(pt) "A Batalha" nº213: CIPRIANO MERA (1897-1975)

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Quarta-Feira, 9 de Novembro de 2005 - 00:20:29 CET


por Fernando J. Almeida

Em 25 de Outubro de 1975, um sábado, falecia num
hospital de Saint-Cloud (Paris), um velho operário
madrileno, reformado da construção civil, chamdo
Cipriano Mera, que residia num modesto apartamento
em Billancoutr-sur-Seine, subúrbio proletário e
industrial de Paris. Aquele modesto operário fora
uma das figuras mais gradas do Movimento Operário
e um dos mais brilhantes  chefes militares do Exército
da República Espanhola, sucumbida ao avanço das tropas
fascistas de Francisco Franco.

A  APRENDIZAGEM  REVOLUCIONÁRIA

Cipriano Mera Sanz nasceu em Tetuán de las Victorias
(Madrid) em 4 de Novembro de 1897. Viveu num ambiente
de grande penúria e imensamente duro para os operários,
 numa zona pobre e degradada, cercada de bairros de
lata, habitados por camponeses vindos para Madrid, em
busca de pão e trabalho. O seu pai, pedreiro de
profissão, nunca lhe pôde facilitar os estudos, pelo
que, aos 14 anos de idade, foi obrigado a trabalhar
como servente de pedreiro, sem nunca ter frequentado
a Escola. Em 1917, aos 20 anos, aprendeu a ler e a
escrever, frequentando o ensino nocturno. Com a
alfabetização e iniciação na leitura, abriu-se para
Cipriano Mera um mundo completamente novo.
Mera tornar-se-ia um magnífico pedreiro, ao fim de
escassos anos de trabalho. A construção civil era,
à época, a quase única indústria existente em Madrid,
mas o trabalho era duro e mal pago, aproveitado por
patrões pouco escrupulosos, que exploravam o operariado
a seu bel-prazer, o que conduzia a confrontos,
despedimentos e greves. Cipriano Mera participa,
activamente, nesta luta, e conhece a prisão, local que
lhe serve de escola onde, pelas leituras aí feitas,
adquire o conhecimento da realidade social.
Do mesmo modo que seu pai, Mera militava na UGT, embora
não fosse, propriamente, um activista sindical. O seu
gosto pelo Teatro leva-o a participar em festivais em
benefício de operários presos. Com a implantação da
Ditadura de Primo de Rivera (1923 – 1930) , é eleito
delegado sindical da UGT, mas vai-se aproximando,
paulatinamente, de grupos afectos à FAI, e integra-se,
finalmente, na CNT.
Na CNT, Mera torna-se notado pela sua capacidade de
organização e liderança, o que o torna um dos melhores
dirigentes clandestinos, durante a Ditadura. Não é um
orador eloquente, mas vê os problemas com clareza,
chama as coisas pelo seu nome, gozande de grande prestígio
entre os seus companheiros. Sério e circunspecto na
actividade laboral e sindical é, por outro lado, alegre
e comunicativo, um bom animador de espectáculos teatrais
representados nos Ateneus e Círculos Operários.

A  MILITÂNCIA  CONFEDERAL

Com a queda da Ditadura riverista, Cipriano Mera
torna-se uma personagem-chave do Sindicato Único da
Construção, um dos mais fortes da CNT.
Em Novembro de 1930, será um dos organizadores de uma
das greves mais duras, na vigência da “Dictablanda” de
Berenguer. Em 14 de Abril de 1931 é proclamada a II
República e, em 10 de Junho, celebra-se, em Madrid, o
Congresso da CNT, em que aparece alinhado no sector
pró-FAI, junto a Durruti, Ascaso e Garcia Oliver. Com o
advento da República, a CNT vê alargar-se o seu número
de filiados, que ultrapassa, largamente, a totalidade de
militantes de todos os partidos políticos existentes.
Com o triunfo da Direita, nas eleições de 1933, os
Anarquistas decidem dar um passo para a Revolução,
promovendo a insurreição de 8 de Dezembro. Mera faz parte
do Comité Nacioal, o que o leva a ser detido, juntamente
com Durruti, passando longos meses no cárcere de Zaragoza.
Quando, em 18 de Julho de 1936, estalou o levantamento
militar contra a República, Cipriano Mera encontrava-se
na prisão, por ter participado na greve da Construção,
de Maio. Posto em liberdade, encarrega-se da organização
das milícias da CNT que participarão na defesa de Madrid,
iniciada com o ataque à capital, em 8 de Novembro.
Participa na tomada de Alcalá de Henares e, mais tarde,
estará nas lutas de Guadalajara, Somosierra, Gredos, etc.

