(pt) [Argentina] Um movimento libertário que é feito para somar as diferenças By A.N.A. (en, fr, it)

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Quinta-Feira, 28 de Setembro de 2017 - 08:58:08 CEST


No domingo, 3 de setembro, um Fórum libertário foi realizado na cidade de Buenos Aires com 
a assistência de aproximadamente 400 militantes de diversos grupos do movimento anarquista 
e afins que se reuniram para discutir uma alternativa social não-eleitoral. ---- Por Leo 
Rodríguez ---- A chuva lava a calçada e o encanamento da cidade é posto como um tango para 
outro meio-dia de domingo com manifestantes que acordam em uma cela. A rua está em 
silêncio, exceto para os telefones celulares que assobiam a entrada de mensagens urgentes 
que se cruzam em versões encontradas: hoje estão liberados; não, amanhã. A incerteza faz 
que a poucos minutos de iniciar o Fórum libertário alguém cogite suspender tudo e queimar 
o céu, se necessário. ---- Mas a chamada está em andamento e os companheiros do canal 
comunitário Antena Negra estão encarregados do streaming do Fórum, alojados na Delegacia 
30 após o esquadrão de sequestros da polícia da cidade de Buenos Aires ter os arrastado 
pelo pavimento, eles pedem: sigam em frente.

Aproximadamente 400 pessoas assistiram a jornada. Mas vamos começar pelo princípio.

Este Fórum foi um convite para se reunir, para trocar ideias e experiências que ajudem a 
pensar e agir desde a democracia e a ação direta, a resistência e a autodefesa, para 
refletir coletivamente sobre as tarefas políticas e as perspectivas históricas 
antiautoritárias. Sem hegemonia ou objetivos programáticos para cumprir, mas aberto no 
futuro das deliberações.

A Ação Socialista Libertária lançou, como uma garrafa para o mar, um convite que tinha um 
objetivo estratégico: antes das eleições, é imperativo para aqueles que não votam 
realizarem um debate que espelhe as diferenças e que busque o encontro naquilo que nos une.

A agrupação estudantil Juanito Laguna, o grupo de comunicação popular Matanzas Viva, o 
editorial Madreselva e a Sociedade de resistência zona oeste Virginia Bolten juntaram-se 
ao desafio de germinar as condições para que se encontrem coletivos, agrupamentos e 
individualidades e, como propugnado desde o início da jornada, amalgamar os ingredientes e 
dar-lhes o sabor necessário para "fazer" a comunidade libertária.

É domingo 3 de setembro e as nuvens novamente cobrem o sol até que se saiba onde está 
Santiago Maldonado? E ninguém, daqueles que atravessam o limiar do galpão A Cultura no 
bairro de Villa Crespo da cidade de Buenos Aires, é alheio a esta afirmação.

A primeira coisa que se vê ao entrar no recinto é uma Feira com serigrafias, panfletos, o 
vermelho e o preto que coexistem com o arco-íris, gravuras, camisas e fotografias que 
mapeiam os instantâneos do protesto social, além de livros e hambúrgueres vegans, alguns 
CDs e mais cartazes, apresentando o Comitê de Solidariedade com a Luta Curda, as agendas 
das companheiras do grupo A voz da mulher do bairro de Lugano, as Feministas libertárias 
da cidade de Olavarria, a Biblioteca Popular José Ingenieros.

O centro da cena está ocupado por meninas que manuseiam origamis nas mãos carinhosas das 
educadoras das escolas populares que foram recolhidas.

O espaço maior, o auditório, está lotado e de tempos em tempos se tem que sair para 
renovar o ar e para que possam entrar outros companheiros. O Fórum começou e tem a palavra 
a ASL para acolher e colocar no contexto o clima social e político que nos atravessa. Como 
pétalas que caem sobre os presentes se sucedem as vozes do Via Livre da Colômbia, da 
companheira Azize que falará da revolução e da guerra em curso em Rojava, de Fernando - o 
irmão do Mapuche Lonko Facundo Jones Hualas, detido na unidade 14 de Esquel, e uma 
comissão de companheiros da Rede Nacional de Mídias Alternativas. Os fortes aplausos não 
permitem que a tempestade que chicoteia as árvores lá fora na calçada seja ouvida.

As compas vêm e vão carregando tapawers e recipientes cheios de guisados de lentilhas sem 
carne, no Fórum tudo é discutido e até mesmo a necessidade de uma opção vegan foi um ponto 
da agenda.

Em simultâneo com o almoço são desenvolvidos os workshops de Ciberativismo e Cartografia 
da luta social. Sob o cheiro de aguarrás e pinturas, nascem estampas com o logotipo do Fórum.

