(pt) [Curdistão] Jineoloji - A luta de libertação das mulheres curdas e a Jineoloji By A.N.A. (en)

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Quarta-Feira, 8 de Março de 2017 - 11:30:15 CET


Jineoloji é uma nova perspectiva científica desenvolvida pelas mulheres curdas desde 2011, 
centrada na realidade social das mulheres a partir de uma perspectiva feminina. Através 
desta nova perspectiva, pretendem propor uma metodologia contrária à da visão masculina 
dominante sobre a existência das mulheres. Querem também contrariar a visão eurocêntrica e 
racista que, através de abordagens científicas de gênero e classe, têm abordado as 
mulheres como objeto de estudo. Desta forma perpetuam as estruturas de poder social, assim 
como os seus métodos de produção de conhecimento. Como afirmam as mulheres curdas, 
Jineoloji emerge como uma resposta, uma intervenção radical e uma epistemologia 
alternativa contra a mentalidade patriarcal no campo das ciências sociais, que serve como 
ferramenta hegemônica do Estado no monopólio da vida humana e da perpetuação da 
modernidade capitalista.

Öcalan - o líder intelectual do movimento de libertação curdo - dá a premissa inicial "A 
mulher é a nação colônia da sociedade-histórica que chegou à pior posição dentro do 
Estado-nação... A escravatura da mulher é a mais profunda e disfarçada área social, onde 
todos os tipos de escravatura, opressão e colonização são postos em prática." (Öcalan, 
Confederalismo Democrático, p 17). A Jineoloji têm como objetivo a revelação de milhares 
de anos de dissimulação da existência das mulheres, das suas identidades, histórias, 
emoções e realidades intelectuais, tal como a sua exploração e escravidão levada a cabo 
pelo capitalismo, a modernidade e os discursos do Estado.

Em resposta a isto, a Jineoloji ambiciona visibilizar a ontologia e a história das 
mulheres, ao expor as suas contribuições ao longo da história das civilizações na 
filosofia, ciência, religião, mitologia e moralidade, entre outros campos. O seu propósito 
é redefinir a ciência através das significações das mulheres e reescrever a ‘história' da 
humanidade através de uma nova perspectiva referencial que não negligencie o papel da 
mulher na construção da sociedade e da vida comunal. É por isso que as mulheres curdas 
sublinham a origem comum das palavras, Jîn (mulher) e Jîyan (vida); Jineoloji não é apenas 
uma busca pela verdade das mulheres mas também pela vida. Por outro lado, Jineoloji deve 
ser interpretada como uma parte da luta de libertação curda, a sua contínua busca 
intelectual, ideológica-política, autodefesa e mobilização, que desafia a colonização da 
sociedade. A luta de várias décadas do movimento curdo colocou, desde os anos 90, a 
libertação da mulher como seu epicentro com o lema "Libertação das mulheres é a libertação 
da sociedade". Este esforço fez ecoar uma transformação interna na luta organizada pelo 
PKK e também de outras organizações. Desde 1987 em diante, as mulheres começaram as suas 
próprias organizações autônomas dentro de várias estruturas: 1993 - formação do exército 
das mulheres; 1996 - criação de teoria e prática para a emancipação do sistema patriarcal; 
depois de 1998 - ideologia de libertação da mulher; 1999 - formação de um partido de 
mulheres; desde 2000 - construção de um sistema democrático social enquadrado no paradigma 
democrático, ecológico e de igualdade de gênero.

Estas estruturas permitiram que tomassem parte na política, nas organizações sociais e 
militares da luta de libertação em pé de igualdade com os homens. Estas organizações 
autônomas também significaram o desafiar da dicotomia de gênero que o nacionalismo criou, 
ao definir o Estado e o exército como instituições masculinas que têm a função de 
proteger, deixando as mulheres como as protegidas. Com estas organizações, é dado um 
significado à luta de libertação das mulheres, assim como de todas as pessoas. A 
participação das mulheres na luta anticolonial ofereceu uma forma de desafiar a definição 
colonial da mulher enquanto oprimida e tornou claro que as mulheres não estão dispostas a 
esperar até a libertação nacional/socialista para tratar da sua própria libertação. Antes 
deste momento, a sua luta de libertação era vista pelos "seus" partidos e organizações 
como parte de uma "luta" maior contra o capital. Com a criação dos seus próprios espaços, 
as mulheres também confrontaram a dominação masculina, patriarcal e chauvinista da arena 
sociopolítica que ofuscou as experiências das mulheres, forçando-as a tomar uma atitude 
masculina de forma a ter uma voz em todos os aspectos da sociedade.

Jineoloji, que faz parte da longa história do movimento de libertação das mulheres, é 
portanto a expressão do desejo de restaurar a ligação entre a produção de conhecimento e 
ciência a partir da sociedade, e especialmente pelas mulheres, através da sugestão de 
métodos de análise das mulheres que se debrucem sobre as realidades sociais baseadas na 
mente, inteligência e emoções femininas. É também parte de uma busca pela verdade e de uma 
grande transformação social que encontra o seu significado na sociologia da liberdade - a 
libertação das mulheres, homens e da sociedade. Como uma mulher afirma "Isto é uma tarefa 
de todos os movimentos anti-coloniais, anti-capitalistas, anti-poder,[de todos 
os]indivíduos e mulheres. Referimo-nos a estas ciências sociais alternativas como a 
sociologia da liberdade."

