(pt) [Espanha] Perplexidades intempestivas - Tomás Ibañez By A.N.A. (ca)

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Segunda-Feira, 2 de Outubro de 2017 - 10:31:26 CEST


Quando acontecem na Catalunha mudanças tão drásticas como as que se produziram desde as 
multitudinárias manifestações de 15 de maio de 2011 se torna difícil não experimentar 
certa perplexidade. ---- O que aconteceu com alguns dos setores mais combativos da 
sociedade catalã que passou de "cercar o Parlamento" no verão de 2011 para querer defender 
as Instituições da Catalunha em setembro de 2017? ---- O que aconteceu para que esses 
setores tenham passado de enfrentar os Mossos d'Esquadra[polícia catalã]na Praça 
Catalunha, e de recriminar-lhes a selvageria, como as que padeceram Esther Quintana ou 
Andrés Benítez, a aplaudir agora sua presença nas ruas e a temer que não tenham plena 
autonomia policial? ---- O que aconteceu para que parte desses setores tenham passado de 
denunciar o Governo por suas políticas antissociais a votar faz pouco seus pressupostos?

Mas, também, o que aconteceu para que certos setores do anarcossindicalismo tenham passado 
de afirmar que as liberdades nunca foram conquistadas votando, a defender agora que se dê 
essa possibilidade à cidadania?

A lista de perguntas se poderia ampliar enormemente e se poderiam dar múltiplas respostas 
às poucas que aqui foram formuladas. Efetivamente, se podem alegar fatores tais como o 
esgotamento do ciclo de 78, a crise econômica com seus correspondentes cortes e 
precarizações, a instalação da direita no governo espanhol com suas políticas autoritárias 
e seus cortes de liberdades, a escandalosa corrupção do partido majoritário etc. etc.

No entanto me parece que seria ingênuo excluir dessas respostas a que passa por tomar em 
conta, também, o extraordinário auge do sentimento nacionalista. Um auge que, sem dúvida 
alguma, contribuiu para potencializar os fatores que acabo de aludir mas que também 
recebeu muitas importantes doses de combustível desde as próprias estruturas do governo 
catalão e desde seu controle das televisões públicas catalãs. Vários anos de persistente 
excitação da fibra nacionalista não podiam não ter importantes efeitos sobre as 
subjetividades, tanto mais quanto que as estratégias para ampliar a base do 
independentismo nacionalista catalão foram, e seguem sendo, de uma extraordinária 
inteligência. A potência de um relato construído a partir do direito a decidir, com base 
na imagem das urnas, e a exigência da liberdade de votar, era extraordinária e conseguia 
dissimular perfeitamente o fato de que era todo um aparato de governo o que se movimentava 
para promover esse relato.

Hoje, a estrelada (vermelha ou azul) é sem a menor dúvida o símbolo carregado de 
emotividade sob o qual se mobilizam as massas, e é precisamente esse aspecto o que não 
deveriam menosprezar quem sem ser nacionalistas vê nas mobilizações pró-referendo uma 
oportunidade que os libertários não deveriam desaproveitar para tentar abrir espaços com 
potencialidades, senão revolucionárias, pelo menos portadoras de uma forte agitação 
social, e se lançam portanto na batalha que enfrenta os governos da Espanha e da Catalunha.

Não deveriam menosprezá-lo porque quando um movimento de luta inclui um importante 
componente nacionalista, e este é, sem dúvida alguma, o caso no presente conflito, as 
possibilidades de uma mudança de caráter emancipatório são estritamente nulas.

Gostaria de compartilhar o otimismo dos companheiros que querem tentar abrir brechas na 
situação atual para possibilitar saídas emancipatórias, no entanto não posso fechar os 
olhos ante a evidência de que as insurreições populares, e os movimentos pelos direitos 
sociais nunca são transversais, sempre encontram as classes dominantes formando fila em um 
lado das barricadas. Enquanto que nos processos de autodeterminação, e o atual movimento é 
claramente desse tipo, sempre intervém um forte componente interclassista.

Esses processos sempre irmanam aos explorados e aos exploradores em prol de um objetivo 
que nunca é o de superar as desigualdades sociais. O resultado, corroborado pela história, 
é que os processos de autodeterminação das nações sempre acabam reproduzindo a sociedade 
de classes, voltando a subjugar as classes populares depois que estas tenham sido a 
principal carne de canhão nessas contendas.

Isso não significa que não tenha que lutar contra os nacionalismos dominantes e procurar 
destruí-los, mas há que fazê-lo denunciando constantemente os nacionalismos ascendentes, 
em lugar de confluir com eles sob o pretexto de que essa luta conjunta pode 
proporcionar-nos possibilidades de extrapolar suas abordagens e de relegar a quem só 
persegue a criação de um novo Estado nacional que possam controlar. Que ninguém duvide, 
esses companheiros de viagem serão os primeiros em reprimir-nos quando não nos necessitem, 
e já deveríamos estar escaldados de tirar-lhes as castanhas do fogo.

Tomás Ibañez

Barcelona, 26 de setembro de 2017

Tradução > Sol de Abril


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