(pt) colectivo libertario evora: (DESDE O BRASIL) ENTREVISTAS COM ANARQUISTAS E COLETES AMARELOS EM FRANÇA,

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Domingo, 31 de Março de 2019 - 07:24:38 CEST


Do Brasil ---- DE OLHO NA REVOLTA SOCIAL DO OUTRO LADO DO OCEANO: ---- COLETES AMARELOS: 
GUERRA CIVIL OU GUERRA SOCIAL? ---- Introdução ---- Desde novembro do ano passado, a 
França toda está sacudida pelo maior movimento social vivido no país desde 1968. Estamos 
frente a um movimento heterogêneo e anárquico por essência já que nenhuma representação 
oficial do movimento é aceita por parte do corpo do movimento. O que está acontecendo na 
França? Que posição tomam xs anarquistas? Podemos falar de Insurreição? De Revolução 
Social? ---- Intrigadxs, alguns anarquistas realizaram um par de entrevistas com 
companheirxs que moram na França e que de alguma ou outra maneira, decidiram se envolver 
com o movimento. Uma parte dessas entrevistas foi já publicada no número 3 da revista 
anarquista "Crônica Subversiva" de Porto Alegre. Entretanto como o debate nos parece 
urgente enviamos uma parte das entrevistas pela internet.

A nossa intenção ao realizar essas entrevistas é antes de tudo entender quais são as 
posições dxs anarquistas em relação ao movimento, quais são suas formas de ação e como 
elas se comunicam com o movimento social. Para isso, buscamos provocar o debate trazendo 
aqui diferentes posicionamentos em relação à ação anarquista nos movimentos sociais, tudo 
isso no intuito de nos provocar, desde o lugar onde estamos para (re)pensar nossos meios e 
métodos de ação.

Das 4 respostas recebidas até agora, encontramos companheiros que se identificam como 
"Indivíduos Anarquistas que moram em Paris" que chamamos aqui de "IA", outro companheiro 
"T" que chamou-se de: "um anarquista de uns 40 anos, desempregado de longa data que mora 
na periferia de Paris." Mais um companheiro anarquista da região
metropolitana chamado aqui de "A" e por fim, umas/uns companheirxs anarquistas de Toulouse 
que chamaremos aqui de "AT".

Como nasceu o movimento dos Colete Amarelos
1) Primeiramente poderiam explicar como nasceu o movimento dos Coletes Amarelos? Qual foi 
a primeira reação do/dos movimentos anarquistas em relação ao movimento social?

IA: O movimento dos Coletes Amarelos nasce de uma petição cidadã na internet contra um 
novo imposto sobre o combustível. Lançada em maio de 2018, a petição circula amplamente 
nas redes sociais, é cada vez mais compartilhada e assinada até que chegara a mais de um 
milhão de assinaturas. Após, alguém posta um vídeo na web chamando a colocar um colete 
amarelo no para-brisa do carro como sinal de protesto. No início de outubro, uma nova 
chamada é lançada, convidando a uma mobilização no dia 17 de novembro de 2018. Nós (quase 
totalmente alheios às redes sociais), começamos a perceber a existência desse movimento 
uns dez dias antes dessa data porque as pessoas falavam disso e alguns diziam que ia 
explodir. A tensão sobe e os jornalistas mediatizam muito o evento. A mobilização é muito 
forte desde o início, notadamente nas zonas rurais. Essa primeira data consiste sobretudo 
em uma multiplicação de bloqueios, com a ocupação de trevos e de pedágios de estradas. 
Contamos já com os primeiros mortos do movimento (agora são 12), manifestantes atropelados 
pelos automobilistas que forçam os bloqueios. A determinação dos manifestantes é 
impressionante, temos os primeiros enfrentamentos com a polícia. Muito rapidamente, a 
questão do preço do combustível é ultrapassada por uma raiva mais geral contra outros 
impostos e taxas que golpeiam sobretudo as classes mais pobres. Os estudantes secundários 
(que já estavam mobilizados) entram no baile, bloqueiam os colégios e se revoltam contra a 
polícia. É a explosão de um "saco cheio" contra a vida cara demais ("não chegamos ao fim 
do mês" escuta-se nas entrevistas). Pede-se a demissão(impeachment) de Macron, que nos 
olhos da maioria dos manifestantes representa "a oligarquia no poder". Não tem que 
esquecer que o atual presidente e ex-ministro da economia nunca escondeu seu desprezo de 
classe e sua parceria com os patrões. O imposto no combustível foi sem dúvida a gota que 
transbordou o copo. Esses momentos felizes de revolta tiveram lugar em Paris, mas também, 
em muitas cidades do país, inclusive em regiões, supostamente, pacificadas. Isso se 
propagou também na "França de Além Mar", notadamente na ilha da Reunião, que, em dezembro 
de 2018 foi sacudida por uma verdadeira onda insurrecional.

A partir do 24 de novembro e até hoje, o movimento dos Coletes Amarelos se articulou ao 
redor de ocupações de trevos e pedágios de estradas assim como jornadas de mobilização 
semanais nomeados Atos (Atos 1, 2, etc.). Esses Atos, sobretudo durante as primeiras 
semanas são caraterizados por violentos enfrentamentos com a polícia, a destruição e 
saques de comércios, ataques a bancos e edifícios públicos. Motins de um jeito raramente 
visto na história recente do país. Além desses momentos públicos e coletivos, desde o 
início do movimento, assistimos a um grande onda de ações decentralizadas anônimas que em 
alguns casos são realizadas por grupos de indivíduos que se identificam como "Coletes 
Amarelos" e em outros, poderiam igualmente ser contribuições de companheiros anarquistas 
ou outras minorias revolucionarias: incêndios de pedágios e radares nas autopistas, 
sabotagens de infraestruturas de transporte (autopistas e trens), energéticas (postos de 
gasolina, transformadores, centrais eólicas ou postes elétricos), de comunicação (antena 
de fibra ótica), incêndio a edifícios públicos (principalmente centros de impostos mas 
também prefeituras e tribunais), ataques à sedes de diferentes partidos políticos, 
moradias de políticos e as vezes agressões contra prefeitos, deputados, e vice-prefeitos, 
ataques lugares da mídia (rádio, jornais, televisão), bloqueios e as vezes saques de 
grandes depósitos como Amazon, Carrefour ou Geodis.

