(pt) anarkismo.net: O que é Anarquismo? by Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

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Quinta-Feira, 23 de Março de 2017 - 10:23:49 CET


Neste momento, em que tem havido, por um lado, uma ampla retomada de interesse nos 
pensamentos e na prática anarquista e, por outro, pouco conhecimento do tema, nos propomos 
a contribuir, neste breve texto, para que o anarquismo seja melhor e mais adequadamente 
conhecido. ---- O que é Anarquismo? ---- Coordenação Anarquista Brasileira ---- "O 
anarquismo não é uma bela fantasia e nem uma ideia filosófica abstrata, mas um movimento 
social das massas trabalhadoras." ----Dielo Truda, 1926 ---- Neste momento, em que tem 
havido, por um lado, uma ampla retomada de interesse nos pensamentos e na prática 
anarquista e, por outro, pouco conhecimento do tema, nos propomos a contribuir, neste 
breve texto, para que o anarquismo seja melhor e mais adequadamente conhecido. ---- 
ABANDONAR O SENSO COMUM E AS POSIÇÕES DE ADVERSÁRIOS E INIMIGOS

Conhecer o anarquismo não é tarefa simples, visto que em torno deste termo há sentidos 
estabelecidos pelo senso comum e pelas afirmações de adversários e inimigos dos anarquistas.

Por isso, antes de tudo, é importante abandonar posições deste tipo, que afirmam que o 
anarquismo é sinônimo de caos, desordem ou mesmo uma doutrina pequeno-burguesa, idealista, 
individualista, espontaneísta, contrária à organização.

Estas afirmações não possuem qualquer fundamento histórico.

150 ANOS DE HISTÓRIA NO MUNDO TODO

Responder o que é o anarquismo implica analisar uma experiência histórica extensa, que tem 
por volta de 150 anos, e que envolveu uma expressiva quantidade de trabalhadores e 
trabalhadoras do mundo todo. Desde meados do século XIX, o anarquismo existe permanente e 
globalmente, mesmo que entre fluxos e refluxos.

Foi em meio aos movimentos da classe oprimida - que se desenvolviam num contexto de 
fortalecimento do capitalismo, do Estado, contrapondo-se a eles - que o anarquismo surgiu 
e se espalhou. Isso ocorreu por meio da interação entre pensamento e ação, entre produção 
teórica e prática nos movimentos populares.

Em sua história, o anarquismo foi responsável por impulsionar mobilizações que não somente 
conquistaram importantes reformas para os oprimidos, mas também, em diversos casos, por 
estimular episódios de transformação revolucionária de maior envergadura.

Por isso, a mencionada resposta só pode ser dada, adequadamente, por meio de uma análise 
mais ou menos detida desta grande e heroica história.

DEFININDO O ANARQUISMO

Apresentamos a seguir uma resposta, uma definição de anarquismo e, em seguida, uma 
discussão para aprofundá-la.

O anarquismo é uma ideologia, uma doutrina política, um tipo antiautoritário de socialismo 
revolucionário que tem por objetivo mobilizar os trabalhadores de todos os tipos 
(assalariados da cidade e do campo, camponeses, pescadores e demais povos tradicionais, 
precarizados, marginalizados e pobres em geral), por meio de uma determinada estratégia, 
para levar a cabo uma revolução social que acabe com a dominação e que estabeleça a 
autogestão, o federalismo, a igualdade e a liberdade. Fundamentado numa crítica social a 
todos os tipos de dominação - sejam elas de base econômica, política ou cultural e, 
portanto, de classe, de gênero, de raça, de nacionalidade etc. -, o anarquismo pretende 
chegar a uma sociedade autogestionária, federalista, igualitária e libertária - em que a 
propriedade seja socializada, em que o próprio povo governe a si mesmo, e que uma cultura 
concordante fundamente todo este projeto de socialização generalizada. Os meios para isso, 
condizentes com tais objetivos, implicam a constituição de uma força social classista e 
combativa, que tenha por base este conjunto de sujeitos oprimidos, e que possa intervir 
nas lutas de classes por meio de processos que envolvam: participação crescente dos 
membros, construção pela base, estímulo à luta consciente e ao engajamento voluntário, 
independência dos inimigos de classe e suas estruturas.

APROFUNDANDO A DEFINIÇÃO

O anarquismo possui como fundamento uma determinada ética, que tem servido para subsidiar 
suas críticas e proposições, suas propostas "destrutivas" e "construtivas", a qual se 
baseia num conjunto de valores como a defesa da liberdade individual e coletiva; da 
igualdade em termos econômicos, políticos e sociais; da solidariedade e do apoio mútuo; o 
estímulo permanente à felicidade, à motivação e à vontade.

