(pt) TRIBUTO À MEMÓRIA DE JOÃO GABRIEL DE OLIVEIRA MORATO PEREIRA

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Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2006 - 20:48:14 CET


Aos 6 meses passados de sua morte, manifestando que os homens passam mas
as idéias ficam, nós d'O COLETIVO LIBERTÁRIO (cldvulg  bol.com.br) - em
nome do Movimento Libertário Brasileiro (MLB) - rendemos nossa homenagem a
um dos mais ativos militantes do Movimento Libertário Portugues, um dos
que reativaram na década de 70 a FAI (Federação Anarkista Ibérica), no
qual atuou na Seção Portuguesa sendo fundador e editor da revista "Acção
Directa" - òrgão de divulgação da FAI-Portugal - de onde extraímos o texto
abaixo (II Série, nº 38, Nov/Dez 2005). Uma lição de vida e um exemplo de
luta para os libertários de todo o mundo num momento em que alguns tentam
descartar o anarkismo clássico por um neo-anarquismo, buscando alianças no
seio da esquerda político-partidária mundial.

JOÃO GABRIEL VIVE!
VIVA A FAI!
LONGA VIDA A ANARKIA!!!


À MEMÓRIA DE JOÃO GABRIEL DE OLIVEIRA MORATO PEREIRA
     (Artigo de autoria de Julio Carrapato, publicado no nº de outubro da
revista “Algarve Mais”)

Morreu o João Gabriel Morato Pereira, o nosso Gabriel, como lhe chamávamos
nos vários círculos do movimento libertário português, movimento cuja
sobrevivência ele garantiu com mais um punhado de resistentes como Rui Vaz
de Carvalho ou Antonio Mota, e que tanto lhe ficou a dever em vários
momentos decisivos do pós-25 de abril de 1974. Ele próprio, porém, a
despeito de uma perseverança, de uma pertinácia e de uma firmeza à prova
de bala, não resistiu a mais uma cirurgia ao coração (válvula mitral) e
uma embolia cerebral, desgraçadamente sobrevinda durante o famigerado
período pós-operatório, deitou-o por terra, fulminou-o, no dia 19 de Julho
de 2005, a beira dos 65 anos, já que nascera em 28/07/1940. Por mais um
capricho da vida, no próprio dia em que eu festejava meus provectos 58
anos, morria-me um dos meus maiores e mais constantes amigos, deixava de
bater aquele coração grande e generoso e de pulsar aquela inteligência
clara. Lúcido até o fim, sempre animado por aquela lucidez apaixonada e
revolucionária que nada tem a ver com a frieza ou a rigidez cadavérica,
precisamente por que é a antítese da morte, era a prova viva de que a
razão e emoção não se opõem, e menos ainda se excluem,conforme no-lo
ensinam os modernos neurologistas, estudiosos da atividade cerebral e dos
processos físicos e psíquicos, porque também se pensa com o corpo. Era, em
suma, um homem sensível, por que inteligente, e inteligente por que
sensível, e a sua morte revoltante deixou-nos a todos imensamente mais
pobres, constituindo mais uma prova da inexistência de Deus, como diria
Sébastien Faure. E de nada serve que os materialistas toscos e os
“socialistas” arregimentadores, homogeneizadores e massificadores,
aparentemente por outro lado, nos venham cá dizer com gélidas inflexões
que “ninguém é insubstituível”. Nós anarkistas, que lutamos por uma
sociedade de indivíduos (homens e mulheres) livres e iguais, mas únicos e
variados, sabemos , pelo contrário, que jamais alguém é substituído,
quanto mais o Gabriel! Pode-se, é claro, se for o caso, “ganhar” com a
“troca”, mas o conceito de substituição é em si mesmo absurdo e obsceno...

Nos grandes eventos históricos, não se pode olhar para o peso cego das
coisas impulsionadas por uma pretensa “inelutabilidade”, no quadro de uma
concepção fatalista ou determinista. O fator humano e o “ infinitamente
pequeno” desempenham um papel crucial. Em plena borrasca da Guerra Civil
Espanhola, a morte prematura de Francisco Ascaso e Buenaventura Durruti
não terá sido desastrosa para a Revolução Social em curso? Será que,
naquele momento específico, ambos não eram insubstituíveis? Isto nada tem
a ver com a concepção da História, porque mais que ninguém os anarkistas
repudiam chefes e homens providenciais. Prende-se apenas ao facto de, por
mais comunistas (libertários) que sejam, terem um imenso respeito pelos
indivíduos concretos...