Todo isso surgiu de uma maneira muito imprevisível e inédita. De um lado, esse movimento 
de revolta de tal tamanho, que rechaça os partidos e os sindicatos nos entusiasmou, por 
outro, não somos cegos frente a algumas tendências que emergem massivamente nos discursos 
dos Coletes Amarelos. Não podemos fechar os olhos frente a uma subida do nacionalismo que 
agita o fantasma do "povo francês contra a oligarquia" e não nos reconhecemos em um 
radicalismo cidadão que aspira ao "poder do povo", quer dizer, à transformação do Estado, 
por exemplo através da instauração do Referendum de Iniciativa Cidadã[1].

Isso não quer dizer que não achamos que a situação atual não seja interessante, vemos que 
estamos em um momento em que a revolta se generaliza e isso nos alegra. Na revolta, 
podemos descobrir o sabor da liberdade e transformar radicalmente nossas relações com 
outros indivíduos.

T: Inicialmente, o movimento foi lançado em outubro de 2018 na internet, nas «redes 
sociais» após a uma nova subida do preço do combustível[2]. As pessoas que deram origem ao 
movimento não se conheciam e não vinham de âmbitos militantes.

O movimento se tornou consistente a partir das primeiras ocupações de rotatórias e do 
primeiro protesto agitado na avenida dos Champs-Elysés, em Paris, no dia 17 de novembro 
2018. Desde então, o movimento tomou uma forma inédita mostrando uma desconfiança, até uma 
hostilidade em relação aos partidos políticos e os sindicatos. Desde o primeiro dia, o 
movimento reuniu pessoas muito diferentes politicamente e socialmente. Muito rapidamente a 
questão dos impostos e da subida do preço do combustível foi ultrapassada: esta 
reivindicação principal parecia secundaria em relação à raiva generalizada. A raiva do 
movimento dos Coletes Amarelos é principalmente um "estar de saco cheio" das desigualdades 
sociais, de não conseguir chegar a fim do mês, e do fato que os ricos (politiqueiros, 
burgueses de todo o tipo) "se empanturrarem nas nossas costas", para retomar uma expressão 
muitas vezes utilizada neste movimento. Por fim, desde o início do movimento, um único 
slogan faz a unanimidade durante as grandes jornadas de manifestação (os famosos "Atos" 
semanais que começaram no 17 de novembro): "Macron: demissão".

Em um primeiro momento, o movimento botou seu foco inicial na questão dos impostos e pelo 
fato que reunisse pessoas de frentes políticas opostas, o movimento dos Coletes Amarelos 
gerou nxs anarquistas tanto desconfiança quanto entusiasmo. Alguns participaram ativamente 
desde o primeiro dia enquanto outros até hoje rechaçam participar. Como é o próprio 
movimento anarquista, talvez mais do que em tempos "normais", não existe uma posição comum 
reunindo todas as tendências anarquistas. E no seio mesmo de cada uma dessas tendências, 
temos indivíduos, grupos de afinidades, coletivos e organizações tendo posições 
divergentes em relação ao movimento dos Coletes Amarelos.

A: O movimento dos Coletes Amarelos nasceu após o aumento dos preços do combustível ao 
qual se adicionava o aumento explosivo dos radares nas estradas e as multas de trânsito 
cada vez mais numerosas sobretudo quando o governo Macron fez passar o limite de 
velocidade nas estradas de 90 a 80 km/h em julho de 2018. Nos anos 70, o Estado 
subvencionou a construção das estradas em uma parceria pública/privada com Vinci[3]e 
outros. Claramente os impostos dos franceses pagaram uma parte das obras e, uma vez essas 
obras rentabilizadas para esses gigantes da indústria, os pedágios iam supostamente 
desaparecer. Mas é tudo o contrário que aconteceu: em 1995, o governo Jospin[4]vendeu 
definitivamente as estradas a esses grandes grupos, inclusive inscrevendo no contrato que 
os ligava ao Estado um aumento anual das tarifas ainda mais forte que a inflação. Para 
dar-lhes uma ideia, hoje um trajeto nas estradas da França custa tão caro em gasolina 
quanto em pedágios, que antes do último golpe petroleiro, saiam ainda mais caro que a 
gasolina. Não é casualidade que esse movimento nasceu nas rotatórias: foi primeiramente um 
movimento de pessoas que moravam fora das cidades e para quem o carro representava uma 
parte colossal das suas despesas. Porém, seria falso restringir o movimento a essas únicas 
preocupações, mesmo se claramente a grande maioria das reinvindicações se focavam no poder 
de consumo. Muito rapidamente, a partir do 1 de dezembro (o movimento começou no dia 17 de 
novembro), as perspectivas se expandem: reestabelecimento do ISF (Imposto sobre a 
Fortuna), fazer pagar os ricos, possibilidade para o povo de destituir os dirigentes, 
vontade de "democracia" direta e real. O que, na minha opinião, temos que perceber é que, 
muito rapidamente, o movimento desafiou sem concessão, e de forma generalizada todos os 
intermediários institucionais: políticos, imprensa, sindicatos, polícia, grandes 
empresas... em suma, quase todos os atores maiores de uma sociedade capitalista.

