(pt) La Jornada (México ): Morreu a Comandante Ramona! Viva Ramona!

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Domingo, 8 de Janeiro de 2006 - 12:23:59 CET


O anúncio tomou de surpresa a Marcos durante um encontro
Suspende o EZLN a caminhada pela morte de Ramona
A comandanta, uma dessas mulheres que dão a luz a novos mundos: a voz
zapatista
A comitiva rebelde retorna a Oventic para preparar as honras fúnebres
HERMANN BELLINGHAUSEN (Enviado)
Tonala, Chis., 6 de janeiro. ''O mundo perdeu uma dessas mulheres que dão
a luz a novos mundos. México perdeu uma dessas lutadoras que lhe farão
falta. E a nós arrancaram um pedaço do coração", disse esta tarde o
subcomandante Marcos no auditório da Frente Cívica Tonalteco, aonde se
estava realizando um encontro da outra campanha, ao comunicar o
falecimento da comandanta Ramona.

Os oradores e as oradoras se sucediam, com grande entusiasmo do público,
no primeiro ato do delegado Zero na costa de Chiapas, quando este pediu um
tempo para ''ir a checar uma coisa'', e se retirou a um lugar afastado da
sala, rodeado por sua escolta de seguranças e um enxame de fotógrafos.
Mais de uma hora depois regressou, tomou o microfone e disse:

''Eu lhes quero pedir respeitosamente por favor que não me interrompam até
que termine. Esta coisa que estamos fazendo da outra campanha é para que
se escute a voz de todos. Por isso é importante que todos tenhamos
paciência e escutemos a voz de todos. Em meu trabalho como porta voz do
EZLN há momentos muito duros, como este que lhes irei dizer agorinha.
Acabam-me de avisar que a companheira comandanta Ramona morreu hoje de
manhã.''

Ante um público subitamente atônito, agregou: ''O que sabemos é o que
todos sabem. A comandanta Ramona arrancou 10 anos da morte. Graças ao
apoio de gente como vocês pudemos operar-la e realizar um transplante de
rim. Hoje de manhã começou com vômitos e com sangue e diarréia, e quando
ia para San Cristóbal de las Casas morreu no caminho.

''Neste caso é muito difícil falar, mas o que posso dizer é que o mundo
perdeu uma dessas mulheres que dão a luz a novos mundos. México perdeu uma
dessas lutadoras que lhe fazem falta. E em nós foi arrancado um pedaço do
coração.''

Aqui se encerrou a voz de Marcos, com um mudo de quase total. ''Dentro de
uns minutos se vai fechar o caracol de Oventic, e vamos a chorar a morte
desta companheira privadamente. Esperamos que os meios de comunicação
respeitem isto e não convertam sua morte em um evento mediático.''

Em seguida notificou que cancelaria sua participação nos atos de hoje e de
amanhã. ''Nós vamos a regressar a lá, a esperar as ordens que emitam os
companheiros da comandância, o Comitê Clandestino Revolucionário Indígena.
E quando soubermos algo, lhes falaremos mais. Agradeço aos que vieram,
obrigado por sua palavra, teremos que seguir nisto, já veremos as
condições.''

Rememorou, brevemente, que a comandanta Ramona esteve presente no
encerramento das sessões preparatórias da outra campanha:

''Quando começou a plenária em La Garrucha estivemos conversando com ela.
Além disso fazem poucos dias, na marcha de 1º de janeiro, com os
companheiros me mandou saudações e umas broncas que nos intercambiávamos,
mas agorinha mesmo recordo que nesse dia da plenária nos deu um bordado
que havia feito ela quando estava convalescente da operação que lhe
fizeram fazem quase 10 anos, ela me entregou e me disse que esperava que a
outra campanha fosse como esse bordado. Isso é o que temos que fazer".

Dito isto, Marcos e a caravana que o acompanha, que havia chegado a Tonalá
umas três horas atrás, retornaram rapidamente á los Altos, e nesta noite
pernoitaram em San Cristóbal de las Casas.

