(pt) quebrando muros - Oito de Março: a luta por um feminismo abaixo e à esquerda!

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Domingo, 12 de Março de 2017 - 12:07:28 CET


Em memória ao dia 8 de Março, marco histórico de lutas pela emancipação das mulheres 
trabalhadoras, negras, indígenas e desempregadas, retomamos brevemente a trajetória de 
duas militantes que demonstraram a força do espírito revolucionário das mulheres oprimidas 
quando organizadas:  Angela Davis e Elvira Boni de Lacerda. ---- Num momento onde a 
repressão se intensificava contra o avanço dos movimentos sociais, uma palavra para 
definir Davis é a resistência. Nascida em 1944, Angela conseguiu uma bolsa de estudos na 
Greenwich Village, em Nova York, afastando-a de seu estado, Alabama, um dos estados mais 
racistas do país. É nessa escola que desde menina ela teve contato com a militância 
organizada. ---- Na década de 70, já militante do grupo Panteras Negras e do Partido 
Comunista, Davis milita ativamente para que a população apoie a luta contra a prisão de 3 
militantes do Panteras Negras, que sofriam com a perseguição política.

A partir disso, surge uma justificativa da polícia para prendê-la, sobre a acusação de 
fornecer armas na realização de um sequestro e morte de um juiz. Ela então foge e fica por 
cerca de 2 meses foragida e sendo procurada pela polícia e pela mídia, sendo colocada no 
topo de uma lista com "os foragidos mais perigosos". Assim como Assata Shakur, outra 
mulher negra revolucionária duramente perseguida pelo Estado, que hoje vive com asilo 
político em Cuba, e ainda consta na lista de procurados pelo FBI sendo citada recentemente 
por Donald Trump (presidente dos EUA) que deseja extraditá-la como uma criminosa.  O 
exemplo de mulheres revolucionárias pretas que  se colocaram para combater a opressão do 
Estado e do capital demonstra como  a luta organizada ameaça a manutenção do sistema de 
exploração. Angela Davis trouxe contribuições importantes também em âmbito acadêmico para 
analisar nossa sociedade que fundamenta sua base combinando a exploração econômica (a 
divisão social em classes: trabalhadores e capitalistas), a dominação masculina (o 
patriarcado, a divisão sexual do trabalho) e o supremacismo branco (o racismo, o genocídio 
de negros, indígenas, etc. Com o colonialismo europeu).

Na América Latina também não nos faltam exemplos de guerreiras presentes na luta e 
organização das de baixo!

Elvira Boni de Lacerda (1899-1990), filha de imigrantes italianos, nasceu no interior de 
São Paulo, em Espírito Santo do Pinhal, e ainda menina, aos oito anos, mudou-se com sua 
família para o Rio de Janeiro, no bairro Cordovil. Ao ter que cuidar de um de seus irmãos, 
que ficou doente, Elvira não chegou a completar o curso primário. Já aos doze anos, em 
1911, começou a trabalhar como aprendiz de costureira na Rua Uruguaiana, sem receber 
inicialmente qualquer forma de pagamento. Mais tarde, ela passou a ganhar seu primeiro 
salário, no valor de 10 mil réis. A jornada diária de trabalho nessa época variava entre 
11 a 14 horas seguidas, sendo que quando o serviço apertava, prolongava-se até as 20 e 22 
horas. Nessa época Elvira acompanhava seus irmãos mais velhos com frequência às reuniões 
da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, onde muitas ideias anarquistas se difundiam.

Elvira, contudo, já conhecia as ideias socialistas antes de se aproximar da Liga 
Anticlerical e iniciar sua vida sindical e política. Dentro de casa, com seu pai, um 
operário metalúrgico que tinha influência de amigos socialistas e tendências libertárias, 
e que veio a frequentar o "Círculo Socialista Dante Alighieri", ela teve, desde início, 
contato com o socialismo. A partir de 1912 ela passou a escrever frequentemente para o 
jornal O Operário, e em seus escritos se observava uma postura anticlerical combativa aos 
costumes e moral da época.