A visão dxs anarquistas é, ainda hoje, muito heterogênea. Alguns simplesmente esnobam o 
movimento. Acho que por desprezo às classes médias trabalhadoras, que vivem fazendo 
crédito para consumir, etc. e que não usam os elementos da linguagem do militante 
experiente. Outrxs, ficaram afastadxs por medo, sem dúvida, do seu vazio teórico, da sua 
aparente pobreza política. Outros ainda se jogaram dentro por amor (as vezes) cego, à 
insurreição, prontos para acolher a Grande Noite. Por fim, uma parte foi para ver, antes 
de começar a atuar.

AT: O movimento nasceu a partir de um chamado nas redes sociais em relação ao preço do 
combustível. Na região de Toulouse (sudoeste da França), se materializou com uma presença 
quotidiana nas rotatórias ao redor da cidade e nos pedágios. Depois de duas semanas, 
tivemos as primeiras manifestações do sábado. Por nosso lado, foi um pouco complicado em 
um primeiro tempo para nos posicionarmos e nos apropriarmos do movimento, vendo esse 
espectro político um pouco vago, abraçando também reivindicações nacionalistas (por 
exemplo a favor do fechamento de fronteiras ou a denunciação de pessoas migrantes em uma 
rotatória no norte da França). O que começou a interessar o movimento anarquista é o 
caráter dos distúrbios das manifestações, o rechaço dos partidos e sindicatos e as 
reivindicações de classe. Porém foi também a porta aberta para dinâmicas fascistas se 
desenvolverem e temos a sensação que levamos um tempo para acharmos uma maneira de nos 
encontrar nesse movimento (e ainda hoje continua.)

Fora dos partidos politicos e sindicatos oficiais
2) Aqui, temos os ecos que esse movimento se reivindica de nenhum partido político nem 
está relacionado com sindicatos, como se pudéssemos sentir um estado de "saco cheio" geral 
da miséria social e um rechaço à política tradicional. Pensam que isso é um "terreno 
fértil" para propagar as ideias e práticas anarquistas?

T: Com certeza. Este rechaço é levado por uma grande maioria do movimento e assumido assim 
desde o início. De fato, há muito em comum entre o movimento dos Coletes Amarelos e as 
bases anarquistas: particularmente o rechaço do governo, dos partidos políticos, dos 
sindicatos e outros "parceiros sociais" (esses "corpos intermediários" encargados de 
acalmar a revolta e permitir gerar boas relações entre o Estado e os manifestantes), e 
obviamente a ação direta. O movimento existe principalmente através das ações ilegais, 
indo desde o bloqueio filtrantes[5]nas rotatórias até o incêndio de prefeituras. As ações 
realizadas desde novembro de 2018 são inúmeras e muito variadas, os meios típicos de ação 
de uma insurreição (bloqueios, sabotagens, distúrbios, ...) e os alvos são quase sempre os 
mesmos que os que os anarquistas costumam atacar (edifícios ou lojas capitalistas e/ou 
estatais).

Particularmente em novembro-dezembro 2018, vimos os bairros mais ricos de Paris inundados 
por revoltados que destruíam tudo no seu caminho, inclusive na famosa avenida dos 
Champs-Elysées, em uma espécie de ódio de classe que mostrava que tudo isso ia além de uma 
simples questão de imposto sobre o combustível (esse foi cancelado já em 5 de dezembro, o 
que não impediu que o movimento perdurasse).

Por fim, o funcionamento sem chefes e a multiplicação das assembleias para se organizar de 
maneira auto-gestionada mostram outro ponto em comum com as práticas anarquistas. 
Assembleias se formaram durante o movimento e existem ainda, se desfazem e reaparecem sob 
outras formas. Conversa-se muito também em fóruns, grupos virtuais em Facebook ou chats 
como Signal, Telegram, Whatsapp...

Para relativizar um pouco, temos que entender que esse movimento é muito heterogêneo, que 
reúne pessoas com culturas políticas muito diferentes, e que se o nojo do sistema atual é 
o ponto comum de todas as pessoas que participam do movimento dos Coletes Amarelos, há 
também várias pessoas que buscam impulsar sua carreira nas costas do movimento: alguns 
antigos políticos integraram o movimento para encontrar alguns seguidores para guiar, 
outros buscam formar partidos políticos ou listas para as próximas eleições europeias. 
Porém, isso não se faz sem agitação, os que se autoqualificaram de "representantes dos 
Coletes Amarelos" até o ponto de considerar um encontro com ministros foram confrontados 
frente a raiva do movimento, recebendo um monte de críticas argumentadas, assim como 
também mensagens de insultos, ameaças de morte, etc.

IA:  Efetivamente, o movimento expressou inicialmente um rechaço dos partidos, dos 
sindicatos e da grande mídia, um saco cheio da política tradicional que sempre faz o 
interesse dos ricos. Hoje, temos a sensação que os sindicatos e alguns partidos 
(principalmente de esquerda, mas não somente) estão por recuperar e enquadrar a raiva que 
inicialmente se expressou de maneira espontânea e selvagem. Trata-se de um "terreno 
fértil" para as ideias anarquistas? Difícil de dizer, e, em todo caso, não nos 
questionamos nesses termos. Não acreditamos que nosso objetivo seja educar "o povo" ao 
anarquismo nem que os anarquistas devem guiar a insurreição. Obviamente, tratam-se de 
momentos onde nossos discursos podem ser parcialmente entendidos e nossas práticas 
compreendidas, mas, temos a sensação que muita gente está experimentando formas de 
auto-organização, de autonomia política e de ação direta sem passar pelo anarquismo. E que 
bom! A difusão de nossas ideias faz parte de nossa atividade cotidiana e não é porque 
muita gente começa a se revoltar que isso se torna mais importante ou urgente. A questão 
que nos propusemos mais adiante: como contribuir a aprofundar a desordem? Como complicar a 
tarefa das tentativas de pacificação lideradas pelos politiqueiros de todas as cores?

