(pt) [Argentina] Santiago Maldonado era anarquista Por Matías Capelli By A.N.A. (ca, en)

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Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017 - 06:44:30 CET


Com a descoberta do corpo de Santiago Maldonado e ainda mais perguntas do que certezas 
sobre as circunstâncias de sua morte, inscrever sua identidade política aonde está - na 
tradição do anarquismo vernáculo - é também um ato de justiça. ---- Na sexta-feira, 20 de 
outubro, pela tarde, começou a circular a notícia de que o corpo encontrado no rio Chubut 
na terça-feira, 17, era de Santiago Maldonado. Como todas as notícias que emanam do caso 
desde o início, a reação mais sensata era analisar com cuidado, duvidar, esperar o 
movimento seguinte. Até que seu irmão Sérgio confirmou em uma coletiva de imprensa 
improvisada na saída do necrotério judicial: é Santiago. O reconheceu por meio de duas 
tatuagens, disse. Horas mais tarde houve uma mobilização, relativamente espontânea, que 
reuniu na Praça de Maio milhares de pessoas comovidas, desoladas e enojadas pela morte de 
Maldonado. Alguns começaram a rodar em torno da pirâmide, enquanto chegava cada vez mais 
gente. A dispersão até a zona do Congresso foi mais rápida do que o esperado. Corria o 
rumor, como em todas as marchas recentes, de que uma convocação pacífica e massiva poderia 
terminar com incidentes. Nas últimas semanas havia surgido um consenso: os grupos 
encapuzados que explodiam no final eram infiltrados das forças de segurança, que atuavam 
com o objetivo de justificar uma repressão violenta e corroer a empatia com Maldonado 
junto a classe média que segue os eventos pelos meios de comunicação. Inclusive haviam 
circulado vídeos e fotos em que se via pessoas que pareciam ser as mesmas, atirando pedras 
com a cara semi-coberta e, em seguida, com jaqueta da Polícia da Cidade prendendo 
manifestantes. Para os parâmetros da pós-verdade, isso já era o suficiente para poder 
afirmar: são todos infiltrados.

E chegou esta sexta-feira, 20 de outubro. Uma vez no Congresso, quando a multidão começava 
a se dispersar pela Rivadavia, Callao e Entre Ríos, começou-se a destruir. Uma caminhonete 
de um partido de esquerda que acompanhava seu bloco foi atacada por um grupo de 
encapuzados. Golpearam os vidros e a obrigaram a sair por entre as pessoas. Momento de 
tensão, em meio ao duelo. Começaram os insultos, por que vem pra cá destruir, o que uma 
caminhonete de partido faz aqui, Santiago era anarquista... Entre os tecidos de capuz 
emanavam insultos: "cidadão careta!", "rebanho!", "Santiago era anarquista!". Inclusive 
uma com um grito severo, como se fosse o pior insulto imaginável, "Socialdemocrata!".

Maldonado não estava no Pu Lof por ser idealista dos setenta, nem esquerdista ou 
montonero, ou por ser hippie, nem trosco ou marxista. Maldonado estava ali por ser anarquista.

A primeira reação, novamente, como tudo o que irradia deste caso, um rio revolto 
atormentado por operações, paranóia e peixe podre, foi a cautela, a desconfiança. Eram 
infiltrados? Eram policiais ou funcionários atuando como anarquistas? Havia algo no 
aspecto, na forma de falar, de se comportar, destes sujeitos; dava toda a impressão de que 
era real e autêntico o transbordar de fúria, o ódio destes garotos. A coisa não passou 
adiante, não passou ao corpo a corpo. Mas deixou a pergunta no ar. Investigando um pouco 
se comprova que o que era dito a gritos em frente ao Congresso estava certo. Santiago 
Maldonado era anarquista, conhecido como Brujo ou Lechuga, próximo de grupos anarcos de La 
Plata, da biblioteca Guliay-Polié. Maldonado não estava no Pu Lof por ser idealista dos 
setenta, nem esquerdista ou montonero, ou por ser hippie, nem trosco ou marxista. 
Maldonado estava ali por ser anarquista. De fato, apesar de suas diferenças, há décadas 
existe uma afinidade intensa entre o anarquismo e a causa mapuche, baseada em dois pontos: 
o não reconhecimento do Estado argentino e o recurso à ação direta. Havia sido este 
itinerário vital - de um anarco do século XXI - o que havia levado Maldonado a El Bolsón, 
e que o havia levado a se juntar às reivindicações de pescadores em Chiloé em 2016, e se 
comprometer com a causa mapuche sem ser mapuche, protestar contra a detenção do líder 
mapuche Fecundo Jones Huala. Inclusive algumas de suas tatuagens, graças às quais foi 
reconhecido por seus familiares, são símbolos ou códigos anarquistas.

