(pt) federacao anarquista gaucha - Mulher é resistência: rebeldia e luta de corpos indignados Por Sara Munaretto

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Segunda-Feira, 18 de Junho de 2018 - 06:45:59 CEST


Vivemos atualmente uma forte ofensiva neoliberal, o que talvez se possa chamar de um 
ajuste político global, processo que vem se agudizando nos últimos anos. Uma conjuntura de 
absoluto alinhamento dos estados com o capital financeiro internacional, possível através 
da crescente militarização da sociedade e do uso da violência como recurso político, que 
resulta em um cenário de privatizações dos bens públicos, retirada de direitos básicos, 
empobrecimento, restrições às liberdades, criminalização da pobreza e dos movimentos 
sociais e graves ataques aos direitos humanos. Nesse quadro, as mulheres são as que mais 
sofrem com essa ofensiva violenta, principalmente as mulheres pobres, periféricas, negras, 
indígenas, lésbicas e trans. ---- Nesse contexto, sobretudo a partir de 2015, inúmeras 
manifestações protagonizadas pelas mulheres ganharam força e visibilidade. De lá pra cá, 
acontece um fortalecimento dos atos de memória e das lutas em torno do 8 de março, 
participação ativa das mulheres em greves e ocupações, a difusão das experiências de lutas 
das mulheres curdas e zapatistas.

Em 2015 tivemos no Brasil um levante das mulheres contra a bancada evangélica e o início 
da Marcha das Mulheres Negras; em 2016 o paro internacional das mulheres no 8M, a greve 
geral das polonesas, as ocupações no Brasil, a ampliação do repertório de luta das 
mulheres do campo, indígenas e quilombolas em toda América Latina; em 2017 a Marcha das 
Mulheres contra Trump nos EUA e as brasileiras contra a PEC 181; em 2018 a greve geral 
feminista no 8M na Espanha, a vitória do SIM no plebiscito irlandês pelo aborto. 
Atualmente estamos vivenciando as ocupações no Chile e a onda das argentinas tomando as 
ruas, tendo também como pauta principal o aborto.

Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, África do Sul, Islandia, EUA, Polônia, Espanha, 
Irlanda, Cisjordânia, Suécia. Combate à violência de gênero, direitos reprodutivos, 
autogestão dos corpos, aborto, luta antiracista, educação antipatriarcal, luta contra a 
herança das ditaduras e o avanço do conservadorismo, combate à cultura do estupro. São 
inúmeros os exemplos de mobilizações de mulheres em todo o mundo e é impressionante a 
capacidade de alcance dos temas e reivindicações pautados por essas lutas.

Uma das muitas mudanças e contribuições que a crítica feminista introduz situa-se nas 
questões do corpo. Ao longo do tempo, a tríade religião - estado - capital tem atuado como 
conjunto ideologicamente alinhado e força poderosa de opressão geradora de discursos onde 
nossos corpos são territórios privilegiados de colonização. Nós, mulheres, ao longo da 
história tivemos nossos corpos controlados em grande medida pela religião (no âmbito da 
moralidade atrelada a comportamentos sexuais) e pelo estado (muito vinculado a políticas 
demográficas, mas também a ideias moralizantes, já que em muitos casos, na prática, o 
estado nunca esteve completamente desvinculado do discurso religioso). É uma moral que 
ensina a vergonha, o medo, a culpa, o silêncio, e sentencia a morte para mulheres que 
decidem sobre seu corpo, na contramão da interferência masculina/jurídica/estatal. É 
necessário controlar os corpos para manter uma determinada lógica de poder nas relações 
sociais. Nesse caso, a lógica que aloca as mulheres como corpos disponíveis e passíveis de 
intervenções múltiplas: dos homens e do estado.

Não é por acaso que os temas da violência contra a mulher e do aborto têm tanta força nas 
recentes mobilizações. Enquanto apresentam alguns avanços em alguns locais do mundo, no 
Brasil são dominados pelo fundamentalismo de uma bancada religiosa. No caso do aborto, o 
código penal qualifica como crime desde sua versão republicana. A legislação brasileira 
que permite o aborto nos casos de estupro e risco de vida é de 1940. Em 2012 houve a 
alteração que inclui o terceiro caso, a anencefalia (e corremos risco de perder esses 
direitos mínimos que conquistamos via uma série de projetos de lei e medidas legislativas).