Contava-se o Gabriel, entre aqueles que, por causa das provocações e
perseguições policiais, não puderam os cursos ditos superiores. Tinha, no
entanto, algumas habilitações literárias, entre as quais avultam o curso
da Escola Comercial e industrial Veiga Beirão, ou Ferreira Borges, não sei
ao certo, curso equivalente ao 3º ciclo do ensino secundário, alínea de
econômicas, e concluído em 23/08/1957. Após interrupção dos estudos por
razões laborais e subversoras da “ordem pública”, já se encontrava não
obstante, com o 2º ano concluído do Instituto Superior de Ciências
Econômicas e Financeiras, quando se viu obrigado a partir bruscamente para
paris, em fins de 1970. Os motivos eram alheios à sua vontade e
prendiam-se ao facto de ter um mandado de captura, pela formação de grupos
estudantis dissidentes.  Já em França, com as dificuldades inerentes a um
exílio não dourado, ainda concluiria o curso de francês da Escola
Internacional de língua da Civilização Francesa (“Alliance Française”, 5º
grau); contudo, adaptar-se-ia com dificuldade à vida parisiense, sendo dos
primeiros refugiados a regressar a Portugal, ainda em período de
incertezas, mal eclodiu o 25de Abril de 1974. Enquanto muitos outros
exilados pensavam que o saloio português era um processo interminável,
entorpecido no tempo, já ele, com a sua perspicácia habitual e o seu
instinto revolucionário, sabia que o “ marcelismo” estava com os dias
contados, no quadro do desenvolvimento capitalista e da modernização da
opressão.

Mas o Gabriel era sobretudo um brilhante autodidacta, um revolucionário
semovente e auto-activo, um operário do conhecimento em permanente
auto-construção, um ser com uma curiosidade intelectual – que não se
adquire nas academias – insaciável e capaz de rasgar para os outros e para
si próprio novos horizontes. Em suma, o oposto de um resignado ou de um
dogmático, cristalizado á volta do quisto ou da pústula das usas certezas
e ignorância. Um insatisfeito e u revoltado permanente, avesso a
acomodações, carreiras e hierarquias. Por tal motivo, à medida que ia
exercendo pequenos empregos de sobrevivência, havia uma espécie que o
fazia rir depreciativamente ou lhe incutia um asco invencível: a dos
universitários “de esquerda” que, após gozarem do estatuto de “refugiados
políticos”, “pastavam” tranquilamente, por hipótese, na Universidade livre
de Vicennes, preparando teses de mestrado e até de doutoramento, muitas
vezes a quatro mãos, que fariam gargalhar qualquer primata, a fim de
“sacarem o taco à burguesia”... Mas que expropriação por interesse privado
tão oportuna, sem ser evidentemente oportunista!

Alheio desde sempre a toda a imundície, o Gabriel, apenas com 14 anos,
imerso num caldo cultural diferente, já era capaz de ler “A Conquista do
Pão” de Kropotikine, tam como o “Avante!”, aos velhos operários
analfabetos de Camarate. Ao mesmo tempo, como era “deficiente físico”
(coxeava de uma perna e num dos braços não tinha total mobilidade) e ouvia
amiúde as almas piedosas dizerem-lhe ferozmente: “Se Deus ter marcou,
algum mal tem encontrou”, depressa enveredou pelo anticlericalismo e pelo
ateísmo, caminho “insondável” como os desígnios do Senhor, e foi
dispensado de participar nas palhaçadas da Mocidade Portuguesa.