É com base nesta ética pautada em valores que os anarquistas têm realizado uma dura 
crítica aos diferentes tipos de dominação existentes na sociedade, sejam elas de classe e 
de outros tipos. O sistema capitalista-estatista é, assim, compreendido como uma estrutura 
de dominação em todos os níveis. A dominação de classe é um de seus aspectos mais 
marcantes e os outros tipos de dominação, em geral, ocorrem ao mesmo tempo que ela, sem, 
entretanto, estarem em posição subordinada.

O anarquismo formulou uma crítica à dominação, baseada na oposição à dominação/exploração 
econômica, dos sistemas capitalista e pré-capitalista; da dominação político-burocrática e 
da coação física, levadas a cabo pelo Estado; da dominação cultural/ideológica, perpetrada 
pela religião, pela escola e, mais recentemente, pela mídia.

Por isso, podemos dizer que o anarquismo é, ao mesmo tempo, anticapitalista e antiestatista.

E não é somente contra o "Estado burguês" ou o "Estado capitalista" que os anarquistas vêm 
lutando. Segundo compreendem, o Estado não é um instrumento que pode ser utilizado por 
quaisquer classes e com quaisquer finalidades. Trata-se de um instrumento de minorias, 
essencialmente dominador e que promove, em todos os casos, a dominação de classe. Se por 
um lado ele pode ser diretamente utilizado pelas classes dominantes para sua dominação 
direta ou mesmo para manter a ordem e, assim, garantir seus interesses, ele também tem a 
capacidade de criar, por si mesmo, outra classe dominante: a burocracia.

A crítica do anarquismo às experiências do "socialismo real" vão neste sentido: 
considera-se, em geral, que os partidos comunistas, ao tomarem o Estado em nome do 
proletariado, constituíram uma nova burocracia, que deu continuidade à dominação do povo.

É possível verificar que as classes e a luta de classes têm sido compreendidas como algo 
que está para além do campo do trabalho. As classes não são somente um conceito econômico 
definido pela exploração do trabalho (detentores dos meios de produção, burguesia, e 
aqueles que nada possuem exceto sua força de trabalho, proletariado). Entre os anarquistas 
foi muito comum conceber as classes com critérios mais amplos que estes, envolvendo não 
apenas a propriedade dos meios de produção, mas também a propriedade de capital, dos meios 
de coerção, controle, administração e de produção do conhecimento.

Desta maneira, no século XIX, por exemplo, não somente a burguesia era considerada uma 
inimiga de classe, mas também a nobreza, incluindo os "soberanos" e o clero; dentro da 
classe oprimida, deserdada, dominada, explorada, estariam não somente o proletariado 
urbano e industrial, mas todos os trabalhadores e trabalhadoras das cidades e dos campos, 
abarcando, assim, também, proletariado do campo, camponeses, pessoas desempregadas, as 
lutas nas questões econômicas dos trabalhadores migrantes, as ações indígenas de 
inspiração libertária no Peru e México e pobres em geral.

Atualmente, este critério implica que se considerem inimigos de classe não apenas os 
proprietários dos meios de produção, mas também os especuladores financeiros, a cúpula do 
exército, os juízes, os proprietários dos grandes meios de comunicação, "os cabeças" das 
grandes religiões etc.

A dominação de classe ocorre, ao mesmo tempo, num campo mais particular (dono de uma 
fábrica versus seus trabalhadores, latifundiário versus camponeses sem-terra etc.) e num 
campo mais geral - reduzindo as diferentes classes em dois grandes conjuntos: classe 
dominante e dominada, classe privilegiada e deserdada, classe opressora e classe oprimida ...
Para além do campo particular, a luta de classes também se manifesta - e esta é sua forma 
mais relevante - entre estes dois amplos conjuntos. Tal é o conflito chave das sociedades 
de nosso tempo.

Dominações que não são necessariamente de classe, como as de gênero (machismo), de raça 
(racismo) e de nacionalidade (imperialismo), também são alvo das críticas anarquistas. 
Elas não ficam relegadas a um segundo plano e também não são consideradas uma mera 
decorrência da dominação de classe.

Assim, é possível ver por que os anarquistas consideram que as sociedades modernas e 
contemporâneas, na imensa maioria dos casos, devem ser caracterizadas como sociedades, 
sistemas, estruturas em que há dominação em todos os níveis; se é possível dizer que a 
dominação de classe é um de seus traços mais marcantes, também não se pode negar que 
outros tipos de dominação, que afetam todas as classes, estão ao mesmo tempo presentes.

