(pt) Liga-rj: Quem somos - LIGA ANARQUISTA NO RIO DE JANEIRO

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Sábado, 27 de Maio de 2017 - 11:13:56 CEST


A Liga Anarquista surge a partir dos levantes populares de Junho de 2013, de conversas, 
análises e discussões entre alguns indivíduos anarquistas não associados às organizações 
atuantes na cidade do Rio de Janeiro até então. Os diálogos avançaram e logo foi percebida 
a necessidade de um coletivo de síntese que aglutinasse os indivíduos militantes 
anarquistas para fins de autodefesa, apoio mútuo, solidariedade, ação direta, autogestão, 
federalismo, preservando as características de cada um dos seus integrantes e promovendo o 
diálogo entre as organizações já existentes no Rio de Janeiro e em todos os lugares a fim 
de fortalecer e organizar o movimento anarquista para uma sociedade livre. ---- Como 
princípios e métodos anarquistas, associamos nosso modelo ao das federações de síntese: 
Ação direta, Antiautoritarismo, Apoio mútuo, Autogestão e Federalismo. A LIGA, como 
coletivo anarquista, constitui-se nas seguintes bases: a pluralidade de concepções 
teóricas fruto do acúmulo histórico dos anarquistas ao longo da sua trajetória; o 
reconhecimento das diversas formas de ação baseadas na compreensão da heterogeneidade dos 
sujeitos em luta, explorados e oprimidos. Assim, a Liga Anarquista se apresenta para o 
diálogo com todas as organizações anarquistas, libertárias e autonomistas populares para o 
trabalho coletivo e a construção do mundo livre.

Entendemos que todas as organizações têm seu papel na luta e que todas possuem inimigos 
comuns. Estas organizações são complementares e na atual conjuntura não possuem 
protagonismo algum nas lutas do nosso tempo. Dessa maneira pretendemos manter os diálogos 
e construir acordos para seguir nas lutas, tendo a liberdade como meio, princípio e fim.

A Liga Anarquista trabalhará junto ao movimento anarquista em prol da construção de uma 
federação orientada pela síntese das diferentes tendências, respeitando a diversidade das 
organizações presentes e atuantes neste nosso momento histórico.

Saudamos a todas e todas e as/os convidamos para conhecer a LIGA.

Para baixar e acessar a versão pdf da Carta de Princípios da LIGA, clique aqui.
A Emergência Anarquista - Introdução e Justificativa

A emergência anarquista é uma proposta de estudo aproximativa dos conceitos anarquistas e 
libertários contemporâneos. Não sendo um estudo conclusivo que se propõe a afirmar 
conceitos fechados ou uma teoria unitária, traduz nossa leitura do próprio movimento 
anarquista, assim como do universo libertário, respeitando a multiplicidade, pluralidade e 
diversidade nos campos organizativos de ações, métodos e ideias. Tampouco é este um estudo 
que busca resgatar as teorias clássicas do anarquismo, não as desconsiderando ou estando 
desconectado do processo histórico, mas partindo de uma análise de que as manifestações 
recentes de novos atores sociais emergentes no campo político e econômico não estão 
necessariamente conectadas - pelo menos conscientemente - ou endividadas para com os 
clássicos teóricos do campo de ação anarquista. Obviamente que os conceitos amadurecidos e 
sistematizados pelos pensadores anarquistas e libertários estão presentes nesta reflexão, 
mas não como um tema central ou que nos ocupe como objeto de nossa pesquisa. Antes disso, 
são eles conceitos - como dito anteriormente - sistematizados a partir de uma prática, é 
esta prática que nos interessa, não diminuindo a importância deste esforço de teorização, 
mas julgamos que tais teóricos e suas teorias já são devidamente debatidas em outros 
estudos, não menos importantes e não menos urgentes.

É saudável pontuar uma separação entre libertários e anarquistas. Entendemos aqui todo 
anarquista como um libertário, mas o campo libertário é mais amplo que o anarquista, 
abarcando outras tendências que nem sempre terão as características definidoras de uma 
prática e um pensamento anarquista. Dada a diversidade do movimento libertário e a 
consequente confusão de suas zonas de contingência com o movimento anarquista, acreditamos 
que reforçar a ideia desta sinalização é um ponto importante de partida para as reflexões 
que seguirão.

Creio ser necessário, a título de justificativa, deixar clara nossa posição sintetista 
enquanto anarquistas. Tal posição obviamente guiará as questões que surgirão no decorrer 
da leitura deste ensaio e o próprio objetivo de aproximação, sem a pretensão de tirarmos 
daqui conclusões definitivas acerca das práticas e ideias anarquistas correntes. 
Sintetismo ou sinteticismo, em poucas palavras, pode ser entendido aqui como uma posição 
anarquista e libertária que respeita e encoraja múltiplas formas de ação no âmbito 
anarquista, busca uma síntese entre as correntes de pensamento que emergem ou orbitam o 
universo libertário e o movimento anarquista, rejeita, portanto, os planos fechados, 
plataformas ou programas que tendem a controlar o comportamento e delegar funções aos 
corpos que se movem em sentindo libertário, respeita a livre federação e aglutinação 
coletiva, sem, contudo, se fechar ao diálogo com as correntes de pensamento e organizações 
anarquistas que tendem ao plataformismo ou ao especifismo. Entendemos, portanto, que a 
pluralidade e multiplicidade de métodos e ações em diferentes campos e de formas variadas 
são elementos benéficos à construção de uma sociedade livre.