Fruto de um país onde vigorava a censura e tudo se movia na
clandestinidade, em clima conspirativo, teve como primeira “opção”, à
falta de melhor e no desconhecimento do mundo, o PCP. Por conseguinte,
quando foi a Faculdade, creio que em 1963, já era membro do referido
partido; muito embora, quando fosse preso, em 21 de Janeiro de 1965,
quando era Secretário-geral da RIA (Reunião Inter-Associações), já
estivesse desencantado com a geringonça burocrática e a sua inutilidade
prática, e prestes a tudo trocar por outras formas mais activas de luta, o
que realmente veio formalmente a acontecer, mal foi “posto em liberdade”,
ou seja , quando saiu da “jaula” para a prisão maior do mundo exterior.
Entrementes, conhecera as cadeias de Aljube, de Caxias (reduto sul e
reduto norte), durante cerca de ano e meio, dado que fora condenado a 18
meses de prisão, saindo apenas três meses antes do cumprimento total da
pena, devido a uma anistia geral para os implicados no caso. E, pelo
caminho, durante a fase dos interrogatórios (ou inquisitória), tomara
longamente o gosto da tortura: a “posição de estátua” durante horas a fio,
alternando com a tortura do sono durante onze dias. À medida que o
interrogavam, os agentes da PIDE troçavam dele por ser coxo e se meter em
altas cavalarias. E quando, no último dia de tortura, desfaleceu e caiu na
quase total inconsciência, foi rodeado pelos esbirros que se “divertiam a
“atirá-lo” de uns para os outros.

A notícia da detenção de Gabriel e de mais algumas dezenas de estudantes
foi dada então pela imprensa internacional e muito especialmente pelo “Le
Monde”, que mantinha viva a memória da crise acadêmica portuguesa de 1962.
Aqui ocorreu um fato curioso e só o narro à guisa de apontamento marginal:
não conhecendo eu pessoalmente o Gabriel, nem nenhum dos detidos dessa
redada, que aliás seriam maioritariamente soltos muito antes do meu futuro
amigo, o que é certo é que, caloiro de Direito, aos 18 anos, participei na
monumental pateada e assobiadela ao “magnífico reitor” Paulo Cunha, tendo
em vista a chamada de atenção para o caso dos presos. A participação que
teve na vaia, que teve lugar no edifício da reitoria da Universidade
Clássica, em plena sessão solene comemorativa de qualquer treta que não me
ocorre – conto-o a laia de anedota -, e certa falta de jeito valeram-me
uma passagem pela Rua Antonio Maria Cardoso, sede do PIDE, que agora os
especuladores querem transformar em condomínio privado, com a benção do
Estado, e a expulsão da Universidade de Lisboa de onde transitei para a
Universidade de Coimbra. Sem ser místico, ter faculdades divinatórias, nem
acreditar em premonições, dir-se-ia sem embargo que tudo se conjugava para
que o Gabriel mais eu nos conhecêssemos em Paris, no início dos anos 70, e
ficássemos a partir daí companheiros, cúmplices e amigos para o resto da
vida...

Conheci, pois, o Gabriel, em França, para aonde eu partira
clandestinamente, no início de 1968. Penso que o encontro fortuito teve
lugar no café Luxemburgo, freqüentado pela emigração rebelde, por
bastantes exilados portugueses e por desertores refratctários do exército
colonial. Ao pensar hoje no cenário, “mobilado” por tanta rapaziada que
recusara a guerra e dera o “salto”, só posso pensar que o colonialismo
lusitano, à moda antiga, tinha os dias contados, pelo efeito
desmoralizador que tanta deserção tinha na tropa fandanga. Depois, seria
só questão da estocada final do monstro fascista. Não me venham é cá com
estrofes sobre os “capitães de Abril”, ou com as súbitas tomadas de
consciência no meio do capim, como nos romances de lobo Antunes. E menos
ainda me digam, como Jerônimo de Sousa, actual Secretário-Geral do PCP, à
jornalista Felícia Cabrita, que naquele tempo quem desertava eram os
filhos da burguesia, já que os filhos do proletariado não podiam! Atoarda
quejanda, que nos leva a crer que, na hora da verdade, a “burguesia” é
mais radical que o “proletariado”, só podia de resto vir de um “operário”
viciado na vida parlamentar, no pós-25 de Abril, e que, chegada a hora,
envergara o uniforme da Polícia militar e andara por terras da
Guiné-Bissau, chegando a receber louvores dos seus superiores
hierárquicos.