Esta crítica, estabelecida a partir de bases racionais e de uma análise da realidade, 
considera, levando em conta a ética e os valores anarquistas, que o capitalismo, o 
estatismo e outros fatores que implicam dominação cotidiana são ruins e prejudiciais para 
a imensa maioria das pessoas, e que, portanto, devem ser modificados. Encontra-se na 
própria base do anarquismo a noção de que os sistemas de dominação, como no caso deste que 
hoje vivemos, devem ser transformados em outros, autogestionários, federalistas, 
igualitários e libertários.

Mas como esta transformação deve ser levada a cabo? Apesar de haver diferenças entre as 
estratégias propostas pelos anarquistas (algo que fundamenta a definição das correntes 
anarquistas), há uma linha comum que caracteriza a prática de todos os anarquistas e é por 
eles compartilhada.

O anarquismo busca combater a dominação em geral, e a dominação de classe em particular. A 
partir da noção de que nossa sociedade implica dominação em todos os níveis e que as 
classes sociais são componentes importantes desta realidade, os anarquistas lutam para 
acabar com a dominação.

Se a dominação de classe é central e mantida como bandeira de luta em todos os momentos, 
considera-se também fundamental combater, ao mesmo tempo, outros tipos de dominação. 
Machismo, racismo, imperialismo etc., não devem ser deixados para um segundo momento e nem 
mesmo serão automaticamente resolvidos com a solução do conflito de classes.

Para promover a transformação social, o anarquismo propõe que se empreenda uma prática 
política classista, que possa intervir na correlação de forças da sociedade e em suas 
relações de poder. Os anarquistas pretendem transformar a capacidade de realização de 
trabalhadoras e trabalhadores, aquilo que eles têm o potencial de realizar, numa força 
social viva e real, aplicando-a nos conflitos sociais e na luta de classes e buscando 
permanentemente aumentá-la. Isso significa aproveitar o potencial que não está sendo 
utilizado de todas as pessoas oprimidas e colocá-las em prática, de maneira a intervirem, 
realmente, na correlação de forças que constitui a sociedade.

Este aumento de força social, mais comumente buscado nas lutas classistas, protagonizadas 
diretamente por trabalhadoras e trabalhadores, pode ser buscado nas lutas de raça, de 
gênero, de nacionalidade, mas, nestes casos, a luta exige uma perspectiva classista, 
internacionalista e revolucionária.

Mas quem são esses trabalhadores e trabalhadoras que os anarquistas têm historicamente 
mobilizado? São todas pessoas que fazem parte da classe dominada, oprimida, despossuída.

O anarquismo não se caracteriza pela eleição, fora de contexto, de um sujeito histórico 
dado de antemão, como acreditam aqueles que defendem ser o proletariado urbano e 
industrial necessariamente o protagonista da mudança.

Ele se caracteriza, distintamente, pelo investimento na mobilização de pessoas 
assalariadas da cidade e do campo, camponeses, precárias, marginalizadas e pobres em 
geral. Ao mobilizar estes sujeitos, os anarquistas sustentam que, para que encabecem uma 
transformação revolucionária, eles devem estar conscientes e querer a mudança, e é por 
isso que o estímulo à consciência de classe e à vontade de mudança são tão enfatizados. 
Por isso, no anarquismo, os sujeitos não são completamente determinados pelas estruturas; 
suas relações sociais, lutas e culturas contribuem para seu engajamento nos processos 
emancipatórios.

Além disso, em sua prática política, o anarquismo demonstra uma coerência entre objetivos, 
estratégias e táticas, ou seja, uma coerência entre fins e meios. Trata-se da necessidade 
de se trilhar caminhos que conduzam aos objetivos desejados. No anarquismo, defendeu-se 
permanentemente a ideia de que as práticas de hoje devem apontar para a nova sociedade em 
que se quer viver amanhã.

Por isso, se a sociedade futura defendida é autogestionária, federalista, igualitária e 
libertária, os meios utilizados nas lutas presentes devem contribuir neste sentido. Não se 
cria uma sociedade sem Estado por meio do reforço do Estado. Não se cria uma sociedade com 
autogestão do trabalho por meio da militarização.

Os anarquistas vêm defendendo que suas lutas devem estar atravessadas pelos princípios 
libertários e, portanto, não podem promover a dominação, seja entre os próprios 
anarquistas ou na relação entre anarquistas e outras pessoas, grupos, organizações, 
movimentos.