AT: Em Toulouse, os vínculos entre o movimento anarquista e os Coletes Amarelos passa 
essencialmente pelos quadros anti-repressão e pelas modalidades de ação. Porém, vemos que 
é bastante complicado aportar em relação às questões de "fundo" político. Uma parte das 
pessoas querem manter um desfoque político para evitar a todo custo uma ruptura. Isso 
impede posicionamentos claros frente a questões essenciais. Por exemplo, podemos ver 
pessoas protegendo os gambés cantando "todo mundo odeia a polícia". É bastante estranho. 
Apesar de uma relação perturbada com o político, uma grande parte do movimento segue 
reivindicando o movimento como apolítico. Então, por um lado a propaganda é possível e 
oferece quadros de discussão bastante interessantes, por outro, nos chocamos com um muro, 
onde nossos textos e panfletos são considerados como "radicais demais" ou querendo dividir.

O regresso da acção directa
3) Podemos sentir também uma agradável explosão do movimento que se traduziu por ações 
diretas contra os símbolos materiais do Estado e do capital nas ruas das grandes cidades 
como também em regiões remotas. Imaginamos que as mídias e o poder tentaram recuperar 
essas violências para dividir o movimento entre os "bons manifestantes cidadãos" e os 
"vândalos". Como isso se traduziu no seio do movimento e na relação entre anarquistas e 
Coletes Amarelos?

IA: O Estado tentou desde o início do movimento distinguir «os Coletes Amarelos» das 
«minorias de vândalos da extrema-esquerda e da ultradireita», assim como os «jovens que 
vieram para saquear tudo». Temos a sensação que nas primeiras semanas esse discurso 
funcionou só parcialmente, nas ruas sentimos uma certa solidariedade nos motins e essas 
categorias deixavam de existir. Para muitos, a violência não é legitima em si, mas se 
torna legitima frente à violência do Estado, da polícia. Assim, muitas pessoas ao longo 
das jornadas de sábado se "radicalizam", mudam suas formas de "vestimenta" ou de ação, 
apontando cada vez mais à violência do Estado, à violência da polícia, porque há muitos 
feridos, inclusive graves mesmo. Porém, uma parte mais cidadã do movimento, que se 
dissocia da quebradeira nas manifestações sempre existiu. Nas últimas semanas, as 
"lideranças" dos Coletes Amarelos, indivíduos muito presentes nas redes sociais e muito 
mediatizados, apelaram a manifestar-se sem violência, reproduzindo nos seus discursos essa 
distinção entre Coletes Amarelos e vândalos. Isso entra no jogo do Estado que está 
querendo fazer passar uma nova lei anti-vândalos[lei anti-casseurs]. Os encontros semanais 
do sábado tornam-se cada vez mais manifestações "tradicionais" (pelo menos em Paris, onde 
nós moramos), com o roteiro entregado à prefeitura por esses líderes do movimento, com 
tentativas de impedir que o movimento transborde, instaurando serviços de ordem. 
Felizmente, a imposição desses serviços de ordem não é consensual no seio do movimento.

T:Neste assunto, como em tudo o resto, não existe consensus no meio dos Coletes Amarelos. 
Como acontece em cada revolta, o poder grita ao escândalo, critica as violências dos 
rebeldes sem nunca mencionar a violência social cotidiana que está na origem das revoltas. 
O presidente, Macron, seu primeiro ministro Edouard Philippe e o ministro do Interior 
Christophe Castaner não pararam de falar merda dos "maus Coletes Amarelos". Mesma coisa na 
imprensa onde todo um saco de jornalistas, politiqueiros e especialistas apelaram a um 
endurecimento da repressão. Enquanto uma grande maioria da população se rebela, da extrema 
direita (do RassemblementNational "Junta Nacional" de Marine Le Pen) até a extrema 
esquerda (da France Insoumise "França Insubmissa" de Jean-Luc Mélenchon) passando 
obviamente por todos os partidos ditos "moderados", estigmatizam os "vândalos" 
("casseurs") ao mesmo tempo em que se reconhece, numa linguagem velada, que sem eles 
Macron não teria retrocedido nada na questão dos impostos.

O que é mais complicado, mas recorrente nas situações de uma revolta, é que encontramos 
também um grande número de "bombeiros pacificadores" no seio mesmo do movimento. E é 
obviamente muito mais fácil de dizer abertamente, diante de uma assembleia de 80 pessoas 
ou frente à uma câmera de televisão que estamos contra as violências dos manifestantes. 
Não existe nenhum risco para isso. Mas, expor-se a explicar porque achamos justo de 
arrebentar a porta de um ministério, de apedrejar a polícia, de saquear um supermercado de 
luxo ou de incendiar uma viatura de polícia, é mais complicado.

Enquanto anarquistas, é então importante termos um discurso sobre isso, apoiar as ações 
diretas como estratégia de luta, independentemente do grau suposto de violência. E 
obviamente, de atuar "como de costume" ao lado dos revoltados, solidários nas ações 
ofensivas como nos momentos de repressão. Como já dizíamos em 2006 durante o movimento 
contra o CPE[6]e em 2016 durante o movimento contra a lei Trabalho (loiTravail), "somos 
todos vândalos".

