(pt) federacao anarquista gaucha: O lugar da greve na experiência histórica da classe trabalhadora

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Quinta-Feira, 4 de Maio de 2017 - 08:48:43 CEST


Publicamos novamente esta contribuição de um companheiro, escrita e publicada 
originalmente em 2015 no site Passa Palavra. Previamente ao dia nacional de mobilização 
rumo a greve geral no dia 28 de abril e ao dia internacional de luta dos trabalhadores/as, 
reflexão mais que pertinente. ---- FAG ---- É a atividade de resguardar a livre 
organização da classe trabalhadora e sua capacidade de (re)criação permanente que pode 
promover um novo sujeito coletivo e social. Por Edgard Silva* ---- Caminho áspero e 
penoso, mas único. Trabalhos, dores, duras batalhas até ao fato inicial, a destruição dos 
privilégios políticos e econômicos da burguesia; penosos esforços e árdua labuta depois, 
na laboriosa edificação de um mundo novo, e na luta constante contra os germens de uma 
possível degeneração. ---- Neno Vasco

Ao longo de sua história, a classe trabalhadora desenvolveu e aperfeiçoou inúmeros métodos 
de luta e organização para fazer frente aos desmandos dos patrões e do Estado. Marchas e 
demonstrações públicas, obstrução de vias públicas, ocupação de locais públicos ou 
privados, greves, dentre diversas outras criações imaginárias e autônomas que constituem 
uma trajetória de sonhos, esperanças, conquistas, vitórias e também de derrotas, de perdas 
de inestimáveis companheiros.

Entre todos estes métodos, a greve historicamente se destacou por seu peculiar dinamismo e 
capacidade de marcar uma ofensiva dos trabalhadores aos seus algozes. Por melhores 
salários e, sobretudo, por melhores condições de trabalho, especialmente pela redução da 
jornada de trabalho sem redução de salários, a classe trabalhadora desenvolveu uma rica 
experiência histórica que deve ser recorrida e resguardada por todos aqueles que acreditam 
na necessidade de sua emancipação do jugo dos opressores. Sob a bandeira de 8 horas de 
trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso, a classe trabalhadora vivenciou suas 
mais memoráveis batalhas.

O criativo dinamismo que proporciona a greve é, sobretudo, sua capacidade de exigir da 
classe trabalhadora uma ação em conjunto, solidária e que seja capaz de se articular 
através de diversos métodos. Na greve temos a oportunidade de assumir nosso destino pelas 
nossas próprias mãos, sem confiá-lo aos "chefes" de turno, aos espíritos avarentos das 
estruturas de poder do Estado, das patronais e seus instrumentos de propaganda ideológica 
e produção de consensos: os grandes meios de comunicação. É no momento em que os 
trabalhadores param que, pela primeira vez, estes mesmos espíritos avarentos se dão conta 
de que sem o nosso suor podem ser reduzidos a sua insignificância histórica. Por isso sua 
fúria, sua ira descontrolada que procura nos atacar, intimidar e assediar das formas mais 
covardes e vis possíveis. Em linhas gerais, se encontram desesperados por verem as bases 
de seu velho mundo desrespeitadas. Nas greves os trabalhadores têm a oportunidade de 
deixar o rei nu!

A importância dos métodos de luta e organização

Todavia, as greves também são momentos em que nos deparamos com as limitações e as 
"misérias" que também habitam a classe. Na greve temos também de lidar com nossos colegas 
inseguros, seja por espírito vacilante, seja por excesso de assédios, abusos e falta de 
uma maior solidariedade do conjunto de seus companheiros de classe para com a sua situação.

