(pt) Coordenação Anarquista Brasileira (CAB): [GTGênero da CAB] A IMPORTÂNCIA DA DEFESA PESSOAL PARA MULHERES

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Sábado, 7 de Outubro de 2017 - 09:16:58 CEST


A violência contra as mulheres é um ato recorrente dentro da estrutura patriarcal na qual 
são fincadas as relações de gênero no seio sociedade capitalista. Os dados estatísticos e 
a vivência cotidiana não deixam dúvidas quanto às agressões verbais, psicológicas, 
emocionais e físicas das quais as mulheres enfrentam durante toda a sua vida e com muita 
força resistem o quanto podem para não tombar. ---- Às mulheres, cabe mecanismos de 
proteção, segurança e representação que não são contemplados nos aparatos do Estado, nem 
na repressão policial. As mulheres precisam de mecanismos que estejam em todos os momentos 
a seu lado no combate às violências, tanto nos espaços privados, quanto no espaço público. 
Sendo assim, nada melhor do que as próprias mulheres produzirem e serem esses mecanismos 
de defesa, esse sistema de autoproteção, a força motriz para o combate às agressões que 
sofrem todos os dias.

Pensando nisso, nós, mulheres da Coordenação Anarquista Brasileira, DEFENDEMOS E BUSCAMOS 
O PROTAGONISMO DAS MULHERES EM SUA AUTODEFESA, e trazemos aqui alguns pontos para 
contribuir no debate e prática da defesa pessoal para as mesmas no Brasil.

Primeiramente queremos destacar que muitos discursos e falas trazem a mulher, vítima do 
ato de violência, como culpada ou facilitadora da própria agressão que sofre. Alegando 
motivos nas roupas usadas pelas mesmas, na restrição de horários para estar só na rua, na 
falta de obediência ao marido ou pai, entre outras justificativas baseadas não no senso de 
igualdade, mas no machismo que coloca a mulher como objeto pertencente ao homem, que pode 
a violentar caso seja de seu agrado. Essas justificativas causam uma violência dupla às 
mulheres, uma vez pelo ato e outra vez pela culpa que carregam ao sofrer a agressão, 
sentindo-se envergonhadas, responsáveis, frágeis e incapazes de se proteger.

É POR ESSA DUPLA AGRESSÃO QUE A DEFESA PESSOAL SE TORNA TÃO IMPORTANTE. Antes mesmo de 
praticar qualquer tipo de luta e aprender golpes, as mulheres precisam passar por um 
processo de autoconhecimento, autoconfiança e se enxergar como pessoas que merecem ser 
respeitadas e merecem ter suas vontades respeitadas também. É de suma importância se 
apoderar de seu próprio corpo, conhecer o que seu corpo é capaz de proporcionar e como 
pode se defender. Nós mulheres, somos condicionadas a não termos intimidade com nossos 
corpos, o feminino é um tabu em várias dimensões e é preciso quebrar essa barreira, para 
que sejamos todas empoderadas e conscientes sobre o que queremos e como vamos conquistar 
esses quereres.

Mas esse autoconhecimento e autoconfiança virá de um dia para o outro? São coisas 
aprendidas com facilidade e apenas ouvindo uma palestra ou participando de uma oficina de 
defesa pessoal? Não!

Esse é um processo lento e constante. A educação que forma os gêneros, desde os primeiros 
anos de vida de qualquer pessoa, é de uma violência simbólica sem precedentes, e tão 
disciplinadora de nossos corpos e mentes que torna esse processo muito mais difícil. É 
importante nessa caminhada ter uma rede de apoio ENTRE AS MULHERES enquanto amigas e 
companheiras, como também PARA AS MULHERES, nos âmbitos jurídico e financeiro, juntamente 
com a saúde física e psicológica.

Entretanto, todos esses fatores não serão suficientes sem que haja a iniciativa dessa 
mulher em percorrer o caminho em direção ao autoconhecimento e autoconfiança. É necessário 
que as mulheres avancem rumo à sua autonomia e autogestão, de seus corpos e vidas! 
ESTAREMOS UNIDAS NESSA CAMINHADA!

