(pt) A BATALHA Nº 214: Da «fractura social» à fractura total [fr]

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Quinta-Feira, 12 de Janeiro de 2006 - 18:10:37 CET


por Jean-Pierre Garnier
Jean-Pierre Garnier esteve recentemente entre nós, primeiro em Lisboa onde
participou numa mesa-redonda sobre ‘Maio de 68’, em que foi participante
activo e à qual assistimos (Museu da República e Resistência, 28 de
Novembro de 2005), seguindo depois para o Norte para falar dos também
recentes eventos dos subúrbios parisienses (e de outras cidades francesas)
que, como sociólogo, tem estudado atentamente. Não assistimos a esta sua
segunda intervenção mas topámos o seu artigo em Le Monde Libertaire (n.º
1416, 17 a 23 de Novembro de 2005) e solicitámos a sua autorização para o
traduzir e publicar em A Batalha. Permissão que foi pronta e amavelmente
concedida.


Ao ver ou ouvir a emoção provocada pela «insurreição dos subúrbios», como
a designam os mediocratas, quase se tem a impressão que teria surgido como
um relâmpago num claro céu azul. Todavia, a despeito dos inúmeros
discursos concomitantes, eruditos ou não, tendentes a fazer crer o
contrário, passar em revista as políticas que se sucederam nos últimos
quarenta anos para «remediar o mal estar nas cidades» é fazer a crónica
dum desastre anunciado. Ou, mais exactamente, de um desastre em curso cuja
existência, embora implícita, era sistematicamente negada.
O estribilho dos iniciadores ou promotores destas políticas, inclusive da
coorte dos investigadores vassalizados, era sempre a mesma: «É certo que
estas políticas não deram os resultados esperados, mas, pelo menos,
permitiram evitar o pior.» Acabam de antegostar este «pior», que se
escusavam a definir, por prudência, por falta de imaginação ou,
simplesmente, porque no fundo estavam persuadidos que não ocorreria. O que
não os impede – na verdade são treinados e pagos para isso – de continuar
imperturbavelmente a propor falsas soluções a questões mal colocadas, ou
mesmo simplesmente desvirtuadas. Até à próxima deflagração.
Quanto aos acontecimentos recentes não é de admirar que se hajam
produzido, mas que só agora tenham ocorrido. Realmente há muito que os
ingredientes se encontram reunidos a despeito dos hierarcas do PS e dos
seus peritos em «violência urbana», que se tranquilizam e com ligeireza se
aliviam das responsabilidades, atribuindo este desencadear de «ódio» e de
«raiva» à supressão dos «empregos para jovens», das subvenções às
«associações locais» e da «polícia de proximidade». Como se a gestão
territorial da marginalização de massa, à moda jospiniana, não tivesse
apenas alongado os prazos! Com efeito, não é de ontem que os filhos e,
agora, os netos dos trabalhadores importados das ex-colónias como mão de
obra barata e dócil destroiem o lúgubre quadro de sobrevivência que os
reduz à condição de réprobos da cidade, e lançam fogo aos carros para o
recordar aos que preferem ignorá-lo.
É por isso que as provocações pré-eleitoralistas do actual ministro do
Interior, na realidade apenas acrescentaram um pouco de vapor à panela de
pressão cuja tampa estava prestes a saltar. O erro de Sarkosy, no plano
táctico – a ética nada tem a ver com isto – é ter dito em voz alta, e
agravado o seu caso ao orgulhar-se disso, o que muitos políticos, para não
falar já de polícias e juizes – que não pertencem todos ao Sindicato da
magistratura – dizem em voz baixa, ou pelo menos “off record”. Quantas
vezes se não ouviu, por pouco que se consiga captar as suas afirmações
quando proferidas ao abrigo de ouvidos indiscretos, eleitos locais de
todas as cores políticas, falar sem reserva de “limpar” tal ou tal bairro
da “ralé”, seja a que as “degrada” quando se trata de zonas suburbanas,
seja a que as “polui”, quando ousa aventurar-se nos centros areados e
asseptizados de grandes urbes.
Esta falsa virtude e gravidade face aos desmandos de linguagem dum
representante do povo é igualmente de molde a qualificar a resposta que
suscitou por parte da fracção da juventude popular visada. Assim é de
muito mau gosto usar a terminologia belicosa que os jornalistas adoram, e
que faz com que sejam acusados de lançar óleo num fogo já de si difícil de
controlar. Contudo, quando estes falam de «guerrilha urbana» ou de «guerra
civil», fazem o seu ofício: não o de informar, mas o de vender “papel” e
fazer aplaudir de antemão pela “opinião pública” que têm por função
formatar, a repressão que não deixará de se abater sobre os desordeiros.
