos. Nesta óptica são importantes
a recente presença de Marcos na Cidade de México e o apoio
zapatista às lutas dos camponeses vendedores de flores em Atenco,
na zona de Texcoco, brutalmente atacados pela polícia. Se o
zapatismo conseguir estender o seu raio de acção para além do sul,
nesta conjuntura caracterizada por uma forte crise económica e
social e pelo fortalecimento do controlo dos EUA nas fronteiras,
contra a emigração mexicana, pode ser vejamos novidades
interessantes no México, no futuro próximo. O importante
é que a luta continue.

Pier Francesco Zarcone






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