(pt) Brasil: [GEA-NEC] O Lixo da Globalização

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Domingo, 27 de Novembro de 2005 - 19:56:46 CET


  O LIXO DA GLOBALIZAÇÃO  Gustavo Pinheiro
Especial para O GLOBO

  Há anos o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, professor emérito da
Universidade de Leeds e de Varsóvia, dedica-se a retratar as desastrosas
conseqüências sociais de uma modernização que privilegia, segundo ele,
apenas uma minoria. Prestes a completar 80 anos no próximo dia 15, o
autor dos best-sellers “O mal-estar da pós-modernidade” e “Amor líquido”
está mais ativo do que nunca: dois novos livros estão chegando ao
Brasil, ambos pela Jorge Zahar Editora. Em “Vidas desperdiçadas”, Bauman
faz um prognóstico assustador: o crescimento incontrolável do “lixo
humano”, pessoas descartáveis — ou “refugadas”, como prefere — que não
puderam ser aproveitadas e reconhecidas em uma sociedade cada vez mais
seletiva. O outro lançamento é “Identidade”, uma entrevista que concedeu
ao jornalista italiano Benedetto Vecchi, em que reforça seus conceitos
sobre a crise de identidade imposta pela modernização. Em entrevista
exclusiva ao GLOBO, Bauman analisa a fluidez dos relacionamentos
amorosos,
 compara
 a vida em sociedade ao “Big Brother”, critica o combate militar ao
terrorismo, comenta o “jeitinho brasileiro” e nega o rótulo de
pessimista: “Acredito fortemente que um mundo alternativo seja possível”,
diz ele.

Seu livro “Amor líquido” é um sucesso comercial no Brasil. Na sua opinião,
por que as pessoas têm se interessado tanto pelo assunto? Por que a idéia
de durabilidade das relações amorosas nos assusta tanto?

  ZYGMUNT BAUMAN: As relações amorosas estão hoje entre os dilemas mais
penosos com que precisamos nos confrontar e solucionar. Nestes tempos
líquidos, precisamos da ajuda de um companheiro leal, “até que a morte
nos separe”, mais do que em qualquer outra época. Mas qualquer coisa
“até a morte” nos desanima e assusta: não se pode permitir que coisas ou
pessoas sejam impedimentos ou nos obriguem a diminuir o ritmo de vida.
Compromissos de tempo indeterminado ameaçam frustrar e atrapalhar as
mudanças que um futuro desconhecido e imprevisível pode exigir. Mas, sem
esse compromisso e a disposição para o auto-sacrifício em prol do
parceiro, não se pode pensar no amor verdadeiro. De fato, é uma
contradição sem solução. A esperança — ainda que falsa — é que a
quantidade poderia compensar a qualidade: se cada relacionamento é
frágil, então vamos ter tantos relacionamentos quanto forem possíveis.

  O senhor está casado com a mesma mulher há 56 anos (a também socióloga
Janina). Há segredo para uma união duradoura em tempos de “amor
líquido”, em que os parceiros são descartados de acordo com a sua
funcionalidade?

BAUMAN: Quanto mais fácil se torna terminar relacionamentos, menos
motivação existe para se negociar ou buscar vencer as dificuldades que
qualquer parceria sofre, ocasionalmente. Afinal, quando os parceiros se
encontram, cada um traz a sua biografia, que precisa ser conciliada, e não
se pode pensar em conciliação sem fazer concessões e auto-sacrifício. Eu e
Janina, provavelmente, consideramos isso mais aceitável do que a
perspectiva de ficarmos separados um do outro. No fim das contas é uma
questão de escolha, do valor que se dá a estar junto com o parceiro e da
força do amor, que torna o auto-sacrifício em prol do amado algo natural,
doce e prazeroso, em vez de amargo e desanimador.

A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em “Vidas desperdiçadas”
não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que
foram apresentados em “Amor líquido”?

BAUMAN: Claro. Nos comportamos exatamente como o tipo de sociedade
apresentada nos “reality shows”, como por exemplo, o “Big Brother”. A
questão da “realidade”, como insinuam os programas desse tipo, é que não é
preciso fazer algo para “merecer” a exclusão. O que o “reality show”
apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é
“se”, mas “quem” e “quando”. As pessoas não são excluídas porque são más,
mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima
dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer
porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É
exatamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse
tipo de programa. Muitos de nós adotamos e tentamos seguir a mensagem
contida no lema do programa “Survivor”: “não confie em ninguém!” Um slogan
como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas.

Em “Vidas desperdiçadas” o senhor menciona a questão criada por
“imigrantes” em busca de um Estado que os proteja e lhes dê sobrevivência.
De que modo os recentes atentados terroristas nos EUA e Europa são uma
conseqüência dessa “marginalização” de seres humanos?