Os números da violência seguem aumentando, principalmente entre as mulheres negras, com um 
quadro brutal de assassinatos e violência sexual (Atlas da Violência 2018). A engrenagem 
simbólica do patriarcado controla os corpos (e sua relação com os direitos sexuais e 
reprodutivos, que tem ligação direta com a exploração do trabalho) através do estado, que, 
por sua vez, é controlado pelo capital. O direito ao aborto constitui, portanto, uma 
radical liberdade do corpo perante o estado, uma vez que tem relação direta com a 
liberdade individual e com a exploração do trabalho feminino. E é assim que são colocados 
os corpos femininos frente a biopolítica patriarcal: o capitalismo representa o 
patriarcado, e viabiliza as lógicas de conquista através do estado.

É preciso enfatizar dois marcos fundamentais da constituição social latino-americana: a 
escravidão e o patriarcado, sem os quais o desenvolvimento do capitalismo tal qual 
conhecemos não teria sido possível. Não se pode esquecer que vivemos em uma sociedade 
construída através da exploração desumana do trabalho das populações originárias e das 
negras e negros escravizados, do saque e destruição das riquezas naturais e da violência e 
estupro sistemáticos das mulheres, sobretudo as mulheres negras e indígenas. Esses marcos 
tem consequências profundas até hoje, com nossos corpos controlados por um estado 
comprometido com a agenda de exploração do capital internacional, que usa a soberania de 
decidir quem pode viver e quem deve morrer, que é legislado por uma lógica religiosa de 
homens brancos.

Por isso, nossa luta deve ser feminista, antiracista e anticapitalista.

O que nos diz o grito das mulheres

As recentes mobilizações das mulheres cada vez mais evidenciam que é necessário combater 
opressões históricas estruturais e que é possível e necessária a luta contra as múltiplas 
opressões do patriarcado, colonialismo, racismo, e capitalismo. Dois aspectos chamam atenção:

1) o alcance dos temas (uma pauta disparadora está sempre pensada em articulação com 
problemas sociais estruturais: conseguem abordar de forma relacional a violência, 
educação, direitos reprodutivos, trabalho, etc...) e 2) o repertório de luta (de ação 
direta e democracia direta, com ocupações, assembleias, protestos, greves...).

As mulheres têm se mostrado protagonistas de uma luta radical que aponta repertórios de 
resistência que fortalecem o poder popular por meio da organização, autogestão e 
democracia direta. Se tentam impor os sistemas de opressão nos nossos corpos, é também 
neles onde podemos buscar a força da rebeldia, transgressão e resistências para a 
transformação social. Se nossos corpos são território de exploração, que sejam convertidos 
em trincheiras da resistência.

As mulheres estão espalhando o germe da insubmissão e da resistência e convocando uma 
proposta cotidiana de corpos indignados. Estão apostando na criação de espaços de 
organização e coletividades emancipadoras capazes de construir liberdades. São espaços 
potentes de transformação social que penetram em todas as esferas sociais em que circulam. 
As mulheres estão apontando a escolha por uma forma de fazer política que aposta em 
mecanismos de participação com democracia direta.

Nós, mulheres anarquistas, desacreditamos dos parlamentos e das estruturas jurídicas do 
estado, dos instrumentos da política suja da democracia burguesa. Como sustentam as 
companheiras chilenas, nossos desejos não cabem nas pastas de nenhum governo. No Chile, 
mesmo após o anúncio de mudanças constitucionais pelo governo, arrancadas através de muita 
luta das mulheres organizadas, elas não se dão por satisfeitas. Estão dizendo com isso que 
não acreditam nas soluções institucionais. Estão fazendo política nas ruas, mostrando sua 
força e gritando que a única luta eficaz é aquela que protagonizam os sujeitos oprimidos 
organizados com autonomia e independência. É nisso que acreditamos.

É preciso aprender com os feminismos comunitário, indígena, negro. O sul político 
latinoamericano, negro, indígena e periférico, necessita de ferramentas específicas de 
enfrentamento. As mulheres da América Latina devemos criar nossa própria luta. É preciso 
olhar com atenção esses movimentos de mulheres, e perceber como podem aportar uma 
contribuição fundamental na prática política para a transformação social como um todo.

Com o protagonismo das mulheres, toda sociedade avança. Está em curso nossa afirmação de 
resistência em aberta rebeldia, mesmo e com mais indignação quando atacam nossos direitos. 
Junto com as companheiras no Chile e Argentina nos levantamos, e seguimos em nossas 
frentes de luta na construção de um feminismo libertário, classista e de base, combatendo 
desde baixo patriarcado, estado e capitalismo.

MULHER É RESISTÊNCIA!
ARRIBA EL FEMINISMO, QUE VA VENCER, QUE VA VENCER!
MULHER, TE ORGANIZA E LUTA!
ARRIBA LAS QUE LUCHAN!
AMÉRICA LATINA FEMINISTA!

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2018/06/12/mulher-e-resistencia-rebeldia-e-luta-de-corpos-indignados/


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