(pt) Federação Anarquista Gaúcha - FAG (CAB): CARTA DE OPINIÃO, MARÇO 2017

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Quarta-Feira, 29 de Março de 2017 - 08:59:42 CEST


O caminho trilhado no andar de cima da política, desde a retirada do PT do governo 
federal, continua conturbado e instável. O que vivemos no último período é apenas uma 
pequena mostra do quanto o reformismo e a conciliação de classes pode favorecer desfechos 
desastrosos para os mais oprimidos. Com muito vitimismo e sem nenhuma autocrítica o PT se 
vê moralmente em bancarrota, com capacidade quase nula de ser oposição e ainda com grandes 
dúvidas de que sua candidatura (a de Lula) possa se efetivar. ---- O governo Temer mal se 
coloca em cena e já desfere golpes absurdos contra os direitos dos mais pobres no país. 
São graves as medidas tomadas em pouquíssimo tempo de atuação. E, apesar da instabilidade, 
da baixa aprovação, as medidas anti-povo seguem e tendem a serem mais duras com a 
aprovação da reforma da previdência, do aumento do custo de vida, do desemprego, das 
privatizações, da quebra e ou entrega das plantas industriais do país, dos investimentos 
tecnológicos que poderiam estar a serviço dos mais necessitados, das necessidades 
coletivas. Colocando nossa biodiversidade, toda nossa riqueza ambiental a venda para as 
transnacionais, ou, quando muito, fazendo "parcerias" - as famosas PPPs - onde nós 
brasileiros entraremos com mão de obra e com recursos públicos para que o capitalismo 
possa, como sempre, se beneficiar com os mega lucros arrancados de nossa terra e de nossa 
gente.

Falando ainda do "andar de cima" é importante destacar que o jogo político na casa dos 
ministérios é esquizofrênico, o troca-troca parece não ter fim. O dedo de Temer para 
indicações dos seus ministros não poderia estar mais de acordo com seus projetos 
políticos, com os interesses privatizadores e com o desmantelamento dos parcos direitos 
sociais que a população brasileira teve nos últimos anos, direitos estes, conquistados com 
muita luta, diga-se de passagem. Nos ministérios estão figuras com um ex-militar, um 
grileiro de terras, e como não poderia faltar, figuras bem queridas do mercado financeiro. 
Nada de surpresa, mas é importante acompanhar as tensas modificações e as conseqüências 
políticas destas para vários setores da população. Sem deixar de lembrar que no governo 
petista não foi muito diferente os arranjos e composições.

O "fio da meada" para aprofundar a judicialização da política como arma de bombardeio em 
"prol da política limpa", do "combate a corrupção", da coesão jurídica por parte das 
elites se chama: Lava Jato. Ela é tudo ao contrário do que se afirma. Ela não se propõe a 
resolver o tema dos desvios, ao contrário, faz gestão dos escândalos a partir de 
interesses políticos estratégicos de fundo. Funciona como o álibi perfeito para os 
detentores de "poder-justiça" no país, sem sombra de dúvidas, aliados a interesses vindos 
de fora, daqueles que nos querem bem servis, dentro do que consideram seu "quintalzinho".

A Lava Jato está longe de descansar. Vale-se de grandes delações como ferramenta, de fatos 
orquestrados para arranjos políticos, com finos objetivos de provocar concertos 
estratégicas dentro do cenário lamacento do parlamento até as luxuosas salas do STF. O 
esquema segue rendendo seus frutos, cada vez mais a maracutaia se mostra gigantesca, os 
caixas 2 apresentados são projeções de pequena escala, perto do que nos omitem os juristas 
e políticos do alto escalão. Não é à toa que a "operação-zelotes", esquema mega 
bilionário, sai de cena ocultando os desvios das grandes sonegadoras.

Mas, vamos ao que nos interessa. Olhamos no andar dos de baixo, no seio dos oprimidos, e 
vemos que as condições de vida digna se tornam cada vez mais difíceis, o custo de vida 
aumenta, o trabalho se precariza mais e mais, a saúde e a educação pública passam por 
grandes modificações que em nada favorecem os pobres do país. Nos últimos levantamentos 
sobre a questão do trabalho no Brasil, os índices de desemprego chegam na casa dos 24 
milhões de pessoas, a violência cresce como consequência da desigualdade social e a 
resposta por parte do estado não poderia ser diferente: responder a desigualdade com mais 
repressão, com mais prisão, com mais chacinas, com maior vigilância/ controle, e com maior 
militarização  de algumas cidades do país, onde o exército está atuando para 
"supostamente" conter a violência social.

A desigualdade nunca foi superada, é verdade, mas não podemos negar algo de inclusão que 
foi alcançado para os mais pobres durante os governos do pt, em que muitas pessoas 
deixaram de passar fome, muitas pessoas pobres foram incluídas no ensino superior, tiveram 
oportunidade de obter casa própria, entre outras questões. Todas medidas pífias perto da 
concentração de renda que não se mexeu uma palha, é verdade. Não deixamos de reafirmar que 
a desigualdade continuou imperando, pois, a distribuição de renda não foi tema importante 
para o governo do PT, não se modificou em nada a estrutura do monopólio e riqueza. Ao 
contrário, a dívida pública, por exemplo, comeu todas as possibilidades de poder avançar 
de verdade em alguns projetos sociais. A soma na balança caiu muito mais para os setores 
privilegiados, obvio. O que gerou imensas confusões e frustrações no seio dos oprimidos. 
Toda a esperança e expectativa de que com um governo do PT o pobre teria seu "lugar ao 
sol" se esvaiu. O resultado de tudo isso no imaginário social foi de desalento, e é 
necessário destacar o fato de que esta frustração, este descontentamento, deu lugar ao 
recalque sobre a política, onde esta virou sinônimo de beneficio ao próprio umbigo, de 
corruptos e corruptores, de desvios, falta de ética, caráter, traição de classe entre 
outros sentimentos.

