(ca) anarkismo.net: Carlos Alberto Sardenberg, equívocos conceituais e desinformação histórica – 1 by BrunoL

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Sat Jan 9 11:00:34 CET 2016


Em plena véspera de Natal de 2015 (24/12/2015), o jornalista de economia das Organizações 
Globo, Carlos Alberto Sardenberg publicou um artigo de opinião na página 14 do jornal O 
Globo com o título “Uma esquerda neoliberal?”. No texto, o experiente comunicador, 
especializado na área de economia e defensor explícito dos paradigmas do neoliberalismo, 
afirma uma teoria de tipo conspiratória, onde acusa o pacto do Lulismo, e em especial o 
governo de Dilma Rousseff, no primeiro ano de seu segundo mandato, de haver indicado o 
hoje ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy para não fazer nada e apenas dar alguma 
satisfação “ao mercado”. O texto de quatro colunas necessitaria de ao menos o triplo de 
palavras para dissecar as confusões geradas quando este tipo de difusão vulgar da economia 
e da política atinge a massa de leitores e receptores que hoje acompanham a crise brasileira.

Como era de se esperar, Sardenberg compara Lula e Dilma a Fernando Henrique Cardoso (FHC) 
e aquele que seria sua grande inspiração, o ex-primeiro ministro espanhol, Felipe González.

Afirmara o mesmo do próprio Lula, que chamara Henrique Meirelles (ex-presidente mundial do 
Banco de Boston) e tinha Joaquim Levy como secretário do Tesouro, foi ortodoxo enquanto 
houve necessidade e depois enveredou pela “nova matriz”, chegando ao auge do primeiro 
governo de Dilma, quando Guido Mantega fez a escolha pelo desenvolvimentismo e o aumento 
do gasto público como forma de subsidiar o crescimento (insisto, e não o desenvolvimento). 
Agora, que Dilma ressurge das cinzas, se equilibrando entre a disputa ferrenha na interna 
do PMDB (na aliança Michel Temer e Eduardo Cunha, com Moreira Franco passando pelo 
Rasputin dos oligarcas confrontando ao “coronel” Renan Calheiros e a base chaguista do 
PMDB fluminense), sai aquele que veio da mesa de vice-presidentes do Bradesco (Joaquim 
Levy) e entra o ex-ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, em tese um desenvolvimentista 
convicto.

Barbosa seria – ainda segundo Sardenberg – outra jogada de cena. Na primeira hipótese, a 
que considero mais viável, ele pode realizar a dureza do ajuste sem ter de confrontar-se 
com o que resta de base social para o bloco de centro-esquerda do governo (PT e PC do B). 
Na segunda hipótese, Barbosa entra para nada fazer, pois está convencido – assim como 
Dilma – que a “nova matriz” – uma inflexão desenvolvimentista sem um projeto de 
desenvolvimento do país – é a forma possível de acomodar interesses e manter o bem-estar 
social.

Como era de se esperar, Sardenberg compara Lula e Dilma a Fernando Henrique Cardoso (FHC) 
e aquele que seria sua grande inspiração, o ex-primeiro ministro espanhol (logo após o 
término do governo de Adolfo Suárez e o fim da transição pós-franquista), Felipe González. 
Confundindo conceitos fundamentais – a propósito ou por desconhecimento, embora com 
efeitos iguais – como “desenvolvimentismo”, “esquerdistas”, “esquerda social-democrata”, o 
experiente jornalista das Organizações Globo (com participações na cadeia CBN, na mídia 
impressa e eletrônica com base no texto, no Jornal da Globo, além de um concorrido blog 
por ele editado) coloca na vala comum posicionamentos totalmente distintos e até 
antagônicos. Obviamente, Sardenberg omite as passagens históricas, ou os constrangimentos 
e aportes estruturais que possibilitaram os “milagres do capitalismo moderno” defendido 
por FHC e González. Como afirmei no parágrafo inicial, vou precisar ampliar o espaço da 
crítica para desmontar aquilo que considero absurdo.

Começando pela “nova matriz”, de novo temos a presente confusão (entendo como proposital) 
entre crescimento econômico e desenvolvimento. Se nosso país, mesmo dentro de um 
capitalismo periférico e líder subalterno dos BRICS, insiste em ser governado através de 
um pacto de classes onde se acomodam as exigências dos agentes econômicos operando no 
Brasil e tem como base da balança comercial a colonial exportação de commodities primárias 
(grãos e minério de ferro basicamente), logo não temos um projeto de desenvolvimento e sim 
um modelo de crescimento.

Neste modelo, onde existe alguma política industrial – tímida e por vezes pífia – a 
condição dos oligopólios nacionais de atuar como clientes privilegiados do Estado (quase 
que uma necessidade dentro dos marcos dos países semi-periféricos) têm de espremer o caixa 
para salvar para si o que resta da fúria e do espólio do rentismo. Logo, não há “nova 
matriz” que resista ao incentivo às exportações de manufaturas asiáticas (produzidas com 
mão de obra com pouco ou nenhum direito), a consequente desindustrialização, e sendo 
sangrado o caixa da União com no mínimo 40% do orçamento anual indo pelo esgoto da rolagem 
da dívida pública interna e dos especuladores de sempre a faturarem com a jogatina.

O modelo anterior, advogado por Sardenberg, nem isso tinha – arremedos de política de 
crescimento – e que dirá de desenvolvimento, algo inexistente dentro do pacto de classes a 
sustentar o lulismo. Reduzir o pensamento de esquerda ao aumento do gasto público e a 
regulação secundária do agente econômico é no mínimo uma desinformação nefasta. Nem o 
pacto lulista e seus partidos de centro-esquerda (ex-esquerda) são ainda de Esquerda e 
tampouco são neoliberais. O jornalista desinforma duas vezes, reiterando uma piada pronta 
no subsistema político gaúcho. O deputado estadual Marcel Van Hattem (PP-RS), neoliberal 
assumido da escola de Ludwig von Mises é filiado ao Partido “Progressista”. O alvo 
preferido de sua histeria neo-lacerdista é a hoje deputada estadual pelo PC do B (RS), 
Manuela d’Ávila. Sendo muito franco, nem Van Hattem é “progressista” e tampouco Manuela 
(uma parlamentar correta no que se propõe, mas que como seu partido, abriu mão da luta 
popular e de classes há décadas) é “comunista”.

Jogar conceitos ao vento como se as palavras não tivessem carga e significado e omitir as 
relações causais e estruturantes de maior peso é confundir e desinformar. Mais do mesmo 
assim como o receituário neoliberal que Carlos Alberto Sardenberg defende diariamente.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis at riseup.net
Facebook: blimarocha at gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28955


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