(ca) anarkismo.net: Carlos Alberto Sardenberg, equívocos conceituais e desinformação histórica – 2 by BrunoL

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Sun Jan 10 08:52:39 CET 2016


Neste texto, dou sequência ao artigo de opinião escrito por Carlos Alberto Sardenberg e 
publicado na página 14 de O Globo (24/12/2015) com o título “Uma esquerda neoliberal?”. No 
artigo, o experiente comunicador, especializado na área de economia e defensor explícito 
dos paradigmas do neoliberalismo (que o próprio afirma ser liberalismo político e 
econômico), também compara a política econômica de Lula (e por consequência a de sua 
sucessora, Dilma) ao “acerto” da posição assumida pelo ex-presidente Fernando Henrique 
Cardoso e sua inspiração, o ex-primeiro ministro da Espanha, Felipe González. No primeiro 
texto fiz a crítica às confusões conceituais de Sardenberg, incluindo a falsa comparação 
das posições à esquerda na política com simples estatismo e aumento do gasto público. O 
mesmo se dá na equivalência entre “desenvolvimento” (daí o termo desenvolvimentista) e 
crescimento econômico. Neste que segue, desmonto os argumentos favoráveis a Felipe 
González como grande artífice do período conhecido na Espanha como “la fiesta”.

Sardenberg afirma que (FHC e González) “efetivamente mudaram seu modo de ver a economia. 
Convenceram-se da superioridade prática do capitalismo e da iniciativa privada para 
construir riqueza”.

Como já afirmei antes, Sardenberg compara Lula e Dilma – posicionando-os como 
“esquerdistas”, assim como seria o atual ministro da Fazenda Nelson Barbosa – com a 
“esquerda social-democrata”, representada no Brasil por FHC e na Espanha por González. 
Nada por ser mais falso em todos os sentidos. Felipe González à frente do Partido 
Socialista Operário Espanhol (PSOE) teria criado prosperidade capitalista pela 
“modernização” do Estado pós-franquista. E, como tal, teria sido copiado por FHC, ambos 
oriundos da mesma matriz. Nominalmente até pode ser, mas o processo que os une é a 
transição política inspirada pelo Pacto de La Moncloa (palácio em Madri onde foram 
realizadas negociações para suceder a Franco), e orientada pela condução política do 
professor Juan José Linz, este sim, grande fonte de inspiração para FHC. Linz operou como 
assessor do governo de transição comandado por Alfredo Suárez (Duque de Suárez e 
presidente do país pós-Franco de 1976 a 1981). Esta transição espanhola, não trazia 
consigo temas substantivos, pactuando um acerto institucional e criando, na prática, um 
sistema político nacional bi-partidário, contando com as centrais sindicais UGT (ligada ao 
PSOE) e CCOO (ligada ao PCE e sua frente eleitoral, Esquerda Unida – IU em espanhol) para 
“domesticar” a classe trabalhadora espanhola de vigorosas tradições anarco-sindicalistas.

Se há um partido social-democrata ao estilo PSOE no Brasil este partido é o PT, assim como 
o PCE é muito semelhante ao PC do B (ambos de base estalinista e com opções não-classistas 
e sempre de composição política baseadas no pragmatismo tático). Se houve um progresso e 
modernização das relações sociais de base capitalista na Espanha a partir da segunda 
mentade dos anos ’80, foi pelo ingresso de bilhões e bilhões através da União Europeia em 
seu período anterior ao Euro, mantendo um fluxo contínuo de aporte e financiamento até a 
fraude da bolha imobiliária e a quebradeira com falências fraudulentas de 2008.

A Espanha próspera dos anos ’80 com González á frente escondia o apoio do PSOE aos GAL 
(Grupos Antiterroristas de Libertação, paramilitarismo da democracia espanhola), 
esquadrões da morte composto por policiais e para-policiais para eliminar a insurgência, 
em especial a guerrilha urbana do País Basco. O prêmio pelo bom comportamento de González 
como privatizador – a exemplo da Repsol e da Telefónica de España – foi a passagem para o 
Olimpo da oligarquia espanhola, tal e qual seu rival José María Aznar, do PP (direita 
espanhola pós-franquista). Segundo a ATTAC Espanha, mais de 75% do PIB espanhol estava 
concentrado em 1800 pessoas físicas tomando decisões em conselhos de gestão e de 
administração das maiores empresas operando no país, incluindo dentre estes os dois 
ex-primeiro ministros acima citados. Passada “la fiesta” a Espanha tem mais de 40% de 
desemprego entre a população abaixo de 30 anos.

Em uma passagem ímpar de seu breve texto, Sardenberg afirma que (FHC e González) 
“efetivamente mudaram seu modo de ver a economia. Convenceram-se da superioridade prática 
do capitalismo e da iniciativa privada para construir riqueza”. Sim, o experiente 
jornalista que cobre a economia capitalista tem razão. Construir riqueza, pois o valor é 
socialmente construído e como tal, a ideia de valor se transforma em concentração de 
riqueza e obrigações através de compromissos coletivos na forma de endividamento público e 
financeirização da economia. O mesmo se dá na ideia de que é possível avaliar o desempenho 
da economia capitalista de um país sem levar em conta a maldita Divisão Internacional do 
Trabalho e a camisa de força que a distribuição desigual de excedentes de poder e 
capacidades decisórias colocam a maioria dos países deste planeta forçosamente 
mundializado pelo capitalismo.

Infelizmente, com a difusão de senso comum como esta que critico, a ideia de esquerda fica 
subsumida a uma panaceia estatista e a de prosperidade (falsa expectativa jamais 
materializada) ao neoliberalismo e a abertura total ao capital transnacional de nossas 
sociedades. Ambas as ideias são falsas e totalmente falsificáveis. Nem o pacto de classes 
do lulismo está no campo da esquerda e menos ainda o neoliberalismo gera Bem-estar social 
para a vida em sociedade. No Brasil, a desinformação estrutural, os conceitos totalmente 
equivocados e a subordinação da ex-esquerda, tanto a social-democrata como a estalinista e 
a varguista (me refiro ao PT e aliados), aos interesses sórdidos do agente econômico 
liderando os oligopólios operando no país, geram uma enorme confusão desmobilizadora e 
que, sob o efeito da mídia econômica, aumenta a despolitização.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis at riseup.net
Facebook: blimarocha at gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28962


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