(pt) [Espanha] Em plena deriva libertária By A.N.A. (en)[Espanha] Em plena deriva libertária By A.N.A. (en)

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Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017 - 06:44:07 CET


Eu não sou bem versado na história do movimento libertário na Catalunha, mas imagino que 
deve ter havido uma boa razão pela qual, em 1934, a CNT, que estava no auge de sua força, 
recusou-se a colaborar na tentativa de proclamar o "Estado Catalão em forma de República 
Catalã". Eu simplesmente imagino isso. No entanto, o que eu não imagino, mas estou 
plenamente convencido disso, é que não existe nenhuma boa razão para que parte do atual 
movimento libertário na Catalunha colabore de uma forma ou de outra com o processo de 
"independência nacional"protagonizado pelo Governo catalão, pelos partidos políticos que o 
apoiam e pelas grandes organizações populares nacionalistas que o acompanham. ---- O 
mínimo que se pode dizer é que esta parte do movimento libertário está "em plena deriva", 
uma vez que depois de ter contribuído para "proteger as urnas" durante o Referendo que o 
Governo convocou com o propósito expresso de legitimar a criação de um novo Estado sob a 
forma da República da Catalunha, também se lançou para chamar uma greve geral na sequência 
imediata do Referendo, com o efeito esperado de aumentar seus efeitos.

Esta deriva é agora reafirmada ao se juntar a outra greve geral para amanhã, 8 de 
novembro, ao exigir a libertação dos "prisioneiros políticos"originados pela repressão que 
o Estado espanhol em seu componente Judicial exerceu contra certas atividades destinadas a 
promover a independência da nação catalã e a criação do novo Estado.

Certamente, desta vez não é o conjunto dos sindicatos anarcossindicalistas que se juntam a 
essa greve, mas uma parte significativa dos sindicatos da CGT e dos libertários integrados 
nos CDR"Comitês de Defesa da República". Se eu já tivesse manifestado a 
minha"perplexidade" ante a greve geral em 3 de outubro, essa perplexidade é aumentada 
ainda mais pelo fato de que esses sindicatos da CGT e esses militantes libertários do CDR 
vão apoiar a iniciativa de um minúsculo sindicato radicalmente independentista, a 
"Intersindical-Confederação Sindical Catalã", que lançou o chamado e só recebeu o apoio 
das duas grandes organizações pró-independência catalã que agrupam de forma transversal 
setores populares e setores burgueses da população catalã (Ómnium Cultural e ANC).

Ninguém duvida de que a repressão deve ser rejeitada, mas talvez seja surpreendente que 
essa rejeição só possa ser traduzida em greve geral quando os reprimidos são membros de um 
governo, juntamente com os dois principais líderes do movimento civil independentista, 
limitando a manifestações de rejeição e de solidariedade quando se trata de outras pessoas.

Felizmente, no domínio libertário, as lutas sempre foram avaliadas em termos de seu 
significado político e, no caso de que essas lutas fossem reprimidas, se ativará a 
solidariedade por meio dessa avaliação política. Ou será que, condenando qualquer tipo de 
repressão, também devemos mobilizar nossas energias quando se reprime os "lutadores" da 
extrema-direita? Do ponto de vista libertário, qualquer repressão motiva, sem dúvida, a 
nossa rejeição, mas não implica automaticamente a nossa solidariedade. Além disso, o que é 
inaceitável é que se evoquem as recentes vítimas anarquistas da repressão para declarar 
que "essa lista" foi ampliada com novas represálias que não são senão os governantes 
detidos. Imagino que algumas dessas companheiras presas ficariam indignadas por se verem 
amalgamadas com esses novos "prisioneiros políticos" para justificar desse modo que eles 
também requerem nossa solidariedade.

A deriva de uma parte do movimento libertário torna-se ainda mais evidente quando 
observamos que bastante dos seus elementos estão agora envolvidos nos "Comitês de Defesa 
da República", originalmente promovidos pela CUP[Candidatura de Unidade Popular]. Se foi 
sensível até agora ao argumento de que essa participação era uma forma de ouvir nossas 
vozes e de propor nossas propostas dentro das mobilizações populares, com a esperança de 
"transbordar" o estreito sentido de independência de suas demandas, embora também, devo 
acrescentar, que essa "perspectiva de transbordamento" sempre me pareceu totalmente ilusória.

No entanto, quando, como aconteceu comigo nesta tarde, se pode ler nas ruas de Barcelona 
cartazes assinados pela organização oficial do CDR que apelam para "parar o país" em 8 de 
novembro em resposta à "prisão do governo legítimo do nosso país", a perplexidade ante a 
incorporação de uma parte do movimento libertário nesses comitês não para de aumentar e 
abre a questão de saber até que ponto chegará "a deriva" dessa parte do movimento libertário.

O único consolo que pode permanecer é que, através desses comitês, a politização e a 
experiência de luta adquirida por setores da população, sobretudo jovens, encorajem 
mobilizações futuras em outros contextos, menos longe da autonomia e da autodeterminação 
das lutas que defendemos desde as práticas de luta libertárias.

Tomás Ibáñez

Barcelona, 7 de novembro de 2017

Tradução > Liberto


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