(pt) uniao anarquista UNIPA - A greve dos caminhoneiros. Entre o Locaute patronal e a insurgência da base

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Domingo, 3 de Junho de 2018 - 09:19:39 CEST


Maio de 2018 vai se encerrando com uma forte greve das/dos trabalhadores de transporte de 
cargas, ou caminhoneiras/os. Envolto a muita neblina e confusão pela esquerda reformista, 
a situação vem ficando mais explicita nos últimos dois dias. ---- O Lock Out de 2015 e a 
greve da base de 2018 ---- Em 2015, os caminhoneiros protagonizaram diversas paralisações 
e bloqueios com início no mês de abril, com um dia de paralisações e bloqueios que 
culminou em um movimento mais forte em novembro, já num contexto de maior desgaste do 
governo Dilma. No entanto, quem impulsionou esta paralisação foram setores do empresariado 
de transporte. Isso se confirma quando observamos as reivindicações centrais que passavam 
pelo "direito" de transportar 10% a mais de carga, além de serem contra a lei 13.103 (Lei 
do Caminhoneiro) que obrigava periodos de descanso diários de 11 horas intercalados. 
Destas, 8 horas deveriam ser consecutivas (jornada de 8 horas com até 4 horas extras). Ou 
seja, o movimento de 2015 lutava contra os próprios caminhoneiros e sua segurança, 
favorecendo os empresários do transporte e sua acumulação.
Pegando carona na negação pela direita do governo Dilma, o movimento de 2015 foi marcado 
também pelo combate ao governo do PT, o que ajudou a engrossar o caldo do golpe de 2016.
No entanto, a greve de 2018 é distinta. Inicia-se com a convocação de uma paralisação 
nacional para o dia 21 de maio feita pela CNTA, a Confederação Nacional dos 
Transportadores Autônomos. As principais demandas eram o congelamento do preço do Diesel, 
pelo prazo necessário para a discussão sobre algum benefício fiscal que reduzisse o custo 
do combustível para os transportadores (empresas e caminhoneiros) e fim da cobrança dos 
pedágios sobre eixos suspensos. Nesse primeiro momento, mobilizaram-se autônomos (45% do 
setor) e motoristas contratados.
Rapidamente, as transportadoras estimularam seus contratados a aderir ao movimento, com a 
promessa de não promover cortes salariais ou demissões, pois a redução do preço do Diesel 
é de interesse primordial dos patrões.
O que levou os caminhoneiros a cruzar os braços foi o alto preço dos combustiveis, em 
especial do Diesel, dentro de um contexto de recessão. Eles que já ganham pouco, estavam 
ganhando menos ainda com alta do preço do diesel e manutenção do preço do frete. Mas o que 
elevou o preço dos combustíveis foi a política econômica liberal da Petrobrás, gerenciada 
por Pedro Parente. Essa liberalização faz com que o valor dos combustiveis oscile de 
acordo com o mercado internacional, portanto, se num dia o preço do combustivel sobe no 
mercado internacional essa variação vai ter consequencia imediata e os caminhoneiros, como 
todo o povo, são penalizados vendo seu salário ir embora. Em 2018 essa variação passou a 
ser quase diária. Segundo Nota Técnica 194 do Dieese "nos últimos 30 dias, a Petrobras 
reajustou o preço da gasolina e do diesel nas refinarias 16 vezes. O preço da gasolina 
saiu de R$ 1,74 e e chegou a R$ 2,09, alta de 20%. Já o do diesel foi de R$ 2,00 a R$ 
2,37, aumento de 18%. Para o consumidor final, os preços médios nas bombas de combustíveis 
subiram de R$ 3,40 para R$ 5,00, no caso do litro de gasolina (crescimento de 47%), e de 
R$ 2,89 para R$ 4,00, para o litro do óleo diesel (alta de 38,4%)"
Essa nova política econômica na Petrobrás demonstra a servidão do governo Temer ao 
imperialismo, já que sob a justificativa de ter que "ajustar as contas da Petrobrás", 
permite que a oscilação cambial diária determine o valor diário dos combustiveis, dando as 
condições para que várias companhias estrangeiras venham lucrar ainda mais com o consumo 
destes derivados do petróleo. Desse maneira a nova administração da Petrobrás e o governo 
Temer reduziram a produção da empresa e o anúncio da venda de outras quatro no Brasil. 
Essas medidas abrem espaço
para o aumento da participação de empresas privadas no setor e a entrada de capital 
estrangeiroa redução da produção nas refinarias. Nos últimos dois anos a petrobras tem 
aumentando a exportação de petroleo cru, reduzido o refino em suas refinarias (que 
aumentaram sua capacidade ociosa) e importado mais combustíveis, favorecendo outras 
petroliferas e empresas importadoras. Nesse sentido, a adoção dessa nova política tem como 
obetivo liquidar o patrimônio da Petrobras, a transformando numa mera exportodara de 
commodities, favorecendo acionistas do mercado financeiro global e prejudicando o povo com 
uma política de preços de combustíveis que aumenta o custo de vida das trabalhadoras e 
trabalhadores. Segundo Nota Técnica do Diiese "desde junho de 2016, a Petrobras já 
reajustou 216 vezes os preços da gasolina e do diesel. Para dar ideia do impacto, entre 
maio de 2017 e abril de 2018, a inflação acumulada pelo Índice de Custo de Vida 
(ICV/DIEESE) ficou em 2,79%. O aumento ocorrido no subgrupo transporte individual, de 
11,47%, foi consequência, principalmente, da alta nos preços médios da gasolina (19,75%), 
do álcool (15,05%) e do diesel (10,99%); o subgrupo transporte coletivo, por sua vez, teve 
elevação de 5,35%."
Na nossa análise, esse é o elemento central da análise da mobilização dos caminhoneiros 
que lutam por redução dos combustíveis. O governo Temer/MDB não tem como atender a esta 
demanda da categoria sem subsidiar o valor dos combustíveis. Por sua vez, o subsídio tende 
a comprometer as contas públicas em uma economia em recessão e estrangulada por medidas 
como a PEC 55. Caso o faça, irá romper com a política econômica para a Petrobrás, uma das 
razões para ter tirado Dilma e o PT da direção do executivo. Portanto na sua reivindicação 
imediata, a ação direta dos caminhoneiros tem grande pontencial para colocar a política de 
preços, a privatização da petrobras e eletrobras e o governo Temer (MDB) em xeque, ao 
contrário da campanha eleitoral e defesa de Lula e do PT que minaram as greves de 2017. 
Por outro lado, como forma de combater as mobilizações e a radicalidade do movimento pode 
surgir saídas mais autoritárias para a classe dominante. Para fortalecer o polo da ação 
direta é preciso solidariedade e diálogo com o movimento grevista.

