(pt) federacao anarquista gaucha: As Jornadas de Porto Alegre em 2013 - PARTE

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sexta-Feira, 29 de Junho de 2018 - 07:30:33 CEST


As mobilizações de massa da juventude que escreverem a história recente do Brasil com as 
Jornadas de Junho ainda não tiveram um ponto final. A explosão das ruas que anunciaram os 
estudantes-trabalhadores do regime flexível, sujeitos da rotina neurótica e estafante das 
grandes cidades, agravada pela deterioração dos serviços e dos bens públicos, não foi 
satisfeita. As urgências populares pela ampliação dos seus direitos continuarão em cena, 
são dramas brasileiros cotidianos, e ainda vão latejar muito. Terão que ganhar potência em 
organizações de base e com um federalismo que una as rebeldias e não se deixe capturar 
pelas instituições. Não serão as eleições e a oferta dos partidos da democracia burguesa 
que confortarão o mal-estar que provoca o sistema.

Ato público da FAG, setembro de 2014

Para compartilhar lembranças, narrativas e experiências sociais-políticas que se 
reconhecem no significado forte e amplo que guardam os 5 anos de Junho de 2013, a imprensa 
de nossa Organização selecionou documentos, cartas e pedaços dos discursos libertários que 
produziu e que circularam nessa torrente poderosa das ruas. Será nossa maneira de incitar 
memórias e fazer registro comemorativo de nossa atuação nessa histórica jornada da lutas 
de massas do RS e do Brasil.

Em Porto Alegre, um núcleo de militantes da FAG vinha trabalhando com a pauta do 
transporte público coletivo já de antes de 2013. A formação do Bloco de Lutas por aliança 
na rua entre organizações de esquerda, fora do arco governista, teve nossa participação 
dedicada, que ajudou muito a aparar conflitos de estilo e de tática. O ELAOPA (Encontro 
Latino Americano de Organizações Populares Autônomas) ocorrido no primeiro mês do ano em 
Viamão foi espaço de uma troca interessada de apreciações e produção de acordos entre o 
setor batizado de Frente Autônoma. Nosso conceito, desde o princípio, foi de um Bloco com 
independência política, vetor de massas, com participação e mecanismos de democracia de 
base, plural quanto as formações ideológicas, campo para a esquerda combativa sair da 
mesquinharia e formar uma aliança potente nas ruas.

Em princípios de 2013, véspera de reajuste de tarifas do ônibus, o debate na campanha 
contra o aumento da passagem era sobre a participação de partidos e organizações de 
esquerda no espaço de decisões do movimento. Houveram precedentes graves e problemáticos 
em que o protagonismo de partidos quis sobrepor-se a expressão pública de protestos 
populares. Era mais visível o partido do que a pauta do movimento social. A vocação de 
popularizar e ampliar a adesão de setores mais amplos, que não estavam organizados com a 
esquerda, era inversamente proporcional ao aparelhismo. Digamos muito brevemente que essa 
ambição auto-proclamatória foi responsável em outros anos por cenas bisonhas de confronto 
público entre correntes.

A decisão pela forma do Bloco de Lutas vinha com o apelo dessas lembranças e fazia 
prevenções mais do que necessárias sobre a tática pública da independência de classe. 
Queria ser um movimento extra-legal, de dinâmicas de ação direta popular, com democracia 
de base das assembléias. Canal de uma revolta popular incomodada e constrangida pela 
burocracia impotente de partidos eleitorais e sindicatos pelegos, movimento pra fora da 
zona de conforto da esquerda, de ruptura com toda a cultura burocrática e arrivista que 
dominou a política do país. Nessa perspectiva, teve grandes virtudes. Foi durante um 
período curto e intenso o catalisador de uma luta de massas que não prendeu a imaginação 
política aos efeitos de uma polarização reducionista entre o governo petista e jogo de 
poder das elites dirigentes. Mas também teve seus limites. No estratégico, no 
organizativo, a insurgência das ruas não pode dar lugar, entre outras coisas, a uma 
federação de organizações de base com lastro na vida local da periferia urbana e 
multiplicar ferramentas de auto-organização na massa dos precários. A onda 
judicial-repressiva que investiu sobre a zona central, terreno privilegiado do movimento, 
impôs o refluxo das ruas e fez aparecer com mais evidência esses limites.

A explosão das ruas de abril em Porto Alegre deu vulto para essa criatura plural, rebelde, 
imprevisível, que atropelou o editorial de Zero Hora daqueles dias. O "pode ou não pode", 
o "certo ou errado" que faz a regra de verdade do discurso da ordem foi rompido pela fúria 
das ruas. A direita e o sistema dominante deram-se conta mais cedo de um ponto fora da 
curva. O reformismo de esquerda ficou assustado com o princípio de uma revolta que lhe 
fugia do controle, que não pagava cortesia pros seus métodos e rejeitava expressamente sua 
representação burocrática e conciliadora.

Em junho de 2013 Porto Alegre e muitas outras cidades da região metropolitana e do 
interior do RS entram na onda da revolta popular que sacode todo Brasil. Podemos recortar 
pelo menos três momentos para as jornadas em Porto Alegre: a explosão de abril, a revolta 
nacional em junho e a ocupação da câmara de vereadores em julho.