Faz-se necessária uma reflexão para dentro do próprio movimento anarquista. Esta 
esbarrará, como previsto, nas zonas de contingência que existem com o universo libertário 
e a prática autonomista. A emergência de ações coletivas e ainda individuais que se 
autoidentificam ou são lidas como - e não de forma ilícita - práticas anarquistas, 
impelem-nos a uma leitura e ao esforço de compreensão das mesmas em uma articulação com a 
conjuntura atual do movimento como um todo.

O recente e notório descontentamento popular com as estruturas governamentais 
representativas, as históricas desigualdades econômicas inerentes ao modo de produção 
capitalista somadas ao seu ciclo de crises estruturais e rupturas que abateram o sistema 
de forma global nas últimas duas décadas e, em uma perspectiva que nos coloca geográfica, 
histórica e socialmente inseridos no contexto latino-americano, ao total fracasso das 
estruturas sindicais em comportar as demandas da classe trabalhadora, geraram uma série de 
ações espontâneas que apontam para uma tendência autonomista e em alguns casos muito 
próximas das práticas que nos remetem à tradição anarquista. Seja o fenômeno das 
assembleias populares ou trabalhadoras que primam por métodos horizontais, sejam os 
recentes movimentos grevistas puxados pela base em detrimento dos grupos dirigentes de 
seus respectivos sindicatos e mesmo contra eles em alguns casos, os movimentos que pautam 
a questão da mobilidade urbana e o direito a cidade, reivindicando uma gestão mais direta 
do sistema de transportes e organizando-se de forma descentralizada e até federalizada, a 
tendência a autogestão que é identificada nas ocupações promovidas pelos movimentos 
pautados na questão da moradia - na verdade a falta dela - e a disseminação e 
radicalização de tendências libertárias que visibilizam questões como o direito ao corpo e 
a descriminalização das drogas. Todas estas tendências nos remetem de alguma forma ao 
universo que orbita ou emerge do conjunto de práticas e métodos anarquistas, autonomistas 
ou libertários. A presença deles é sentida em todos estes campos, sem que, contudo, estes 
possam ser classificados como movimentos anarquistas de fato.

Todos estes movimentos que desenvolvem em seu seio tais métodos o fazem por uma simples 
questão conjuntural, impelidos pelas necessidades organizativas, muito mais do que por 
tendência ideológica consciente, ainda que agrupamentos atuem no interior de tais 
movimentos e assim o façam de forma consciente não é possível afirmar que isso vale para o 
todo. Tal ação não configura o direcionamento da organização subsequente no sentido de 
controle do movimento por parte destes mesmos grupos atuantes.

Obviamente que as formas de organização assumidas pelos movimentos contemporâneos levaram 
consequentemente à exposição midiática do anarquismo e subsequentemente a um processo de 
criminalização da prática anarquista. Tal movimento criminalizante não é exclusividade do 
Brasil ou da América Latina - apesar dos recentes e alarmantes eventos de perseguição 
verificados neste continente - é um processo que se desenvolve em âmbito global e de forma 
articulada.

Tal situação nos leva a algumas questões da qual não podemos e não devemos nos furtar: é 
possível afirmar que há "O anarquismo" ou os anarquismos? O anarquismo ou os anarquismos 
constituem uma teoria político-econômica-social, uma ideologia, ou um conjunto de práticas 
libertárias em que seja mais correto falar em "cultura anarquista"? É desejável uma 
unidade de luta articulada, ainda que sem unidade teórica ou a potência do movimento 
anarquista se encontra precisamente em sua atomização e descentralização total, onde - 
perdoem a metáfora geológica - nos remete a uma configuração insular de arquipélago, 
encontrando-nos isolados e atuando em frentes desconectadas, desarticuladas e desprovidas 
de comunicação? Em que ponto os movimentos anarquista e autonomista encontram zonas de 
contingência e de separação entre si no campo libertário de ação?

Tais questões nos afligem e julgamos merecedoras de reflexão caso desejemos seriamente 
construir um mundo onde uma sociedade livre seja possível para além da utopia. Não só são 
questões provocadoras que justificam a reflexão e um amplo debate por uma maior 
articulação - se esse é nosso desejo enquanto companheiros e companheiras de luta - como 
são questões urgentes motivadas por uma conjuntura que nos indica uma articulação global 
de repressão às práticas anarquistas e libertárias. São destas questões que vamos nos 
ocupar nesta série de estudos que, apesar de constituírem uma ainda tímida provocação aos 
companheiros e companheiras, temos motivos para crer que são questões solúveis e de 
tomadas de posições possíveis dentro de nosso campo de atuação em direção a construção de 
um mundo novo, igualitário e liberto de opressões.

Fernando Monteiro

https://ligarj.wordpress.com/sobre/


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