Com o passar do tempo, ao adquirir experiência na costura, Elvira torna-se, então, 
costureira profissional e começa a alargar seus horizontes revolucionários lendo os 
jornais operários e anarquistas. Depois de passar por algumas oficinas de costura, ela 
teve de optar entre montar seu próprio negócio ou fazer o trabalho sindical, mas suas 
ideias a levaram ao trabalho sindical. Em Maio de 1919, junto com 50 companheiras de 
profissão - dentre elas Elisa Gonçalves de Oliveira, Aida Morais, Isabel Peleteiro, Noêmia 
Lopes e Carmen Ribeiro -, fundou a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas da 
qual foi tesoureira até 1922.  A organização passou a funcionar na sede da União dos 
Alfaiates do Rio de Janeiro, na Rua Senhor dos Passos, visto que nesse tempo era comum 
mais de uma organização operária no mesmo local, dividindo entre si as despesas da sede.

Sua vida como atriz iniciou em 1912, quando Elvira estreou no teatro social em uma 
representação da peça de Neno Vasco "O Pecado de Simonia", e de 1919 a 1922 atuou em 
diversas peças de cunho social, integrando o Grupo Dramático 1º de Maio. Foi devido a sua 
participação nesse grupo de teatro operário que Elvira conheceu seu futuro esposo, Olgier 
Lacerda, um dos 12 fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922.

Em 1922, a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas fechou, segundo depoimento 
de Elvira, por falta de interesse das mulheres em participar do movimento sindical, que 
era decorrente do medo que tinham da repressão patronal e do fato de se verem mais como 
artistas do que como operárias, situação que atrapalhava o recrutamento para a ação 
sindical. O casamento de Elvira e Olgier Lacerda coincidiu com o fechamento da entidade, e 
entre 1925 e 1929 o casal foi morar no Rio Grande do Sul, onde nasceram suas filhas Vanda 
(atriz Vanda Lacerda) e Zeni. Em 1938, Elvira foi morar em Santa Teresa, na cidade do Rio 
de Janeiro e em 1949 fundou junto com outras mulheres a Associação de Senhoras de Santa 
Teresa, que desenvolveu importante trabalho comunitário de proteção à infância, por 
melhorias comunitárias e contra a carestia.

Elvira Boni de Lacerda faleceu com 91 anos no Rio de Janeiro, em 1990. Sua história, assim 
como a de muitas mulheres, nos reafirma que a luta de classes faz parte da luta das 
mulheres trabalhadoras, e que estas constituem uma das camadas sociais que mais se 
prejudica com a desigualdade causada pelo capitalismo e com a sociedade hierárquica. As 
conquistas sociais das mulheres exploradas só se realizaram devido à luta erguida por 
revolucionárias como Elvira.

Vemos a emergencia de manifestações massivas na Argentina e em outros países. E nestes 
momentos a classe dominante tenta a todo custo frear a luta popular, seja por meio da 
repressão ou da incorporação de alguns elementos. Por isso retomamos na história a 
perspectiva de uma luta das mulheres por uma transformação social profunda. É preciso 
fugir da concepção indivdualista de empoderamento para avançar rumo à emancipação integral 
das mulheres, com autonomia e independência de classe!

No dia 8 de Março de 2017, convocamos todas as pessoas que compreendem a importância da 
luta feminista à baixo e a esquerda para compor as mobilizações que ocorrerão nessa data 
em Curitiba, entendendo que a luta deve ser pautada pelas necessidades das pessoas 
oprimidas, ou seja, as mulheres da classe trabalhadora, negras, camponesas, indígenas e 
LGBTs. A nossa luta, além de tudo, deve ser diária, articulando as demandas das mulheres 
em todos os espaços em que estamos presentes, na luta por moradia, educação, saúde, etc. 
Para construir uma mobilização desde a base,  forte ombro a ombro!

https://quebrandomuros.wordpress.com/2017/03/08/oito-de-marco-a-luta-por-um-feminismo-a-baixo-e-a-esquerda/


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