(pt) [Espanha] Perplexidades Nº 2 (e algumas certezas) na véspera do 1º de Outubro By A.N.A.

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Quinta-Feira, 5 de Outubro de 2017 - 12:41:27 CEST


É hora de falar sobre os fatores que levaram à situação atual, entre os quais não há 
dúvida de que figura uma raiva justificada de grande parte da população catalã contra o 
governo do PP[Partido Popular], uma série de queixas incontestáveis com a suas 
correspondentes indignações, mas, também, a excitação prolongada da fibra nacional através 
do duro controle das TVs e rádios públicas catalãs, sem esquecer, tampouco, a férrea 
vontade de obter acesso a um maior grau de poder por parte das elites políticas e 
econômicas fascinadas pela perspectiva de se tornar um Estado. ---- O que requer o momento 
atual, desde uma perspectiva libertária, é um pouco uma reflexão sobre as estratégias e 
abordagens em que uma parte do setor anarquista entrou, e do conglomerado libertário 
muitíssimo mais amplo que está incluído. E confesso que esta reflexão me provoca uma 
crescente perplexidade, ao mesmo tempo que me leva a reafirmar algumas certezas ancoradas 
na memória libertária das lutas.

A perplexidade é inevitável quando se observa como se move gradualmente desde uma simpatia 
óbvia, e até mesmo uma participação, no multi-referendo vinculado ao "direito de decidir 
sobre tudo" (a propósito, reprimido pela polícia do Governo em Maio de 2014) ao apoio a um 
uni-referendo que contempla somente o direito de decidir se expresso em nível nacional.

A perplexidade é inevitável quando se observa como se produz um imperceptível deslize 
desde o fato de chamar a mobilização, uma coisa positiva, para chamar para ir para as 
urnas e participar do referendo. Perplexidade porque, qual é o cerne da questão, e qual é 
o objetivo? Que há uma grande mobilização contra o Governo e seus aparelhos repressivos, 
ou que se encham as urnas? Será que a força da mobilização será estabelecida com base no 
número de cédulas na urna, em vez de valorizá-la de acordo com o número de pessoas nas 
ruas, e, acima de tudo, em seu grau de determinação para lutar?

É verdade que o nervo do protesto popular atualmente assume a forma de defesa das urnas 
(do "direito de voto" neste referendo, e do exercício factual desse direito: "votando"). 
Mas, desde uma posição anarquista, é necessáriochamar para votar, ou mesmo para se 
integrar nos Comitês de Defesa do Referendo, com o fito de se conectar com o protesto 
popular e tentar radicalizá-lo? Não é possível confrontar a repressão, juntamente com o 
povo, sem legitimar um referendo que confronta dois governos, ambos apoiados por uma parte 
da população? Devemos gritar "Votarem" em vez de "Resistirem" ou de "Vencerem", para 
participar legitimamente da mobilização?

A alternativa não é de não fazer nada ou defender as urnas, a alternativa não é colocada 
em termos do falso dilema entre tomar partido por aqueles que defendem o referendo, ou 
permanecer fora da luta popular. E, desde logo, lutar contra o capital e o Estado, mesmo 
no momento atual, é perfeitamente compatível com a recusa de engrossar as filas que se 
situam sob uma bandeira nacional, e que são convocadas com o amparo de um Governo, de seus 
parlamentares e de sua polícia.

"A legalidade mata", lembra-nos Santiago López Petit em um interessante escrito ("Tomar 
partido em uma situação estanha" - www.elcritic), claro, mas também que a legalidade 
ampara "o ator necessário" e principal arquiteto do referendo, ou seja o Governo. Explodir 
a legalidade espanhola é algo que é extraordinariamente valioso (...se isso é realmente 
alcançado, além das rachaduras que já ocorreram), no entanto, não é mais tão valioso se 
isso é feito amparado de outra legalidade instituída, por muito que se possa fazê-la 
explodir pelo ar depois dela ter cumprido e confortado no momento presente. Não seria mais 
coerente não contribuir para reforçá-la de imediato, e começar já a quebrar essa outra 
legalidade desobedecendo à sua exortação para ir a "seu" referendo?

Naturalmente, é impossível prever o resultado a ser obtido pelo Governo. O que pode 
acontecer no domingo e nos dias seguintes? Quem pode saber? O que é óbvio é que o governo 
do PP está agora notavelmente enfraquecido tanto na esfera internacional, como na 
Catalunha, e em certos setores da opinião pública espanhola relutante, felizmente, a todas 
as manifestações repressivas. O que também parece provável é que, não importa o quão tenso 
a situação fique no domingo à noite e em 2 de outubro com eventuais encerramentos dos 
parlamentares independistas na sede parlamentar e ocupações de espaços no estilo da praça 
ucraniana de Maidan (e menos sangrenta), se abrirá um espaço para acalmar o jogo, diminuir 
a tensão, "restaurar a ordem" e permitir um início de negociação entre os dois Governos, a 
partir das posições de força alcançadas por cada um deles.

Negociação para atender às demandas dos sindicatos que convocaram a greve geral de 3 de 
Outubro? Não há condições para isso, porque o cenário principal não é de uma luta laboral 
ou de uma luta de classe e, a menos que tenha havido mortes e que a greve geral se 
espalhe, a entrada da CGT e da CNT nesta batalha só terá servido a causa independentista, 
e nada aos trabalhadores.

Eu queria estar errado. O que eu não penso estar errado é o prognóstico de que o 
nacionalismo espanhol sairá reforçado, que poderia não somente dar asas à extrema-direita, 
mas poderia igualmente assegurar uma vitória eleitoral ao PP se os cortes forem 
dissolvidos em um curto período de tempo. Não sei se a perspectiva de fortalecimento do 
nacionalismo catalão pode servir de consolo para aqueles que têm um mínimo de 
sensibilidade libertária. Se esse fosse um prognóstico bem sucedido, com todo o respeito 
pelos companheiros que têm outras análises, tão legítimas como o que se expressa aqui, 
ficaria claro o erro cometido por um setor do anarquismo ao adotar uma perspectiva de 
muito, mas muito curto prazo.

Tomás Ibáñez

Barcelona, 29 setembro 2017

Tradução > Liberto


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