ACÇÃO  MILITAR

Em Novembro de 1936, Mera forma uma coluna que participa
na primeira batalha de Madrid. Penetra na Casa de Campo,
como responsável político de uma coluna integrada por
3.000 homens, sob o comando do tenente-coronel Palacios.
A I Brigada Internacional e as Milícias Confederais têm
por missão defender Madrid, onde se travam encarniçados
combates, com grande número de baixas. É na frente de
Madrid que Mera recebe a penosa incumbência de comunicar
a Federica Montseny a morte de Durruti, caído durante
a defesa da capital, em 19 de Novembro de 1936.
Nos finais de 1936 e começos de 1937, começam a
constituir-se as primeiras unidades do Exército Popular.
Cipriano Mera assume o comando da XIV Divisão, em
Fevereiro de 1937. Esta Divisão, surgida da desactivação
das colunas «Espartaco» e «España Libre», particparia na
batalha de Guadalajara (8 a 16 de Março) e, em Brihuega,
lograria a debandada dos italianos da Divisão «Littorio»,
tornando-se uma das mais notáveis vitórias republicanas,
 durante a Guerra de Espanha. É esta mesma XIV Divisão,
comandada por Mera, que vencerá a batalha de Brunete, em
Julho de 1937.
Em 6 de Outubro de 1937, devido à sua grande capacidade de
comando, Mera é nomeado, pelo ministro socialista Indalécio
Prieto, comandante-chefe do IV Corpo do Exército, ascendendo
em 19938, ao posto de tenente-coronel.
Em Março de 1939, a guerra estava perdida para os
Republicanos; em Madrid, o coronel Segismundo Casado
subleva-se contra o governo presidido pelo socialista
Negrín, claramente dominado pelos Comunistas do PCE.
Cipriano Mera lê, aos microfones da Unión Radio, uma breve
alocução, onde expressa o seu apoio a Julián Besteiro e
Casado e ao recém-formado Conselho Nacional de Defesa,
presidido pelo general Miaja. Dá-se o confronto armado
entre os apoiantes do Conselho e os Comunistas, vencido
pela XIV Divisão de Mera. Desgostoso por esta autêntica
guerra civil dentro da Guerra Civil Espanhola, Mera
apresenta a demissão ao coronel Casado, e parte para
Valência, donde, em 29 de Março de 1939, sairá de avião
com destino a Oran (Argélia).

O  AMARGO  EXÍLIO

Em Oran, Mera é internado num campo de concentração
francês. Quando é libertado, trabalha para ganhar a
vida, e muda-se para Marrocos. Na Primavera de 1940,
as autoridades franquistas solicitam aos ocupantes
nazis de França, a extradição de vários exilados
políticos espanhóis, pretensão que é atendida pelos
Alemães, que leva à prisão e morte de muitos Republicanos.
O mesmo pedido é feito às autoridades coloniais francesas
do Norte de África, que não respondem com a brevidade
esperada , e exigem a garantia de que nenhum dos exilados
seria fuzilado, em Espanha. Em Fevereiro de 1942, Mera
é entregue ao governo de Franco. Em 26 de Abril de 1943,
é julgado por um tribunal militar e condenado à morte,
pena que é comutada em 30 anos de reclusão.
Cipriano Mera participa em trabalhos forçados, na sua
profissão de pedreiro, na construção de obras públicas
e militares, como, por exemplo, a prisão de Carabanchel.
Em Outubro de 1945, graças à Lei de Referendo Nacional,
beneficia de uma amnistia, que o coloca em liberdade
condicional, sob intensa vigilância policial e várias
detenções.
Em Fevereiro de 1947, Cipriano Mera sai, clandestinamente,
de Espanha, para assistir a um plenário da CNT, em França,
permanecendo naquele país como refugiado político,
exercendo sempre a sua profissão de pedreiro. Em 1965, o
homem que for a um prestigiado comandante-chefe do
Exército Republicano Espanhol, com fama (e proveito) de
duro, valente e responsável, já velho e doente recusa a
reforma devida pela Segurança Social Francesa, porque o
seu salário integral era o único sustento da família. Em
25 de Outubro de 1975, e apenas com cinco anos de reforma,
morria Cipriano Mera Sanz, vítima de grave doença pulmonar.




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