BAUMAN: A globalização negativa cumpriu sua tarefa. As fronteiras que já
foram abertas para a livre circulação de capital, mercadorias e
informações não podem ser fechadas para os humanos. Podemos prever que
quando — e se — os atentados terroristas desaparecerem, isso irá acontecer
apesar da violência brutal das tropas. O terrorismo só vai diminuir e
desaparecer se as raízes sociopolíticas forem eliminadas. E isso vai
exigir muito mais tempo e esforço do que uma série de operações militares
punitivas. A guerra real e capaz de se vencer contra o terrorismo não é
conduzida quando as cidades e vilarejos arruinados do Iraque ou do
Afeganistão são devastados, mas quando as dívidas dos países pobres são
canceladas, os mercados ricos são abertos à produção dos países pobres e
quando as 115 milhões de crianças atualmente sem acesso a nenhuma escola
são incluídas em programas de educação.

O que o senhor acha da afirmação de alguns acadêmicos que a globalização
acabou e que o momento que vivemos agora é de vácuo pós-globalização?

BAUMAN: Não sei o que esses “acadêmicos” têm em mente. Até agora, nossa
globalização é totalmente negativa. Todas as sociedades já estão abertas.
Não há mais abrigos seguros para se esconder. A “globalização negativa”
cumpriu seu papel, mas sua contrapartida “positiva” nem começou a atuar.
Esta é a tarefa mais importante em que o nosso século terá que se
empenhar. Espero que um dia seja cumprida. É questão de vida ou morte da
Humanidade!

  “As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros
demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros.
Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe
uma cota de exclusão que precisa ser preenchida”
Civilização sem tempo para refletir.


  O que será preciso acontecer para que nossa sociedade se dê conta da
armadilha que caiu em busca da suposta “modernidade”?

BAUMAN: A civilização moderna não tem tempo nem vontade de refletir sobre
a escuridão no fim do túnel. Ela está ocupada resolvendo sucessivos
problemas, e principalmente os trazidos pela última ou penúltima tentativa
de resolvê-los. O modo com que lidamos com desastres segue a regra de
trancar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu e provavelmente já
correu para bem longe para ser pego. E o espírito inquieto da modernização
garante que haja um número crescente de portas de estábulos que precisam
ser trancadas. Ocasiões chocantes como o 11 de Setembro, a tsunami na
Ásia, (o furacão) Katrina, deveriam ter servido para nos acordar e fazer
agir com sobriedade. Chamar o que aconteceu em Nova Orleans e redondezas
de “colapso da lei e ordem” é simplista. Lei e ordem desapareceram como se
nunca tivessem existido.

O senhor aponta uma “crise aguda da indústria de remoção de refugo
humano”. É possível criar mecanismos de inclusão dos seres humanos
“excessivos” e “redundantes”? A modernização implica, necessariamente, uma
“lixeira humana”?

BAUMAN: Esse excesso de população precisa ser ajudado a retornar ao
convívio social assim que possível. Eles são o “exército reserva da
mão-de-obra” e lhes deve ser permitido que voltem à ativa na primeira
oportunidade. Os “redundantes” são obrigados a conviver com o resto da
sociedade, o que é legitimado pela capacidade de trabalho e consumo. Em
vez de permanecer, como era visto anteriormente, como um problema de uma
parte separada da população, a designação de “lixo” torna-se a perspectiva
potencial de todos. Há partes do mundo que se confrontaram com o antes
desconhecido fenômeno de “população sobrando”. Os países subdesenvolvidos
não se disporiam, como no passado, a receber as sobras de outros povos e
nem podem ser forçados a aceitar isso.

Países como Brasil, Índia e China são constantemente apontados como
estratégicos para o século XXI. Ao mesmo tempo, são três países com grande
número de “lixo humano”, com alto índice de desemprego. Isso não é uma
contradição?

BAUMAN: Certamente. Isso fica ainda pior quando os gigantes do século XXI,
China, Índia, Brasil, entram no “processo de modernização”. O número de
“pessoas desnecessárias” crescerá. E aí há o grande problema que mais cedo
ou mais tarde teremos que enfrentar: capacitar ou não China, Índia e
Brasil a imitar o modelo de “bem-estar” adotado nos Estados Unidos em uma
época em que “modernização” ainda era um privilégio de poucos? Para dar
vazão, seriam necessários três planetas, mas nós só temos um para dividir.

Um dos mais importantes compositores brasileiros, Chico Buarque de
Holanda, afirmou que “uma nação grande e forte é perigosa, mas que uma
nação grande, forte e ignorante é ainda mais perigosa”. Ter uma nação
grande, forte e ignorante no comando do mundo — como parecem ser os
Estados Unidos da Era Bush — não pode acirrar ainda mais o “refugo” dos
seres humanos?

