(pt) anarkismo.net: A Nova República acabou: a esquerda ainda não ressurgiu e o fascismo de mercado insiste em protagonizar o debate by BrunoL

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Quinta-Feira, 12 de Outubro de 2017 - 08:00:25 CEST


Há tempos queria começar uma pequena série de análises mais ensaísticas e menos 
conjunturais, aproximando-me da estupefação ampla, geral e irrestrita onde nos 
encontramos. Afirma-se "Brasil em transe" ---- Quem se dedica à análise política do Brasil 
contemporâneo costuma se debruçar sobre os fatores da crise e a ruptura do pacto de 
classes que marcou o período lulista. Ao mesmo tempo há certo consenso em afirmar que a 
"Nova República" acabou e as bases constitucionais de 1988 estão sob um ataque direto. 
Simultaneamente, a crise de arrecadação dos níveis de governo, da quase falência - forçosa 
- do aparelho de Estado e o recente (nos últimos três anos) enxugamento das políticas 
públicas implica uma brutal concentração de renda, aumentando um fosso que já era abissal, 
embora atenuado pelo período de crescimento econômico sem desenvolvimento.

04 de outubro de 2017, Bruno Lima Rocha

Há tempos queria começar uma pequena série de análises mais ensaísticas e menos 
conjunturais, aproximando-me da estupefação ampla, geral e irrestrita onde nos 
encontramos. Afirma-se "Brasil em transe" e há algo de racional nisso. Nestas breves 
palavras que seguem, começo tal empreitada.

Quem se dedica à análise política do Brasil contemporâneo costuma se debruçar sobre os 
fatores da crise e a ruptura do pacto de classes que marcou o período lulista. Ao mesmo 
tempo há certo consenso em afirmar que a "Nova República" acabou e as bases 
constitucionais de 1988 estão sob um ataque direto. Simultaneamente, a crise de 
arrecadação dos níveis de governo, da quase falência - forçosa - do aparelho de Estado e o 
recente (nos últimos três anos) enxugamento das políticas públicas implica uma brutal 
concentração de renda, aumentando um fosso que já era abissal, embora atenuado pelo 
período de crescimento econômico sem desenvolvimento.

Tampouco cabe, neste momento, levantar uma bandeira de tipo "saudosismo recente", mais 
alinhada ao oficialismo do governo deposto - Lula e Dilma - e distante da crítica 
necessária. A instabilidade política brasileira iniciada - no entendimento deste analista 
- no chamado "terceiro turno" de 2014 e o processo de "venezuelização coxinha" no Brasil, 
foi ao encontro da desorganização social do país onde ultrapassamos mais de 50.000 mortes 
violentas por dia. Sociedade alguma com estes índices de homicídios e negação parcial - 
pelas vias de fato - dos direitos civis da maioria afrodescendente pode ser considerada 
"estável". O que havia - e não há mais - é uma estabilidade institucional, onde o 
"baronato bananeiro" do topo da pirâmide social (nacional ou transnacional) transitava bem 
com as tecnocracias de carreira de Estado e as elites políticas estáveis com múltiplas 
presenças (empresarial, jurídica, partidária, midiática). A este desenho de composição de 
elites dirigentes somadas com frações de classes dominantes realmente existentes no 
Brasil, se somaram setores com protagonismo cada vez maior, como "alas empresariais 
ideologicamente neoliberais; neopentecostais neofundamentalistas; jovens ultraliberais 
alinhados aos laboratórios de difusão estadunidense" e, ao mesmo tempo, a parcela cada vez 
maior da posição política que se alinha com o que era chamado de "entulho autoritário" de 
saída da ditadura militar.

De forma breve e ensaística, penso que devemos interpretar este segundo fator.
Vale respirar pausadamente, analisar a sociedade brasileira a fundo, reencontrar-se com as 
mais profundas raízes de nosso povo e buscar ir além do lugar comum e do jogo tático sem 
alternativas estratégicas. O dilema é sempre o mesmo: ou a inflexão pela ‘estabilidade 
institucional' ou ‘ as formas de luta pela defesa dos direitos adquiridos e o mundo do 
trabalho'. Obviamente me inclino pela segunda opção e justifico. Toda e qualquer 
resistência política e social agora vai render acumulação para enfrentar as batalhas 
antifascistas ano que vem. E não estou falando das urnas e sim da mobilização da sociedade 
no Brasil. Fazer "revoadas de galinhas verdes" nunca foi uma dificuldade maior, o problema 
de fundo é não deixarem liquidar o território por completo.

