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(pt) anarkismo.net: Traçando uma definição de imperialismo na etapa do capitalismo global e financeiro pós-2008 by BrunoL

Date Mon, 20 Nov 2017 08:23:18 +0200


É preciso caracterizar a ação do imperialismo no século XXI tanto nas chamadas "revoluções coloridas" como em seus efeitos subsequentes, com a internacionalização de empresas nacionais. ---- Vemos como essencial interpretar o conceito de imperialismo globalizado e financeiro. Este se manifesta desde formas mais grosseiras, como uma invasão militar, até o objeto de estudo o qual este texto se vincula, as relações complementares e subordinadas de Transnacionais (TNCs), paraísos fiscais, capital financeiro como forma de acumulação selvagem contemporânea, endividamento securitizado de populações inteiras e a existência de uma soma nefasta de elites orgânicas agindo através de portas giratórias em escala nacional e transnacional, a serviço e se locupletando da versão atual do neoliberalismo. ---- Traçando uma definição de imperialismo na etapa do capitalismo global e financeiro pós-2008

É preciso caracterizar a ação do imperialismo no século XXI tanto nas chamadas "revoluções coloridas" como em seus efeitos subsequentes, com a internacionalização de empresas nacionais, a cessão de patrimônio coletivo e a exploração desenfreada de recursos naturais não renováveis. A meta permanente é a financeirização das economias subordinando a vontade soberana de sociedades concretas. Nesta ação conjunta e combinada, a opinião pública é atingida de forma estrutural. A capilaridade da internet e manipulação de Big Data pelos provedores estadunidenses implicam na frágil soberania das sociedades civis latino-americanas.
Uma variável de fundamento é o conceito de imperialismo e a necessidade de sua revisão. Estando na América Latina e lecionando na ciência política e nas relações internacionais, automaticamente nos colocamos em uma posição polarizada quanto aos Estados Unidos e as capacidades de projetar outras inserções no Sistema Internacional distantes do eixo anglo-saxão e da Europa unificada. Ao mesmo tempo, a noção realista nos faz evitar qualquer adesão às posições da Rússia, Índia e menos ainda da China. Para nosso caso, observando as relações assimétricas de poder global a partir do Brasil como país líder continental, é possível manobrar dentro de um guarda chuva dos BRICS, mas reconhecendo a existência de um imperialismo chinês em escala global e projeções afins dentro e fora da Eurásia para estas três potências.
Com todas estas ressalvas, vemos como essencial interpretar o conceito de imperialismo globalizado e financeiro. Este se manifesta desde formas mais grosseiras, como uma invasão militar, até o objeto de estudo o qual este texto se vincula, as relações complementares e subordinadas de Transnacionais (TNCs), paraísos fiscais, capital financeiro como forma de acumulação selvagem contemporânea, endividamento securitizado de populações inteiras e a existência de uma soma nefasta de elites orgânicas agindo através de portas giratórias em escala nacional e transnacional, a serviço e se locupletando da versão atual do neoliberalismo.
Tal sistema de dominação opera através de uma dimensão complementar de inteligência e espionagem eletrônica - e a quebra de sinais, sigint -, o aval jurídico-político e por que não ideológico de mídia especializada (como o papel do "jornalismo" econômico), das agências de análise de "risco", das recomendações dos organismos ainda originários de Bretton Woods (como o FMI e o Grupo Banco Mundial), dos operadores "nacionais" vinculados aos volumosos e pouco ou nada regulados fundos de tipo hedge e o conjunto de instrumentos de acumulação através do chamado shadow banking. Na ponta, agindo em cada sociedade concreta, observamos a internalização de interesses externos (imperialistas) como nos acordos de Cooperação Jurídica Internacional, os institutos e think tanks da "nova" direita (que se alastram como metástase na América Latina), a captura das instituições do Estado capitalista - diminuindo a pouca margem da democracia de massas - e ampliando tanto os espaços de mercado - marketização -, como a privatização de recursos, empresas e patrimônios coletivos (como as reservas de recursos naturais) e a constante pressão da maior parte do topo da pirâmide de nossas sociedades em serem absorvidas como sócias minoritárias da distopia do capitalismo global com "liberdade e eficiência" de mercado.
Na dimensão da meta permanente, o modus operandi em escala mundo, vemos a concentração cada vez maior de TNCs - dentre estas incluem conglomerados chineses, russos, indianos e até há pouco tempo atrás, brasileiros - cuja capacidade de interconexão é inversamente proporcional à preservação dos recursos não renováveis do planeta e os biomas. A internacionalização de cadeias secundárias de suprimentos, a interdependência subordinada de mercados inteiros e sociedades concretas - como na venda no mercado futuro de safras agrícolas e a dolarização de produtos primários - e uma produção científica piramidal onde a circulação de pesquisa cientifica é também inversamente proporcional ao segredo industrial e a capacidade de pesquisa e desenvolvimento com conteúdos nacionais definem um planeta onde os conglomerados de capitais cruzados e controle acionário múltiplo, mas subordinado a centros decisórios externos, aumentam as fragilidades de cada país e fazem da soberania decisória uma meta cada vez mais distante.
Este conjunto complexo tem na acumulação selvagem de riqueza através de compromissos de resgate - títulos, papéis, instrumentos financeiros - e depósitos ultramarinos um autêntico cassino global protegido por legislação específica em territórios com jurisdições especiais. São beneficiários deste mecanismo tanto indivíduos como empresas, podendo ser considerado o depósito em "paraísos" a forma contemporânea de enriquecimento. Os valores que acumulam nestas jurisdições evadem tanto do fisco de países - e por tanto não se transformam em políticas públicas ou financiamento do aparelho de Estado - como tampouco aumentam a renda média das sociedades. É justamente o contrário. O modelo de acumulação financeira e a ação do imperialismo em sua etapa de globalização pós-2008 vê o aumento de circulação da "indústria financeira" não regulada, fazendo com que a riqueza não seja sequer oriunda especificamente de exploração de mão de obra e extração de mais valia. O capitalismo atual já não necessita gerar um volume de trabalho vivo e de emprego direto volumoso e sim subordinar as sociedades para fins privados em nome do "crescimento" de alguns setores ou da "estabilidade".
A ausência de trabalho vivo e o sequestro da capacidade extrativa dos Estados aumenta a lacuna de representação e a captura dos bens coletivos pelos entes privados, sendo que seus representantes estão dentro e fora dos governos de turno e das tecnocracias de carreira. Como se observa, a complexidade do imperialismo contemporâneo nos obriga a desafios teóricos e organizativos de vulto.
Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais / (www.estrategiaeanalise.com.br para textos e colunas de áudio / estrategiaeanaliseblog.com para vídeos e entrevistas / blimarocha@gmail.com para E-mail e Facebook)

https://www.anarkismo.net/article/30673
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