(pt) federacao anarquista gaucha: Anarquismo e Organização

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Terça-Feira, 16 de Maio de 2017 - 09:06:48 CEST


Dunois foi um militante da CGT que participou do Congresso Anarquista de Amsterdã em 1907. 
Suas posições são as mais próximas do especifismo que hoje sustentamos. Dunois defendeu, 
em sua intervenção, um anarquismo classista que atuasse no seio do movimento sindical por 
meio de uma organização específica de anarquistas. ---- Aqui, apresentamos em português a 
intervenção de Amédée Dunois no Congresso de Amsterdã de 1907, que foi publicada com o 
nome de "Anarquismo e Organização" em um livro organizado por Maurizio Antonioli. ---- 
Publicado originalmente em Anarkismo.net ---- Amédéé Dunois ---- APRESENTAÇÃO ---- O 
Congresso Anarquista de Amsterdã de 1907 teve dois debates fundamentais que possuem 
relação direta com o especifismo: a questão do classismo e a necessidade da organização 
específica anarquista.

O primeiro deles aconteceu entre os anarquistas que defendiam um anarquismo em certo 
sentido "idealista" - que ainda era resultado de seu afastamento dos movimentos populares, 
do período do insurrecionalismo (propaganda pelo fato) - e os sindicalistas 
revolucionários - que defendiam uma posição classista, que poderíamos chamar de 
"materialista", de defesa intransigente da luta de classes e da necessidade de presença 
dos anarquistas nos movimentos de massa. Essa posição materialista foi defendida por 
Pierre Monatte, que sustentava que "o sindicalismo existe como a prova de um 
recrudescimento do movimento operário, e ele faz renascer no anarquismo uma consciência de 
suas origens entre os trabalhadores". O segundo deles aconteceu entre um setor que 
acreditava que o sindicalismo "bastava a si mesmo" e outro que reivindicava a necessidade 
da organização em níveis distintos, do movimento de massas (sindicalismo) e da organização 
anarquista. Para os últimos, o anarquismo não deveria fundir-se nos sindicatos, 
transformando o sindicalismo em uma ideologia própria, posição que foi defendida por 
Malatesta, quando colocou que "dentro dos sindicatos, é preciso que permaneçamos 
anarquistas, com toda a força e amplitude implícitas nesta definição.[...]Lamentei, no 
passado, que os camaradas se isolassem do movimento operário. Lamento hoje que, caindo no 
extremo oposto, muitos entre nós se deixem tragar pelo mesmo movimento".

Na realidade, no Brasil, são bem conhecidos os textos de Pierre Monatte, "Em Defesa do 
Sindicalismo" e o de Errico Malatesta, "Sindicalismo: a crítica de um anarquista", ambos 
relativos às suas intervenções no Congresso de 1907 e publicados no livro Os Grandes 
Escritos Anarquistas, organizado por George Woodcock. No entanto, com eles, é possível se 
ter uma idéia somente do segundo debate, que envolvia a necessidade da organização 
específica anarquista. Para uma elaboração mais aprofundada do primeiro debate, que se deu 
entre materialistas e idealistas, sugiro ver o artigo do companheiro José Antonio 
Gutierrez Danton, "Cien Años del Congreso de Ámsterdam" 
(http://www.anarkismo.net/article/6266).

Foi por este artigo do companheiro que tive acesso à intervenção de Dunois, um militante 
da CGT, no Congresso Anarquista de Amsterdã. Suas posições são as mais próximas do 
especifismo que hoje sustentamos. Dunois defendeu, nessa intervenção, um anarquismo 
classista que atuasse no seio do movimento sindical por meio de uma organização específica 
de anarquistas.

No primeiro debate, saíram vitoriosos os materialistas, o que foi positivo pela 
reaproximação do anarquismo do campo da luta de classes. No segundo, entretanto, venceram 
aqueles que não defendiam a necessidade da organização anarquista. Se por um lado o 
Congresso reforçou o sindicalismo revolucionário, da mesma forma que o havia feito a Carta 
de Amiens um ano antes, ele renegou o chamado "dualismo organizacional" que envolve a 
necessidade de organização em níveis distintos, o político-ideológico e o social, de 
massas. O modelo da CGT e os resultados do Congresso de 1907 marcaram o que foi a 
hegemonia do século XX em âmbito mundial do anarquismo: as posições sindicalistas 
revolucionárias. O sindicalismo revolucionário como estratégia anarquista para o movimento 
popular foi o que deu fôlego às mobilizações que tiveram muito vigor até a década de 1930.