AT: Mesmo que não seja muito claro, podemos ver que uma parte do movimento se 
reivindicaria mais como "cidadã" e uma outra bastante mais solidaria da pluralidade dos 
meios de luta do movimento. Por exemplo durante o Ato 12[2 de fevereiro], alguns Coletes 
Amarelos contra a quebradeira foram conversar com o prefeito de Toulouse para negociar um 
trajeto e declarar a manifestação. Felizmente, isso foi muito criticado e somente houve 30 
pessoas no seu comício. Essa iniciativa vinha principalmente dos comerciantes. Então, a 
tentativa de divisão não funcionou para nada. Nos tribunais, vemos que muitas vezes, as 
pessoas detidas assumem seus atos, tanto criticando a justiça quanto assumindo sua 
participação no movimento. Da mesma maneira, as pessoas encarceradas são, na grande 
maioria, solidarias do movimento, mantendo, apesar de penas muitas vezes pesadas, posições 
de não-dissociação e de manter a sua solidariedade em relação ao movimento, no seu 
conjunto. Partindo do quadro de organização contra a repressão que recai sobre os Coletes 
Amarelos, alguns anarquistas tentam fazer o vínculo levando a questão da prisão como um 
todo, apontando a romper a especificidade da solidariedade, em relação somente aos presos 
políticos. Em relação à imprensa, observa-se um rechaço da imprensa burguesa no seu 
conjunto, nos discursos e nas práticas: jornalistas mandados embora dos protestos ou 
ataques a sedes de imprensa. Essa desconfiança em relação com a mídia vem sobretudo do 
discurso veiculado por eles em relação aos "vândalos" e mais geralmente sobre o desprezo 
que estes manifestam em relação ao movimento. Em relação aos ataques em si, observamos que 
os alvos aceitos por todos e todas são os bancos, as seguradoras e cada vez mais as 
agencias imobiliárias. Porém, persistem reticências e divisões em relação ao material 
urbano (estações de ônibus, painéis publicitários, ...) e à prática de 
"auto-redução"[saque]nos comércios.

Os anarquistas e o movimento dos Coletes Amarelos
4) Imaginamos que entre xs anarquistas também existem diferentes maneiras de fazer parte 
do movimento, poderiam nos explicar qual é a sua e porquê?

IA: O movimento anarquista na França é muito heterogêneo e as posições entre companheiros 
em relação ao movimento dos Coletes Amarelos são múltiplas. Há alguns que desde o início 
têm uma postura muito crítica, colocando em evidencia o lado nacionalista, conspirativo e 
a presença da extrema direita. Para nós, tratam-se de aspectos não negligenciáveis, mas 
que não caracterizam o movimento inteiro, que expressa sobretudo uma raiva contra o 
governo e o poder econômico. Outros anarquistas se lançaram com entusiasmo no movimento, 
alguns inclusive conseguem se identificar como Coletes Amarelos. Nós não. Não nos 
reconhecemos com a maioria das ideias levadas pelos Coletes Amarelos, não lutamos pelo 
preço do combustível, não demandamos mais Estado social, nem um aumento do SMIC (salário 
mínimo), não somos "A França com raiva" porque cuspimos na França como em todas as outras 
nações. Não nos organizamos nas redes sociais e não gostamos dos líderes inclusive quando 
se tratam de líderes revolucionários, porém, nos alegramos da revolta, da desordem 
generalizada e pensamos que podemos contribuir com isso desde ideias que são nossas, quer 
dizer, sem participar diretamente do movimento dos Coletes Amarelos (ocupações de 
rotatórias, assembleias). Nos momentos da raiva social, a ação anarquista pode ser mais 
eficaz e pertinente se os companheiros e companheiras já têm bases sólidas de afinidade, 
uma experiência prática e um conhecimento do terreno. Algumas contribuições reivindicadas 
pelos companheiros nos parecem muito importantes, por exemplo, o incêndio de uma igreja, 
de uma torre hertziana, assim como da sede da rádio informativa France Bleu, tudo isso em 
Grenoble. Mas, podemos supor que numerosos atentados e sabotagens reivindicados, como já o 
mencionamos, constituem contribuições vindo de companheiros do movimento em curso.

T: Vou me contentar de responder aqui só por mim, em relação as minhas escolhas de 
participação e intervenção no seio do movimento dos Coletes Amarelos, porque seria longo e 
complicado demais de levantar um painel das diferentes abordagens que os anarquistas têm 
em relação ao movimento. Demorei mais que outros, em aceitar que o movimento levava 
consigo algo insurrecional, que tudo isso ia além de uma história de imposto e de 
combustível. Mas, desde o início de dezembro, o integrei profundamente! Participo com 
minha "bagagem política", meus conhecimentos e meus saberes-fazeres que são uteis, para 
mim, mas também para todo o movimento. Me permito dizer isso sem falsa modéstia, vinte 
anos de manifestações, de motins, de assembleias, de ocupações, de bloqueios, de greves, 
etc. não é irrelevante quando nos encontramos em meio de pessoas que expressam uma raiva 
intensa mas participam, às vezes aos 35 anos, de sua primeira manifestação... e se falo 
isso sem falsa modéstia, o falo também reconhecendo que o frescor rebelde do movimento em 
novembro-dezembro permitiu a realização de ações diretas de um tamanho relativamente 
incrível. O conhecimento do "terreno" e os costumes de luta que temos são claramente 
triunfos para compartilhar, mas, podem também constituir limites. É difícil analisar a 
ausência aparente de apreensão e medo que podíamos ver nos descontrolados nas ruas de 
Paris (e sem dúvida também em outros lados), pelo menos no 24 de novembro e no 8 de 
dezembro, e em mediana medida no 5 de janeiro.  A raiva social transbordava claramente os 
costumes militantes e ativistas "habituais". Poderíamos dizer a mesma coisa de 
levantamentos relativamente recentes como durante a revolta incendiaria de outono 2005, o 
movimento contra o CPE em 2006 ou mesmo os mais recentes contra a Lei do Trabalho em 2016 
e após a agressão de Théo, em fevereiro 2017[7]. Mas, tenho a sensação que as formas que 
tomou a explosão de raiva do movimento dos Coletes Amarelos tem que ver com diferentes 
fatores: por um lado, os adquiridos ofensivos desses movimentos de lutas recentes que 
marcaram uma parte das pessoas que participam do movimento (pelo menos se não na forma, no 
conteúdo), aos quais podemos adicionar os tumultos nos Champs-Élysées do último verão após 
a vitória do time da França na copa do mundo de futebol (essa avenida é um santuário 
intocável durante os movimentos sociais habituais enquanto constitui obviamente um alvo 
muito pertinente, economicamente e simbolicamente), os tumultos rurais na ZAD[Zona a 
Defender]de Notre-Dame-des-Landes em 2012, o movimento dos BonnetsRouges[8][Toucas 
Vermelhas]em 2013-2014, tantos momentos que assentam a ideia de que temos motivos e razão 
para nos revoltarmos. Tudo isso é para o imaginário "revoltado" que pode ser presente na 
cabeça de cada um de nós e não somente nos anarquistas! Para o resto, muita gente veio com 
sua raiva e seu saber-fazer. Por exemplo, no início de dezembro e janeiro, maquinas de 
construção foram utilizadas durante os tumultos ou manifestações selvagens nas ruas mais 
ricas da capital para mover veículos em chamas no meio da estrada e reforçar as 
barricadas, ou para quebrar a porta de um ministério e várias vitrines de bancos... Na 
verdade, nunca tinha visto isso antes. Até agora, as máquinas de construção eram, no 
melhor dos casos, incendiadas, agora estão sendo utilizadas com sensatez e logo incendiadas.