ABRIL DE 2013. É HORA DE AVANÇAR!
A semana que sucedeu o anúncio do aumento nas tarifas de ônibus em Porto Alegre foi 
marcada por uma reação popular há tempos sem precedentes. Após anos de protestos contra os 
abusivos aumentos que não passavam de pequenas demonstrações de repúdio com pouca ou 
nenhuma repercussão, ainda assim de grande importância, as coisas felizmente começaram a 
tomar um novo contorno desde o começo deste ano. Longe de terem sido mobilizações 
virtuais, essa reação é fruto de um árduo trabalho de inúmeros companheiros e 
companheiras, onde modestamente temos aportado nossa contribuição.

Todo esse longo trabalho de formiga se manifestou na última semana, após o anúncio do 
aumento. O forte trabalho organizativo e agitativo, aliado a indignação de mais um aumento 
abusivo, que este ano contou inclusive com o rechaço do Tribunal de Contas do Estado 
(TCE), que apontou superfaturamento na tarifa, indicando o valor de R$2,60, resultou no 
estalar das maiores mobilizações contra o aumento que a cidade já presenciou. Logo na 
segunda-feira, 19/03, foram 2 atos coordenados e simultâneos que bloquearam duas das 
principais avenidas de Porto Alegre: as Avenidas Bento Gonçalves e Ipiranga, nas 
respectivas alturas do Campus do Vale da UFRGS e da PUC. A repressão da choque no ato na 
PUC e a constante provocação da Brigada  aos que marchavam na Bento não conseguiu acabar 
com os atos, que se juntaram em frente a PUC, estendendo o bloqueio da Ipiranga até as 
22h. Demonstramos a força do movimento nas ruas. Na quarta-feira, os atos atingiram seu 
ápice. Milhares de lutadores(as) dizendo NÃO ao aumento, concentrados em frente a 
prefeitura e exigindo a redução da tarifa. Depois de um empurra-empurra em frente a porta 
do prédio, onde se tentou forçar a entrada, algumas "bombas" de tinta são arremessadas, 
chegando a atingir o secretário municipal de coordenação política e governança, César 
Busatto. Busatto é o mesmo que, quando chefe da casa civil do governo Yeda (PSDB), foi 
acusado de chefiar a pilhagem de verbas do Detran para organização de caixa dois. Ao ser 
atingido por tinta, Busatto saiu a público fazendo um escândalo, como se houvesse sido 
alvejado por balas de fogo e acusando-nos de dano e prejuízos aos cofres públicos.

Em meio à essa tensão, uma companheira  foi arrastada a força pelos agentes de segurança 
para dentro da prefeitura e algemada. Era a faísca que faltava para exaltar os ânimos de 
companheiros/as exaustos/as de tanta humilhação e desrespeito promovidos por essa aliança 
entre poder público, empresas de transporte e meios de comunicação de massa. A resposta 
foi imediata e à altura, quando iniciou-se, espontaneamente, o apedrejamento das janelas 
da prefeitura e de algumas viaturas da guarda municipal. O batalhão de choque foi 
acionado, atirando bombas de efeito moral e avançando sadicamente em direção a um 
companheiro que se encontrava parado. O resultado: o companheiro atirado de cabeça em cima 
de um meio fio, pisoteado e ferido gravemente.

Carta de Opinião da FAG, 01/04/13

O Bloco de Lutas contra o Aumento das Passagens encheu Porto Alegre com o protesto massivo 
da última segunda-feira (01/04/13). A ação repressiva não intimidou o movimento. 
Estudantes e trabalhadores deram uma valente demonstração de força depois do conflito 
sucedido na outra semana. Esta já é uma peleia para a história da capital quando o assunto 
é transporte coletivo.

Temos tratado de defender sempre os critérios que fortaleçam, que unam, que não 
desagreguem a energia que tem que ser acumulada para vencer uma luta que não termina logo 
ali. O "aparelhismo" joga contra a unidade dos que lutam, mata a pluralidade do campo 
popular. Como corrente libertária do socialismo aplicamos um conceito integral de 
independência das lutas sociais em relação a governos, partidos e patrões. Tática 
apartidária pra luta social, não anti-partido e tampouco apolítica.
Pra favorecer uma experiência de lutas que deve unir e organizar os setores populares, 
nenhum partido tem o direito e a autoridade de se colocar por cima, interferir em causa 
própria na expressão pública do movimento social, negociar nas costas da vontade popular. 
A relação de forças das ruas, dos piquetes, das ocupações e das marchas é que marca o 
caminho. As pautas que convocam e mobilizam os trabalhadores e os estudantes não podem ser 
deslocadas pelo partido, não pertencem a nenhuma legenda em particular, são do povo e para 
que participe massivamente.

Carta de Opinião da FAG, 04/04/13

A luta contra o aumento da tarifa de ônibus logrou uma importante vitória na última quinta 
feira, 04/04. Ainda durante a concentração em frente à prefeitura de Porto Alegre para 
mais um ato contra o aumento, recebemos a notícia de que a justiça havia acatado uma 
liminar que obrigava a revogação do aumento. Assim, passava a valer o valor anterior de 
R$2,85.

Longe de haver sido uma conquista exclusiva da atuação de um determinado partido, a 
liminar é fruto da contundente decisão com que milhares de jovens, trabalhadores e 
desempregados, tomaram as ruas, ocuparam terminais, organizaram piquetes em garagens e 
mobilizaram seus amigos e companheiros nos locais de trabalho, estudo e moradia, na luta 
contra o aumento. Sem essa decisiva organização popular que demonstrou sua força nas 
últimas semanas tal medida judicial teria sido mais uma, dentre tantas, a mofarem nas 
gavetas dos tribunais.

Carta de Opinião da FAG, 11/04/13

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2018/06/24/as-jornadas-de-porto-alegre-em-2013/


Mais informações acerca da lista A-infos-pt