"A palavra soa hoje menos estrondosa que estranha, como se fosse mencionado um animal 
extinto. Uma ave pesada que nunca pode voar ou um mamífero cujo último exemplar foi 
avistado décadas atrás", escreveu Christian Ferrer em Cabezas de Tormenta.

Tomemos, como exemplo, esta declaração de Jones Huala: "Santiago foi um encapuzado, e eu 
na verdade agradeço de todo coração ao companheiro, porque quando cumpria estes trinta 
dias de detenção injusta, veio, acompanhou, porque haviam reprimido em Bariloche. Ele foi 
um dos que arrebentaram os vidros do tribunal aqui de Esquel, e esteve lutando lado a 
lado. Me dói muito que mintam sobre ele. Por que não dizem as ideias que o companheiro 
tinha? O companheiro era anarquista. Se Santiago estivesse aqui, estaria combatendo nas 
ruas, nas barricadas."

Ou esta outra postagem que circulou pelas redes: "Não soa estranho e nem ilógico que 
muitos assumam uma postura quanto a Santiago por meio da ótica dos organismos de direitos 
humanos. Por fim é uma lógica que o Governo afirmou nos últimos anos. E que se dá da mesma 
forma aos que não entendem que para muitos Santiago era um companheiro, e não um cartaz e 
nem uma imagem para acumular junto a outros mártires e santos da esquerda. Nem todos 
acreditam na lógica representativa e procissões autorizadas por figuras destacadas do 
âmbito combativo. Alguns tem a urgência - e efetivamente é urgente - de questionar os 
desaparecimentos em todos os terrenos onde se manifestem, e estes assassinos são sempre os 
mesmos: o Estado e o Capital".

Ou este comunicado: "Aproximadamente as 10 da manhã de hoje, sexta-feira 4/8/2017, a já 
quase quatro dias do desaparecimento do companheiro Santiago Maldonado ("Lechuga"), 
destruímos a casa da província de Chubut, na putrefata capital do Estado chamado 
argentino. Embora sobrem motivos, a raiva começa a transbordar e a transbordamos, mas 
seguem mais de 72 horas e um companheiro não aparece, enquanto Facundo Jones Huala 
continua em greve de fome. Estendemos nossa solidariedade ao povo mapuche e expandimos 
nossa raiva contra todos os estados, o capital, a autoridade, e todos os seus cúmplices. 
Até que Lechuga apareça e até que o caos os sucumba!" Assinado: "Anárquicas 
individualidades expansivas do caos".

Talvez estejamos tão pouco acostumadxs a lidar com o anarquismo realmente existente, que 
uma vez que topamos com ele, não sabemos reconhecê-lo. "A palavra soa hoje menos 
estrondosa que estranha, como se fosse mencionado um animal extinto. Uma ave pesada que 
nunca pode voar ou um mamífero cujo último exemplar foi avistado décadas atrás", escreveu 
Christian Ferrer em Cabezas de Tormenta. Este encapuzado, vestido de preto, brandindo um 
pau, atirando um molotov, é um anarquista ou um funcionário disfarçado? Não estamos nós, 
também, reproduzindo o senso comum mais antigo, ao dar por certo que são infiltrados? Isto 
não quer dizer que não haja, pontualmente, casos de infiltração, mas, com que base a Doña 
Rosa socialdemocrata que temos dentro de nós, logo diz que "são infiltrados"? Infiltrados 
somos nós, poderiam retrucar. Infiltrados por este sistema podre.

Fonte: https://losinrocks.com/santiago-maldonado-era-anarquista-5c7840711d51

Tradução > Imprensa Marginal


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