A disputa da insurgência caminhoneira

Sabemos que o levante de junho de 2013 se iniciou com uma pauta "simples", como a redução 
do preço das passagens recém reajustadas em Goiânia, Porto Alegre, Rio de Janeiro e outras 
capitais. O papel da mídia foi condenar e combater as manifestações. No momento em que 
elas se massificaram, a mídia - em especial a Globo - passou a tentar conduzir o movimento 
em seus métodos e pautas. Assim, passou a condenar a ação radicalizada de massas como os 
black blocs (contando com o apoio de muitos partidos de esquerda) e buscou forjar a figura 
de um manifestante pacífico, ordeiro, apelando para o civismo e patriotismo. No que diz 
respeito às pautas, tentou isolar a pauta do acesso ao transporte público e combate às 
máfias do transporte dando foco ao combate genérico e simplório à corrupção, a fim de 
levar o movimento para canto nenhum, pois não havia pauta concreta sobre o tema.
O mesmo tentaram fazer entre os dias 22/05 e 24/05 apelando para o civismo dos 
manifestantes que "retiam apenas caminhões e permitiam carros passarem pelo bloqueio", 
apresentando como pauta a redução de impostos como saída imediata e apontando a 
privatização da Petrobrás como saída maior. A mídia vem repetindo uma estratégia que já 
conhecíamos, a da condução dos métodos e pautas do movimento, impondo - como agente 
externo, através da opinião pública - uma manutenção de método, mas uma mudança das pautas.
Os setores burgueses contavam com o total apoio das burocracias corporativas que se 
apresentam como representantes dos caminhoneiros, como a Confederação Nacional dos 
Transportadores Autônomos (CNTA), a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) e a 
União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam), cuja política é a colaboração com os 
empresários reunidos na Confederação Nacional dos Transportes (CNT).
A pauta pela redução do PIS/Cofins mostra bem a colaboração de classe, pois se trata da 
redução de uma contribuição previdenciária e, portanto, atenderia uma reivindicação da 
burguesia.
Entretanto, o movimento se massificou, ganhou apoio popular, começa a ganhar vida própria 
recusando o acordo entre as burocracias corporativas, os empresários e o Governo.