Mas, me emociono e me perco!

Nas manifestações selvagens e nos momentos de tumultos, o saber-fazer anarquista é sempre 
útil. Mas minha participação no seio desse movimento, apesar de tudo o que acabei de 
contar, é provavelmente menos focada nos tumultos que "de costume". Primeiro porque pelo 
menos até a metade de janeiro, se um monte de anarquistas participou nesses momentos de 
desordem nas ruas, sua/nossa presença não era decisiva, ou em todo caso muito menos que 
por exemplo em 2016 durante o movimento contra a lei do Trabalho, onde tínhamos às vezes a 
sensação que sem nós (os anarquistas e outros rebeldes autônomos, antifa, etc.), teria 
tido somente desfiles bunda-mole entre slogan pesados, cachorros quentes e música ruim. 
Mas, porque o movimento dos Coletes Amarelos é particularmente confuso ao nível das ideias 
e das perspectivas que leva, porque é inédito ao nível da sua composição (encontramos 
principalmente pessoas que têm raiva do sistema e da burguesia no poder, às vezes chamada 
"oligarquia", muita gente se dizendo "apolítico" ou "apartidário", mas também muita gente 
politizada indo de anarquistas, antifas, etc. até a extrema direita, passando por membros 
de diversos partidos políticos, soberanistas/nacionalistas e/ou de extrema esquerda), me 
pareceu importante participar ativamente dos debates internos do movimento, indo nas 
assembleias de luta, distribuindo panfletos e escrevendo nas paredes... bom, não é como se 
"de costume", não fazia isso, mas digamos que aí me pareceu ainda mais importante.

Ah sim, o lance novo para mim, foi de ter feito o "esforço" de me inscrever e participar 
em grupos de discussão virtuais dos Coletes Amarelos em chats do tipo Signal, Whatsapp, 
Telegram... São claramente não os meios mais interessantes de intervenção no seio de uma 
luta, mas é inegável que permitem ao mesmo tempo, ter uma ideia a mais do que se diz entre 
os participantes do movimento e também de aportar nossas ideias. Foi notadamente útil e 
ainda o é, sobre temas polêmicos como a presença da extrema direita no movimento, ou ainda 
a questão da violência (sim, mesmo num movimento selvagem como esse, com cenas de tumultos 
incríveis, encontram-se pessoas que afirmam que esse movimento é "pacifico" e que "os 
vândalos desacreditam o movimento"!)

A:Na minha opinião, o que é essencial é entender que a imensa maioria dos Coletes Amarelos 
são manifestantes primários, para a maioria, era a primeira vez que bloqueavam algo, que 
se encontravam fora da lei. Isso se vê muito com a ingenuidade com a qual enfrentaram a 
repressão policial e judicial. Os números são complicados de verificar mas somente no mês 
de dezembro houve mais de 4000 detenções, e pelo menos 200 penas de prisão, 
sistematicamente acompanhadas de uma interdição de manifestar durante 3 anos (isso nunca 
foi visto na França, e ao parecer é só um início). Entre os condenados quase todos tinham 
uma ficha limpa e foram reconhecidos culpados somente em base as suas próprias confissões, 
tipo: "sim, lancei uma garrafa na polícia porque bateram em nós sem motivo, somente me 
defendia." Etc. Quando conhecemos a reação do poder judiciário frente a processos, na 
maioria do tempo, esvaziados de prova material, nos damos conta do lado ingênuo de tais 
confissões. Mas, considero que não devemos olhar para essa ingenuidade com arrogância ou 
desprezo. Acreditei na justiça até minha primeira detenção... As pessoas necessitam ter 
essas experiências e enquanto anarquistas "experientes" creio que devemos absolutamente 
deixar o tempo, tomar o tempo, porque esse movimento somente está começando. Enquanto os 
dois últimos movimentos da Lei do Trabalho mostraram a incapacidade dos profissionais da 
luta autônoma para inventar novas formas de luta, de ir além das manifestações sindicais, 
pessoas que nunca se manifestaram e que alguns olham com desprezo, fizeram isso em menos 
de dois meses.

AT: Uma presença na rua primeiro, para criar slogans, mexer com os fascistas e participar 
da ação direta. De maneira mais organizada, nos pareceu mais "simples" tomar parte ao 
quadro da "anti-repressão" organizando permanências para os familiares, amigos e 
companheiros dos detidos, a escritura de cartas para pessoas encarceradas e a difusão de 
conselhos jurídicos sob a forma de panfletos ou oficinas. A aproximação do movimento sob o 
ângulo da anti-repressão é uma maneira "mais fácil" de ser útil ao mesmo tempo em que 
pode-se aportar ideias políticas às quais pertencemos.

O futuro do movimento
5) Após quase 3 meses de movimento social que não parece próximo a acabar, quais são as 
perspectivas? Será que a esquerda sindicalista está por recuperar o movimento? Como se 
posicionam os Coletes Amarelos anarquistas diante, por exemplo, da candidatura de uma 
lista "Coletes Amarelos" nas eleições europeias?