Em meio a estes sentimentos difusos, de desnorteamento e descrença, podemos observar que o 
discurso conservador teve um crescimento importante no último período. Figuras nefastas 
deste campo surfam como grandes salvadores da moral pública e são melhores recebidos por 
um amplo setor dos mais pobres do país, mais do que os liberais e, inclusive, do que a 
própria esquerda brasileira (em sentido amplo) que apanhou junto com o fracasso da 
conciliação de classes dirigido pelo PT. Este fator é importante de frisar, por que aqui 
não se trata de obra divina, não se trata de fatalidade política, todo este cenário duro é 
responsabilidade de quem governou para conciliar, de quem traiu as bases de seus 
sindicatos buscando estruturas e aparelhando demandas populares, é responsabilidade de 
quem amordaçou setores sociais com as ilusões reformistas. Não há conciliação possível com 
aqueles que nos exploram.

A conta do fracasso do PT cobra todo mundo, querendo nós ou não. O desalento da esquerda, 
a confusão da população de modo geral, o recalque, a falta de iniciativa, o fraco 
enraizamento nos espaços de organização dos oprimidos são os obstáculos que enfrentamos na 
hora de fazer resistência, unidade, capacidade de mobilização e solidariedade de classe. 
Não podemos deixar de apontar os culpados deste cenário injusto, não podemos deixar de dar 
combate as ideias que queiram repetir as mesmas receitas dos traíras conciliadores.

A resistência ao arrocho não vira das receitas reformistas de plantão

Já havíamos afirmado antes que a tarefa para nós enquanto campo libertário, em conjunto 
com os setores combativos da esquerda é de reconstituir o tecido social, de baixo para 
cima, reafirmando a inserção social e as ferramentas de organização e luta dos oprimidos. 
Falar alto sobre o trabalho de base, contrapor os projetos pró-patrão, denunciar a 
burocracia e a traição de classe, como dito antes, cometida por diversas figuras do 
movimento popular e sindical. Organizar a bronca dos de baixo em meio a difícil conjuntura 
que enfrenta o Brasil não é tarefa fácil. Requer em primeiro lugar uma boa economia de 
forças, análise criteriosa do momento social-político e uma tática capaz de unificar 
setores de esquerda em torno de pautas vitais a nossa classe. Requer também capacidade de 
criar grupos com militância comprometida no trabalho de médio e longo prazo. Sem 
esquecer-nos da construção de um programa mínimo de reivindicações possível de ser peleado 
junto com outras agrupações combativas.

O caminho para a resistência continua sendo a rebeldia, a mobilização e organização pela base.

A greve geral é, para nós anarquistas, uma ferramenta histórica que não pode ser 
desprezada e precisa ser construída. Mas não é possível construir uma greve geral sem 
inserção social, sem referências políticas de combatividade, sem unidade de ação e 
solidariedade de classe. A chamada soa como discurso vazio vinda de alguns setores que a 
tempos só se movem em torno de aparelho e legendas. O reformismo, e nem a isso chegou o 
PT, não pode nos dar alternativas ao ajuste e a criminalização. É necessário construir as 
nossas relações sociais de luta, marcando outra perspectiva. Sem sectarismos e dogmas, 
fortalecer as fileiras de oposição ao ajuste, com as pautas mais sentidas dos de Baixo e 
forjar comprometimento a um projeto de mudança de baixo para cima. Atuar para durar e 
durar para combater a retirada de direitos deve ser o caminho. Certamente esta não é uma 
receita mágica, tampouco é novidade para nós que o caminho está por fora das estruturas do 
Estado, mas o momento exige uma proposta que reafirme isso e que nos coloquemos a obra com 
os aqueles que entendam a urgência de modificar a correlação de força.

Nem as convocações "por cima" ditada pelas direções afastadas do trabalho de base, nem as 
eleições diretas ou indiretas podem mudar o cenário político a favor mais dos pobres do país.

Os aliados táticos para este momento são aqueles e aquelas que reconhecem a necessidade de 
superar os malefícios da conciliação e que podem, sem sectarismo, ajudar a forjar 
solidariedade de classe contra o ajuste e a repressão. Os aliados estratégicos só podem 
ser fruto do trabalho nosso de cada dia; são aqueles e aquelas que defendemos "as ganhas" 
serem os sujeitos de mudança, que são todos que se colocam em luta, que não aceitam as 
injustiças dos de cima, que não se dobram para os achaques e mordaças.

Fortalecer a construção de um programa de resistência ao ajuste e defesa dos direitos. 
Buscar através deste, fazer unidade com os setores independentes, de base e de luta. Fazer 
unidade pelo viés social, pelas demandas mínimas e urgentes da população. Buscar consignas 
para fazer frente de unidade em defesa da nossa aposentadoria, do nosso emprego, de 
recursos públicos para a educação e a saúde públicas, de combate a violência contra os 
povos do campo, ao povo negro, as mulheres e contra o controle e a violência de estado, 
seu aparato repressivo e suas prisões.

Ousar lutar, ousar vencer!

Nenhum direito a menos!

Solidariedade e mobilização contra o ajuste e a repressão!

FAG - Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira - CAB

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/03/26/carta-de-opiniao-marco-2017/


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