Jineoloji é a afirmação da ideia de que aquelas e aqueles que não conseguem pensar por si 
próprias/os, que não conseguem pensar segundo as suas próprias perspectivas derivadas das 
suas experiências pessoais, não se conseguem governar. Consequentemente, não podem ser 
livres. Este é o ponto de partida da Jineoloji. É também um passo para alterar paradigmas 
socialistas que desejam liberdade, uma vida igual e justa mas que, no entanto, não foram 
capazes de resolver as suas contradições internas, deixando de lado a opressão das mulheres.

Apesar de vários estudos feministas já terem formulado contribuições substanciais e 
teorias a denunciar o sexismo societal de diferentes perspetivas, que também alimentam e 
fortalecem a Jineoloji, esta nova perspetiva marca uma distinção entre as duas abordagens.

Neste sentido, Jineoloji é o resultado de experiências contínuas e esforços de movimentos 
feministas mas, no entanto, não se abstém de levantar uma crítica ao feminismo pelo motivo 
de ter sido incapaz de ultrapassar as perspectivas liberais e reformistas que ajudaram a 
aliviar as contradições do sistema dominante e que dependem das estruturas do Estado em 
vez de se tornarem um motor de transformação social e de organizações sociopolíticas 
autônomas de mulheres. Deste modo, Jineoloji reivindica um destaque das experiências 
comunais das mulheres e leva em frente respostas coletivas e práticas relacionadas com os 
seus problemas de forma a ser possível construir uma sociedade nova e diferente, para lá 
dos limites daquela em que vivemos hoje. E verdadeiramente cumprem a sua palavra. Hoje em 
dia, principalmente em Rojava mas também em Bakur (numa fase mais inicial), a Jineoloji e 
a luta de libertação das mulheres nasce para a vida nas assembleias autônomas de mulheres 
que tomam as suas próprias decisões acerca dos assuntos que lhes dizem respeito e que não 
estão abertos a negociação com os homens. Existe também a regra da copresidência - há 
sempre uma mulher e um homem na representação de qualquer organização e um mínimo de 40% 
de cota nos organismos de decisão que garantam a presença das mulheres nestes processos.

As mulheres também conseguiram proibir a poligamia, casamentos forçados e continuam a 
formar as suas próprias estruturas, desde cuidados de saúde até à educação, legislação, 
justiça e economia. A Mala Jîn (literalmente "casa das mulheres"), funciona como uma casa 
popular de justiça que trata de um vasto número de assuntos relacionados com a condição 
das mulheres e decide sobre retaliações a levar a cabo ou serve de mediadora entre as duas 
partes em conflito.

As cooperativas de mulheres também florescem em várias zonas curdas, provando assim que a 
luta não é apenas de libertação mental ou cultural, mas também uma luta contra a 
exploração e pela liberdade econômica das mulheres. Para além disto, as academias de 
mulheres continuam a nascer e a ser completamente geridas por mulheres, locais onde a 
comunidade decide os assuntos a serem tratados. As academias não funcionam como as 
universidades no sentido clássico do termo, onde existe uma estrutura hierárquica e uma 
separação entre o corpo docente e o corpo estudantil. Aqui criam-se espaços de 
conhecimento e troca de experiências.

Durante uma das nossas conversa com companheiras curdas, também nos contaram que pretendem 
construir vilas ecológicas para mulheres como alternativa aos tradicionais abrigos de 
mulheres. Estes são vistos pelo movimento como prisões que não têm como objetivo 
reintegrar mulheres que são vítimas do patriarcado e da violência machista, não passando 
de soluções de curto-prazo que utilizam respostas individuais para problemas sociais e 
acabam por penalizar as mulheres em detrimento dos atacantes, sem fornecerem alternativas 
que possam alterar o paradigma social. Neste sentido, a Jineoloji está também a ser 
ensinada em escolas desde o secundário e com perspectivas de ser implementada desde o 
ensino básico, tentando assim criar consciência de igualdade de gênero desde muito cedo.

Os exemplos multiplicam-se a cada dia em que as mulheres lutam pela sua própria libertação 
e criação de uma nova sociedade, onde os abismos que tinham sido criados pelo patriarcado 
e a mentalidade masculina estão a ser desmantelados pelo desejo das mulheres curdas de 
criar uma sociedade mais igualitária e justa, onde os seus esforços para construir-la não 
são esquecidos.

As Serhildans, revoltas populares contra a colonização do Curdistão, impulsionadas e 
lideradas pelas mulheres há muitos anos atrás, estão hoje a florir com o nascimento de 
novas comunas, cooperativas, casas das mulheres e com cada mulher que faz parte da luta de 
libertação. A bem conhecida expressão curda de raiva ou sofrimento - "zilgit" - hoje é um 
grito de alegria e vitalidade. As mulheres continuam a dar vida ao Curdistão, 
embelezando-o com o seu próprio toque e removendo-se a si próprias da colonização, 
opressão e exploração. Estão a libertar-se das amarras do patriarcado e da mentalidade 
dominante masculina que tentou moldar e suprimir a sua existência durante séculos.

JIN JIYAN AZADI!

Fonte:facebook.com/guilhotina.info/photos/a.440006416115840.1073741829.434894793293669/1201876139928860/?type=3


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