IA: Como previsível, assistimos a uma ritualização dos encontros semanais, à sua 
normalização e a tentativas de controles e enquadramentos por partidos, sindicatos 
inclusive pela extrema-esquerda. Como previsível, políticos de todas as cores, desde a 
extrema esquerda à extrema-direita, mas também, novos políticos cidadãs, tentam liderar o 
descontentamento em direção às urnas. Não tem surpresa então. Porém, as pessoas continuam 
se organizando desde baixo, fora essas tentativas de enquadramento e de recuperação. 
Existe uma raiva difusa, os bloqueios, as sabotagens, os incêndios de edifícios públicos e 
os ataques contra políticos seguem. Não acreditamos que as tentativas de recuperação dos 
"partidos dos Coletes Amarelos" poderão apaziguar a raiva difusa e colocar fim à guerra 
social. Pelo menos, é o que esperamos!

T: No dia 5 de fevereiro, teve um chamado à greve geral, lançada pelos Coletes Amarelos, 
os principais sindicatos dos movimentos sociais (CGT, Solidaires,...) e dos partidos de 
extrema esquerda tipo NPA[9], mas, resultou em uma derrota relativamente esperada. 
Finalmente, a ofensiva voltou no sábado 11 de fevereiro, durante o Ato 13. Em Paris, a 
manifestação dos Coletes Amarelos se rearticulou com o aspecto selvagem e dos distúrbios, 
no início de dezembro[10], mas, o aspecto massivo não é mais o mesmo. Se há ainda muitas 
assembleias e auto-organização, me parece que o movimento está no baixo da onda e parece 
ainda muito heterogêneo. É então difícil de apresentar as perspectivas globais, mesmo se a 
raiva contra o poder do dinheiro e das elites políticas segue intacta.

Em relação às questões ligadas à extrema direita, seguem presentes. No último sábado (11 
de fevereiro), enfrentamentos entre antifa e fascistas em Lyon tiveram como consequência 
uma derrota dos fascistas, porém, enraizados em Lyon. Na semana anterior, foi em Paris que 
os fachos foram retirados da manifestação dos Coletes Amarelos. A mesma coisa aconteceu em 
Bordeaux nas semanas anteriores, assim como em outras cidades. Ou seja, é cedo demais para 
concluir que a extrema direita está fora do movimento.

Em relação à esquerda sindical, se começa a encontrar cada vez mais seu lugar nas 
manifestações, segue atrás, e a desconfiança dos Coletes Amarelos em relação aos 
sindicatos segue sendo bastante significativa. De maneira geral, independentemente das 
suas tendências políticas, os Coletes Amarelos são muito críticos em relação a tudo que 
poderia se assimilar à recuperação política. As listas mais ou menos etiquetadas ou 
oriundas do movimento dos Coletes Amarelos para as eleições europeias são até agora muito 
impopulares, talvez até mais impopulares entre os Coletes Amarelos que no meio do resto da 
população. As e os que se encontram na cabeça dessas listas são vistas como traidores ou 
como recuperadores. Então, o ponto de vista dos Coletes Amarelos anarquistas em relação a 
isso é fácil de adivinhar: é o mesmo.

Muitos anarquistas (e aparentados) que se envolveram no movimento dos Coletes Amarelos 
chamam à auto-organização durante as assembleias, a buscar meios horizontais e 
decentralizados para ficar conectados e conseguir se organizar a maior escala, sempre 
partindo das assembleias locais. Contrapondo, a reivindicação do RIC é vista como uma 
maneira de fazer calar a revolta criando uma ilusão de poder popular mediante 
possibilidades de votos temáticos...

De um lado, temos perspectivas de auto-organização sem passar pelo Estado nem por outras 
vias de hierarquia política e do outro, teríamos o retorno a um vínculo social reformista 
com os mesmos modos de campanhas (com os mesmos problemas habituais de financiamento, 
midiatização e lavagem cerebral típico da sociedade espetacular-mercantil) para votar 
"sim" ou "não" a tal proposição, e obviamente o Estado que decide em última instancia. 
Então, sem querer idealizar as formas que tomam as assembleias de Coletes Amarelos por 
enquanto (e ainda menos o conteúdo), não há muita dúvida enquanto às opções que se 
perfilam nas assembleias de luta, o RIC ou as listas eleitorais para as eleições europeias.

Pequena citação para terminar:

"Na França, infelizmente, as pessoas não gostam muito da polícia, as pessoas querem matar 
policiais. Temos de repetir isso ainda, nas redes sociais se vê muito:  chamados para 
assassinato, chamados a foder com a polícia, o problema está aqui, existem coquetéis 
Molotov que são atirados contra a polícia, policiais que são vítimas por ser atingidos por 
bola de petanca[jogo tradicional e popular francês], por garrafas com ácido, com cabo de 
picareta, então, entendo efetivamente que, seria muito bom nós termos manifestações 
pacificas, nós gostaríamos muito." Axel Ronde, secretário geral do sindicato VIGI-police 
(uma organização sindical que antigamente pertencia à CGT), 18 de janeiro de 2019, no 
programa de TV: ArrêtssurImages[11].

Na real, frente aos discursos de auto-vitimização por parte dos representantes dos porcos, 
contamos em menos de 3 meses de movimento, desde o 17 de novembro, entre as pessoas 
feridas pelas armas da polícia, pelo menos 20 pessoas com um dos olhos arrancados, 5 
pessoas com uma mão arrancadas e uma pessoa falecida[12].