Aqui, apresentamos em português a intervenção de Amédée Dunois no Congresso de Amsterdã de 
1907, que foi publicada com o nome de "Anarquismo e Organização" em um livro organizado 
por Maurizio Antonioli. Uma tradução desse livro, "The International Anarchist Congress: 
Amsterdam (1907)", realizada e publicada por Nestor McNab, me foi entregue pelo 
tradutor/editor, e é desse livro que retirei o artigo aqui traduzido.

Agradeço aos companheiros José Antonio e Nestor, o primeiro por ter me apresentado o autor 
e sua ótima intervenção, senão a melhor, no Congresso de Amsterdã; o segundo, por ter me 
dado acesso ao livro completo das atas e intervenções do Congresso. Espero que o curto 
texto de Dunois possa contribuir com a construção de um anarquismo classista e 
especificamente organizado no Brasil.

Felipe Corrêa
Junho 2010

* * *

ANARQUISMO E ORGANIZAÇÃO

Amédée Dunois

Não faz muito tempo desde que a maior parte dos anarquistas opunha-se a toda idéia de 
organização. A questão com a qual hoje lidamos teria levantado inúmeros protestos e seus 
defensores teriam sido veementemente acusados de terem pensamentos retrógrados e objetivos 
autoritários.

Esse foi o tempo em que os anarquistas, isolados uns dos outros, e mais isolados ainda da 
classe operária, parecem ter perdido todo seu sentimento social. Os anarquistas, com seus 
incessantes apelos pela libertação espiritual do indivíduo eram vistos como a manifestação 
suprema do velho individualismo burguês.

As ações individuais e a iniciativa individual eram tidas como suficientes para tudo; eles 
aplaudiram Enemy of the People[Peça escrita por Henrik Ibsen em 1882. (N. T.)]quando ela 
declarou que o homem mais forte do mundo é aquele que fica mais sozinho. Mas eles não 
pensaram uma coisa: que o conceito de Ibsen nunca foi o de um revolucionário, no sentido 
que damos a essa palavra, mas o conceito de um moralista preocupado principalmente em 
estabelecer uma nova elite moral no seio da velha sociedade.

Nos últimos anos, falando de maneira genérica, pouca atenção foi dada ao estudo dos 
problemas concretos da vida econômica, aos vários fenômenos da produção e da troca e, 
alguns de nós, que não desapareceram ainda completamente, foram tão longe, que chegaram a 
negar a existência de um fenômeno básico - a luta de classes - ao ponto de não fazerem 
mais distinções na atual sociedade, assim como os meros democratas, exceto as diferenças 
de opinião, para a qual a propaganda anarquista deveria preparar os indivíduos - uma forma 
de capacitá-los para a discussão teórica.

Em suas origens, o anarquismo não foi mais do que um protesto concreto contra as 
tendências oportunistas da democracia social e as maneiras autoritárias de atuação; e, 
nesse sentido, pode-se dizer que o anarquismo teve um papel considerável no movimento 
social dos últimos 25 anos. Se o socialismo como um todo, como uma idéia revolucionária, 
sobreviveu ao progressivo aburguesamento da democracia social, é sem dúvida, por razão dos 
anarquistas.

Por que os anarquistas não se satisfizeram em apoiar o princípio do socialismo e do 
federalismo contra os desvios descarados dos defensores do da conquista do poder político? 
Por que o tempo fez com que eles, frente ao socialismo parlamentar e reformista, tivessem 
a ambição de reconstruir toda novamente uma ideologia?

Só podemos reconhecer que esse esforço ideológico nem sempre foi fácil. Freqüentemente, 
nos limitamos a queimar aquilo que a democracia social venerava e a venerar aquilo que 
havia sido queimado. Foi assim que, inconscientemente e sem perceber, muitos anarquistas 
perderam de vista o caráter classista e essencialmente prático do socialismo em geral, e 
do anarquismo em particular, nenhum dos quais nunca foi outra coisa senão a expressão 
teórica da resistência espontânea dos trabalhadores à opressão e ao regime burguês. Foi 
assim com o anarquismo, e também com o socialismo filosófico alemão antes de 1848 - como 
podemos ler no Manifesto Comunista - que se orgulhou de ser capaz de "desprezar todas as 
lutas de classes" e defendendo "não os interesses do proletariado, mas os interesses da 
natureza humana, do homem em geral, que não pertence a classes, não pertence à realidade, 
que existe somente no recôndito místico da fantasia filosófica".