Seja como for, devo ter conhecido o Gabriel, que na qualidade de
“deficiente físico” não tinha problemas militares, em 1971, porque a seu
lado se encontrava outro bom amigo, o Antonio Mota, ex-estudante do
Instituto Superior Técnico (Engenharia Mecânica) e ex-animador das lutas
acadêmicas, que só partira a Paris nesse ano, já depois do Gabriel lá
estar. Nesse tempo, após uma breve passagem pelo maoísmo, itinerário
normalmente seguido pelos dissidentes do PCP (caso de Gabriel), ambos
ainda andavam nas margens do “marxismo libertário” ou da “ultra-esquerda”,
vagamente agarrados a um conselhismo à Pannekoek ou ao aparente
espontaneísmo luxemburguista. Quer dizer, já tinham ultrapassado o
leninismo, o trotskismo e mais ainda o stalinismo, correntes cruzadas e
complementares do mito bolchevique, que tantos estragos fizera no campo
revolucionário internacional, mas ainda não tinham ajustado
definitivamente as contas com o mito marxista. Fá-lo-iam pouco depois,
atirando todo esse lastro inibidor por cima da amurada, separando
claramente as águas, fazendo-as ao largo e aderindo sem reservas ao
anarquismo, à sua tradição e à sua ética.

Foi sensivelmente nesse tempo que se teve lugar o funeral de pierre
Overney, jovem operário abatido, se bem me lembro, à porta de uma das
fábricas da “régie” Renault. Como o rapaz era membro de qualquer pequena
organização da extrema-esquerda autoritária e o acompanhamento do féretro
se faz\ia à revelia do PCF e da sua correia-de-transmissão sindical (CGT),
ninguém dava nada pela manifestação, pensando toda a gente que ela não
reuniria mais de uns três ou quatro gatos-pingados. Ora bem, todos se
enganaram. Pela multidão que reunia – cerca de 200.000 a 300.000 pessoas –
e pela ausência de controle por parte das burocracias sindicais e
partidárias gorilóides e de má catadura, o funeral fazia pensar nas
grandes manifestaçãoes de maio de 1968. Infelizmente, tínhamos que gramar
o sorumbático e militarista batalhão maoísta, flanqueado por uma ou duas
companhias de trotskistas mais pedantes e aparentemente mais “convivais”,
contudo, nenhum grupelho de extrema-esquerda tentando substituir-se ao PCF
ou a CGT, conseguia enquadrar ou arregimentar nem um décimo dos
manifestantes. Além disso, os anarkistas, que não tinham por hábito
censurar ou policiar ninguém, podiam finalmente desfilar livremente e
soltar aos quatro ventos as suas frases criatovas e demlidoras, sem terem
de andar à porrada com a tropa de choque stalinista, armada em capataz ou
em pastor da “classe operária”.Só quem não os conhece de perto é que não
sabe que ainda conseguem ser mais eficazes do que qualquer corpo de
“polícia de intervenção”, tal como aconteceu nalguns episódios de Maio de
1968!

Para evitarmos confusão e outras extrapolações, é evidente que o Gabriel,
o Eduardo Pereira (operário que particiapara no assalto ao quartel de Beja
em 1961, e após longos anos de prisão rompera com o PCP) e eu próprio nos
manifestamos ao lado dos anarkistas parisienses, que empunhavam as
habituais bandeiras negras e rubrinegras. Desfilamos, não a passo
cadenciado, mas efectuando pequenas corridas e pequenos reagrupamentos que
o Gabriel, que ainda não usava bengala, acompanhava estoicamente e sem
esforço aparente. Referindo-se aos acratas presentes, comentava o Eduardo
Pereira, com voz grave e limpando o suor do rosto: “São estes rapazes e
raparigas, com a sua alegria, os únicos dessa manifestação que aqui vão
sem quaisquer ilusões!” À sua maneira, formulava avant la lettre a
ulterior máxima dos anarkistas italianos: “Sejamos optimistas, deixemos o
pessimismo para melhores tempos!”

Já depois do 25 de Abril de 1974, encontravamo-nos todos em Lisboa. Após
um jantar, ou um almoço, opiparo no 1º andar do Tatu, ao Campo Grande,
enquanto matávamos saudades de umas cabeçorras de garoupa, de pescada, de
uns bacalhauzinhos “à maneira”, rematando o gabriel ainda a coisa com uns
bifinhos de cebolada, acertamos agulhas e elaboramos projectos: urgia que
nos aproximássemos dos velhotes de “A Batalha”, ou de “ A Voz Anarkista”,
de Almada, que organizássemos comícios e manifestações e que , em julho de
1975, saísse o “Boletim da Associação de Grupos Autônomos Anarkistas”,
precursor da revista “Acçao Directa”, a qual soltaria o primeiro e
possante “vagido” por volta de Outubro do mesmo ano.