O Wendo é uma junção de várias artes marciais, voltado para defesa pessoal, surgiu no 
Canadá, na década de 1970. O "wen" é a abreviação da palavra woman (mulher em inglês) e 
"do" significa "caminho" em japonês. Apresenta-se como uma defesa pessoal para mulheres ou 
autodefesa feminista, o que o difere da simples defesa pessoal, por não estar resumido na 
defesa física, tendo todo um trabalho direcionado para a violência de gênero, seja ela 
física, psicológica, verbal, emocional, entre outros. Com sua prática no Brasil, a pauta 
da defesa pessoal tornou-se muito lembrada e buscada nos movimentos feministas.

Essa procura por técnicas específicas de defesa pessoal para mulheres nos leva a acentuar 
um ponto importante do diferencial dessas técnicas: a ideia de defesa pessoal. Essas 
práticas de autoproteção não estão apenas na aprendizagem de golpes e contragolpes, que 
condizem com o aspecto físico da defesa, mas também buscam contribuir para questões que 
dizem respeito à autoestima, segurança em si mesma e saúde mental para encarar o machismo 
de frente e com coragem. Por conta disso, não é simplesmente treinar o corpo para reagir à 
uma agressão, mas treinar também a mente, para se sentir bem consigo mesma e capaz de se 
defender.

Por isso, a defesa pessoal deve ser reivindicada para toda e qualquer mulher! Espalhe isso 
para todas, o autoconhecimento, autoestima e autoconfiança não pode ser de poucas, não 
devemos deter o empoderamento feminino. É fundamental que essa aprendizagem chegue em 
todos os lugares, principalmente para as mulheres mais suscetíveis a sofrerem violência, 
principalmente para as mulheres que hoje, e talvez nesse exato momento, apanham ou são 
ameaçadas por um machista e agressor. A confiança em seu corpo e em si deve ser um direito 
de todas, esse é o primeiro passo para a luta da transformação social e destruição do 
patriarcado!

E por falar em mulheres mais suscetíveis a sofrerem violência, é importante termos esse 
ponto como central ao propor oficinas de defesa pessoal pelo Brasil a fora. Muitas vezes, 
essas atividades são pagas, com altos preços e focam na camada mais rica da sociedade, a 
elite ou classe média branca, ficando inacessível a mulheres pretas, pobres da periferia, 
que geralmente não tomam conhecimento da existência de tais atividades.

Se somos anarquistas e buscamos o fim das desigualdades sociais, e ainda mais, se somos 
feministas e buscamos a libertação das mulheres e igualdade dos gêneros, DEVEMOS PRIORIZAR 
AS COMPANHEIRAS E GUERREIRAS QUE CONVIVEM COTIDIANAMENTE COM A VIOLÊNCIA, DEVEMOS PAUTAR 
UMA AUTODEFESA QUE PENSE DE FORMA INTERSECCIONAL GÊNERO, RAÇA E CLASSE. É incontestável 
que as mulheres negras, pobres, periféricas, trans, donas de casa, lésbicas, prostitutas, 
presidiárias e ex-presidiárias sofrem mais com agressão. Portanto, embora não nos 
recusemos a colaborar com as companheiras que não são constituídas por esses marcadores 
sociais, devemos buscar apoiar essas mulheres que necessitam de mecanismos para se auto 
protegerem com urgência, como mostram os índices de violência contra as mesmas.

A autodefesa não é um projeto para o acirramento dos conflitos nas relações de gênero, nem 
é um programa de combate e extermínio aos homens, como muitos machistas podem dizer por 
aí. Antes de qualquer agressão, é essencial a busca da comunicação não violenta, que 
diversas vezes contribui para um diálogo pacífico e resoluções de problemas. Entretanto, 
quando essa comunicação não funciona, a única resposta à violência deve ser a 
contra-violência, e as mulheres devem estar prontas para rebater com esse contra poder. É 
HORA DAS MULHERES REAGIREM, É HORA DE MOSTRARMOS QUE NÃO SOMOS OBJETOS FRÁGEIS E NÃO 
ESTAMOS DE BRINCADEIRA!

POR UMA VIDA SEM VIOLÊNCIA DE GÊNERO!

MACHISTAS NÃO PASSARÃO!

GT de Gênero da Coordenação Anarquista Brasileira.

https://anarquismo.noblogs.org/?p=859


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