Deste modo, muitos anarquistas voltaram-se curiosamente ao idealismo, por um lado, e ao 
individualismo, por outro. E houve um renovado interesse pelos antigos temas de 48 como 
justiça, liberdade, fraternidade, e a emancipatória onipotência das idéias no mundo. Ao 
mesmo tempo, o indivíduo era exaltado, da maneira inglesa, contra o Estado, e toda forma 
de organização começou a ser vista, de maneira mais ou menos aberta, como uma forma de 
opressão e de exploração mental.

Certamente esta forma de pensar nunca foi absolutamente unânime. Mas isso não a isenta da 
responsabilidade pela maior parte da falta de um movimento anarquista coerente e 
organizado. O medo exagerado de alienar nossos livres-arbítrios em relação a algum novo 
corpo coletivo fez com que parássemos de nos unir.

É verdade que houve em nossos meios "grupos de estudos sociais", mas sabemos o quão 
efêmeros e precários eram eles; nascidos do capricho individual, estes grupos 
destinaram-se a desaparecer juntamente com esse capricho. Aqueles que os criaram não se 
sentiram unidos o suficiente e, as primeiras dificuldade que encontraram, fizeram com que 
se dividissem. Além disso, esses grupos pareciam não ter uma noção clara de seu objetivo. 
Agora, o objetivo de uma organização é, antes e ao mesmo tempo, pensamento e ação. Em 
minha experiência, no entanto, esses grupos não atuaram de fato: eles debateram. E muitos 
os acusaram de estar construindo aquelas pequenas igrejas, aqueles espaços de conversa.

O que se encontra na raiz do fato de que a opinião anarquista agora pareça estar mudando 
em relação à questão da organização? Existem duas razões para isso.

A primeira é o exemplo que vem de fora. Existem pequenas organizações permanentes na 
Inglaterra, na Holanda, na Alemanha, na Boêmia, na Romandia e na Itália, que estão 
funcionando há alguns anos, sem que para isso tenham renunciado a idéia anarquista. É 
verdade que na França não temos muitas informações sobre a constituição e a existência 
dessas organizações; seria desejável pesquisar o assunto.

A segunda é muito mais importante. Ela consiste na decisiva evolução pela qual vêm 
passando as mentes e os hábitos práticos dos anarquistas, mais ou menos em todos os 
lugares, nos últimos sete anos, que os fez juntar-se ao movimento operário ativamente e 
participar da vida do povo. Em uma palavra, temos superado a distância entre a idéia pura, 
que pode facilmente tornar-se um dogma, e a vida real.

O resultado fundamental disso foi que nos interessamos cada vez menos pelas abstrações 
sociológicas do passado, e cada vez mais pelo movimento prático, pela ação. A prova disso 
é, por exemplo, a grande importância que o sindicalismo revolucionário e o antimilitarismo 
vêm atingindo nos últimos anos.

Outro resultado de nossa participação no movimento, também muito importante, foi que o 
próprio anarquismo teórico foi estimulado e tornou-se vivo pelo contato com a vida real, 
essa eterna fonte de pensamento. O anarquismo, do nosso ponto de vista, não é mais uma 
concepção geral de mundo, um ideal de vida, uma rebeldia de espírito contra tudo o que é 
injusto, impuro e abominável na vida. Ele é também, e sobretudo, uma teoria 
revolucionária, um programa concreto de destruição e de reorganização social. O anarquismo 
revolucionário - e eu destaco a palavra revolucionário - tem por objetivo essencial 
participar do movimento espontâneo das massas, buscando o que Kropotkin chamou tão 
nitidamente de "conquista do pão".

Agora, é somente do ponto de vista do anarquismo revolucionário que a questão da 
organização anarquista pode ser abordada.

Os inimigos da organização são hoje de dois tipos.

Primeiro, há aqueles que são obstinadamente e sistematicamente hostis a qualquer tipo de 
organização. Eles são individualistas. Pode ser encontrada entre eles a idéia popularizada 
por Rousseau de que a sociedade é um mal, que ela é sempre a limitação da independência do 
indivíduo. O sonho desses individualistas é a menor sociedade possível, ou mesmo que a 
sociedade não exista; um sonho absurdo e romântico, que nos leva de volta às estranhas 
tolices da literatura de Rousseau.