BAUMAN: Lamento não conhecer Chico Buarque: ele toca no cerne da questão.
Até onde vai a situação de nosso planeta com um único superpoder,
confundido e subjugado pela ilusão de sua repentina ilimitada liberdade? A
elevação súbita dos Estados Unidos à posição de superpotência absoluta e
uma incontestada hegemonia mundial pegou líderes políticos americanos e
formadores de opinião desprevenidos. É muito cedo para declarar a natureza
deste novo império e generalizar seu impacto no planeta. Seu comportamento
é, possivelmente, o fator mais importante da incerteza definida como “Nova
Desordem Mundial”. Um império estabelecido pela guerra tem que se manter
por guerras. Acabamos de ver isso no Iraque, apesar de todos saberem que
era óbvio que bombardear e invadir o país não aniquilaria o terrorismo.

  No Brasil, temos uma expressão muito popular, “jeitinho brasileiro”, que
representa a capacidade do povo de superar adversidades, sejam elas
pequenos problemas do cotidiano ou não. O senhor acredita que há nações
com seres “redundantes” que saibam sobreviver melhor do que outros?

BAUMAN: O que vocês chamam de “jeitinho brasileiro” é a maneira que a
modernização nos obrigou a reagir. Um dos resultados cruciais da
modernização é a dependência dos processos da vida humana pelos
“jeitinhos”. Isso implica o outro lado da mesma moeda: a vulnerabilidade
crescente dos legítimos modos instruídos de viver.

Aos 80 anos, sua produção intelectual ainda é grande. O que o motiva a
continuar escrevendo?

BAUMAN: Pierre Bourdieu ressaltou que o número de personalidades do
cenário político que podem compreender e articular expectativas e demandas
está encolhendo. Precisamos aumentá-lo, e isso só pode ser feito
apresentando problemas e necessidades. O próximo século pode ser o da
catástrofe final ou um período no qual um novo acordo entre os
intelectuais e as pessoas que representam a Humanidade seja negociado e
trazido à tona. Vamos esperar que a escolha entre estes dois futuros ainda
seja nossa.

Todas suas obras apresentam um cenário bastante pessimista do mundo. Temos
razão para acreditar em dias melhores?

BAUMAN: Rejeito enfaticamente essa afirmação. Otimistas são pessoas que
insistem que o mundo que temos é o melhor possível; os pessimistas são os
que suspeitam que os otimistas podem ter razão. Portanto eu não sou nem
otimista nem pessimista, porque acredito fortemente que outro mundo,
alternativo e quem sabe melhor, seja possível. Acredito que os seres
humanos sejam capazes de tornar real essa possibilidade.

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Casamento resistente à fluidez


Não deixa de ser irônico que um intelectual que estude e escreva tanto
sobre a fluidez dos relacionamentos amorosos na pós-modernidade esteja
casado há tantos anos. Há quase seis décadas, Zygmunt e Janina Bauman
dividem uma casa, três filhas e a paixão pela sociologia. Freqüentemente
convidado para fazer palestras e conferências ao redor do mundo, Zygmunt
Bauman recusa as propostas por uma razão tão singela quanto romântica: com
a saúde um pouco debilitada, Janina não pode acompanhá-lo em suas
incursões fora da Inglaterra.

O mais recente livro de Janina acaba de ser lançado no Brasil. “Inverno na
manh㠗 Uma jovem no Gueto de Varsóvia” narra os seis anos em que ela, na
época uma judia não-praticante de 14 anos, viveu no Gueto de Varsóvia. A
partir de seus diários — escondidos durante a guerra e reencontrados
intactos ao final do conflito — Janina retorna aos anos de medo em que
viveu ao lado da mãe e da irmã após Hitler invadir a Polônia. “Durante a
guerra aprendi (...) que a coisa mais brutal da crueldade é que ela
desumaniza suas vítimas antes de destruí-las”, conclui.

Janina graduou-se na Academia de Ciências Políticas e Sociais em Varsóvia,
em 1950. Durante 20 anos trabalhou como tradutora, pesquisadora e editora
de roteiro em filmes poloneses. Em 1968, Janina, Bauman e as três filhas
tiveram que deixar a Polônia. Após morarem em Israel, se mudaram para
Leeds, na Inglaterra, onde vivem até hoje. ( G.P. )


"Liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça; socialismo sem
liberdade é escravatura e brutalidade."  Miguel Bakunin

Local das reuniões regulares: sala 216 Bloco N, ICHF, Campus do Gragoatá,
UFF, Niterói-RJ

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Coletivos de Estudos Libertários no Rio de Janeiro:
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de Janeiro (FARJ) - farj  riseup.net) End.: Centro de Cultura Social
(CCS-RJ), Rua Torres Homem, 790, Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ. site:
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-CLAVE - Coletivo Libertário Ativista Voluntariado de Estudos
site: http://www.clave.cjb.net/
- GAL - Grupo de Ação Libertária
email: acaolibertaria  yahoo.com.br




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