(pt) anarkismo.net: As agências de "análise" de risco e a violação de soberanias by BrunoL

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 15 de Novembro de 2017 - 08:25:56 CET


As agências de "análise" são empresas privadas dos EUA operando como vetores do cassino 
financeiro global, gerando a subordinação de sociedades inteiras. ---- As agências de 
"análise" são empresas privadas dos EUA operando como vetores do cassino financeiro 
global, gerando a subordinação de sociedades inteiras. Isso ocorre em todos os países do 
"ocidente" ampliado, sendo que as regiões eurasiáticas sob a influência direta da China, 
Rússia e Índia conseguem sofrer outras projeções de poder. No caso da América Latina, 
sofremos hoje uma dupla intervenção, tanto das potências ocidentais - com os Estados 
Unidos à frente - como da presença chinesa cada vez maior em todas as camadas da economia 
real. Neste texto, fazemos uma breve digressão no papel de operador político das agências 
de "análise" na Europa pós-crise de 2008 e depois voltamos ao nosso Continente observando 
uma das chances desperdiçadas no período anterior.

Sempre cabe perguntar. O que legitima as agências de risco? Os contratos dos fundos de 
investimento controlando os maiores volumes de investimento do cassino financeiro global. 
Em tese - longínqua e distante - as chamadas agências de "análise" de risco produziriam 
indicadores críveis para investidores interessados em adquirir ações ou dívidas na forma 
de títulos ou produtos financeiros exóticos gerados por agentes econômicos privados. Isto 
nas origens, porque a relevância destas empresas de bens simbólicos cresceu. Afirmo que 
estas agências, a partir das três maiores, Standard & Poor's (S&P), Moody's e Fitch Rating 
são peça fundamental da engrenagem capitalista em sua etapa financeira, reforçando um 
mecanismo de legitimação que reforça e blinda o papel nefasto que a especulação financeira 
tem.
Recordando o ataque contra a Europa do Sul forçando o ajuste pós 2008-2009
No auge da etapa de "ajuste" da farsa com nome de crise, do estouro da bolha imobiliária 
dos EUA e a venda de derivativos baseados em hipotecas não cobertas, as agências de 
"análise" reforçaram o empobrecimento do sul europeu. A S&P apontou diretamente suas 
baterias contra a Europa. Trata-se da mesma agência que até dias antes da falência do 
Lehman Brothers - em setembro de 2008 - classificava-o como AAA. É um papel semelhante ao 
aval que a empresa de auditoria contábil Arthur Andersen dera para a empresa de energia 
Enron, sendo que esta pediu concordata em dezembro de 2001 após o exercício de 
contabilidade "criativa". A diferença é que a Arthur Andersen acompanhara a diretoria da 
Enron direto para uma investigação de fraude corroborada pela auditoria;já a S&P seguiu 
sem ser muito incomodada pelas autoridades da União Europeia.
Os fatos são reveladores. Em 13 de janeiro de 2012 a S&P rebaixou a classificação da 
dívida (e dos títulos desta) de nove países europeus, incluindo a França, potência latina 
da Zona Euro e rival da Alemanha no projeto da Europa unificada. Já em 16 de janeiro de 
2012 veio a consequência, com o também rebaixamento do Fundo Europeu de Estabilidade 
Financeira (European Financial Stability Facility, EFSF, ver esm.europa.eu ), composto por 
todos os Estados já depreciados pela mesma agência. Imediatamente, o ex-vice-presidente do 
Goldman Sachs e então (atual) presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, pediu 
celeridade dos países membros na busca por ajustes de austeridade. Vale observar que o 
ESM, organismo gestor do EFSF, tem sede em Luxemburgo, paraíso fiscal continental e é 
gerido como um fundo de investimento e "estabilidade" para a Europa pós-2008. Na prática, 
opera como legitimador da maior transferência de renda coletiva para fins privados da 
história da humanidade.
O que ocorrera em 2012 é base para o sistema de domínio que segue. Tanto a S&P como o 
próprio Draghi são, agente e ator, diretamente responsáveis pela fraude com nome de 
"crise" que até hoje assola a Europa, em especial a "Europa do Sul". Desaparecera por 
mágica a relação causal direta do aumento da dívida pública dos países membros, fruto da 
maior transferência de riqueza em forma financeira e depreciação de renda coletiva, quando 
os Estados passaram recursos públicos para bancos privados insolventes após haverem 
negociados derivativos podres.
Quando o movimento por outra globalização expandiu-se, nos anos '90, uma das bandeiras 