Nós precisamos dizer e demonstrar que o anarquismo não é individualismo? Historicamente 
falando, o anarquismo nasceu a partir do desenvolvimento do socialismo, nos congressos da 
Internacional, em outras palavras, do próprio movimento operário. E, de fato, logicamente, 
anarquia significa a sociedade organizada sem uma autoridade política. Eu disse 
organizada. Nesse ponto, todos os anarquistas - Proudhon, Bakunin, aqueles da Federação 
Jurassiana, Kropotkin - estão em concordância. Longe de tratar a organização e o governo 
igualmente, Proudhon nunca deixou de afirmar sua incompatibilidade: "O produtor é 
incompatível com o governo", diz ele na Idéia Geral da Revolução no Século XIX, "e a 
organização é oposta ao governo".

Mesmo o próprio Marx, cujos discípulos agora tentam esconder o lado anarquista de sua 
doutrina, definiu assim a anarquia: "Todos os socialistas entendem por anarquia o 
seguinte: que uma vez que o objetivo do movimento do proletariado - a abolição das classes 
- for atingido, o poder do Estado - que serve para manter a ampla maioria de produtores 
sob o jugo de uma minoria exploradora - desaparece e as funções do governo são 
transformadas em simples funções administrativas".[Karl Marx. "As Pretensas Cisões na 
Internacional", 1872.]Em outras palavras, anarquia não é a negação da organização, mas 
somente a negação da função governamental do poder do Estado.

Não, o anarquismo não é individualista, mas basicamente federalista. O federalismo é 
essencial ao anarquismo: ele é, de fato, a verdadeira essência do anarquismo. Eu 
definiria, satisfatoriamente, o anarquismo como o federalismo completo, a extensão 
universal da idéia de livre contrato.

Assim, não entendo como uma organização anarquista poderia prejudicar o desenvolvimento 
individual de seus membros. Ninguém seria forçado a entrar, assim como ninguém seria 
forçado a sair, uma vez que tenham se tornado membros. Então, o que é uma federação 
anarquista? Diversos companheiros de uma região particular, a Romandia por exemplo, tendo 
comprovada a impotência das forças isoladas, das ações fragmentadas, concordaram um dia em 
manter um contato permanente uns com os outros, em unir suas forças com o objetivo de 
trabalhar para disseminar as idéias comunistas, anarquistas e revolucionárias, e para 
participar de eventos públicos com sua ação coletiva. Com isso, eles criaram uma nova 
entidade cujo indivíduo é vítima? De maneira alguma. Eles simplesmente, com um objetivo 
preciso, reuniram suas idéias, suas vontades e suas forças e, do potencial coletivo 
resultante, cada um teve vantagens.

Mas nós também temos, como eu disse anteriormente, outros adversários. São aqueles que, 
apesar de apoiarem a organização dos trabalhadores fundada na identidade de interesses, 
provam serem hostis - ou pelo menos indiferentes - a qualquer organização baseada na 
identidade de aspirações, sentimentos e princípios. Eles são, em uma palavra, sindicalistas.

Examinemos suas objeções. A existência na França de um movimento operário com uma 
perspectiva revolucionária, e quase anarquista é, naquele país, geralmente, o maior 
obstáculo que encontra qualquer esforço à organização anarquista - eu não quero dizer que 
esse esforço não exista. E esses importantes fatos históricos impõem certas precauções a 
nós, que não afetam, em minha opinião, nossos companheiros de outros países.

O movimento operário hoje, observam os sindicalistas, oferece aos anarquistas um campo 
quase ilimitado de ação. Ao passo que os grupos fundamentados nas idéias, os pequenos 
santuários nos quais apenas os iniciados podem entrar, não podem esperar crescer 
indefinidamente, a organização operária, por outro lado, é uma associação amplamente 
acessível. Ela não é um templo, cujas portas estão fechadas, mas uma arena pública, um 
fórum aberto a todos os trabalhadores sem distinção de sexo, raça ou ideologia e, por essa 
razão, perfeitamente adaptada a abarcar todo o proletariado dentro de suas flexíveis e 
móveis fileiras.