Além disso, não raramente, também há de se lidar com aqueles que, oriundos da classe 
trabalhadora, ao galgar postos em suas organizações, vão aburguesando seu espírito, 
adquirindo hábitos de verdadeiros "xerifes" do destino das reivindicações e anseios dos 
trabalhadores. Adquirindo privilégios econômicos ou não, a sedução que proporciona, o 
prestígio e a fama quando tocada em lideranças que condicionam suas ambições às suas 
próprias carreiras pessoais em detrimento de um projeto histórico, coletivo, de 
empoderamento e emancipação do vasto mundo dos de baixo, tende a criar profundas chagas em 
meio às lutas e organizações de classe. Desorganiza, despolitiza, desmoraliza; canaliza o 
caminho das lutas à gestão de seu pequeno grupo de confiança, ambicioso por manter-se ad 
eternum em seu posto de privilégio.

Prepara o caminho para a pior de todas as derrotas, aquela que nos desmoraliza: a derrota 
sem luta, no covarde e permanente recuo. É por este caminho, a partir do desenvolvimento 
de valores ideológicos, de sentimentos, perspectivas e horizontes que vai se desenvolvendo 
aquilo que conhecemos, tristemente, enquanto burocracia sindical e/ou partido.

Reagir ao desenvolvimento deste trágico fenômeno é, portanto, um caminho determinante 
àqueles que não titubeiam em destinar todas as suas energias à busca de um novo porvir, de 
justiça e igualdade, de socialismo e liberdade. Não se reage a esse fenômeno, portanto, 
sem o desenvolvimento da maior atividade possível para que o conjunto dos trabalhadores 
tomem em suas próprias mãos este projeto histórico. Que pensem e caminhem com suas 
próprias pernas à essa busca criativa. É, portanto, a atividade de resguardar a livre 
organização da classe trabalhadora e sua capacidade de (re)criação permanente que pode 
promover um novo sujeito coletivo e social, capaz de sepultar a injusta e odiosa sociedade 
que conhecemos. Embora toda sociabilidade humana seja marcada, em determinado grau, por 
relações de poder e "autoridade", essa busca não passa pela atividade de chefes, sob pena 
de nascer intoxicada e, portanto, condicionada à morte mais ou menos lenta.

Daí resulta a implacável necessidade de sermos rigorosos com nossos métodos de luta e 
organização muito mais do que o somos em relação à administração e conduta das necessárias 
"negociações" que, ainda que contra nossa vontade, somos levados a ter com nossos algozes. 
Todo conflito termina com algum lado "negociando e cedendo", a não ser que esteja posta a 
possibilidade de um aniquilamento estratégico de alguma das classes em pugna. Negar (ou 
insinuar que se esteja negando) a necessidade de negociação sem a perspectiva de uma 
vitória estratégica em nosso objetivo finalista é um tanto absurdo e sugeri-la não passa 
de devaneio ou, o que é mais recorrente, um artifício retórico para indicar que a força da 
classe trabalhadora reside não em sua capacidade de se colocar em movimento, golpeando de 
forma altiva seus algozes, mas sim na habilidade e no carisma de um pequeno grupo capaz de 
administrar a situação, de negociar de forma "consequente e responsável" as demandas 
coletivas, evitando assim toda sorte de "descontroles", de uma explosão catártica de 
revolta daqueles que julgam controlar.

É com o brio de nossos métodos de luta e organização que somos capazes de impor medidas de 
força que sejam capazes de dobrar nossos inimigos e não apresentar ardilosas medidas que 
ingenuamente podem ser vistas como um recuo dos patrões e governos, quando do que se trata 
é de um sagaz movimento que vai para trás, para frente e para os lados, em suma, que nos 
convida a bailar em sua própria festa.

Com a força das ocupações, dos trancaços, piquetes e barricadas que encontramos a divisão 
crível para a devida definição de quem são nossos companheiros, nossos camaradas. São 
nestes métodos que residem a têmpera e a fibra de nossas greves e lutas, onde pulsa a 
forja de um porvir de socialismo e liberdade tal como se fortalecem os antídotos para as 
degenerações burocráticas que seguem pairando como trágica sombra obscura que conspira 
contra a derradeira vitória de nossa classe.

*Edgard Silva, militante da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e Resistência Popular.

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/04/26/o-lugar-da-greve-na-experiencia-historica-da-classe-trabalhadora/


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