(pt) "A BATALHA" N.212 «RICARDO MELLA (1861-1925) - No 80º aniversário da sua morte»

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Quinta-Feira, 22 de Setembro de 2005 - 20:09:15 CEST


por Fernando J. Almeida
Em 7 de Agosto de 1925, morria na cidade galega de Vigo, o grande
activista e intelectual libertário Ricardo Mella y Cea, um homem
respeitado, não só por correligionários e trabalhadores, mas também por
todas as classes sociais e adversários ideológicos.

O JOVEM REPUBLICANO
Ricardo Mella nasceu, no ano de 1861, no seio de uma modesta família de
artesãos. O pai, José Mella Buján, chapeleiro de profissão, era um
ferveroso militante do republicanismo federal, tão influenciado pelo
socialismo proudhoniano. Mella era o mais velho de quatro irmãos, numa
família em que a mãe – Dolores Cea Fernandez – educara os filhos no
profundo respeito pelos princípios do amor paternal e filial. Por sua vez,
o pai influenciaria Ricardo no respeito pelos ideais republicanos e
democráticos e pelo seu máximo representante e difusor, Francisco Pi y
Margall.
Mella manteve intacta a sua fé republicana, durante a juventude em Vigo,
sua cidade natal, quando essa pouco antes pequena vila galega iniciava uma
expansão que, em breve, a transformaria numa florescente cidade portuária
e mercantil. Aos 16 anos , o jóvem Mella ingressava no partido de Pi y
Margall, tornando-se, quase de seguida, seu secretário, para defender para
o Estado Espanhol um estatuto republicano federalista, que contemplava a
autonomia político-administrativa da Galiza. Empregado numa Agência
Marítima, cedo se apercebeu das dificuldades sofridas pelo povo galego,
forçado à emigração, devido às parcas condições de vida e subsistência.
O protagonismo político e evolução ideológica tornam-se flagrantes, a
partir de 1881, quando os diversos grupos republicanos tentevam a unidade
contra os governos conservadores de Sagasta. Ricardo Mella torna-se
colaborador do jornal “La Verdad”, porta-voz do sector democrático
(radical) do republicanismo, onde denuncia as acções pouco claras e
fraudulentas do Marquês José Elduayen, o cacique local de Vigo,
representante do conservadorismo do poder central, em Madrid. Consegue,
inclusivé, denunciar a participação do corrupto Marquês em avultado
desfalque no Banco Nacional de Espanha.

O GRANDE E FECUNDO DESTERRO
O jornal “La Verdad” era um periódico vocacionado para a baixa política,
cujo objectivo era substituir o caciquismo monárquico-conservadorpor outro
caciquismo de cariz republicano-liberal. Esta orientação desgostou
profundamente Ricardo mella, que procurava novos horizontes para o seu
activismo político-social. Em 31 de Julho de 1881, Mella integra, em Vigo,
a redacção de “La Propaganda”, de carácter obreirista, que defende a
entrada dos ioerários na Política, em nome da “Liberdade e Trabalho,
Democracia e Justiça”. O jornal faz-se representar no Congresso Operário
de Barcelona (1881), onde é fundada a Federação dos Trabalhadores da
Região Espanhola e é marcada a viragem do proletariado do Socialismo e
Republicanismo para o Anarquismo. Esta mudança é seguida,
entusiasticamente, por Ricardo Mella que, entretanto, se havia tornado um
leitor atento e apaixonado da “Revista Social”, órgão libertário
madrileno, dirigido por Serrano Orteiza. Mella diria à “Revista Blanca”,
em 5/10/1902. “Era Federal aos 22 anos, a Revista Social decidiu-me pelo
Anarquismo”.
A sua activa luta, em prol do operariado, leva Mella à barra dos tribunais
e, em Abril de 1881, a Audiência Territorial da Corunha condena-o a quatro
anos e três meses de desterro e a uma multa de 625 pesetas, que se
transformariam em três anos e sete meses de desterro e 200 pesetas de
multa, em Novembro de 1882.
O desterro, ampliado voluntariamente por Mella, acaba por ser-lhe útil e
bastante fértil em ensinamentos. Embora longe das lutas do proletariado
galego, Ricardo Mella passaria a conhecer, intimamente, as condições
organizativas e a acção dos trabalhadores madrilenos e andaluzes.
Em Madrid, Ricardo Mella trava amizade com o notário Serrano Oteiza,
director da “Revista Social”, que se torna seu sogro, pelo casamento da
filha, Esperanza Serrano Rivera, com o anarquista desterrado. Esperanza
tornar-se-á sua companheira de toda uma vida e mãe dos seus doze filhos.
Durante o seu grande e fecundo desterro, Mella também passa pela
Andaluzia, onde se liga, militantemente, ao movimento libertário camponês
andaluz. Aqui fundou jornais, viveu a experiência societária do
campesinato, em luta contra o despotismo governamental, capitalista e
latifundiário. É também na Andaluzia que se torna topógrafo, de
reconhecido valor profissional.

