(pt) CONTRA A REPRESSÃO DO ESTADO ARGENTINO by Coordenação Anarquista Brasileira - NOSSA SOLIDARIEDADE AOS LUTADORES/AS (ca, en, it, fr)

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Sábado, 9 de Setembro de 2017 - 09:19:48 CEST


Santiago Maldonado está desaparecido desde o dia 1º de agosto deste ano. Em apoio à luta 
dos povos originários, o jovem artesão participava de um trancamento da "Ruta 40", rodovia 
que liga a Argentina ao Chile. O local é próximo a Cushamen, na província de Chubut, onde 
os Mapuche¹ realizaram uma retomada de terras que estão sob o domínio da empresa 
multinacional Benetton. O protesto pedia a liberdade de Facundo Jones Huala, liderança 
indígena, atualmente preso na Argentina, e contestava o pedido de extradição realizado 
pelo governo chileno que deseja julgá-lo e condená-lo como terrorista. O trancamento da 
rodovia foi duramente reprimido pela "Gendarmería Nacional" (Força Militar argentina), que 
chegou disparando contra a manifestação; Santiago foi visto pela última vez sendo levado 
pelas mãos violentas do Estado enquanto tentavam fugir do ataque.

Desde então as mobilizações em apoio ao povo Mapuche e pela aparição de Santiago se 
intensificaram por todo o país, chegando a ter movimentações de solidariedade também no 
Chile. Somada a elas também a mobilização contra o "Gatilho Fácil", expressão utilizada 
pelos argentinos para denotar o abuso recorrente de força policial; outras expressões que 
marcam a luta popular, como a "Primeiro Atiram, Depois Perguntam", demonstram como o 
governo argentino investe contra a população pobre enquanto faz a segurança dos de cima.

Ontem pela manhã, no dia 31 de agosto, um dia antes de completar um mês de seu 
desaparecimento e um dia antes da marcha nacional convocada pela aparição com vida de 
Santiago, diversas organizações foram perseguidas e tiveram seus espaços invadidos pela 
polícia argentina, em Córdoba e Buenos Aires. Foram diferentes espaços e centros culturais 
de organizações políticas e sociais, sendo: a Biblioteca Popular de Villa la Maternidad, 
Casa 1234, Espaço Social e Cultural Ateneo Anarquista no Bairro Guemes, Kasa Karacol da 
Federação de Organizações de Base (FOB), a sala de jantar da Frente de Organizações em 
Luta (FOL), sede do Partido Obrero e Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST). 
Todas essas organizações têm em comum o fato de terem participado da 3ª Marcha Nacional 
Contra o Gatilho Fácil na segunda-feira passada. A perseguição política deixou seu 
objetivo bem evidente ao confiscar, entre outros materiais, bandeiras, faixas e 
instrumentos para prejudicar a marcha de hoje (01 de setembro) pela aparição de Santiago 
com vida, que ocorreu e com maiores ações repressivas do Estado Argentino. Reforçamos o 
pedido de liberdade para os detidos unicamente por lutar!

Onde está Santiago Maldonado? Onde está o Amarildo?

Na Argentina ou no Brasil a força policial e militar faz a segurança de empresários e 
latifundiários, já habituados em carregar as mãos sujas de sangue dos de baixo. O Estado 
argentino dispara sem hesitar contra os indígenas e a população pobre tal como o Estado 
brasileiro e tantos outros. São diversos desaparecidos políticos na Argentina e em toda 
América Latina. São incontáveis desaparecidos nas favelas brasileiras, no campo e nas 
florestas. A polícia - lá, aqui e em toda parte - "nunca sabe" o que aconteceu. Mesmo 
quando há provas das cenas forjadas, os policiais são absolvidos ou tem os processos 
arquivados, pois saíram para executar o seu trabalho: a política violenta do Estado, o 
Estado não conhece fronteiras para seu genocídio.