E aqui são bem cabidas duas apreciações de teor global. Em primeiro lugar,
quando nos aproximamos da velha guarda libertária, apesar de um certo
choque de gerações e de haver certos companheiros com quem nos entediamos
melhor, como o Emídio Santana, o José de Brito, o Francisco Quintal ou o
Adriano Botelho, do que com outros, cujos nomes não vale a pena citar – o
que é facto é que nos aproximamos à boa e franca maneira anarkista, sem
reservas mentais, sem “entrismos” dignos de submarinos ou de burocratas,
sem intuitos manipulatórios e sem preocupações de controle ou domínio.
Fizemo-lo como uma parte de um movimento que se aproxima de outra, tendo
em mira um todo que não afogasse ninguém e que, na sua totalidade, fosse
melhor do que qualquer das partes. Um todo, enfim, resumindo muito,
policromo e poliédrico, mas que fosse revolucionário e intransigente, e
até intratável, em matéria de princípios e tácticas. Em segundo lugar, ao
longo destes últimos 30 anos, a presença do Gabriel – que , como qualquer
um, tinha os seus defeitos e o seu feitio, a par de imensas qualidades que
sobrelevavam tudo – foi a mais constante e decidida de todos os
colaboradores da “Acção Directa”, para além do facto de ele ter sido um
dos mais lúcidos (e salutarmente desconfiados) aderentes ao anarkismo
português. Com a energia habitual, a sua voz, distribuída por panfletos e
comunicados e multiplicada por manifestos e pequenos ensaios e amplificada
por reuniões e comícios, contribuiu decisivamente para que certos
“libertários”, em geral oriundos do activismo e guerrilheirismo de tipo
blanquista, ou do cagaçalismo doutrinário da Internacional Situacionista,
ou do simples reformismo muito dado à “tolerância”, não transformassem a
acracia numa mercadoria aparentada com a democracia, ou com uma ditadura
do proletariado conselhista e “abrangente”, e não integrassem o anarkismo
no sistema autoritário imperante,através, por exemplo, de um
“municipalismo” interpretado ad hoc e de uma participaçãozinha
sub-reptícia nas eleições autárquicas...

É que o Gabriel, além da coragem física, não tinha papas na língua, nem
anquiloses ou necroses nas cordas vocais. Uma vez, se bem me lembro,
quando a seguir à sementeira de cravos, o “turismo revolucionário” estava
na moda e até Portugal vinham os Jean-Paul Sartre ou os ex-anarquistas
como Daniel Cohn-Bendit – figura de proa da revolução de Maio de 1968, mas
depois reciclado na ecologia aliada à social-democracia alemã e hoje
eurodeputado esverdeado -, o Gabriel, esbarrando com este último na via
pública, não se conteve e perguntou-lhe de chofre: “Ouve lá, pá, não sei
se ainda te proclamas anarkista, mas, mas se o fazes, devias saber que há
anarkistas em Portugal e que são estes quem tu devias procurar em primeiro
lugar, em vez de visitares os militares de Abril...”

De outra vez, após a leitura de um artigo publicado no “Diário de Lisboa”
com a transparente intenção de nos ridicularizar e de agradar ao patrão
stalinista, a propósito da imaginativa manifestação de 3 de Março de 1975,
a mais inspirada e desinibida das últimas décadas, em que conseguimos
reunir alguns milhares de pessoas e entupir o Rossio com outros tantos
curiosos, pasquinada em que o articulista nos chamava de freaks, entre
outros “eufemismos” – o Gabriel lá conseguiu interpelar a senhora, que se
cruzou connosco na rua. Manifestando ela sinais de comprometimento e
desculpando-se com o “humor”, para aliviar o tema, deu-lhe ele a resposta
adequada, sem levantar a voz: “O humor nunca está ao lado do poder, seja
ele qual for minha cabra!” Derradeiro exemplo da capacidade de ripostar do
nosso companheiro, quando se dava a esse trabalho: tendo Miguel portas
algum tempo depois da criação do diáfano Bloco de Esquerda escrito no
“Público” que, entre os bloquistas, até havia “libertários”, lá se viu o
Gabriel obrigado a escrever na “Acção Directa” uma simples nota,
expeditamente intitulada “Uma Organização de Aldrabões”.

