(ca) anarkismo.net: Uma crítica por esquerda aos militantes ainda vinculados ao governo deposto – 1 by BrunoL

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Mon Jun 6 12:29:17 CEST 2016


Iniciar um debate como esse é sempre um tema delicado. Nos espaços onde publico e circulam 
ideias por mim difundidas, percebo que as críticas são bem recebidas e, ao mesmo tempo, 
posso estar abrindo feridas políticas com interpretações que podem ser bastante sectárias. 
Ainda que reconheça este risco, estou abrindo uma nova série, compartilhando tanto a 
crítica à nova direita que cresce na onda reacionária a tomar conta de parte do Brasil, 
como fazendo a crítica por esquerda, de forma, mas sincera. ---- Não cabe neste primeiro 
momento apontar supostos “erros ou acertos” dos governos de Lula e Dilma e sim debater, a 
dimensão estratégica, ou a ausência desta dimensão, quando apontada ao médio e longo 
prazo. ---- Inicio pelo óbvio. Por mais boa vontade e sinceridade política que tenham 
centenas de milhares de militantes contra o golpe, não há como varrer as práticas 
políticas condenáveis para debaixo do tapete. Entendo que o abandono de mínimas posições 
classistas levou a uma espécie de paralisia política, onde o mecanismo de “cálculo 
político” operado pelos oligarcas de sempre, entrou na mentalidade da direção do partido 
de governo (PT) e seus aliados, de modo que contas de mal menor estivessem sempre na ordem 
do dia. Não cabe neste primeiro momento apontar supostos “erros ou acertos” dos governos 
de Lula e Dilma e sim debater, a dimensão estratégica, ou a ausência desta dimensão, 
quando apontada ao médio e longo prazo.

Neste texto, levamos em conta o conceito de André Singer a respeito do lulismo, 
considerando-o um pacto conservador, um jogo do “ganha-ganha”, com as seguintes 
características: o Brasil aproveita o crescimento econômico chinês e indiano; tenta 
estabelecer uma aliança de classes com os campões do capitalismo nacional; não atinge de 
forma direta os interesses do capital financeiro e especulativo; aposta na política de 
exportação de commodities agrícolas, minerais e extrativistas; e, simultaneamente, abre 
cunhas de alianças com setores reacionários, em troca da gigantesca promoção de melhora 
nas condições materiais de vida. Logo, o que pode se observar é que, embora as mudanças 
materiais tenham sido consideráveis, não houve alteração nas estruturas de poder 
assentadas no Brasil, tanto àquelas de nível doméstico como na correlação com as forças 
externas. Logo, por mais que tenhamos praticado uma correta política externa de tipo 
“autonomia pela diversificação e inserção soberana”, a postura nacional e internacional 
foi coerente com o pacto de classes. Assim, tanto a inserção soberana no cenário 
internacional é o mal menor e não uma proposta de mudança na ordem mundial, como era nos 
anos ’80 do século XX; como aceitar a melhoria material como uma espécie de solução mágica 
para problemas estruturais de dominação foram o cadafalso da política lulista no Brasil.

Ao promover a melhoria da condição de mais de 44 milhões de pessoas, o que seria 
minimamente desejável seria a afirmação de estruturas de contra-poder, ou ao menos, uma 
capacidade de mobilização popular promotora de um poder de veto das maiorias por sobre os 
acórdãos oligárquicos e o viciado jogo burocrático-institucional. Ao contrário de fazer o 
afirmado aqui, o partido de governo reforçou o poder de seu líder político e eleitoral 
(Lula) e apostou toda a acumulação na vitória pelas urnas e não na construção de um novo 
consenso político-cultural, entregando a ideia de hegemonia societária para as estruturas 
pré-existentes. Deste modo, a inação levou a que nenhuma das estruturas centrais de poder 
no Brasil fosse alterada, ao contrário, se expandiram sob os narizes dos dirigentes 
petistas, tais como: o agronegócio e latifúndio; as “igrejas” neopentecostais; o poder da 
mídia corporativa; a financeirização da economia brasileira; a concentração econômica nos 
oligopólios nacionais (através de uma espécie de Bismarckismo tropical, já deveras 
elogiado por Eike Batista); a presença de capitais transnacionais nas telecomunicações; a 
divisão de poder no mundo do trabalho com as centrais pelegas; loteamento do primeiro, 
segundo, terceiro e quarto escalões do governo federal com oligarquias mercenárias; e, não 
menos grave, a negativa em modificar minimamente as instituições de segurança de Estado, 
verdadeiras máquinas de matar a própria população, acumulando entulho autoritário e 
violência endêmica na base de nossa pirâmide social.

Definitivamente, tais práticas de conciliação de classes e acomodação de forças são tão ou 
mais danosas do que a degeneração promovida pelo loteamento e rateio de práticas 
corruptas, ou do silenciar de investigações que poderiam cortar a cabeça da serpente, como 
as operações da PF Macuco, Farol da Colina, Chacal e Satiagraha. Para desespero de 
centenas de militantes com boa vontade, são as relações estruturais e as práticas 
políticas as atitudes definidoras da balança do poder interno e não, algumas acertadas 
políticas públicas, como as de renda mínima, de reconhecimento ou expansão das bases do 
ensino público.

A autocrítica necessária ou a desconfiança permanente

Expostas as feridas, é preciso falar em linguagem direta. Considerando tudo o que fora 
citado acima, entendo que, ou os dirigentes do PT, de seus partidos aliados (como o PC do 
B), das centrais sindicais que apoiaram o lulismo (como CUT e CTB), e setores afins fazem 
uma profunda autocrítica de suas práticas e alianças dos últimos 14 anos, ou toda esta 
indignação coletiva contra o golpe será jogada pelo ralo na próxima agenda eleitoral e 
eleitoreira. Esta crítica também vale para os movimentos componentes da Frente Brasil 
Popular e Frente Povo Sem Medo. Se este não é o momento para crítica e autocrítica então 
quando será? Para quem tem leitura da história política brasileira ou vivera o fim do 
ciclo populista, peço que seja lembrado o triste papel do PCB após 1964 e seus rachas sem 
fim até em função de sua inação diante do golpe evidente.

Afirmo que nem tudo está perdido e que há uma esquerda no Brasil, eleitoral e também não 
eleitoral e não é a este último setor, ao qual pertenço, para onde este texto se dirige. 
Hámuma conta a ser paga e a mesma é salgada. Sei que este tema atinge afetos e amizades, 
mas o faço de maneira fraterna e direta. Ou a esquerda social restante (como a Via 
Campesina e as bases ainda mobilizadas da Teologia da Libertação) assume seus erros e 
parte para um projeto político de democracia com justiça social, pluripartidarismo e 
igualdade sócioeconômica ou a parcela hoje ainda majoritária (a da centro-esquerda 
oficialista e de apoio incondicional ao governo que caíra) ficará apelando para debates 
místicos e escapistas como: “a história não para e as relações são dialéticas” e sem 
debater a fundo um PROJETO DE PODER. Se este debate não começar a ser feito com a devida 
radicalidade e lucidez nos próximos meses, repito, toda esta indignação será jogada pelo 
ralo diante dos oportunismos do próximo ciclo eleitoral dos municípios. O tema é urgente e 
seguirei neste debate nas próximas semanas.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis at riseup.net
facebook: blimarocha at gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29341


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