consensuais era a instauração da Taxa Tobin, onerando a especulação internacional. É 
pouco. É preciso desmontar o poder de legitimação das instituições financeiras que impõem 
suas vontades sobre Estados soberanos e governos eleitos, incluindo as agências de "análise".
A jogatina e a traquinagem não correm sem "riscos" para os influenciadores das roletas dos 
cassinos. Como era de se esperar, a tentativa de respostas legais e institucionais 
avançara (se arrastou eu diria) mesmo por dentro das estruturas de poder do ocidente. O 
procurador do município de Trani, Michele Ruggiero, na região de Milão, abriu - à época - 
investigação junto ao aparato da Guarda de Finanças (ligada ao Tesouro Italiano, mas com 
outras funções de polícia) e adentrou em diligência dentro do escritório da referida 
agência na cidade que consagrara Silvio Berlusconi como presidente de clube de futebol com 
projeções "populistas de direita". A S&P e a Moody's estavam (seguem estando e sempre 
estiveram) na alça de mira da Justiça da Itália, justamente por fazerem - ou supostamente 
haverem feito - aquilo que são acusadas: manipulação de dados e julgamentos imprudentes e 
infundados. A S&P em julho de 2011 e a Moody's em maio do mesmo ano geraram fatos 
políticos a partir de relatórios supostamente "técnicos" ainda com o jogo político oficial 
em andamento (no Parlamento a primeira, e com o mercado em aberto, na segunda). Além do 
tradicional comportamento de manada, os informes puseram contra a parede a capacidade de 
mando do próprio governo italiano. As agências de "análise" derrubaram um governo soberano 
em plena Europa unificada. Imaginem o que não podem fazer - e fazem - com países 
latino-americanos?
A grande chance perdida para uma nova arquitetura financeira
Nossos países da Semi-periferia poderiam ter medidas de proteção mútua, tais como fundos 
de emergência e índices de risco (já previstos no Fundo de Resgate e no Banco dos BRICS), 
por fora das estruturas estabelecidas pela atual hegemonia financeira recebendo ameaças 
diretas. Este arranjo foi interrompido pela guinada à direita do Brasil. É preciso 
compreender que a internalização de interesses externos adentra os Estados através das 
portas giratórias entre o sistema financeiro, a autoridade monetária e as pastas 
ministeriais formadoras da "equipe econômica". Assim, por mais surreal que pareça, o 
balizador das dívidas dos países - e dos papeis de títulos públicos - são índices de 
empresas privadas de análise de risco (da possível ausência de pagamento), a saber, 
Standard & Poors, Moody's e Fitch. Para os organismos financiadores do capitalismo, a 
informação produzida através destas empresas é considerada superior à coproduzida pelas 
autoridades de países como Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e Coréia do Sul. 
Retirar a absurda legitimidade das empresas de "análise" de risco e, ao mesmo tempo, 
iniciar acordos multilaterais em busca de novos lastros para além do fator dólar-dólar, 
tal como uma possível moeda cambial dos emergentes, teria sido um belo primeiro passo. Teria.
O papel das agências de "risco" e sua projeção de interesses na América Latina poderiam 
ter enfraquecido. A gangorra começaria a pender para outros lados se blocos regionais ou 
de países, como a Celac, Unasur e Mercosul, e a partir da relação Brasil-África do Sul, 
forçassem uma nova condição de barganha dentro dos BRICS. Com as viradas à direita no 
Continente, o inverso foi feito e agora a China aposta em engolir e controlar as 
possibilidades de produção primária e infraestrutura existentes, concorrendo diretamente 
com os EUA em sua área de influência direta. A América Latina, com o Brasil à frente, 
segue sua sina de internalizar interesses externos em nome do "país". Herança maldita 
colonial que nos segue assombrando.
Versão atual da Maldição de Malinche, ao invés de "exportar" para a metrópole estanho, 
cobre, prata e ouro para cunharem moedas europeias, exportamos a riqueza na forma 
financeira. Vão os dividendos e ficam os compromissos da dívida coletiva. O moderno 
imperialismo coloca nossas populações no prego.

Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de ciência política 
(www.estrategiaeanalise.com.br para textos e áudios / estrategiaeanaliseblog.com para 
vídeos e entrevistas / blimarocha  gmail.com para E-mail e Facebook)

https://www.anarkismo.net/article/30661


Mais informações acerca da lista A-infos-pt