O conflito direção-base na base dos caminhoneiros

As negociações com o governo federal não avançaram por algumas razões. Entre elas, o fato 
de que mesmo com a redução de impostos, o valor a ser reduzido será muito baixo, e 
portanto o caminhoneiro, em especial o autônomo, seguirá tendo sucessivos prejuízos. 
Também pesa o fato da categoria ser pulverizada e, apesar de assembleia realizada no sul 
do país que deflagrou o movimento, muitos não reconhecerem suas direções na mesa de 
negociação, composta hegemonicamente pelo governo e empresários, com pouquíssima 
representação dos caminhoneiros autônomos.
A esquerda eleitoreira, ocupada em ressucitar o Lulismo enquanto fenômeno social, se 
perdeu em meio ao debate se a paralisação de caminhoneiros era locaute ou greve da base. 
Grande parte justifica o não apoio à greve porque a pauta tem sido capitaneada pelo 
empresariado em nome dos seus interesses. Enquanto isso, os caminhoneiros já vinham 
recebendo o apoio de setores da direita, como o MBL, e a simpatia da Globo desde os 
primeiros dias, que buscavam intervir e conduzir o movimento para suas pautas 
liberalizantes. Certo setor ainda justifica sua rejeição ao movimento (difundida por meio 
de um discurso elitista e pejorativo sobre a categoria) devido a participação dos 
caminhoneiros na queda de Dilma, o que demonstra um revanchismo por parte de setores 
ligados ao PT ou sua base eleitoral e mesmo outros partidos como o PCO e setores do PSOL. 
Entendemos que esse questionamento é desnecessário e fratricida, diante da disposição dos 
que lutam e da possibilidade de transformar a pauta para abalar de fato o governo Temer. 
Portanto, a esquerda deixou o flanco aberto pro inimigo intervir. E ele vem intervindo.
A nosso ver, é fundamental observar que o movimento não é homogêneo, nem do ponto de vista 
social, nem do ponto de vista ideológico, e que a unidade se dá na base da insatisfação em 
relação ao preço do Diesel. Assim, o campo encontra-se aberto para a disputa política. Com 
a negação da "civilidade" e o desrespeito à decisão judicial, cabe a todo lutador do povo 
se solidarizar com a luta dos caminhoneiros por direitos e trabalhar para que haja uma 
mudança de orientação política na pauta. Caso a greve ganhe a sociedade, é preciso que 
haja uma mudança na pauta para que supere o corporativismo da questão específica do 
diesel, apontando o questionamento e a necessária mudança da política econômica da 
Petrobrás, pois nesta situação é a única pauta que coloca em xeque a essência do governo 
Temer.
A persistência dos caminhoneiros na luta é um sinal de bravura, mas que precisa ser 
coberta de solidariedade por parte de todos os militantes classistas, pois o governo Temer 
anunciou a atuação do Exército em Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em todo o território 
nacional, com o objetivo de dissolver pela força os piquetes nas rodovias. É preciso que a 
insurgencia dos caminhoneiros seja acompanhada da solidariedade generalizada, pois somente 
assim teremos a possibilidade de dar inicio a um novo Levante popular similar ao de junho 
de 2013.
Nesta sexta, 25 de maio, os petroleiros de Cubatão (SP) se mobilizaram contra a nova 
política de preços da Petrobrás, bem como contra a venda e privatização das refinarias, 
para garantir combustível e gás de cozinha a preços mais baratos. Ou seja, é necessário 
que cada categoria de trabalhadoras e trabalhadores deflagre greve de solidariedade ao 
movimento paredista construindo de fato uma greve geral pelo fim da privatização da 
petrobras, contra as ofensivas imperialistas sobre o petróleo e gás/recursos energéticos, 
contra sua atual política de preço e contra o aumento do custo de vida.

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