AT: Então, em Toulouse, vemos que a presença da extrema direita «ativa» se manifestou mais 
essas últimas semanas com o ataque por uns fascistas (fafs) a um grupo maoísta durante uma 
manifestação, com a presença da rede de televisão Soral[13]e a proliferação de pixações 
antissemitas nas ruas. De fato, podemos notar que no início, os Coletes Amarelos pareciam 
bastante incômodos quando os fachos eram expulsos fisicamente das manifestações, sempre 
com o argumento de que "nada serve sermos radicais" e que isso somente ia dividir o 
movimento. Em relação a isso, começaram a mover as coisas quando os maoístas foram 
atacados por fachos que faziam saudações nazistas. É um pouco confortante ver-se 
materializar limites a um princípio democrático que quer ser mais forte que tudo, mesmo 
que isso seja insuficiente e que nos gostaria ver aparecer outras linhas ou perspectivas 
mais claras politicamente. É esse elemento que nos dá um pouco de medo com esse movimento, 
o pouco de perspectiva política com exceção do: "Macron demissão". Tudo parece se centrar 
ao redor de práticas comuns e do medo da divisão. Vemos também que cada vez são menos 
rotatórias ocupadas e muitos Coletes Amarelos começam a se desencorajar dentro de algumas 
comissões. Mais geralmente, a esquerda sindicalista parece andar atrás com suas tentativas 
um pouco falhadas de greves gerais e tentativas de fazer presença durante as assembleias 
gerais dos Coletes Amarelos.

A: Em relação às diferentes tentativas de recuperação do movimento, até agora, falharam 
todas e foi uma beleza! A meia-dúzia de Coletes Amarelos autoproclamadas lideranças do 
movimento e que, para alguns tentam criar uma lista para as eleições europeias, receberam 
todos ameaças de morte, assim que muitos já renunciaram. Essas ameaças não se resumiram a 
simples cartas anônimas, e da mesma maneira que as pessoas atacaram regularmente as 
moradias pessoais dos eleitos (tentativa de incêndio na casa de Richard Ferrand, 
presidente da assembleia; carro pessoal de Johanna Roland, prefeita de Nantes queimado na 
frente do seu domicilio; numerosas sedes de partidos políticos atacadas...) a mensagem é 
clara para qualquer um que tentaria falar no lugar dos outros. A imensa maioria de 
ataques, de incêndios, de sabotagens que tiveram lugar sem se enfraquecer desde inicios de 
dezembro são realizados por Coletes Amarelos puros e duros. A exceção do incêndio de 
France BleuIsère em Grenoble[sede de uma rádio]em janeiro que foi reivindicado por 
companheirxs anarquistas, a imensa maioria desses atos foi levada a cabo por senhores e 
senhoras que podem ser qualquer um/a. O que explica então a facilidade pelos atores da 
repressão para encontrar os autores quase sistematicamente (pessoas sem luvas, sem toca, 
que mexem no smartphone ao mesmo tempo em que quebram as coisas, e como já falei, com 
confissão fácil). Eu consideraria então vãs todas as tentativas de recuperação do 
movimento, de onde seja que elas vêm. E se é verdade que a extrema direita é cada vez 
menos presente, graças também à uma presença física de grupos antifascistas que os 
expulsam e caçam literalmente, na maioria das manifestações, os cortejos parisienses se 
parecem cada vez mais ao leque social da extrema esquerda tradicional. E falando em 
recuperação diria que a única vitória da esquerda cidadã-pacifista tem a ver; não no 
terreno das ideias, porque o movimento dos Coletes Amarelos tem isso de revolucionário: 
bane a ideia mesma de qualquer cumplicidade com qualquer ator capitalista; mas no fato de 
ter imposto aos cortejos parisienses dos sábados tradicionais, caminhos novamente 
declarados e então afastados dos bairros ricos e enquadrados à "alemã" por centenas de 
policiais em cada vereda.

Desde início de fevereiro as forças contrarrevolucionarias trabalham a toda velocidade. 
Tendo observado a impossibilidade atual de enquadrar o movimento recuperando-o, o poder 
escolheu a repressão dura. Nunca vimos isso, nem sequer em 1968 dizem os mais antigos. Os 
números aumentam cada dia mais, mas em resumo: 300 feridos graves; 22 pessoas com olho 
arrancado (cuja metade é claramente pacifista!); 5 mãos arrancadas (com essas famosas 
granadas GLIF4 que contêm TNT; 6000 detenções desde novembro, 5000 custodias, pelo menos 
2000 condenações (sabendo que muitos julgamentos ainda não aconteceram), 250 penas de 
prisão (e muitas vezes somente pelo fato de levar óculos de mergulho). Temos que adicionar 
a isso a nova lei «anti-vândalos»[anti-casseurs]que estava em trâmite há 10 anos mas que 
nenhum governo ousava colocar em prática. Isso porque prevê e permite a detenção 
preventiva de qualquer pessoa suspeita pelo Estado de, talvez algum dia, inch´allah... 
cometer violências. É realmente MinorityReport no país de Voltaire. E com a finalidade de 
secundar seu braço armado de uma luva de veludo, a última invenção do governo não é menos 
ousada. Enquanto durante a manifestação do dia 16 de fevereiro Alain Finkelraut (um 
intelectual muito fascista, e, por outro lado, judeu) foi expulso por apenas 5 pessoas aos 
gritos de "sionista fedido", o Estado aproveitou para acusar o movimento de ser 
antissemita, o que comprova, segundo ele, que o movimento está sendo recuperado por uma 
extrema esquerda, também supostamente antissemita. Durante o mês de dezembro, os Coletes 
Amarelos eram todos tolos infiltrados por nazis, hoje são antissemitas convertidos à 
extrema esquerda, amanhã talvez seremos vilões agentes russos ao serviço dos Smurfs?! Em 
fim, e, é menos engraçado, Macron em pessoa se declarou a favor da inscrição da lei do 
anti-sionismo como parte integrante do antissemitismo, fala por si só...

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2019/03/26/desde-o-brasil-entrevistas-com-anarquistas-e-coletes-amarelos-em-franca/#more-23065


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