E foi por essas e por outras que o Gabriel foi nomeado pelos colaboradores
director da referida publicação. Já se sabe que entre os libertários não
há divisões hierarquizadas do trabalho, corolário do facto de não haver
dirigentes e dirigidos, e que o topo está ao nível da base e a base ao
nível do topo, do mesmo modo que os distribuidores de panfletos e os
coladores de cartazes não são discriminados pelos redactores de
manifestos. Todos somos “pau para toda obra”, apesar das apetências, das
saudáveis diferenças de inclinações de cada um. Não temos é que levar a
demagogia ao ponto de fazermos todos a mesma coisa, e ao mesmo tempo, só
para demonstrarmos que não há desigualdades entre nós! Mas para além do
facto de entre acratas o “posto” de director de jornal não ser um lugar de
poder, e de ser obrigatório por lei dar um nome para que a publicação não
tenha caráter anônimo e não se arrisque a ser apreendida, o que constitui
outro facto é a confiança que todos depositávamos no Gabriel, ao ponto de
o nomearmos por unanimidade. Foi também graças à sua energia indomável que
o pós-25 de Abril conheceu a manifestação não autorizada mais curta e
involuntariamente violenta da sua história, segundo a imprensa e a
televisão espanhola. Tendo o delegado português e várias dezenas de
espanhóis sido presos numa rreunião em Barcelona para a reconstituição de
uma Federação Anarkista Ibérica de âmbito verdadeiramente peninsular, em
1975, já depois da morte de Franco e durante a vigência do Governo de
“transição democrática” de Adolfo Suarez, logo Gabriel, entre outros
promotores da idéia, decidiu avançar com uma manifestação de emergência, a
fim de alertar a opinião pública, sem pedir licença ao Governo Civil(!);
enquanto as autoridades portuguesas, apesar de ter um “cidadão nacional”
detido, sempre com receio de incomodar o big brother espanhol, tudo
preferiam silenciar. Reuniram-se à pressa 50 ou 100 pessoas que foram
dispersas a bastonada pelas “forças da ordem” na baixa lisboeta. Contou-me
quem viu a cena – porque nesse preciso momento estava eu em Évora, na
Universidade, a dar aulas, sem poder participar com o meu fraco arcabouço
na refrega com a polícia democrática – que o Gabriel ainda foi obrigado a
terçar armas com a autoridade, opondo a um zeloso bastão um simples chapéu
de chuva. Como a esgrima lhe foi desfavorável, teve direito – um direito
não constitucionalmente consignado – a uma ou duas cacetadas, tendo-lhe um
casalinho de jovens manifestantes, que se viraram contra a prepotência do
brutamontes uniformizado, salvo sua pele.

Também ainda em vida do arrepiante caudilho (não confundir com codillo,
que é uma espécie de saboroso cozido à galega), contribuiu Gabriel para a
aproximação dos povos peninsulares e para o quase corte de relações entre
os dois Estados ibéricos: como o velho assassino espanhol, o quase eterno
Paco franco, decidisse que, antes de marchar para um “mundo melhor”, mais
valia, à cautela, condenar 5 ou 6 nacionalistas bascos ao garrote vil, a
fim de não empreender a última viagem sozinho, lá estava o nosso amigo com
outros companheiros ainda vivos e bem vivos, cujos nomes seria despiciendo
citar, até porque não trabalho no Ministério da Administração Interna, na
primeira fila dos invasores e ocupantes da embaixada da Espanha em Lisboa.
Tudo me foi relatado em pormenor, porque então vivia em Évora, pelas
razões já apontadas. A própria “Acção Directa”, aliás, publicou um artigo
realtivamente circunstaciado sobre o assunto, no qual também vinha escrito
que, ridiculamente, a UDP (União democrática Popular), consumada a
ocupação, tivera como principal preocupação içar a bandeira da agremiação,
para reivindicar para si o movimento e confisca-lo em proveito exclusivo.
Enfim, maoísmos, “maoíces”!

