(pt) quebrando muros: NOTA DE SOLIDARIEDADE DO COLETIVO QUEBRANDO MUROS AOS COLETIVOS PERSEGUIDOS POLITICAMENTE NO RS

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Sexta-Feira, 3 de Novembro de 2017 - 08:04:02 CET


Na última quarta-feira (25), a Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul cumpriu 
mandados de busca e apreensão em dez locais situados em Porto Alegre e cidades da Região 
Metropolitana: Viamão e Novo Hamburgo. A operação, comandada pelo delegado Paulo Cesar 
Jardim e denominada Operação Érebo (que, na mitologia grega, se refere à personificação 
das trevas e da escuridão), se propõe a apurar supostos ataques incendiários e explosivos 
a viaturas policiais, sedes de partidos políticos, bancos privados, concessionárias de 
veículos, à Secretaria de Segurança Pública e até a uma igreja. De acordo com o delegado, 
o grupo, que comandaria tais práticas desde 2013, consiste em uma organização criminosa 
que se disfarça de organização política que "repudia qualquer autoridade e poder 
constituídos".

Dois dos alvos da operação onde foram executados os mandados de busca e apreensão por 
volta das seis horas da manhã com presença policial fortemente armada e acompanhamento de 
repórteres da RBS, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul, foram a sede do Instituto 
Parrhesia Erga Omnes e a Ocupação Pandorga. A Parrhesia é uma organização 
não-governamental que atua junto a movimentos sociais nas áreas de direitos humanos, 
cultura, educação e comunicação popular, premiada em 2013 e 2015 pela Associação dos 
Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) por boas práticas em direitos humanos. Já a Ocupação 
Pandorga trabalha com educação e cultura junto à comunidade Cabo Rocha. Além disso, o 
espaço oferece estadia para diversos artistas estrangeiros que desenvolvem projetos com as 
crianças que moram na região, muitas das quais se encontram em situação de vulnerabilidade 
social.

Em ambos os casos, foram apreendidos materiais de propaganda política desses movimentos, 
tais como panfletos, além de livros, computadores e até mesmo garrafas plásticas com 
materiais recicláveis que foram apresentadas pela Polícia Civil como artefatos utilizados 
para fabricação de coquetéis molotov. Uma integrante do coletivo que cuida da Ocupação 
Pandorga relatou ainda que a abordagem dos policiais foi violenta e até mesmo xenófoba com 
relação aos artistas estrangeiros ali hospedados.

Além das invasões às sedes dos centros culturais citados, o mandado de busca e apreensão 
cumprido no Instituto Parrhesia estava endereçado também à Federação Anarquista Gaúcha, 
organização anarquista especifista com mais de vinte anos de história, cuja sede do Ateneu 
Libertário Batalha da Várzea anteriormente ficava no local que hoje pertence ao Instituto. 
Essa foi a quarta ofensiva repressiva sofrida em menos de dez anos pela organização, que 
já teve sua sede invadida três vezes.

Sob o intuito de obter o apoio da população às medidas repressivas e à criminalização 
daqueles que lutam diariamente para transformar a realidade e buscar uma vida mais digna a 
todas e todos, os de cima se utilizam dos seus meios de comunicação de massa para fomentar 
uma "caça às bruxas" contra as ideologias que questionam e se opõem à ordem vigente, 
sobretudo em um momento de forte ataque aos direitos conquistados historicamente com 
sangue e suor da nossa classe, tal qual o que vivemos. Essa perseguição ideológica ocorre, 
sobretudo, contra as concepções ligadas a esquerda revolucionária, na qual se encontra o 
anarquismo. Nesse sentido, a reportagem especial do Fantástico que deve ser exibida no 
próximo domingo, intitulada "Anarquia: da ideologia ao crime", certamente será mais uma 
fonte de desinformação e de incentivo à criminalização não apenas dos indivíduos e grupos 
que com ele se identificam, mas de toda a esquerda que não deposita nos meios 
institucionais, via eleições, a esperança de transformação radical da sociedade. Outro 
exemplo de irresponsabilidade com o compromisso jornalístico de informar foi dado por um 
repórter do SBT que relacionou anarquismo e nazismo, ideologias de natureza e práticas 
políticas radicalmente opostas.

Desde as jornadas de Junho de 2013, quando milhares de pessoas saíram às ruas em todo o 
país contra os aumentos abusivos nas tarifas do transporte público, contra a repressão 
policial e questionando a forma verticalizada de fazer política, é possível notar um 
acirramento no discurso dos meios de comunicação tradicionais em criminalizar os 
movimentos populares, sobretudo os do campo autônomo e libertário. Além disso, um dos 
maiores legados dos megaeventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016), 
ao lado do endividamento de governos e superfaturamento de empreiteiras via Parcerias 
Público-Privadas, é o investimento bilionário em aparato repressivo e a aprovação da Lei 
Antiterrorismo, sancionada por Dilma. Durante esse período, centenas de manifestantes 
foram presos e muitos seguem respondendo processo até hoje, vide o processo dos 23 do Rio 
de Janeiro, dos 8 militantes do Bloco de Lutas pelo Transporte Público do RS e até mesmo 
de companheiros detidos durante o primeiro jogo da Copa do Mundo em Curitiba. Não podemos 
nos esquecer de Rafael Braga, único condenado das manifestações de junho de 2013 por 
portar desinfetante. O Pinho Sol de Rafael Braga tinha tanto potencial explosivo quanto as 
garrafas PET apreendidas essa semana na Ocupação Pandorga, mas o que mais pesou para a sua 
condenação foi sua condição social e a cor da sua pele: Rafael Braga é negro e trabalhava 
como catador de lixo, muitas vezes dormindo na rua por não ter condições de pagar a 
passagem de volta para sua casa, onde vivia com sua mãe.

Precisamos rodear de solidariedade todos e todas aqueles/as que sofrem represálias do 
Estado por denunciar e buscar superar as desigualdades a que estamos submetidos. Quando os 
de baixo se movem, os de cima fazem de tudo para manter seus privilégios, mas com luta e 
organização a queda será inevitável!

https://quebrandomuros.wordpress.com/2017/10/29/nota-de-solidariedade-do-coletivo-quebrando-muros-aos-coletivos-perseguidos-politicamente-no-rs/


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