(pt) anarkismo.net: Análise da crise política do início da queda do governo Temer by Bruno Lima Rocha

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Sexta-Feira, 26 de Maio de 2017 - 09:16:45 CEST


Como o país inteiro sabe, às 19.30 no sítio eletrônico do Jornal O Globo, o colunista 
Lauro Jardim deu a mãe de todos os furos (ver: http://migre.me/wDFem). Imediatamente a 
emissora líder entrou de plantão, a nota chegou ao Congresso nacional, as duas sessões 
(Câmara e Senado) foram suspensas e o Planalto chamou uma reunião de emergência, com a 
presença dos ministros de confiança do presidente Michel Temer e do presidente da Câmara, 
Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nesta reportagem bombástica, haveria evidência o suficiente para 
imputar ação criminosa do presidente da República no exercício do cargo, assim como uma 
compra de "ajuda financeira" para a defesa legal do senador Aécio Neves (PSDB-MG) com 
lavagem na sequência, através de empresa do também senador tucano e mineiro, Zezé Perrella.

A delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista foi uma ação coordenada, com orientação 
direta da Polícia Federal, com altíssimo critério na produção de provas materiais 
irrefutáveis e com o estilo e padrão do FBI, a polícia federal dos EUA. Microchips em 
mochilas contendo dinheiro, notas seriadas e fotografadas, microfones de bolso ou 
discretos para induzir os alvos a falar, cometendo revelações criminosas. Quem conhece um 
pouco desse padrão sabe sua origem e a capacidade devastadora no ambiente político.

O ex-deputador federal Eduardo Cunha e o futuro ex-presidente Michel Temer

Análise da crise política do início da queda do governo Temer

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Introdução para a "mãe de todos os furos"

Como o país inteiro sabe, às 19.30 no sítio eletrônico do Jornal O Globo, o colunista 
Lauro Jardim deu a mãe de todos os furos (ver: http://migre.me/wDFem). Imediatamente a 
emissora líder entrou de plantão, a nota chegou ao Congresso nacional, as duas sessões 
(Câmara e Senado) foram suspensas e o Planalto chamou uma reunião de emergência, com a 
presença dos ministros de confiança do presidente Michel Temer e do presidente da Câmara, 
Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nesta reportagem bombástica, haveria evidência o suficiente para 
imputar ação criminosa do presidente da República no exercício do cargo, assim como uma 
compra de "ajuda financeira" para a defesa legal do senador Aécio Neves (PSDB-MG) com 
lavagem na sequência, através de empresa do também senador tucano e mineiro, Zezé Perrella.

A delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista foi uma ação coordenada, com orientação 
direta da Polícia Federal, com altíssimo critério na produção de provas materiais 
irrefutáveis e com o estilo e padrão do FBI, a polícia federal dos EUA. Microchips em 
mochilas contendo dinheiro, notas seriadas e fotografadas, microfones de bolso ou 
discretos para induzir os alvos a falar, cometendo revelações criminosas. Quem conhece um 
pouco desse padrão sabe sua origem e a capacidade devastadora no ambiente político.

No olho do furacão envolvendo o presidente Michel Temer, uma suposta mesada enviada pela 
JBS para o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em Curitiba e cujas 
perguntas enviadas por Cunha para MT, legalmente o presidente em pleno exercício não 
precisaria responder (ver: http://migre.me/wDFma). Ou seja, Cunha foi central para o 
vexaminoso episódio de chantagem institucional, aliás assumido em rede aberta e nacional 
de TV pelo próprio MT (ver: http://migre.me/wDFwV) e a consequência nefasta do impeachment 
sem mérito constitucional. A dimensão substantiva do golpe se dá em dois níveis. Uma, é da 
porteira para dentro, com o fim das bases sociais e constitucionais do Estado Social 
Democrático de Direito, base da Constituição de 1988. E da porteira para fora, com o fim 
do projeto de potência média e do modelo de Bismarckismo Tropical. No olho do furacão, a 
Operação Lava-Jato e suas agendas paralelas. Desabou tudo, não que não estivesse podre 
(como a Nova República e o presidencialismo de coalizão), mas junto foram as chances de 
crescimento capitalista do país. Na liquidação do Brasil, liquida-se também o que menos 
vale, as oligarquias políticas profissionais. O que virá em seu lugar?

O governo acabou e quem assumir talvez não governe

Ao que tudo indica, o golpe andou dentro do Golpe. A Lava-Jato não parou - como era 
esperado pela antiga base aliada de Michel Temer e Eduardo Cunha - durante o governo MT, e 
partiu para um passo ousado. Os irmãos Batista, especificamente Joesley Batista, aceitaram 
servir de isca para o presidente da República e o presidente nacional do PSDB, o senador 
mineiro Aécio Neves. As gravações teriam ocorrido em março do corrente ano, e foram ações 
coordenadas pela PF. As equipes de investigação confirmaram todas as denúncias que 
constavam na matéria de Lauro Jardim, colunista de O Globo. Nenhum agente público, e menos 
ainda o pessoal de confiança da emissora líder, confirma isso à toa, sem total respaldo e 
um grau de certeza absoluta.