Agora, continuam os sindicalistas, é nos sindicatos operários que os anarquistas devem 
estar. O sindicato operário é o germe da sociedade futura; é o sindicato que pavimentará o 
caminho para essa sociedade. O erro é ficar entre quatro paredes, em meio a outros 
iniciados, ruminando as mesmas questões da doutrina seguidas vezes, sempre se movendo 
dentro do mesmo círculo de idéias. Não devemos, sob nenhum pretexto, nos separar do povo, 
pois, por mais retrógrado e limitado que seja, é ele, e não o ideólogo, o motor 
indispensável de toda revolução social. Por acaso nós, como os social-democratas, temos 
algum interesse que queremos promover que é diferente daqueles da grande massa 
trabalhadora? Interesses de partido, de seita ou facciosos? É o povo que deve vir a nós ou 
somos nós que devemos ir ao povo, viver sua vida, ganhar sua confiança e estimulá-lo, 
tanto com palavras quanto com o exemplo da resistência, da revolta e da revolução?

Essa é a argumentação dos sindicalistas. Porém, eu não vejo como seus argumentos 
contrariam o nosso projeto de nos organizar. Ao contrário. Vejo claramente que, se essa 
argumentação tivesse qualquer valor, o sindicalismo também seria contrário ao próprio 
anarquismo, que é uma doutrina que busca distinguir-se do sindicalismo e recusa ser 
absorvida por ele.

Organizados ou não, os anarquistas (entendo por esse termo aqueles de nossa tendência, que 
não separam arbitrariamente o anarquismo do proletariado) não esperam, por quaisquer 
meios, ter autorização para agir com a função de "chefes supremos", conforme a letra da 
Internacional. Nós, voluntariamente, atribuímos um lugar de destaque, no campo da ação, 
para o movimento operário, convencidos, como temos estado há muito tempo, de que a 
emancipação dos trabalhadores deve estar nas mãos daqueles interessados ou ela não acontecerá.

Em outras palavras, em nossa opinião, o sindicato não deve ter uma função corporativa ou 
profissional, como pretendem os socialistas guesdistas, e, com eles, alguns anarquistas 
que se agarram às fórmulas antigas. O tempo do puro corporativismo terminou; esse é um 
fato que poderia, em princípio, ser contrário a conceitos prévios, mas que deve ser aceito 
com todas as suas conseqüências. Sim, o espírito corporativista, ao tender cada vez mais a 
tornar-se uma anomalia, um anacronismo, está dando espaço ao espírito de classe. E isso, 
escutem o que digo, não acontece graças a Griffuelhes nem a Pouget - é o resultado da 
ação. Na realidade, foram as necessidades de ação que obrigaram o sindicalismo a levantar 
sua cabeça e ampliar suas concepções. Atualmente, o sindicato operário  está a caminho de 
tornar-se, para os proletários, o que o Estado é para a burguesia: a instituição política, 
por excelência; um instrumento essencial na luta contra o capital, uma ferramenta de 
defesa ou de ataque, em acordo com a situação.

Nossa tarefa, como anarquistas, ou seja, aqueles que são a fração mais avançada, audaz e 
livre deste proletariado militante organizado, é estar sempre ao seu lado e lutar nas 
mesmas batalhas, confundido-se com ele e defendê-lo dele próprio, o que não 
necessariamente é o inimigo menos perigoso. Em outras palavras, queremos prover essa 
enorme massa em movimento, que é o proletariado moderno, eu não digo de uma filosofia e de 
um ideal, algo que poderia parecer presunçoso, mas de um objetivo e dos meios para a ação.

Está longe de nós a absurda idéia de querer nos isolar do proletariado; isso seria, 
sabemos muito bem, nos reduzir à impotência das arrogantes ideologias, das abstrações 
vazias e de todo o ideal. Organizados ou não, os anarquistas permanecerão fiéis ao seu 
papel de educadores, estimuladores e guias das massas trabalhadoras. E se hoje temos em 
mente a associação em grupos de bairros, cidades, regiões ou países, e a federação desses 
grupos, isso, antes de tudo, tem o objetivo de dar mais força e continuidade à nossa ação 
sindical.

O que mais freqüentemente falta naqueles de nós que lutam no mundo do trabalho é o 
sentimento de ser apoiado. Os sindicalistas social-democratas têm, por trás de si, o poder 
constantemente organizado do partido, do qual eles, algumas vezes, recebem suas 
orientações e, a todo momento, inspiração. Os anarquistas sindicalistas, por outro lado, 
estão abandonados a si mesmos e, fora do sindicato, não possuem qualquer ligação real 
entre eles ou aos seus outros companheiros. Eles não possuem qualquer apoio e não recebem 
ajuda. Por isso, pretendemos criar essa ligação, proporcionar esse apoio constante; e eu 
estou pessoalmente convencido de que a união de nossas atividades só pode trazer 
benefícios, tanto em termos de energia, quanto de inteligência. E quanto mais fortes 
formos - e só seremos fortes nos organizando - mais forte será o fluxo de idéias que 
poderemos sustentar no movimento operário, que irá, aos poucos, ser impregnado do espírito 
anarquista.