Pela tarde, por um momento a área da Feira muda em uma rodada para que se realize o painel 
sobre Educação, onde se misturam militantes universitários, professores de bacharelado 
popular, estudantes secundários que escaparam das ocupações que estão protagonizando em 
suas escolas.

No primeiro andar estão os Feminismos, até que chegaram as companheiras da Casa Karacol da 
cidade de Córdoba - uma das instalações arrombadas nas prisões de 31 de agosto - que 
evocarão emocionadas o que teria agradado no Fórum a querida companheira Maite Amaya. A 
Conselheira Pré e Pós de Villurka que cria redes e materiais para acompanhar as 
interrupções de gravidez de modo seguro em coletivos de pessoas com deficiência. A Juanito 
Laguna relata dia a dia os 48 que tomaram a Universidade Nacional de Arte para evitar os 
cortes na educação artística pública, gratuita e de qualidade e nesse marco aplicar a lei 
da Educação Sexual Integral, lutas que também forjam afetos - e novamente presente o 
anarquismo e suas possibilidades de explorar o poder político da amizade. Na atmosfera da 
sala fica flutuando a sentença da companheira de Madreselva: "o kirchnerismo pretendeu 
apagar toda a luta LGBT precedente, nós empurramos e escrevemos aquelas leis".

No plenário sindical, trajetórias tão diferentes como a das companheiras Cientistas 
precárias que compartilham o mate, por exemplo, com o dos motoristas da linha 60 de ônibus 
ou as trabalhadoras que recuperaram seus postos no jornal "Hoy!" de La Plata, com a FORA 
de Lomas de Zamora e os trabalhadores municipais da cidade de Lanus.

O salão principal é agora testemunha do plenário dos Direitos Humanos e luta 
antirrepresiva que Nilda Eloy abre a partir da Associação de ex-Detentos Desaparecidos. 
Vanea Orieta detém a voz como uma bandeira e, novamente, o Fórum fica em silêncio no meio 
de um aplauso, porque está andando, lentamente, com um sorriso que não disfarça a sua 
alegria, confiança e esperança: Nora. Norita Cortiñas vai se sentar lá, como uma mais e na 
semi-escuridão alguém solta uma lágrima como quem dá um beijo.

No espaço de discussão das lutas territoriais estão as companheiras da Federação de 
Organizações de Base, da Frente de Organizações em Luta, militantes que fizeram a sua 
experiência na Frente Popular Darío Santillán, e a referência mapuche Moira Millán que 
continua a espalhar a sua alegria.

A tarde baixa a cortina para a noite e os telefones não se calam. Os rumores da barricada 
dizem que é provável que os manifestantes detidos vão recuperar a sua liberdade de um 
momento para o outro.

Inicia-se a leitura de um documento, que irá oficializar o encerramento da jornada, onde é 
enfatizado que o Fórum procurou propiciar o encontro para que o anarquismo cobre 
protagonismo como força social. Mais uma vez os aplausos são como o toque de mil tambores 
chocalhando no peito e não é possível ignorar os gritos de liberdade! e presente! aos caídos.

A banda está agora no palco e mostra que se pode elevar a temperatura um par de graus 
mais. "A las barricadas", é o encerramento que escolheu o Clube Artístico Liberdade, que é 
como um morango para a sobremesa, vale a pena o lugar comum.

As instalações já estão sendo varridas e dobrando as mesas. As paradas de ônibus recebem 
aqueles que voltam para casa a mastigar ideias, anedotas e conspirações.

O Fórum libertário foi, por uma tarde, a área temporalmente autônoma de que Bey fala, uma 
fronteira onde os diferentes territórios do horizontal, do antiautoritário, do anarquista, 
do rebelde, do indomável se fez presente sem passaportes, foi confundido, aceito e 
sacudiu-se em beijos, abraços e risos.

O Fórum libertário mostrou que o movimento anarquista, antagonista, autônomo e livre é 
feito para somar as diferenças, para falar em outras línguas, para habitar práticas comuns 
sem diluir as nossas peculiaridades, assumindo-as e potencializando-as.

Há uma fera fora do território casa, bairro, centro social, sindicato, que se alimenta de 
especulação e de terror. E outra fera no território corpo, que do medo de perder a 
liberdade faz sua festa de egoísmo. Ambas feras morderam e assopraram a poeira durante o 
Fórum.

Como eles estavam saindo, muitos compas perguntavam ao passar, como isso se segue? 
Continua como começou, porque esta jornada é circular, terminando para começar.

Saúde e Revolução Social, e por que não? Até a vitória sempre.

Fonte: https://latinta.com.ar/2017/09/foro-libertario/

Tradução > Liberto

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/09/20/argentina-um-movimento-libertario-que-e-feito-para-somar-as-diferencas/


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