Dito isto, os ministros do Interior da falsa esquerda, defensores
patenteados da lei e da ordem como os seus homólogos da verdadeira
direita, não cessaram de clamar contra o novo inimigo interno! De Pierre
Joxe a Daniel Vaillant, passando por Jean-Pierre Chevènement, todos, nos
seus discursos , usaram sem comedimento de vocabulário marcial quando se
tratava de enfrentar as exacções dos «selvagens»: «reconquista das zonas
sem lei», «operações», «dispositivos», «policiamento sectorial», 
«pacificação», etc. Num livro  que poderia figurar em lugar de relevo na
biblioteca da Frente Nacional, o ex-dirigente liceal da LCR convertido em
senador “socialista” Julien Dray, especialista em «questões de segurança
interna» no secretariado nacional do PS, glorificava a acção musculada dos
BAC, «estes capacetes azuis dos Sarajevos em que se converteram os nossos
subúrbios».
Compreende-se, daí, a “moleza” da reacção dos “socialistas” na resposta à
quão simbólica exumação, por D. de Villepin, duma lei parida em 1955, que
permitia estabelecer o recolher obrigatório no quadro da instauração do
estado de sítio na Argélia. A maioria aprovou a decisão, inclusive
Ségolène Royal que, em Novembro de 2001, se manifestara confundido com a
validação pelo Conselho de Estado duma postura municipal de recolher
obrigatório. O que o chocou não foi a medida em si, mas o termo utilizado.
«O termo recolher obrigatório é inadmissível», indignava-se então o
ministro delegado para a Família e Infância do governo Jospin. «É um termo
guerreiro. E o país não está em guerra, nem contra os seus filhos, nem
contra os seus pais, nem contra os bairros desfavorecidos.» Crê-se que
tais reticências são extemporâneas, uma vez que a luta contra os pobres,
que há muito substituiu a luta contra a pobreza, não cessou de se
intensificar no decurso destes últimos anos. «A aplicação da lei de 1955
deve ser limitada no tempo e no espaço», contentou-se em advertir
benevolamente François Hollande, enquanto Jean-Mar Ayrault, presidente da
Câmara de Nantes e chefe do grupo “socialista” na Assembleia nacional,
afirmava, com os aplausos dos deputados de direita, que «em tais
circunstâncias, as formações democráticas devem saber conceber um pacto de
não-agressão». Exactamente o género de argumentos  que tínhamos já ouvido,
há meio século, quando a esquerda e a direita votaram em consonância
«poderes especiais» ao governo de Guy Mollet. Com as consequências que se
conhecem.
O «hic» é que, se eles «não têm grande coisa na cabeça», como J.-P.
Chevènement confiou ao Figaro  quando oficiava na praça Beauvau, os
menores delinquentes não têm a memória tão curta como os seus compatriotas
franceses «de origem». Em primeiro lugar porque muitos dos «irmãos mais
velhos» se encarregaram da transmissão após se terem apercebido, no dia
seguinte a uma «marcha para a igualdade» que os havia feito marchar, que
fora  recuperada e instrumentalizada pelo Eliseu. Em seguida, porque esta
memória foi reactivada dia após dia pelo racismo, pelas discriminações e
humilhações consecutivas a uma descolonisação falhada e mal digerida, além
da precarização e pauperização que os atinge em cheio.
«Estes jovens estão perdidos, não sabem o que é uma classe, uma luta»,
lamentava o antigo presidente municipal «comunista» de Stains. Mas onde,
que diabo, o aprenderiam eles, numa França onde estas palavras, sobretudo
quando acopladas, são hoje quase unanimemente, PCF incluído, consideradas
mera grandiloquência ? «Nós não estamos em estado de guerra, mas num
estado de urgência social», opina por seu lado um deputado, ele também
«comunista», de Seine-Saint-Denis, segundo o relatado por plumitivos da
imprensa comercial.
É esquecer demasiado depressa o estado de guerra permanente instaurado
pela burguesia mundializada, secundada pelas elites dirigentes de cada
país, a quem cabe a tarefa de desmantelar paralelamente as conquistas
sociais dos decénios precedentes. O momento em que em França, as camadas
populares começaram a sofrê-lo é dos mais significativos: meados dos anos
70. Precisamente aqueles em que os «subúrbios» começaram a dar que falar.
O mesmo é dizer que se há «estado de urgência social», parece que neste
domínio fazem um pouco falta os urgentistas.
Em seu lugar, chama-se hoje a polícia. Aguardando o exército, amanhã. Uma
maneira como qualquer outra de ensinar aos jovens rebeldes, se não o
suspeitassem já, o que é esta luta de classes que passa por ultrapassada
aos olhos dos imbecis ou dos patifes.




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