Mas esses grupos de trabalhadores anarquistas, que esperamos ver criados em um futuro 
próximo, não têm outro papel senão influenciar as grandes massas proletárias 
indiretamente, por meio de um distinto grupo militante e impulsioná-las sistematicamente 
às resoluções heróicas, ou seja, preparar a revolta popular? Os nossos grupos terão de se 
limitar ao aperfeiçoamento da educação dos militantes, manter neles vivo o espírito 
revolucionário, permitir a uns conhecerem os outros, trocar idéias, ajudar uns aos outros 
em qualquer momento? Em outras palavras, eles terão sua própria ação para levar a cabo 
diretamente? Eu acredito que sim.

A revolução social, quer se imagine que ela terá a forma de uma greve geral ou de uma 
insurreição armada, só pode ser obra das massas que irão beneficiar-se dela. Mas todo 
movimento de massas é acompanhado de atos, cuja verdadeira natureza - suponho, cuja 
natureza técnica - implica que eles sejam levados por um número limitado de pessoas, pelo 
setor mais perspicaz e ousado do movimento de massas. Durante o período revolucionário, em 
cada bairro, em cada cidade, em cada província, nossos grupos anarquistas formarão 
pequenas organizações de luta, que tomarão aquelas medidas especiais e delicadas que a 
ampla massa quase sempre é incapaz de tomar. É claro que os grupos devem, mesmo agora, 
estudar e estabelecer essas medidas insurrecionais para não ser, como freqüentemente 
acontece, surpreendidos pelos acontecimentos.

O objetivo principal, regular e contínuo de nossos grupos é, vocês já devem supor, a 
propaganda anarquista. Sim, iremos nos organizar, sobretudo, para espalhar nossas idéias 
teóricas, nossos métodos de ação direta e o federalismo universal.

Até hoje, nossa propaganda tem sido feita somente, ou quase que só, de maneira individual. 
A propaganda individual teve notáveis resultados, sobretudo nos tempos heróicos em que os 
anarquistas eram poucos e, para aumentar suas filas, precisavam de um espírito de 
proselitismo que remonta ao cristianismo primitivo. Mas isso tem de continuar a acontecer? 
A experiência me obriga a confessar que não.

Parece que o anarquismo tem passado por um tipo de crise nos últimos anos, pelo menos na 
França. As causas dessa crise são, claramente, muitas e complexas. Não é meu objetivo aqui 
estabelecer quais são essas causas, mas preocupa-me se a falta total de acordo e de 
organização não é uma delas.

Há muitos anarquistas na França. Eles estão muito divididos nas questões de teoria; mas, 
ainda mais, na prática. Cada um age da sua própria maneira, como quer; assim, os esforços 
individuais são dispersos e freqüentemente exauridos, simplesmente perdidos. Os 
anarquistas podem ser encontrados em mais ou menos todos os campos de ação: nos sindicatos 
operários, no movimento antimilitarista, entre os livre-pensadores anticlericais, nas 
universidades populares, e assim por diante. O que nos falta é um movimento 
especificamente anarquista, que possa agrupar, sob bases econômicas e operárias, que são 
as nossas, todas aquelas forças que vêm lutando isoladamente até agora.

Esse movimento especificamente anarquista surgirá espontaneamente de nossos grupos e da 
federação desses grupos. A força da ação conjunta, da ação combinada, irá, sem dúvida, 
criá-lo. Não preciso adicionar que essa organização não espera, certamente, abarcar todos 
os elementos essencialmente dispersos que descrevem a si mesmos como seguidores do ideal 
anarquista. Existem, sem dúvida, aqueles que seriam totalmente inadmissíveis. Seria 
suficiente à organização anarquista agrupar, em torno de um programa de ação prática e 
concreta, todos os companheiros que aceitem nossos princípios e que queiram trabalhar 
conosco, de acordo com nossos métodos.

Deixe-me esclarecer que eu não quero entrar em detalhes aqui. Não estou tratando dos 
aspectos teóricos da organização. O nome, a forma e o programa da organização a ser criada 
serão estabelecidos separadamente e depois da reflexão daqueles que apóiam essa organização.

* Tradução: Felipe Corrêa

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