Vêm ainda sustentando a necessidade da independência e da autonomia de classe. O que 
implica a recusa das relações de dominação estabelecidas com partidos políticos, Estado, 
outras instituições ou pessoas, garantindo o protagonismo popular da classe oprimida, a 
ser promovido nas construções das lutas pela base, de baixo para cima, envolvendo a ação 
direta.

O anarquismo também tem se apoiado no internacionalismo, que sustenta, não apenas a recusa 
do nacionalismo, mas a necessidade de mobilização classista para além das fronteiras 
nacionais, numa crença clara de que a internacionalização da revolução é central em seu 
projeto.

Tal é, em linhas gerais, o caminho que tem sido trilhado pelos anarquistas para promover 
uma revolução social, que possa transformar a sociedade no sentido colocado. A violência, 
neste processo, é aceita, na maioria dos casos, como ferramenta inevitável para a mudança, 
especialmente em função da reação das classes dominantes.

A revolução social defendida pelos anarquistas implica transformações de fundo em todas as 
esferas da sociedade e não se encontra dentro dos marcos do sistema de dominação presente. 
Ela deve acabar com a dominação em geral, e o capitalismo, o Estado, as classes sociais e 
as instituições dominadoras em particular.

Uma nova sociedade deve ser não apenas socialista, mas também se pautar em princípios como 
autogestão e federalismo e, assim, contar com a socialização da propriedade, a 
administração política feita de baixo para cima, pelas próprias pessoas oprimidas, assim 
como uma cultura libertária condizente. Deve ser uma sociedade que garanta a todos e 
estimule permanentemente a igualdade, a liberdade, a solidariedade, o apoio mútuo e a 
felicidade.

GRANDES DEBATES

Quais têm sido os grandes debates entre os anarquistas? Apesar de haver diferenças na 
maneira de analisar a sociedade e em relação às concepções sobre a forma que a sociedade 
futura deve adquirir - se deve distribuir os produtos do trabalho de acordo com a 
necessidade ou com o trabalho realizado, se deve ser gerida por sindicatos, conselhos ou 
bairros, etc. - , as divergências mais importantes se encontram no campo das estratégias.

Na história do anarquismo houve três grandes questões em relação às quais os anarquistas 
discordaram e, em alguma medida, ainda discordam: organização, reformas e violência.

No primeiro caso, uma minoria mostrou-se contrária à organização em qualquer nível, 
priorizando, no máximo, os grupos informais, e uma maioria defendeu a necessidade de 
organização. Dentre estes últimos, foi mais comum a escolha da organização exclusiva no 
nível de massas, especialmente nos sindicatos, mas houve também uma parcela considerável 
que defendeu o dualismo organizacional, a organização em dois níveis: de massas e 
ideológico. Neste último caso, os anarquistas se organizam em organizações de massas, como 
trabalhadores, e em grupos e organizações políticas, como anarquistas.

No segundo caso, uma minoria se posicionou contra as reformas, por acreditar que elas não 
resolveriam os principais problemas sociais e, mesmo, por sustentar que elas prejudicariam 
a chegada de uma revolução. Para estes anarquistas, era necessário promover imediatamente 
a revolução e os ganhos de curto prazo seriam não somente inúteis, mas prejudiciais. Uma 
maioria defendeu a luta pelas reformas, a depender de como ela fosse levada a cabo, como 
um caminho para a revolução. Para estes outros anarquistas, se a luta pelas reformas fosse 
feita pelas próprias pessoas oprimidas, estimulada pelos princípios anarquistas, isso 
seria não apenas pedagógico, mas proporcionaria condições de se avançar para uma 
transformação de maior envergadura.

No terceiro caso, uma minoria compreendeu que os atos de violência, em geral isolados, 
poderiam mobilizar pessoas para um projeto revolucionário. Atentados e assassinatos 
teriam, na compreensão destas pessoas, um potencial para gerar solidariedade e impulsionar 
os trabalhadores para as ruas. Tal concepção ficou conhecida como a "propaganda pelo 
fato". Uma maioria, entretanto, defendeu que a violência não possuía, por si só, esse 
potencial mobilizador e deveria, no caso de ser utilizada, vincular-se aos movimentos de 
massas e ser estrategicamente discutida.
* * *
Nestes debates, nós, os especifistas, temos adotado posições muito claras. Defesa do 
dualismo organizacional (necessidade da organização anarquista e das organizações 
populares funcionando ao mesmo tempo e se apoiando de modo complementar), das lutas por 
reformas como um possível caminho para a revolução (pautando nestas lutas de curto prazo 
nossa estratégia de massas) e da necessidade de violência em forma de lutas avançadas 
vinculadas aos movimentos populares e discutidas estrategicamente.
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