Apesar de não me faltar vontade, falta-me o espaço para trazer à colação
todas as situações que atravessei com o Gabriel, situações de infortúnio,
mas também de alegria, momentos de penúria, mas às vezes também de
relativa abundância, e sempre de rebeldia, que mais do que quaisquer
outras forjam uma amizade indestrutível e um companheirismo genuíno,
decantado, despojado de artificialismos e lirismos espúrios, que soam a
falso, ou demasiado demonstrativos para o meu paladar. Não posso, não
obstante, deixar passar em claro dois episódios por nós vividos em
cenários menos caseiros e mais internacionalistas. Numa reunião peninsular
da FAI, em Madrid, para onde nos deslocamos na carripana do Antonio Mota,
tivemos o ensejo de fazer aprovar planos de entreajuda e de troca de
informações, bem como moções de estratégia global e livremente consentidas
em prejuízo da dinâmica e da vida próprias dos vários grupos de afinidade
e da especificidade da pluralidade dos indivíduos implicados. Éramos seis
delegados da região portuguesa. Felizmente, dois viajaram de avião, caso
contrário o carrinho do Antonio teria soluçado de impotência.

Já no VI Congresso da Internacional de Federações Anarkistas (IFA), que se
desenrolou durante três dias em Lyon (França), em 1997, na presença de
centenas de delegados do mundo inteiro, éramos só dois os delegados
portugueses, o Gabriel mais eu, no meio de uma delegação ibérica de cerca
de dez elementos.Os franceses, nossos anfitriões, dispensaram-nos um apoio
logístico formidável, a nível de dormidas e de um espaçoso restaurante de
dois pisos, que ficou por nossa conta, enquanto as sessões, com vários
tradutores nas respectivas cabinas, tinham lugar num grande pavilhão a
beira-rio; mas foi determinada moção, essencialmente da lavra de Gabriel,
que melhorou o geral bom relacionamento entre delegados franceses,
italianos, espanhóis, ingleses, alemães, russos, búlgaros, checos ou
canadianos (as delegações latino-americanas e asiáticas, infelizmente, por
falta de meios, não puderam estar presentes), e permitiu que se marcasse
pontos em relação ao Congresso anterior. Animado por ver tanta gente –
sobretudo de um movimento que sempre tem sido tão perseguido a Norte como
a Sul, a Oeste como a Leste -, lembrar-me-ei sempre daquele corpulento,
tonitruante e simpático canaca que, nos anos depois, seria cobardemente
assassinado pelas costas, no meio do “misterioso” Oceano pacífico, na Nova
Caledônia, sua terra natal, por colonialistas franceses...

Como acima expus, não pude ir ao funeral do João Gabriel de Oliveira
Morato Pereira, porque a tristíssima notícia do seu falecimento só me foi
comunicada na noite já avançada de 19 de Julho, em plena Feira do livro de
Tavira, onde trabalhava no meu pavilhão. A Paula, sua companheira, e os
filhos de ambos, o Francisco e a Sofia, todavia, tiveram muita gente a
fazer-lhes companhia. Pena foi que a imprensa da capital, apesar da
presença da jornalista Diana Andringa, próxima parente do “respeitável”
Bloco de Esquerda, salvo erro, não tivesse dedicado linha roxa à morte de
um homem que tanto e tão bem se bateu contra o fascismo, o stalinismo,
ortodoxo ou reciclado, ou a pessegada capitalista da democracia
representativa, sem sacar para si, nem para os seus, como soe dizer-se, o
mais pequeno dividendo, e tantas, tão boas e tão exeqüíveis idéias tinha
sobre a transformação e a reorganização da sociedade futura. Uma
sociedade, evidentemente, não perfeita, nem parada num espaço e num tempo
ideais, mas ao menos perfectível, ao invés desta enxovia mercantil em que
muitos teimam em vegetar, nomeio de corruptos, dos gestores, dos
governantes e das putas de ambos os sexos. Referindo-se a toda essa
gentinha e não certamente às pobres matriculadas da chamada “mais antiga
profissão”, dizia George Orwell que, como o Gabriel, era a antítese da
escumalha que tinha na linha de mira: “Puta uma vez, puta a vida
inteira...”





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