Una mulher doce e discreta com a força de uma bomba
San Cristóbal de las Casas, Chis., 6 de janeiro. A comandanta Ramona teve
sempre vários trabalhos. Entre eles o principal era, segundo dizia,
''despertar a gente''. Quem tivesse dito que ela, protótipo da indígena
"invisível", dos "mais pequenos" destas terras, que parecem não existir,
encarnaria imagens tão poderosas e inesquecíveis para México e o mundo:
nas brumas da primeira entrevista aos mandos zapatistas em 1994; na
catedral de San Cristóbal de las Casas, xingando aos enviados do governo
salinista; na comunidade de La Realidad, a ponto de ser presa pelo
Exército, quando pela primeira vez iria sair um zapatista até a cidade do
México: ela.

Mas a mais forte e paradoxal de todas essas imagens foi em 12 de outubro
de 1996. A comandanta tzotzil, bordadora de ofício (e estupenda),
ingressava na cidade do México blindada como um ser muito valioso. Ou
muito perigoso. Todo aquele ferro rodando sobre o asfalto, a operação
policialesca, as câmaras e os microfones, a multidão nos bancos, por uma
mulher de estatura mínima, quase monolingüe e quase analfabeta e, com
calmo, enferma gravemente.

Dá pra imaginar um ser humano mais perigoso? O governo de Ernesto Zedillo
pensou que Ramona era uma arma quente. E raciocinava em conseqüência.

Vejamos: esta mulher não só participou na extremamente subversiva tomada
de San Cristóbal de las Casas pelos indígenas do EZLN no 1º de janeiro de
1994. Ela mesma, fundadora do exército rebelde, e um de seu comandos
civis, o comando mais alto do EZLN. E assim sendo, uma das impulsionadoras
da Lei Revolucionária de Mulheres que então divulgaram os insurgentes, não
como fato consumado, senão como programa de luta a cumprir.

Qual a diferença de um ser assim de una bomba de grande potência? Cada vez
que Ramona era vista fora das comunidades de sua San Andrés, estalava como
uma bomba. Discreta, doce, de dedos que não se paravam numca, sempre com
linhas entre eles, até quando matava o tempo. E o peito acendido no
vermelho de suas huipiles magistrais.

Ao cumplir-se um ano da assinatura dos acordos de San Andrés, Ramona
concedeu uma entrevista ao La Jornada na cidade do México, quando
convalecia de um transplante de rim, em fevereiro de 1997. Então disse:
''Nós zapatistas queremos um México que se mude, se mude o México, e um
dia México estará livre". E advertiu: "Se não se cumprirem os acordos, a
gente indígena vai seguir se juntando".

Em 10 de outubro de 1996 havia saído de La Realidad, escoltada pelo
subcomandante Marcos, diante do assédio da imprensa, dos deputados e
senadores da Cocopa que estavam ali como escudos humanos para que o
Exército não invadisse essa comunidade tojolabal, em uma das crises mais
graves desta "guerra de papel e Internet" (segundo frase cunhada por um
funcionário salinista, que cria, ele sim, ser de carne e osso).

Esse dia estavam em La Realidad vários intelectuais. E a assembléia
nacional de El Barzón, decepcionada de que os zapatistas não mandaram ao
Distrito Federal o famoso subcomandante Marcos, senão essa mulher
insignificante.

Depois de chegar ao Zócalo de gente que a aclamava, de participar na
criação do Congresso Nacional Indígena no Centro Médico Nacional, de por a
temer ao regime, e de vencer a morte em um quirófano, Ramona se
surpreendia, desde seus olhos como tizón escuro e com sua voz de pássaro
em tzotzil, a língua maya mais musical de todas: "Não sei por que me
querem".

O grupo musical chicano Quetzal se fez célebre com a canção Todos somos
Ramona. Se de verdade se puder dizer que todos somos Ramona, este mundo
seria um lugar muito melhor.

Hermann Bellinghausen, enviado



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