A política de terra arrasada era previsível. Por incrível que pareça, a falta de 
compromisso com a legitimidade do governo Michel Temer e a hipocrisia marcada pelas 
jornadas coxinhas do "vento a favor" onde a cruzada moralista pelo impeachment sem causa 
jurídica durou menos de três meses, justamente dá o aval para os golpistas fazerem o que 
for necessário para se manter no Poder Executivo, não serem presos e cumprirem com as 
"promessas de conspiração", na "puxada de tapete" da presidenta reeleita.

28 de setembro, Brasília, Esplanada dos Ministérios: uma "homenagem"

Em Brasília, na Esplanada, na 5a dia 28 de setembro, foi erguido um banner gigantesco do 
general de exército Antônio Hamilton Mourão, da ativa e com patente de quatro estrelas. Ou 
seja, sob o regramento disciplinar da Força Terrestre e, supostamente impedido de se 
pronunciar politicamente para além dos temas vinculados ao seu ofício. Expor uma figura 
com patente de general como líder político é como um regresso aos anos '50, quando cada 
força política tinha incidência no Alto Comando das três armas e tínhamos candidaturas de 
marechais, brigadeiros, generais e almirantes. Na segunda década do século XXI, 
demonstrações como estas são simplesmente é um incentivo para a quebra da ordem política 
e, em tese, deveria ser exemplarmente punido. Nenhum caminhão roda sozinho e menos ainda 
um caminhão com guindaste. Tampouco um banner gigante pode ser produzido sem deixar rastro 
ou registro financeiro. Caberia abertura de investigação junto aos setores especializados 
em crimes institucionais. Caberia, não sei se foi aberto algum expediente investigativo, 
mas pressuponho que não deve vir a acontecer nada e uma imagem diante dos poderes 
constituídos fica como "uma homenagem".

O entulho autoritário jamais recolhido e o problema da coesão da caserna
O ato em homenagem ao general Hamilton Mourão, uma forma de desafio público, aberto a 
ordem democrática - mesmo que em sua forma liberal e esvaziada - é a continuidade da 
banalização dos discursos de extrema direita com viés de apoio à intervenção militar ou, 
por tabela, à eleição do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) para presidente em 2018. 
Ao contrário do que possa parecer e se ainda interpretamos corretamente os pronunciamentos 
do Comandante em Chefe e de seu favorito na sucessão, o Comandante do Estado Maior do EB, 
vemos a preocupação da Força Terrestre em manter a coesão do Alto Comando, e 
primordialmente, a coesão entre a chamada "ala dos profissionais". Logo, a conta inversa 
também é correta. Quanto maior for o apoio aos falastrões como Mourão, mais peso terá nas 
eleições a via de extrema direita - conservadora no comportamento - e essencialmente 
racista no que implica em reconhecer as formas de vida de indígenas e quilombolas.

Se há algum alento nesta extrema direita atual é seu anti-nacionalismo de fato, lendo o 
"nacionalismo" latino-americano como uma expressão genérica do sentimento 
anti-imperialista e pela autodeterminação de nossos países e povos. A nação profunda não é 
a imaginária como uma cópia mal feita e racista típica das sessões do parlamento do 
Império quando afirmavam "o Haiti não será aqui, o Haiti não pode ser aqui!". O Brasil 
profundo é justamente aquele desprezado pela eugenia e o racismo de classe como nos 
explica Jessé Souza. Logo, o inverso também é verdadeiro.

O cenário é complexo e temos fragmentações múltiplas em todos os setores da política. Mas, 
ao menos alguns horizontes se tornam mais visíveis, e, automaticamente, cenários mais 
radicalizados. A luta antifascista ganha um novo contorno a partir do segundo semestre de 
2017.

Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de ciência política 
(www.estrategiaeanalise.com.br para textos e colunas de rádio / 
www.estrategiaeanaliseblog.com para vídeos e entrevistas de áudio / blimarocha  gmail.com 
para E-mail e Facebook)

https://www.anarkismo.net/article/30569


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