O PROFISSIONAL COMPETENTE
Em 1895, Mella regressa a Vigo, já com a aura de propagandista
extraordináriamente conhecido e respeitado em todo o meio acrata,
socialista e operário da época. Regress NUM TEMPO EM QUE A Galiza assistia
à consolidação das organizações proletárias, em que se geravam graves
tumultos camponeses e se registavam as primeiras greves revolucionárias.
Como topógrafo, trabalha nos Caminhos-de-Ferro em construção, residindo em
Pontevedra, desde 1897. Nesta cidade galega liga-se aos jovens e
combativos redactores de “La Unión Republicana” e escreve em “El
Progreso”. Ricardo Mella colabora, então, com republicanos, socialistas e
autonomistas, intervindo nos Comícios da Esquerda Operária, numa acção
unitária de propaganda e luta. LIGA-SE, DE CORPO E ALMA, á organização
revolucionária do campesinato galega.
No início do século XX, está nas Astúrias, exercendo a sua actividade
peofissional. Aqui convive com Eleutério Quintanilha, e apresenta-se como
um convicto pacifista, em tudo oposto ao atentado terrorista e ao
banditismo social, tão do agrado de certos meios anarquistas. Os
acontecimentos da Semana Trágica de Barcelona (1909) fazem-no enveredar
por uma febril etapa de jornalismo crítico e de estilo literário
considerado como elegante, nas publicações “Acción Libertária” e “El
Libertario”, entre outras.
EM 1901 REGRESSA A Vigo, onde viverá até ao fim da sua vida. A sua
competência profissional torna Mella o grande responsável pela organização
e implantação da rede viária de carros eléctricos (tranvias) de Vigo.
Quando se concretiza este grande empreendimento, Ricardo Mella não pode
recusar a sua nomeação para Director-Gerente da Companhia de Viação, por
ele concebida e realizada. A sua modéstia e honestidade, perante tal cargo
patronal, levam-no a declarar a Abad de Santillán, em 1922, que estava
acabado para a luta e que o seu lugar pertencia, de pleno direito, a
sindicalistas como Seguí ou Pestaña.

PRODUÇÃO LITERÁRIA
A produção literária de Mella foi bastante fecunda, produzindo um número
indeterminado de artigos, mais de 30 ensaios, que tiveram bastantes
edições sucessivas (Ideário, Ensayos y Conferências, Mirando hacia el
Futuro-Páginas Anarquistas, etc.) Alguns dos seus escritos mereceram
prémios internacionais. Foi traduzido em italiano, holandês, português,
inglês, francês e as suas obras foram editadas em vários pontos do globo,
havendo edições provenientes de Nova Iorque, Amsterdam, Orléans, Porto,
Prato, Buenos Aires, Montevideu e de múltiplas cidades de Espanha. Mella
foi tradutor (e crítico) de obras de Bakunine, Kropotkine e Malatesta.
Senhor de um estilo literário extremamente elegante, Mella foi, sobretudo,
o propagandista que lutou pelo enobrecimento da linguagem e da cultura das
classes laboriosas. É justamente considerado como o último grande nome do
Anarquismo clássico espanhol. Nos momentos de maior confusionismo
ideológico, Mella preferiu sempre o silêncio à palavra; mas eram silêncios
“sonoros”, dignos de serem escutados. Por isso, os mais famosos
libertários do seu tempo tinham por ele o mais profundo respeito. Foi
respeitado, tanto pelos seus correligionários como por adversários
ideológicos, como é o caso do historiador Juan José Morato, que dele
traçou uma importante Biografia (Lideres del Movimiento Obrero Español,
Madrid 1972). Morato é um conhecido militante socialista.

A MORTE DE RICARDO MELLA
Em 7 de Agosto de 1925, Morria Ricardo Mella. A notícia chegou tarde aos
jornais desse dia; apesar disso, a sua cidade de Vigo, de trinta e tal mil
habitantes, mobilizou-se para o funeral, de uma forma espontânea e
emotiva. A circulação viária parou durante dias, o Ayuntamiento atribuíu o
nome do falecido a uma Avenida, foi construido um monumento pelo mais
importante escultor galego da época, Asorey. As suas obras completas foram
editadas por José Villaverde, em Espanha; na Argentina, o movimento
sindical fazia outro tanto. A suas próprias expensas. Pedro Sierra e
Vladimiro Muñoz tornaram-se os seus mais importantes biógrafos.
À data da morte, Ricardo Mella y Cea era o Director-Gerente da “Compañia
de Tranvías Eléctricas de Vigo”, e a sua morte foi sentida pelos
trabalhadores da Empresa, que pararam a laboração, em sinal de respeito
por aquela insigne personalidade da sociedade galega e do movimento
operário espanhol. Aliás, a homenagem seria extensiva a toda a vida
viguense, encerrando-se as fábricas, oficinas e estabelecimentos
comerciais, convertendo-se a homenagem num autêntico Feriado, na cidade
galega de Vigo.



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