O que dá a entender é que ninguém segura Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República 
opera com voo solo e através do devido campo de alianças intra-institucional (PGR, cúpula 
da PF com treinamento de ponta, jovens procuradores, interlocutores no Supremo e em 
tribunais superiores, algum trânsito no Estado-Maior das Forças Armadas), o procurador 
opera como corregedor geral da República. Sendo assim, não há legitimidade (por eleições 
gerais, por exemplo) ou algum grau maior de lealdade que "proteja" o presidente ou a 
Presidência. Qualquer governo sob este tipo de ameaça constante (um aparelho de Estado que 
tem agenda própria, por mais justa e legal que seja esta agenda, e muitas vezes têm 
critérios no mínimo duvidosos), ainda mais passando pelas evidências que foram obtidas 
pelas investigações coordenadas, não tem a mínima "segurança" para seguir exercendo os 
atos de governo.

O curtíssimo prazo e os passos possíveis

Eu vejo que estamos diante do imponderável. A Globo recebeu a exclusiva, como sempre, mas 
sabia que se o Lauro Jardim não divulgasse, a empresa seria furada pelas TVs paulistas. O 
fato é que a Lava-Jato não parou e a agenda da PGR e das equipes da PF em Brasília não é a 
mesma da Força Tarefa em Curitiba. Tanto é assim que as cerca de 19 perguntas elaboradas 
por Eduardo Cunha não tiveram um escarcéu para serem respondidas pelo presidente Michel 
Temer. Esta agenda da PGR tem altíssimo nível, sendo visível o padrão investigativo, que é 
do FBI. Duvido que os gringos tenham operado diretamente, mas é impossível que não tenham 
participado do acordo total. Tanto é assim que toda a família Batista - controladores da 
JBS (com dezenas de instalações industriais nos EUA, ver http://migre.me/wDFMp) - já se 
encontra em território estadunidense. Isso faz parte do acordo de leniência com o 
Departamento de Justiça e necessariamente implica que a Casa Branca tinha conhecimento 
prévio, provavelmente a partir do adido legal da Embaixada deles no Brasil.

A cancha está aberta, mas se entendi o recado, a família Marinho ou algum emissário de 
confiança, já teve acesso a uma parte das provas e optou por acelerar o processo. Merval 
Pereira fala pelos Marinho e ao vivo na Globonews, na noite de 17 de maio de 2017, disse 
que ele, Temer, não teria condições de continuar (ver a versão para CBN, 
http://migre.me/wDFPr). Isto tanto pode ser uma improvável chamada por eleições gerais, 
ou, o mais provável, o fato de que as lideranças políticas que sobreviverem busquem uma 
saída política mas que esta seja afiançada pelo Judiciário. Por isso que oscilando entre o 
papel de incendiária e bombeira, a Globo insiste em "saída pelas regras constitucionais". 
Se assim for, assume Rodrigo Maia, até que as investigações o atinjam também, fazendo que 
seu mandato seja tampão. Nos bastidores, as raposas restantes do PT e PSDB, corretamente 
pensam no plano B caso tenhamos uma eleição Indireta. A favorita da Globo, dos Gringos, da 
Banca e FIESP seria a atual presidente do STF, ministra Carmen Lúcia. Pelas cúpulas 
partidárias e a caserna, o favorito é Nelson Jobim (ex-ministro de FHC e Lula, ex-ministro 
do STF). No cálculo de "mal menor", Jobim é disparado a menos pior opção pois garantiria 
eleições em 2018. Algum nível repressivo vai ter, mesmo porque, após as Indiretas 2017 - 
se estas vierem - a Presidência vai ter alguma agenda de leis regressivas ainda. Jobim vai 
se inspirar em Itamar Franco, Carmen Lúcia sabe-se lá.

Nestes primeiros dias a coisa foge do controle das cúpulas, das elites de sempre e do que 
restou de classe dominante no Brasil. Agora a bola está quicando nas ruas e quem mobilizar 
mais pode levar, incluindo um pacto político por Diretas Já e ano que vem com Eleições 
Gerais para uma Revisão Constitucional. Nesta revisão, aí podemos forçar finalmente a 
Reforma Política com elementos de mandato imperativo, recall, projetos lei de iniciativa 
popular sem intermediários e com elementos de referendos e plebiscitos. Realmente a hora é 
agora!

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

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