Não podemos mais ignorar que, em meio a luta de classes, há uma guerra étnica e racial 
travada ao redor do mundo. Ao olhar para nossa realidade e para o que ocorre na Argentina, 
e mesmo para os EUA, nos deparamos com a imperativa classificação racial da população e a 
continuidade de um projeto que iniciou antes do capitalismo, se agregou a ele e hoje é 
consolidado à sua estrutura. As elites nacionais cumprem ainda hoje seu papel de 
intermediadores entre a colônia e a metrópole e, embebidas pela mentalidade neocolonial, 
eurocêntrica e etnocêntrica², aplicam tais processos internamente e perpetuam a eliminação 
das diferenças. Por que somos todos iguais é que temos direito a diferença, nos ensinaram 
os zapatistas.

Recentemente completou-se um ano de impunidade do massacre dos Guarani em Caraapó, onde 
Clodiodi foi brutalmente assassinado. Trata-se da mesma cidade onde, no dia 5 de janeiro, 
o Guarani-Kaiowa Alexandre Claro foi alvejado com duas balas pela Policia Militar. A 
polícia alega que Alexandre, já diagnosticado com esquizofrenia, teria sofrido um suposto 
surto e atacado a viatura. Baleado, Alexandre Claro foi injustamente preso e libertado 
apenas recentemente, com o apoio de campanhas de solidariedade.

Mas o povo que é oprimido há 500 anos vem também resistindo há 500 anos. Em abril deste 
ano o movimento indígena brasileiro reuniu-se em seu histórico Acampamento Terra Livre, em 
Brasília.  Mais de 5.000 indígenas estiveram presentes na luta pela demarcação de terra, 
saúde, educação e assistência técnica. O Estado, seja brasileiro ou argentino, vem 
avançando cada vez mais sob os territórios dos povos originários em benefício da 
exploração do agro-hidro-mineral-negócio. Mas esses povos não aceitam passivamente o 
destino que o Estado lhes confere em seu projeto político-ideológico de nação. O 
etnocídio, assassinato da cultura milenar e ancestral, vem sendo combatido com muita luta 
e mobilização. O povo Guarani do T.I. Jaraguá realizou ocupação da Secretaria da 
Presidência da República em São Paulo, reivindicando a revogação da portaria anti-indígena 
683/17 que anula o reconhecimento da posse permanente dos guaranis em seu território. As 
mobilizações contra o marco-temporal tiveram belíssima e parcial vitória no STF no dia 16 
de agosto, quando as ações movidas pelo governo ruralista do Mato Grosso foram derrotadas. 
Se aprovadas, dariam legalidade à tese anti-indígena do marco temporal, que limita os 
territórios indígenas apenas aos existentes em 1988. São muitos exemplos de luta que nos 
inspiram e mostram que o Estado enfrentará muita resistência para passar por cima destes 
territórios sagrados.

Nas cidades, a brutalidade policial define seu alvo pela cor. Rafael Braga, preso no Rio 
de Janeiro em 2013 e condenado injustamente, agora tem o habeas corpus negado para tratar 
a tuberculose adquirida no cárcere. Em Salvador, os PMs que assassinaram doze jovens 
negros na Chacina da Cambuia foram absolvidos, ação já antecipada pelo comentário do 
governador da Bahia que comparou a polícia assassina à "artilheiros diante do gol". São 
inúmeros os casos de mortes e encarceramento negro, bem como de exemplos do racismo 
institucionalizado.

A guerra racial escamoteada pela guerra às drogas e a guerra contra os indígenas que se 
perpetua desde a colonização está presente em diversos países. Apesar dos diferentes 
contextos históricos que a conformação dos Estados nacionais trouxe, há muito mais 
semelhanças entre nossas lutas. A atual radicalização repressiva do Estado Argentino 
encontra eco em nossa realidade brasileira e precisa ser denunciada e combatida. Barrar a 
repressão e construir solidariedade e laços firmes entre o povo oprimido é o caminho para 
nossa libertação!

O povo oprimido não se cala diante da repressão política. Chegamos até aqui lutando e 
seguiremos em luta!

Coordenação Anarquista Brasileira - CAB

¹Os Mapuches ("Mapu" terra e "che" gente) habitam a região centro-sul do Chile e do 
sudoeste da Argentina (o território original se estendia a Bolívia). Possuem um bravo 
histórico de luta, sua resistência contra os colonizadores espanhóis durou três séculos de 
batalhas!

²visão de mundo característica de quem considera o seu grupo étnico, nação ou 
nacionalidade socialmente mais importante do que os demais

https://anarquismo.noblogs.org/?p=848


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